| | Jeffrey
Sachs A importância de
manter o rumo
"O Brasil dispõe do que
é necessário para se tornar uma história global de sucesso
em termos econômicos, políticos e sociais. Se for capaz
de manter as políticas pragmáticas e o consenso social dos últimos
quinze anos, ele se catapultará ao sucesso de longo prazo"
O Brasil e o mundo vão se encaixar bem um ao outro neste século
XXI. Quero dizer, com isso, que o Brasil dispõe do necessário para
se tornar uma grande história global de sucesso em termos econômicos,
políticos e sociais. Não há garantia de êxito, claro,
mas os presságios são hoje mais auspiciosos do que em qualquer outro
momento das últimas décadas. Se o Brasil for capaz de manter as
políticas pragmáticas e o consenso social dos últimos quinze
anos por novos quinze anos, ele se catapultará ao sucesso de longo prazo. Acredito
que, no século XXI, o sucesso de qualquer sociedade dependerá de
quatro características: sua geografia e sua base de recursos; sua capacidade
de administrar mudanças complexas; seu compromisso com os direitos humanos;
e seu comprometimento com a ciência e a tecnologia. O Brasil pode vir a
exceder em todos esses quatro aspectos, desde que seja capaz de se ater ao centro
vital das políticas propostas por Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio
Lula da Silva. Consideremos primeiramente a questão
da geografia e da base de recursos. Ao contrário de muitos outros países,
o Brasil possui terra, água e fontes de energia em abundância mesmo
para sua vasta população, que se aproxima dos 200 milhões.
O Brasil pode alimentar a si mesmo, e ainda contar com um grande excedente para
a exportação. O Brasil pode atender às suas próprias
necessidades energéticas por meio de uma combinação inteligente
da energia hidrelétrica, do petróleo, do gás natural, da
energia solar (ainda praticamente inexplorada) e dos biocombustíveis. A
taxa de crescimento populacional, de cerca de 1% ao ano, é modesta, e pode
e deve ainda rumar para uma redução, de forma que a população
brasileira não deverá suplantar a capacidade geradora da base de
recursos naturais do país. E, felizmente para o Brasil, 85% dos seus cidadãos
vivem em cidades, na maioria com acesso razoável à infra-estrutura
básica, a portos e ao comércio mundial. É uma situação
muito diversa daquela de nações como a Índia e a China, onde
grande parte da população ainda vive em áreas rurais remotas,
e onde se desenha, portanto, a perspectiva de uma migração maciça
das zonas rurais para as cidades nas próximas décadas. Ivo
Gonzalez/Ag. O Globo
 | OPOSTOS
QUE SE COMPLETAM Lula recebe a faixa presidencial
de FHC: os dois redefiniram a agenda política brasileira |
Os
desafios do Brasil são mais vultosos, e o seu histórico menos seguro,
no que toca à administração, aos direitos humanos e à
ciência e tecnologia. No entanto, nos últimos vinte anos o Brasil
aprimorou seu desempenho de forma notável pode-se mesmo dizer decisiva
em todos esses aspectos. O setor privado brasileiro se encontra hoje repleto
de executivos de classe mundial, que gerenciam empresas também elas de
classe mundial. E muitas das entidades do setor público brasileiro se revelaram
organizações de primeira linha, amparadas por uma administração
sofisticada. A emergência da indústria brasileira de biocombustíveis
como uma líder global, o dinamismo da produção de soja no
cerrado, as bem-sucedidas prospecções de petróleo e gás
por parte da Petrobras e o sucesso mundial da Embraer são todos exemplos
vitoriosos de gerenciamento, abarcando tanto o setor privado como o público. O
gerenciamento ainda é falho, lamentavelmente, na administração
pública por exemplo, na gerência do orçamento nacional,
do sistema previdenciário, em partes do sistema de saúde e na governança
do próprio processo político, ainda crivado de corrupção.
Eu apostaria, entretanto, que a administração privada brasileira
é hoje tão forte que ajudará na limpeza de sua contraparte
pública invertendo-se assim a tendência do passado, em que
a debilidade da administração pública infectava o setor privado. No
passado, o calcanhar-de-aquiles do Brasil se situou naquela terceira esfera, a
dos direitos humanos. Como os Estados Unidos e, na verdade, a maior parte das
Américas, o Brasil foi forjado em um cadinho de conquista colonial e escravidão
brutal. Esse nascimento violento deixou um legado de enormes divisões étnicas
entre as elites de ascendência européia, as comunidades indígenas
e as populações de origem africana, descendentes de escravos. Da
mesma forma que os Estados Unidos, também, o Brasil ainda não superou
completamente essa genealogia cruel. As desigualdades associadas a raça
e etnia configuram um abismo e, claro, propiciaram gerações
de conflitos, de inclinação para o populismo e de instalação
ocasional de regimes autoritários. Em
minha opinião, as principais mudanças em curso na sociedade brasileira
advêm do fato de que a democracia e a educação pública
estão finalmente anulando, ou pelo menos moderando, esse legado de desigualdade
e injustiça. O acesso à educação secundária
se tornou a norma, não mais a exceção e a norma para
todos os grupos sociais, não apenas para as classes média e alta.
As taxas efetivas de matrícula no estudo secundário eram inferiores
a 20% em 1990, mas hoje se encontram acima de 75%. Embora as desigualdades de
renda permaneçam vastas no Brasil, assim como nos Estados Unidos, elas
vêm diminuindo à medida que a oportunidade de instrução
se dissemina, que a renda das classes trabalhadoras se eleva e, com ela, a qualificação
profissional, e que os proventos da agricultura sobem juntamente com a produtividade
e as exportações. Finalmente, a democracia está fazendo sua
parte em contribuir para esse sucesso. Tanto Fernando Henrique Cardoso quanto
Luiz Inácio Lula da Silva defenderam a educação pública,
uma rede de segurança social mais coesa e o aprimoramento da saúde
e de outros serviços públicos. Os governos militares nunca revelaram
grande interesse por essas matérias; muito pelo contrário. Eles
suprimiram a demanda social por serviços públicos. O
quarto pré-requisito para o êxito no século XXI será
a capacidade de uma sociedade no que diz respeito à ciência e à
tecnologia. Essa é uma lição que os países asiáticos
aprenderam com uns vinte anos de vantagem sobre a América Latina. A competitividade
global não é conquistada simplesmente por meio da venda de recursos
naturais ou da montagem de bens manufaturados, mas pela aplicação
da ciência e da tecnologia às necessidades humanas e às oportunidades
de mercado. Os recentes triunfos agrícolas do Brasil com a soja e os biocombustíveis,
por exemplo, não se devem meramente ao sucesso no cultivo. São triunfos
duramente conquistados por meio da agronomia e da bioquímica sofisticadas.
A Embrapa, o instituto de pesquisa agrícola que serve como referência
mundial, entregou ao Brasil uma colossal abundância econômica nessas
duas áreas e continua a fazê-lo, sempre expandindo seu espectro
de atividades. Obviamente seria possível
elencar uma centena de coisas que podem dar errado para o Brasil. Afinal, o país
ganha notas dúbias na maioria dos rankings globais de competitividade e
governança. O que se pede é não que nos ceguemos para essas
falhas, mas que as vejamos em termos dinâmicos. O fato é que o Brasil
vem obtendo progresso real na maioria dessas áreas, e pode-se racionalmente
esperar que se aperfeiçoe ainda mais nos anos vindouros. O
que, então, o Brasil deveria fazer? Deveria se ater a seu centro vital,
mantendo uma política moderada que ajude aos pobres (por exemplo, por intermédio
de programas como o Bolsa Família e o Fome Zero) ao mesmo tempo em que
incentiva uma economia de mercado globalmente competitiva. Deveria concentrar-se
na educação de massa publicamente financiada como o verdadeiro passaporte
para a igualdade social. Deveria gastar dinheiro dinheiro do governo, das
empresas, de entidades filantrópicas particulares para educar os
pobres e permitir que eles cheguem à universidade. Deveria continuar a
promover o planejamento familiar e a saúde da mulher, de forma a estabilizar
sua população e garantir que toda criança brasileira que
nasça seja uma criança desejada, que terá todas as oportunidades,
por lhe ter sido franqueado o acesso adequado à saúde, à
nutrição e à educação. Deveria continuar a
fazer investimentos pesados em ciência, reconhecendo que a prosperidade
futura ficará com aqueles países capazes de domar as tecnologias
do futuro. Finalmente, o Brasil deveria orquestrar esforços globais para
combater a pobreza e a degradação ambiental. O Brasil pode vir a
ser não só um exemplo de sucesso, mas também um modelador
do desenvolvimento sustentável em escala global. Os admiradores do Brasil,
como eu mesmo, esperam ansiosamente não apenas pelo progresso do próprio
país, mas também que ele assuma seu papel em ajudar a propagar esse
progresso para o mundo. Jeffrey
Sachs, americano, é economista e diretor do Instituto da Terra, da Universidade
Colúmbia. Uma das maiores autoridades mundiais em desenvolvimento sustentável,
foi diretor do Projeto Milênio, das Nações Unidas, que estabeleceu
metas para a redução da miséria e da fome até 2015 | |