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Internacional 2008 | O 40º ANO DE VEJA
À sombra de 11 de setembro de 2001

Steve Ludlum/The New York Times
OS PÁSSAROS DO TERRORISMO
Explosão causada pelo impacto do segundo Boeing contra o World Trade Center: depois do ataque a Nova York, a história voltou a descarrilar


Quinze minutos separaram as colisões dos dois aviões contra as torres gêmeas, em Nova York, em 11 de setembro de 2001. Nesse breve lapso de tempo, a história voltou a descarrilar. Pela primeira vez, os Estados Unidos da América, a nação mais poderosa que a humanidade já conheceu, foram atacados em seu território continental. O ataque foi devastador: deitou por terra um dos símbolos do capitalismo americano e matou quase 3 000 civis. O ataque foi também desnorteante: aeronaves comerciais seqüestradas e usadas como mísseis por terroristas islâmicos – uma terceira ainda atingiu o Pentágono, em Washington, fato ofuscado pela escala grandiosa do atentado em Nova York.

Passados sete anos, ainda vivemos sob a sombra daquele dia. Quais eram os problemas que se impunham à ordem mundial antes dos atentados terroristas de 2001? Bastante prosaicos, se comparados com as preocupações atuais. A globalização avançava a passos largos e demandava respostas a questões como o protecionismo, o surgimento do colosso chinês e o combate à pobreza. O temor da imigração nos países ricos restringia-se a fatores econômicos e os desentendimentos entre israelenses e palestinos seguiam sua marcha crônica. Nada disso sumiu da agenda internacional, mas os ataques de 11 de setembro de 2001 deixaram o cenário bem mais complicado. O terrorismo islâmico, a face mais terrível do fundamentalismo, passou a ser uma preocupação planetária. Nos últimos sete anos, houve atentados com mortes na Espanha, Inglaterra, Turquia e Indonésia, para citar apenas alguns países. Por motivos de segurança, viajar de avião tornou-se uma experiência semelhante a visitar alguém na prisão. Na Europa, descobriu-se que não bastava vigiar as fronteiras, porque o terror islâmico é semeado entre cidadãos europeus de etnias oriundas do Oriente Médio e fé muçulmana. Um dos resultados mais visíveis desse fenômeno foi o aumento da xenofobia na União Européia. Exacerbaram-se, ainda, os grupos radicais árabes que pregam a destruição de Israel.

Os Estados Unidos reagiram à nova ameaça, atropelando a sutileza. A única superpotência remanescente da Guerra Fria assumiu-se como império. Dessa posição, permitiu-se atacar outros países preventivamente e sem a necessidade de aprovação da Organização das Nações Unidas. Hoje, os Estados Unidos ocupam o Afeganistão, antiga base da Al Qaeda, a organização comandada por Osama bin Laden que perpetrou os atentados em Nova York e Washington, e o Iraque, onde os americanos tentam instalar uma democracia nos moldes ocidentais, depois de terem derrubado a ditadura de Saddam Hussein, acusada de fomentar o terrorismo. Não há data prevista para que ambas as ocupações cheguem ao fim.

O que disse VEJA em 2001 "O fundamentalismo islâmico do século XX, e que adentra o XXI, é uma mentalidade que, do ponto de vista econômico e social, se originou da oposição cega a avanços de qualquer tipo. Alimenta-se da pobreza e, por isso mesmo, não pode ser apartado dela, sob pena de desaparecer como uma miragem. (...) O humorista Millôr Fernandes é autor de uma máxima preciosa: ‘Xadrez é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez’. Parafraseando Millôr, o fundamentalismo é um jogo árabe que aumenta a capacidade de ser fundamentalista. Ele não encerra projeto que vise, pelo menos em tese, ao desenvolvimento de um povo. No máximo, oferece migalhas assistencialistas – um modo eficiente, aliás, de arregimentar os jovens sem futuro que perambulam nas superpovoadas e caóticas metrópoles do Oriente Médio."

PERSPECTIVA As estratégias americanas não tornaram o mundo mais seguro e os atentados cometidos por terroristas islâmicos devem continuar a ser uma ameaça na próxima década, a julgar pela tenacidade dos delinqüentes e pela dificuldade em combatê-los. As previsões mais pessimistas de um choque mais amplo entre Ocidente e Islã são igualmente improváveis – ao menos enquanto o modo de vida ocidental exercer mais fascínio do que ódio no mundo islâmico.

 

A herança de George W. Bush

Chris Carlson/AP
UMA ESCOLHA HISTÓRICA
Obama, candidato democrata, e sua mulher, Michelle: aura de tolerância


Quando foi eleito, em 2000, o presidente americano George W. Bush era uma pálida figura política, cuja principal credencial era ser filho de um ex-presidente. Os atentados de 2001 deram-lhe a oportunidade de tornar-se um grande estadista – e ele a desperdiçou. O ano de 2008 marca o fim melancólico do segundo mandato de Bush e a ascensão do surpreendente Barack Obama. Independentemente de alcançar ou não a vitória nas eleições presidenciais de novembro, ele já é um fenômeno político que ficará para a história: o primeiro negro a disputar a Casa Branca por um dos dois grandes partidos americanos. Obama parece ser o oposto de Bush – e aí está, justamente, sua maior força eleitoral. O discurso do democrata é de conciliação e sua mensagem política, de tolerância. Bem ao gosto dos eleitores, que se cansaram da polarização política e da arrogância nas relações exteriores que marcaram a administração Bush. "Este é o momento de renovar a confiança em todos os americanos", diz o democrata. O legado que Bush deixa para seu sucessor, seja Obama, seja o republicano John McCain, é desanimador. A maior encrenca é o Iraque. O plano de invadir o país e derrubar Saddam Hussein foi feito com base na alegação (falsa) de que o ditador tinha um arsenal de armas de destruição em massa. A ocupação foi mal planejada. Entre 2003 e 2008, morreram mais de 4 000 soldados americanos na Guerra do Iraque, 97% deles após a derrocada de Saddam Hussein, e 90 000 civis, a maioria em atentados terroristas. Como efeito colateral, o fim da ditadura sunita no Iraque deu espaço à ascensão dos fundamentalistas xiitas – em geral alinhados com a teocracia do Irã, inimiga dos Estados Unidos.


Charles Dharapak/AP
DE PEITO ABERTO
Bush em uma formatura de cadetes, em maio: ele prometeu aos iraquianos democracia, não homens-bomba

O que disse VEJA em 2008 "A vitória de Obama (nas primárias democratas), por tudo isso, tem a moldura dos feitos que abrem uma nova era. (...) Depois de quase oito anos da política arrogante do presidente George W. Bush, que fez uma guerra sozinho e virou as costas para os dilemas ambientais do mundo, a escolha de um negro, e um negro que passou parte da infância num país islâmico, soa como uma mensagem de tolerância."

PERSPECTIVA Desde 2007, a violência no Iraque diminuiu, graças ao aumento na quantidade de tropas americanas no país. Esse é o argumento do candidato republicano John McCain para defender a continuidade da ocupação. Obama, que havia prometido retirar os soldados num prazo máximo de dezesseis meses, deu sinal de que mudou de idéia. O plano de sair do Iraque agrada a muitos americanos, mas sua viabilidade – e eficácia – é discutível. Será possível para os Estados Unidos retirar-se do país a curto prazo sem jogá-lo no caos absoluto? Para agravar a situação, o Irã – que se fortaleceu na região com a queda de Saddam – está perto de ser atacado por Israel e Estados Unidos se insistir no projeto de ter sua própria bomba atômica.

 


Terry Fincher/Hultonarchive/Gety Images, Ed Darack/Gety Images

 

China, mais rica e mais forte

Axel Schmidt/AFP

EXPLOSÃO DE CRESCIMENTO
A abertura da Olimpíada de Pequim confirmou ao mundo: a China é mesmo uma potência

O sucesso da Olimpíada de Pequim é o marco simbólico da nova China. Depois do que se viu nos Jogos de 2008 – a organização impecável, a exuberante festa de abertura, a riqueza arquitetônica dos estádios –, ninguém mais duvida de que o país conquistou seu espaço entre as grandes potências mundiais. A nação que sediou o maior evento esportivo do planeta não lembra em nada a China de 1968. O contraste entre as duas realidades, separadas por apenas quarenta anos, fica evidente quando se compara a vida dos jovens chineses naquele tempo e hoje. Um rapaz ou uma moça típicos de 1968 não estudava, porque as instituições de ensino superior haviam sido fechadas pelo líder comunista Mao Tsé-tung. Era integrante das Guardas Vermelhas maoístas e havia passado os meses anteriores participando como claque de expurgos de intelectuais, professores universitários, membros do Partido Comunista e dirigentes de estatais. Além disso, preparava-se para trabalhar numa colônia rural, a fim de "purificar-se" ideologicamente por meio do contato diário com camponeses. Em suma, o jovem de 1968 vivia o fim do período mais radical da Revolução Cultural, iniciada por Mao em 1966, para exterminar o que o Grande Timoneiro considerava ser uma classe de políticos e intelectuais corrompida por valores ocidentais e, portanto, fora dos trilhos do socialismo. A Revolução Cultural só terminou de fato em 1976, mas os dois primeiros anos foram os mais anárquicos. Resultaram numa queda de 12% na produção industrial e em grave escassez de alimentos. Entre os motivos que levaram Mao a amainar a fúria da Revolução Cultural estava o medo de que a União Soviética se aproveitasse da situação instável da China e a invadisse. Os dois gigantes comunistas estavam com as relações rompidas e, em 1969, chegaram a ocorrer alguns combates na fronteira ao longo do Rio Ussuri, na ocasião uma região de litígio.

O jovem chinês de 2008 vive em outro país – um país em que a Revolução Cultural é um assunto tabu. Ele usufrui de uma economia aberta e que mantém, desde o fim da década de 90, o título de segundo maior receptor de investimentos externos do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Só em 2007, foram 83 bilhões de dólares. A universidade não é centro de doutrinação marxista, mas trampolim para uma profissão bem remunerada. Além disso, ele tem acesso aos bens de consumo – em especial, produtos eletrônicos – que fazem a alegria da juventude ocidental.

Essa transformação só foi possível após a morte de Mao Tsé-tung, em 1976, quando um dos políticos expurgados durante a Revolução Cultural, Deng Xiaoping, foi reabilitado e liderou a abertura da China para uma economia de mercado. Para justificar a mudança de rumo, o Partido Comunista Chinês fechou a questão em três pontos:

a) Mao tirou a China da escuridão. Não fosse ele, o país ainda seria uma espécie de colônia do Ocidente.

b) Mao era um grande homem.

c) Mao, no entanto, não era um deus.

Ao reconhecer a falibilidade de Mao, o país abriu as portas para um futuro de riqueza. Um aspecto continua presente: a repressão política. Enquanto o Partido Comunista for uma máquina de cooptação social, esse quadro não mudará.

O que disse VEJA em 2008 "Em menos de 100 anos, a China deixou de ser uma sociedade arcaica para se transformar numa potência global. Enfrentou guerras, invasões estrangeiras, fomes co-letivas e quatro revoluções: duas verdadeiras (a republicana e a comunista), uma inventada (a Cultural) e a mais recente, ainda em curso (a econômica)."

PERSPECTIVA O avanço das últimas décadas elevou as expectativas em relação ao futuro do país. Diz-se que o século XXI será da China, da mesma forma que o século XX foi dos Estados Unidos. Se a tendência de crescimento se mantiver, em uma década os chineses terão a segunda maior economia do mundo. O país asiático também está próximo de se tornar o maior exportador de mercadorias. Daí a ameaçar a hegemonia dos Estados Unidos, no entanto, há um longo caminho: o PIB chinês representa apenas um quarto do americano. Em termos militares, a diferença é ainda maior. Os gastos com defesa dos Estados Unidos são dez vezes maiores do que os da China. No plano cultural, a superioridade continuará americana, visto que a língua, o alfabeto e os costumes chineses não são capazes de se tornar universais – aliás, a China é que está ficando parecida com os Estados Unidos. O mais provável é que ambos os países se tornem sócios indissociáveis. Para falar a verdade, já o são.

 

 

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