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José
Murilo de Carvalho
Aos trancos e barrancos
"O pouco de democracia que conquistamos
terá de servir como método de navegação
para os
novos tempos. O combate à violência, à corrupção
e à degradação da representação
política exige profundas
reformas na lei, nas instituições e nas mentalidades"
O Brasil é um país sem revolução.
Não houve revolução na Independência.
Boa parte da elite que comandou o processo a partir do Rio de Janeiro
tinha sido educada em Coimbra e quase toda a alta burocracia era
luso-brasileira. Não houve, naquela conjuntura, alteração
na sociedade. Manteve-se a escravidão e até mesmo
aumentou o tráfico de africanos. As revoltas do Primeiro
Reinado e, sobretudo, da Regência eram provinciais e foram
sufocadas com relativa facilidade, à exceção
da Farroupilha, que durou dez anos. Não houve revolução
na abolição da escravidão, votada pelo Congresso
quando já era reduzido o número de escravos. Não
houve revolução na proclamação da República.
Antes, como observou Sérgio Buarque de Holanda, o que se
deu foi a implantação do império dos fazendeiros.
Não houve revolução em 1930, apenas uma troca
de guarda. Em 1964, o movimento que se auto-intitulou revolução
foi o oposto do proclamado.
O Brasil é um país de drásticas
e cada vez mais rápidas mudanças, sobretudo a partir
da segunda década do século XX. Mudanças demográficas.
Os 30 milhões de habitantes de 1920 dobraram em 1960 e chegaram
a 170 milhões em 2000 e a 187 milhões hoje, um crescimento
de mais de 500%. A mobilidade geográfica foi profunda. Em
1920, 80% da população morava no campo; em 1960, 55%;
em 2000, apenas 19%. O Sudeste era 90% urbano nesse último
ano. Uma virada completa. E mudanças na ocupação.
De um país agrícola em 1920, tornou-se uma economia
de indústria e serviços. O que restou da agricultura
rapidamente se transforma em moderno agronegócio.
Mesmo na educação, em que sempre
fomos lentos, chegamos ao fim do século XX com 16% de analfabetos,
quando a porcentagem era de 75% em 1920. A inclusão social
fez progressos a partir de Vargas. A cobertura previdenciária
hoje atinge quase todas as categorias sociais. A esperança
de vida passou de 43 anos em 1950 para 68 em 2000. Na última
década, a telefonia celular e a internet têm incorporado
rapidamente milhões de brasileiros ao mundo da mídia
eletrônica. Mudança radical também se deu na
incorporação do povo na política. Até
1945, votavam 5% da população; em 1960, votaram 22%;
em 2002, 66%. Hoje quase 70% dos brasileiros estão alistados.
A República, afinal, ganhou o povo que lhe faltava.
Claudio Versiani
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A CARA DO BRASIL
Parlamentares festejam a Constituição
de 1988: um país onde as mudanças, muitas vezes, criaram problemas
mais sérios do que aqueles que resolveram |
Grandes mudanças sem revolução,
eis nosso predicamento, que é nosso mérito e nosso
drama. Nosso mérito, na medida em que as mudanças
se fizeram sem os imensos custos sociais que em geral as acompanham.
Nossa independência causou poucas mortes, enquanto a dos Estados
Unidos e a das colônias espanholas da América custaram
anos de luta e milhares de mortos. Nosso movimento abolicionista
quase não produziu baixas; a Guerra Civil Americana matou
600 000 pessoas. Nosso dramático processo de urbanização
das décadas de 70 e 80 foi comparado ao da União Soviética
sob Stalin, que ceifou milhões de vidas.
Nosso drama. As mudanças fizeram-se
sem alterar as bases da sociedade e criaram problemas tão
sérios quanto os que resolveram. O campo despovoou-se, mas
em pleno século XXI ainda há movimentos sociais reclamando
terra para trabalhar, e partes do norte do país vivem clima
de faroeste. O crescimento explosivo das cidades produziu imensos
bolsões de pobreza e facilitou tal expansão da violência
que inviabiliza a convivência civilizada. Os avanços
recentes não impediram que ainda haja 11 milhões de
pobres e 3 milhões de indigentes só nas regiões
metropolitanas, que mais da metade dos trabalhadores permaneça
no setor informal da economia, que apenas 25% da mão-de-obra
seja sindicalizada. A massiva e rápida democratização
do voto, boa parte dela feita durante a ditadura, não levou
à criação nem de um eleitorado reivindicante,
nem de uma classe política competente e responsável.
Várias práticas corruptas minam o corpo político
como um câncer. As instituições, sobretudo as
representativas, perderam a credibilidade que um dia tiveram. Como
coroamento dos males, as grandes mudanças não eliminaram,
antes agravaram, nossa dificuldade de viver sob o governo da lei,
uma condição indispensável a qualquer República
que mereça o nome.
Não tivemos uma revolução
capitalista que nos levasse a uma República democrática
pela redução da desigualdade dentro da liberdade,
graças ao dinamismo do mercado. O crescimento econômico
não eliminou desigualdades e a liberdade por duas vezes foi
suprimida. Nossos empresários fogem da competição
e do risco e não dispensam a proteção do estado.
Nossos operários ainda recorrem ao guarda-chuva corporativo
da legislação do Estado Novo, encarnado no sindicato
único e no imposto sindical. Não tivemos uma revolução
socialista que também nos transformasse em uma República
democrática, como sucedeu com países da antiga União
Soviética, que reduziram fortemente a desigualdade pela ação
autoritária do estado e depois restauraram a liberdade. Nossos
avanços sociais deram-se entre nós em períodos
ditatoriais, e os mais recentes ainda guardam fortes traços
paternalistas. Sobretudo, foram insuficientes para produzir uma
República democrática em que a liberdade fosse garantida
pela redução da desigualdade. Forjamos um híbrido
social que não peca por ser híbrido, mas por não
ser social.
Mudança aos trancos e barrancos, como
foi a nossa, não é mais um processo aceitável
para os tempos de hoje, se algum dia o foi. Os cenários externo
e interno colocaram o país, neste começo de século,
diante de horizontes nunca antes realisticamente divisados. Não
por acaso, ressurgiu, sob o impacto das descobertas de grandes reservas
de petróleo, nosso quase bissecular sonho de grandeza. Para
que o sonho não se frustre mais uma vez, a mudança
terá de ser mais consciente, mais negociada entre governo
e sociedade. O pouco de democracia que conquistamos terá
de servir como método de navegação para os
novos tempos. A desigualdade exige políticas de correção.
O combate à violência, à corrupção
e à degradação da representação
política exige profundas reformas na lei, nas instituições
e nas mentalidades. Até mesmo as grandes promessas do petróleo
poderão tornar-se maldição na ausência
de um adequado planejamento da distribuição de seus
benefícios. O potencial para a grandeza, a natureza sempre
nos deu e nos dá de novo no pré-sal. Cabe ao país
ser capaz de torná-lo real, a começar pelo respeito
à própria natureza.
José Murilo de Carvalho
é professor titular de história da Universidade Federal
do
Rio de Janeiro e doutor em ciência política pela Universidade
Stanford (Estados Unidos).
Sua obra inclui, entre outros títulos, Os Bestializados,
ensaio sobre o nascimento
da República, e a biografia D. Pedro II. É
membro da Academia Brasileira de Letras
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