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Brasil
2008
| 40º ano de VEJA
Nos braços do povo
Joedson Alves/AE
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O ILUMINADO
Lula deixou de lado o ideário
esquerdista e garantiu um lugar na galeria dos bons presidentes
do país
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Quando fundou o Partido dos Trabalhadores,
em 1980, Luiz Inácio Lula da Silva já sonhava ser
presidente da República. Nas três primeiras vezes em
que se candidatou ao cargo, fracassou. Nas campanhas, Lula arrepiava
de emoção o pessoal da esquerda, mas não conseguia
decolar porque professava um discurso carregado de idéias
antiquadas, como a suspensão do pagamento da dívida
externa e o ataque ao capital. Na virada do século, percebeu
que só conquistaria a Presidência se reciclasse esse
ideário cheirando a mofo. Passou a rezar pela cartilha liberal,
defendendo o controle da inflação, o respeito aos
contratos e a independência do Banco Central. Deu certo. Em
2002, Lula foi eleito para o Palácio do Planalto. Apesar
de seu governo ter sido manchado por graves episódios de
corrupção, a condução serena da economia,
aliada ao bom momento internacional, garantiu-lhe a reeleição
em 2006. À frente do governo, Lula sempre se comportou como
se houvesse dois presidentes: o primeiro é o dos palanques,
que passa a impressão de que governar o Brasil é tão
simples quanto administrar uma quitanda. O segundo é o dos
gabinetes, que não faz besteiras com a caneta na mão
e trata de assuntos essenciais com a seriedade que o país
merece. Esse é o Lula que entrará para a história
como um dos bons presidentes que o Brasil teve.
O que disse VEJA em 2006 "Parece
claro que Lula deixou para trás a visão tacanha de
que a miséria que afeta milhões de brasileiros possa
ser superada pelo princípio bolchevique de tirar dos ricos
e dar aos pobres o que é um jogo de soma zero. A miséria
só será superada, de fato, pela produção
de riqueza. Para esse fim o gênio humano não concebeu
nada mais eficiente do que o velho e bom capitalismo."
Perspectiva Quando 2010 terminar, Lula
não será mais presidente da República. Nem
por isso deixará de desempenhar um papel relevante no jogo
político. Desde que chegou ao Palácio do Planalto,
sua estatura só fez crescer a ponto de ter-se tornado,
ele próprio, um pólo de poder. Pode-se dizer, inclusive,
que o lulismo superou o petismo. Por esse motivo, é quase
certo que, em 2014, Lula voltará a se lançar candidato
à Presidência da República.
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O esquema que fez história
Dida Sampaio/AE
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"O NOSSO DELÚBIO"
Delúbio Soares operou o caixa
dois do mensalão. Nunca entregou os chefes, e nunca
foi abandonado por eles
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Se no campo econômico o governo
do Partido dos Trabalhadores é um sucesso, no terreno
ético é um fiasco. Nunca antes na história
deste país uma administração federal
esteve envolvida em tantos casos de corrupção,
chantagens, desvios de conduta, tráfico de influência
e trambiques em geral. O maior de todos os escândalos
foi o do mensalão o termo, inclusive, eternizou-se
no vocabulário político brasileiro, assim como
"marajá" e "maracutaia". Em 2005,
descobriu-se que o PT havia montado um gigantesco esquema
de compra de votos de deputados na Câmara Federal, para
aprovar projetos do governo. Compra mesmo, no sentido literal.
Cada deputado custava cerca de 30 000 reais ao mês.
A fatura, ou mensalão, era paga com dinheiro público,
desviado por um esquema criado por Delúbio Soares,
ex-tesoureiro do PT, e por Marcos Valério, o lobista
carequinha. Segundo o Ministério Público, o
chefe dessa quadrilha, da qual faziam parte quarenta ladrões,
era José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil. O escândalo
foi revelado em 2005 pelo ex-deputado Roberto Jefferson, também
alvejado por fazer parte do esquema. Agora, Dirceu e o resto
da quadrilha estão sendo processados no Supremo Tribunal
Federal. Se forem condenados, poderão ir juntos para
a cadeia. Seria um dia memorável para o Brasil.
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A pandemia do crime
Fotos Ernesto Carriao/AE
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UM TAPA NA CARA
Tropa de Elite,
com Wagner Moura, foi uma catarse coletiva |
Em 2007, o filme Tropa de Elite produziu
uma catarse coletiva, ao retratar a guerra cotidiana travada entre
policiais e traficantes no Rio de Janeiro. Seu grande mérito
foi mostrar, sem rodeios, como o tráfico e o consumo de drogas
extrapolaram o limite do aceitável, estabelecendo uma parceria
entre a bandidagem, a polícia corrupta e a classe média
que compra maconha e cocaína. Todas as grandes cidades brasileiras
padecem desse problema. Em São Paulo, a facção
criminosa conhecida como Primeiro Comando da Capital, ou PCC, encastelou-se
nas cadeias. Os presos mandam e desmandam no comércio de
entorpecentes, planejam assaltos e emitem sentenças de morte.
Em 2006, ondas de ataques feitos fora dos muros dos presídios
revelaram o tamanho da organização do PCC. Nos últimos
tempos, a facção enfraqueceu-se, graças ao
pulso firme do governo paulista. No Rio, a situação
continua a ser de calamidade. O tráfico de drogas exerce
domínio territorial em 300 das 752 favelas da cidade. Criminosos
com armas de uso restrito do Exército a tiracolo dominam
ruas onde o estado não existe e a polícia não
entra. O Brasil avança em muitos aspectos, mas na luta contra
o crime falha miseravelmente. A falta de segurança foi abordada
diversas vezes por VEJA ao longo destes quarenta anos. A primeira
capa sobre o tema, de um total de 31, foi publicada em 1969, antes
de a revista completar um ano. A reportagem tratava de bandidos
que começavam a se organizar em pequenos grupos, para realizar
assaltos a banco usando pistolas de cano curto. Na última
vez em que a epidemia do crime foi capa de VEJA, em 2007, a revista
desvendou as rotas do tráfico da cocaína e da maconha
vendidas no Brasil, desde os países produtores até
os centros consumidores, num negócio cujo movimento financeiro
é estimado em 6,4 bilhões de reais por ano.
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RUAS DE FOGO
Ônibus incendiado por traficantes
no Rio: a criminalidade foi tema de 31 capas de VEJA (em destaque,
capas de 1969 a primeira sobre o assunto e de
2007) |
O que disse VEJA em 2007 "A raiz
da criminalidade no Brasil é a impunidade. Ou seja,
a incapacidade endêmica do poder público de deter criminosos,
condená-los a castigos proporcionais a seus delitos e assegurar
que eles serão cumpridos em sua exata extensão, de
forma previsível."
Perspectiva Para enfrentar o crime,
o país precisa aprender a punir. No Brasil, prende-se pouco
e as penas são mal aplicadas. Assassinos confessos cumprem
apenas um terço das condenações que recebem
e voltam para as ruas. O estado não controla o interior dos
presídios, permitindo que eles se tornem escritórios
do crime. Os governantes, no entanto, só discutem medidas
para corrigir essas distorções em momentos agudos
de crise. Quando a situação se acalma, todas as propostas
voltam para dentro das gavetas. Infelizmente, a segurança
pública está longe de ser uma prioridade, apesar da
verborragia a respeito do assunto. Em junho, o Congresso aprovou
uma importante alteração penal: o fim do direito que
todo criminoso condenado a mais de vinte anos de prisão tinha
de pedir um novo julgamento. Foi uma boa medida, mas insuficiente
para desencorajar os bandidos. O futuro, na área de segurança,
permanece sombrio.

A marcha para o Oeste
Leomar Jose Mees/Novo Tempo
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RIQUEZA NO CERRADO
A soja alterou a paisagem do interior do país |
O Eldorado brasileiro mudou de
lugar. Neste início de século XXI, as boas oportunidades
não se escondem mais nas grandes cidades nem nas capitais
dos estados. A prosperidade e a riqueza, embaladas pelo sucesso
do agronegócio, espalham-se pelo interior do país
a uma velocidade inédita. O melhor exemplo dessa nova ordem
é a Região Centro-Oeste. Os três estados que
a compõem Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás
viram seu peso na economia brasileira aumentar espetacularmente.
Em 1968, o PIB da região correspondia a 4% do PIB do país.
Hoje, o Centro-Oeste já participa com 9% da riqueza nacional.
Onde o dinheiro começa a brotar do chão surgem também
levas de novos moradores. Nos últimos anos, uma onda de migrantes
chegou à região. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostragem
de Domicílios (Pnad), em 2006, o Centro-Oeste teve saldo
migratório positivo de 170 000 pessoas. No mesmo período
o estado de São Paulo teve saldo negativo de 210 000 pessoas.
Duas atividades sustentam a pujança
no campo: a primeira é o cultivo de soja, um colosso econômico.
O plantio e o beneficiamento do grão empregam 4,5 milhões
de pessoas, ou 2,5% da população brasileira. Desde
2000, a área plantada teve um acréscimo de 54%. O
faturamento com exportações disparou, impulsionado
pelo aumento da produção e pela alta dos preços
no mercado internacional. O outro pilar que suporta a economia do
Centro-Oeste é a criação de gado. O rebanho
no Brasil chegou a 207 milhões de cabeças (sim, já
há mais bois do que gente). O país responde por um
terço do total de carne exportada no planeta. Tanto em matéria
de soja quanto de gado ninguém faz sombra ao Centro-Oeste.
A região concentra a maior parte da produção
nacional e seus índices de eficiência e rentabilidade
deixam boquiabertos fazendeiros de todo o mundo. Lucrativo e bem
organizado, o agronegócio foi o maior responsável
por alterar a paisagem do interior do Brasil nas últimas
décadas. O cerrado tornou-se um lugar melhor para viver.
O que disse VEJA em 2008 "O
novo surto de riqueza passa freqüentemente ao largo das metrópoles,
que se desenvolvem lentamente ou estão estagnadas. No interior,
a situação é inversa. São fartos os
exemplos de cidades que enriqueceram e melhoraram as condições
de vida de seus habitantes em um salto."
PERSPECTIVA Enquanto a
demanda mundial por soja e carne bovina seguir aquecida e os preços
desses produtos se mantiverem em patamares altos (e nada indica
que a situação vai se alterar nos próximos
anos), a riqueza econômica continuará rumando para
o interior do Brasil, e arrastando atrás de si levas de novos
moradores. É preciso, no entanto, cuidado para garantir que
o florescimento do agronegócio fique restrito apenas ao cerrado,
sem avançar demais para o norte, sob o risco de arruinar
o delicado equilíbrio que mantém em pé a Floresta
Amazônica.

O
mundo de hoje
Brasil
Ensaio
José Murilo de Carvalho
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Robert Kagan
Cultura
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