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Robert Kagan
Uma liga em defesa
da democracia

"O mundo do futuro talvez venha a se parecer mais
com o do século XIX, com interesses nacionais
antagônicos, alianças e contra-alianças,
coreografias elaboradas e parcerias cambiantes"


Frederic J. Brown/AFP
DIVERGÊNCIA ZERO
Na China, mesmo com crescimento econômico, falta abertura política

As próximas décadas serão dominadas pela competição entre potências. A breve era pós-Guerra Fria, durante a qual a geopolítica parecia haver cedido lugar à geoeconomia, passou. A expansão econômica e a globalização não curam a competição. Elas a alimentam. O crescimento miraculoso da China, a explosão econômica da Índia, a grande riqueza em petróleo da Rússia tiveram o efeito de expandir a ambição desses países, fortalecendo sua noção de que eles têm direito a um lugar privilegiado na arena global e estimulando um nacionalismo em moldes tradicionais, que vai repercutir de maneiras igualmente tradicionais.

Longe de se terem enfraquecido com a globalização, o nacionalismo e o próprio sentido de nação voltam com força redobrada. O nacionalismo étnico continua a efervescer nos Bálcãs e nas antigas repúblicas da União Soviética. Mas o que é mais relevante é o retorno do nacionalismo associado ao superpoder. Este é um mundo de "uma superpotência, os Estados Unidos, e muitas grandes potências", como definem os estrategistas chineses. O mundo do futuro talvez venha a se parecer mais com o do século XIX, com interesses nacionais antagônicos, alianças e contra-alianças, coreografias elaboradas e parcerias cambiantes, do que com "a nova ordem mundial" com que tantos sonhavam. Fissuras geopolíticas vão se formar nos pontos em que as ambições das grandes potências colidem e se sobrepõem – especialmente na Europa e na Ásia.

O Brasil deverá desempenhar um papel proeminente nesse mundo novo. Isso porque a economia brasileira também atravessa um período de expansão, crescendo a taxas superiores a 5% ao ano. A isso se associa a descoberta de novas reservas petrolíferas, que garantirão ao país a auto-suficiência de energia e uma crescente capacidade de exportação num momento de altas sem precedentes nesse mercado. No mundo tal como é hoje, esse poderio energético e econômico se traduz em poderio político. Chegará o dia em que o Brasil se juntará ao G-8 e ganhará um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O petróleo trará o poder.

Poder para quê, porém? O Brasil não será apenas uma grande potência. Será uma grande potência democrática. Isso é muito relevante em um mundo que testemunha, paralelamente ao crescimento das democracias, a ascensão de potências autocráticas. Contrariamente às expectativas, o acúmulo de riqueza nacional e a autocracia provaram ser, afinal, compatíveis. Autocratas aprendem e se adaptam. As autocracias da Rússia e da China acharam um caminho para permitir a livre atividade econômica ao mesmo tempo que suprimem a atividade política. Elas observaram que as pessoas que estão enriquecendo deixam o nariz fora da política, especialmente quando sabem que alguém pode cortá-lo. A longo prazo, a prosperidade crescente pode muito bem produzir liberalismo político – mas quão longo é esse prazo?

As autocracias estão se reconstruindo, o que trará impactos ao mundo todo. Mudanças na feição ideológica das potências mundiais mais influentes sempre produziram efeitos sobre as nações menores. O fascismo esteve em voga na América Latina dos anos 30 e 40 em parte porque parecia bem-sucedido na Itália, na Alemanha e na Espanha. O comunismo se espalhou pelo Terceiro Mundo nos anos 60 e 70 não tanto porque a União Soviética tivesse trabalhado para disseminá-lo, mas porque as oposições aos governos lutavam suas rebeliões sob a bandeira do marxismo-leninismo para obter auxílio de Moscou. Quando o comunismo morreu, as rebeliões comunistas ao redor do mundo se tornaram esparsas e infreqüentes. E, se o poder crescente das democracias mundiais na etapa final da Guerra Fria, culminando em sua vitória quase completa após 1989, contribuiu para a onda de democratização dos anos 80 e 90, é lógico esperar que a ascensão de duas autocracias poderosas altere novamente esse equilíbrio.

A China e, em menor medida, a Rússia oferecem um modelo de autocracia bem-sucedido, capaz de produzir riqueza e estabilidade sem abertura política. Não se trata de um fato inédito, é claro. Hugo Chávez não precisou que a China indicasse a ele as possibilidades da autocracia bem-sucedida. Na década de 70, regimes autocráticos como o Chile de Pinochet, o Irã do xá Reza Pahlevi e a Indonésia de Suharto também demonstraram que o sucesso econômico pode prescindir da liberdade política. No decorrer das décadas de 80 e 90, o modelo autocrático se tornou menos atraente à medida que ditaduras de direita ou de esquerda desmoronavam diante da maré liberal. Essa maré ainda não começou a correr na direção contrária, mas o futuro pode trazer um retorno à competição global, com grandes potências alinhadas em grupos opostos, de acordo com seu sistema de governo.

As democracias mundiais precisam começar a pensar em proteger seus interesses e fazer avançar seus princípios em um mundo desafiador. Uma pequena mostra dos problemas que serão enfrentados no futuro foi oferecida recentemente pelo homem que restabeleceu um vir-tual regime czarista na Rússia. O ataque ordenado em agosto por Vladimir Putin contra o território soberano da Geórgia marcou o retorno oficial da História, e nos termos de uma competição entre superpotências digna do século XIX, com o pacote completo, que inclui nacionalismos virulentos, batalhas por recursos, disputas por esferas de influência e território, e até mesmo – apesar de chocante para nossa sensibilidade do século XXI – o uso de poderio militar para concretizar objetivos geopolíticos.

A estratégia das nações democráticas neste novo cenário terá de incluir o estabelecimento de novos meios para avaliar e conferir legitimidade às ações de outras nações. O Conselho de Segurança da ONU talvez se revele inadequado a esse propósito, uma vez que pode vir a ser paralisado por divisões entre seus membros democráticos e autocráticos. Entretanto, o mundo democrático e liberal sempre necessitará de mecanismos para conciliar diferenças e construir consensos.

Uma possibilidade seria estabelecer a Liga das Democracias – talvez de maneira informal, a princípio –, com o intuito de instituir encontros e consultas regulares entre as nações democráticas sobre questões correntes. Uma organização como essa poderia unir nações asiáticas e da orla do Pacífico, como Índia, Japão e Austrália, aos Estados Unidos e às nações européias filiadas à Organização do Tratado do Atlântico Norte, juntamente com outras democracias, como o Brasil. Uma organização como essa não substituiria, mas complementaria a ONU e sinalizaria um compromisso com o ideal democrático. A ordem internacional futura será definida por aqueles que dispõem do poderio político e da vontade necessários para moldá-la. Resta saber se as democracias liberais se mostrarão à altura de vencer mais esse desafio.

Robert Kagan, americano, é cientista político. Ex-funcionário do Departamento de Estado,
é associado do Carnegie Endowment for International Peace e autor de Do Paraíso e do Poder

 

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