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Edward
Osborne Wilson
O maior patrimônio
vivo do planeta
"A diversidade biológica
brasileira integra o patrimônio
natural do país e, por ser maior que a de qualquer
outra nação, deve ser cuidadosamente protegida"
Araquem Alcantara
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OURO VERDE
Preservar a Amazônia pode ser um excelente negócio
também do ponto de vista econômico |
O Brasil encontra-se diante do
dilema de ter de escolher entre cuidar da preservação
ambiental e estimular o desenvolvimento econômico. Essa é
uma dúvida que aflige todo o planeta, inclusive os Estados
Unidos, mas tem desdobramentos especialmente importantes nos países
em desenvolvimento que se localizam nas zonas tropicais. Nessas
áreas está concentrada a maior parte da diversidade
biológica do planeta, mas os recursos necessários
para protegê-la são muito escassos. Nesse sentido,
o Brasil, com suas dimensões continentais e vastíssima
riqueza biológica, deve ser visto como um dos países
mais importantes do mundo.
O território brasileiro
abriga a maior variedade de habitats e o maior número de
espécies animais e vegetais do globo. Na bacia do Amazonas
está a mais extensa e intocada das três florestas tropicais
remanescentes (as outras duas pertencem ao Congo e à Nova
Guiné). A Mata Atlântica, embora esteja fragmentada
e mantenha 7% de sua cobertura original, ainda é uma das
grandes reservas globais de biodiversidade. Ela foi designada por
organizações ambientais como uma das áreas
mais ameaçadas entre dezenas de outras em situação
semelhante e tidas como fundamentais aqueles ambientes naturais
que abrigam o maior número de espécies ameaçadas
de plantas e animais e que estão sob risco de degradação
ainda mais intensa, ou mesmo de aniquilamento. Isso vale também
para o cerrado, a vasta e biologicamente riquíssima savana
tropical.
A diversidade biológica
brasileira integra o patrimônio natural do país e,
por ser maior que a de qualquer outra nação, deve
ser cuidadosamente protegida. O Brasil, claro, colheria os benefícios
desse gesto, mas o restante da humanidade também o faria.
Quando se contabilizam os pequenos animais, fungos e microrganismos,
constata-se que apenas uma pequena minoria provavelmente
menos de 10% já foi descoberta pelos estudiosos e
descrita com um nome científico. Desses, apenas uma fração
foi estudada o suficiente para que se conheçam em profundidade
todas as suas características e propriedades biológicas.
Há uma necessidade urgente
de manter a Amazônia tão intacta quanto possível.
Sua vastidão talvez pareça sem limites e indestrutível.
Representa, afinal de contas, dois terços do tamanho dos
Estados Unidos. Mas a imensa floresta está sendo erodida,
num ritmo acelerado. Suas fronteiras diminuem especialmente por
causa da expansão agrícola, a partir do sul, e da
infiltração de assentamentos na mata virgem, a partir
das margens de novas estradas. Não cabe a mim defender posições
políticas, mas parece lógico que, se um plano nacional
de longo prazo fosse estabelecido, em colaboração
com governos estaduais, a Amazônia poderia ser salva em sua
maior parte. Mais que isso, tal objetivo pode ser alcançado
ao mesmo tempo em que se melhora a qualidade de vida de milhões
de pessoas que habitam a bacia do Amazonas. Estudos demonstram que
renda adequada para essas populações pode ser obtida
pela coleta, sem grande impacto no ambiente, de produtos com finalidade
medicinal, combinada à derrubada e ao replantio de várias
espécies de árvore com alto valor econômico.
A produtividade agrícola
também pode ser muito aumentada pela utilização
das terras férteis disponíveis, no lugar dos solos
frágeis e pobres em nutrientes que resultam do desmatamento
e da queimada. O ecoturismo pode desempenhar um papel muito mais
relevante do que acontece hoje. Ampliar o estudo da biodiversidade
brasileira certamente trará riqueza econômica, na forma
de novos medicamentos, fontes de biocombustível e sementes
geneticamente aperfeiçoadas que permitam melhorar a produtividade
das lavouras. O resultado dessas inovações será
o crescimento econômico. Se seus frutos forem distribuídos
com sabedoria, também poderá haver a redução
da pobreza.
O aprofundamento das pesquisas
vai produzir ainda o conhecimento necessário para preservar
as regiões agrestes remanescentes. Para ilustrar essa perspectiva,
pode-se tomar como exemplo um dos vegetais candidatos a se tornar
fonte de biocombustíveis no futuro: a palma. Estudos realizados
na Indonésia (outro país que tem enorme potencial
biológico) mostram que, além de ser uma fonte de energia
de alta qualidade, a palma pode ser cultivada em florestas tropicais
sem causar alterações significativas no ecossistema.
A planta pode, inclusive, ajudar a recuperar áreas desmatadas.
A preservação dos
habitats presentes nas zonas tropicais e das espécies animais
que vivem neles é importante também para estabilizar
o seu entorno. A conservação dessas áreas ajuda
a manter os cursos dágua e a purificá-los, restaura
o solo e diminui o impacto das mudanças climáticas.
No entanto, além das preocupações econômicas
e ambientais e da necessidade de investir em desenvolvimento sustentável,
há uma razão espiritual para a defesa da natureza.
Os brasileiros foram abençoados com o maior patrimônio
vivo do planeta. É claro que a população do
país vai se esforçar para salvar essa maravilhosa
herança.
Edward O. Wilson,
americano, é biólogo da Universidade Harvard. Uma
das maiores autoridades
mundiais em biodiversidade, escreveu os livros Sociobiologia
e Diversidade da Vida
O
mundo de hoje
Brasil
Ensaio
José Murilo de Carvalho
Internacional
Ensaio
Robert Kagan
Cultura
Ensaio
Eduardo Giannetti
Comportamento
Planeta
Ensaio
Edward Wilson
Saúde
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