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Saúde 2008 | O
40º ANO DE VEJA
A cura pelas células-tronco
André Penner
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O PIONEIRO
O cirurgião Zerbini foi o responsável pelo primeiro
transplante de coração no Brasil |
Há quarenta anos, os transplantes de órgãos
eram a frente mais avançada na tentativa de curar doenças
crônicas. Hoje, a vanguarda está nas pesquisas sobre
outro tipo de transplante: o de células-tronco embrionárias
aquelas que, por serem indiferenciadas, podem transformar-se
em unidades especializadas de qualquer órgão ou tecido
do corpo humano.
Foi em maio de 1968 que o médico
paulista Euryclides de Jesus Zerbini realizou o primeiro transplante
de coração no Brasil, o quinto no mundo. Ele comandaria
mais duas cirurgias desse tipo até o ano seguinte. A façanha
de Zerbini era ainda mais digna de nota por ter sido realizada num
país considerado atrasado na área científica
e no qual, registre-se, também foram feitos, no mesmo
1968, transplantes de fígado e pâncreas. O entusiasmo
mundial em torno dos transplantes cardíacos, no entanto,
não demoraria a arrefecer, porque o índice de rejeição
ao órgão transplantado era enorme. Somente 20% dos
pacientes operados conseguiam sobreviver ao primeiro ano. Tanto
que, em outubro de 1969, VEJA publicou uma reportagem cujo título
era bastante assertivo: "Venceu a rejeição".
Nela, anunciava-se a morte, aos 49 anos, de Ugo Orlandi, o brasileiro
que, até então, havia vivido mais tempo com um coração
transplantado. Quatrocentos e nove dias depois da cirurgia, Orlandi
sucumbiu a um quadro de rejeição. "No momento,
em todo o mundo, os cirurgiões de transplantes colocaram
de lado seus bisturis, num compasso de espera", escreveu VEJA.
Diz o cardiologista Noedir Stolf, do Instituto do Coração
de São Paulo, parceiro de Zerbini nas cirurgias pioneiras:
"De fato, a década seguinte foi marcada por um desencanto
com os transplantes".
A reviravolta ocorreria nos anos
80, com a descoberta de remédios imunossupressores bem mais
eficazes. Os transplantes, então, entraram para a rotina
médica e milhares de vidas vêm sendo salvas. Para se
ter uma idéia, a taxa de sobrevida dos doentes cardíacos
depois de um ano da cirurgia chega a 80% nos dias que correm. Os
avanços no campo da farmacologia resultaram no aumento não
só do número de transplantes como também dos
órgãos passíveis de troca. Atualmente, é
possível substituir rim, coração, pulmão,
fígado, pâncreas, intestino, córnea, medula
óssea, pele, valva cardíaca, ossos e esclera ocular.
Em 2007, foram realizados no Brasil 18 621 transplantes
um crescimento de 44% em relação a 2001. Esses números
só não são maiores porque o sistema de captação
e distribuição de órgãos é falho
no país e muitos órgãos acabam desperdiçados.
Mesmo com imunossupressores mais
eficazes, está-se longe do ideal. Tais remédios devem
ser tomados por toda a vida e oferecem reações adversas
severas. Se as células-tronco embrionárias se provarem
capazes de gerar e regenerar órgãos e tecidos humanos
com segurança, o capítulo dos transplantes tradicionais
poderá ser encerrado na história da medicina. Além
das embrionárias, existem as células-tronco adultas,
retiradas principalmente da medula óssea. As embrionárias
são bem mais versáteis e têm a capacidade de
se transformar em qualquer um dos 216 tipos de célula do
organismo. Os estudos começaram nos anos 90. Mas foi apenas
em 2008 que um grupo de pesquisadores americanos, canadenses e ingleses
conseguiu controlar o processo de diferenciação. Eles
converteram células-tronco embrionárias em três
tipos de célula cardíaca, fundamentais para a formação
e para o funcionamento do coração. Até então,
não se tinha domínio sobre os comandos que determinam
se uma célula embrionária será uma célula
cardíaca, neural, óssea, hepática, renal ou
sanguínea. Identificar esses mecanismos é avançar
rumo aos órgãos e tecidos criados em laboratório.
Chegaria ao fim o problema da rejeição, uma vez que
eles serão programados com a mesma genética do paciente.
O que disse VEJA em 2008 "O
uso de células embrionárias é, no atual estágio
da ciência, a mais tangível promessa de cura de doenças
sérias e incapacitantes. Quanto mais cedo as pesquisas começarem,
mais rapidamente os resultados serão atingidos."
PERSPECTIVA Nos próximos
anos, começarão a ser divulgados os principais resultados
dos testes clínicos com as células-tronco adultas.
Entre eles, o alcance e a eficácia da terapia com células
da medula óssea em pacientes cardía-cos. Com relação
às células-tronco embrionárias, os cientistas
acreditam que dentro de dois anos poderão ser feitos os primeiros
estudos em seres humanos. Inicialmente, as pesquisas clínicas
deverão testar a segurança do método
um dos principais riscos da utilização das células
embrionárias é o desenvolvimento de tumores, fato
verificado em testes com camundongos. Essa fase poderá durar
quatro anos. A aposta dos cientistas é que em duas décadas
a utilização de células-tronco substitua os
transplantes, com a regeneração de tecidos e órgãos
do corpo.

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