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Comportamento 1968 | O 1º ANO DE VEJA
Paz, amor e LSD

"Faça amor, não faça guerra", dizia o slogan da colorida e cabeluda juventude que pregava a liberdade sexual e protestava contra a Guerra do Vietnã. O movimento hippie foi a face mais exuberante do fenômeno conhecido pelo nome de contracultura, uma peculiaridade dos anos 60. Os hippies surgiram no meio universitário americano, em um tempo de extrema desconfiança em relação ao establishment. Pais, professores, políticos – todas as figuras de autoridade estavam sob suspeição. Os seguidores mais devotos do ideário afastavam-se da família, para viver em comunidades rurais ou acampamentos. Esse modesto ideal comunitário convivia com gigantescos eventos de massa, como o legendário festival de Woodstock, nos Estados Unidos, que reuniu entre 400 000 e 500 000 pessoas, em 1969. Apesar de seu propalado desprezo por valores materialistas, a estética hippie resultou na venda de milhões de discos, roupas – e drogas, especialmente a maconha e o LSD, indissociáveis da cultura riponga. A herança hippie continua visível, sobretudo em certa imagem publicitária da juventude. Os remanescentes do movimento original são hoje senhores de barba suja que cultivam uma aborrecida nostalgia dos anos 60.

O que disse VEJA em 1969 "Os hippies não levam sua contestação ao ponto de desejar o controle da máquina social, para transformá-la, e a lei os trata com benevolência (nos Estados Unidos), como simples vagabundos inofensivos. Mas já foram escorraçados de Portugal, da Espanha e da Guatemala, onde o chefe de relações públicas do exército chamou-os de ‘inimigos irreconciliáveis da higiene, cheios de parasitas e freqüentes portadores de doenças contagiosas’ (uma alusão às doenças venéreas e à hepatite, subprodutos do amor livre e das injeções de drogas)."

 

Mulheres e livres

Os anos 60 viram eclodir a "segunda onda" do feminismo. Já conquistado o direito ao voto e ao trabalho – e liberado o prazer pela pílula anticoncepcional –, a luta agora era pela total igualdade entre os sexos e contra a posição subalterna, nas relações amorosas e domésticas, a que a mulher era relegada pela tradição. "Nenhuma mulher consegue um orgasmo ao encerar o chão da cozinha", dizia a feminista americana Betty Friedan, autora de A Mística Feminina (1963). Como muitos movimentos daquele tempo, o feminismo conheceu extremos que hoje parecem folclóricos – caso das manifestações em que se queimavam sutiãs. O radicalismo feminista ganharia, nas duas décadas seguintes, contornos de patrulha, e não pouparia nem mesmo Betty Friedan, vista como conservadora. Mas a igualdade absoluta então reivindicada se revelou ilusória – a ciência biológica mais moderna atesta diferenças incontornáveis entre homens e mulheres. O que elas hoje desejam é o direito à diferença, em casa ou no local de trabalho.

O que disse VEJA em 1970 "O movimento ‘anti-sexista’ ganhou novas forças na batalha contra a desigualdade entre os sexos e se apresentou acompanhado de versos violentos que não prometem paz nas ruas, casas e leitos americanos. As militantes mais radicais promovem em praça pública a queima colorida de sutiãs (para destruir esse símbolo da opressão masculina), além de incentivar passeatas e manifestações em favor do direito de dirigir propostas indecorosas e assovios aos operários da construção civil."

 

Heróis que morrem de overdose

Michael Ochs archives/Getty Images
ÍDOLO AUTODESTRUTIVO
Jim Morrison, líder do The Doors: as drogas que abrem as portas da percepção também matam


A contracultura incentivava o uso de drogas (LSD e heroína eram as preferidas) para liberar a mente. Não demorou para que ela começasse a devastar corpos – e produzir jovens cadáveres. Em 1969, pouco tempo após ter se desligado dos Rolling Stones, o guitarrista Brian Jones drogou-se, foi nadar e morreu na piscina. No ano seguinte, desapareceriam dois ícones da juventude contestadora: a cantora Janis Joplin, depois de uma overdose de heroína, e o guitarrista Jimi Hendrix, vítima de uma mistura fatal de barbitúricos e álcool. Em 1971, Jim Morrison, o líder do grupo The Doors – cujo nome era inspirado no livro As Portas da Percepção, no qual o inglês Aldous Huxley narrava suas aventuras com alucinógenos –, morreria drogado em uma banheira de seu apartamento em Paris. Tinha apenas 27 anos, a mesma idade com que Hendrix e Janis se foram. Grandes nomes do jazz, como Charlie Parker e Billie Holiday, também foram afligidos pelo vício. Mas foi só a contracultura, em especial na sua face roqueira, que conseguiu conferir uma aura de glamour até mesmo à sórdida morte por afogamento no próprio vômito (caso de Hendrix e do baterista do Led Zeppelin, John Bonham). O suicídio de Kurt Cobain (outro viciado em heroína), em 1994, manteve vivo o mito do herói melancólico e maldito, que o rock herdou do romantismo do século XIX.

O que disse VEJA em 1970: "As mortes de Jimi e Janis contribuíram para o surgimento de uma controvérsia. De um lado, postam-se os propagandistas dos perigos das drogas. Para eles, essas mortes deveriam servir de advertência à juventude. De outro lado, enfileiram-se os arautos da juventude, os auto-instituídos ‘inimigos’ do establishment. Segundo eles, as duas abruptas mortes não se devem a causas prosaicamente materiais, mas, sim, a misteriosos condicionamentos sociopsicológicos – e até místicos."

 

A "Era de Aquário"


Hulton archive/Getty Images
SOB OS OLHOS DO ORIENTE
O guru indiano Maharishi (no centro, ao fundo) com os beatles Paul e George (à sua frente), em 1968: hinduísmo para inglês ver

Para além das drogas, houve quem buscasse a iluminação por meio do esoterismo de butique. Os filhos da chamada "Era de Aquário" acreditavam em todo tipo de empulhação mística, sobretudo se ela tinha fumos orientais. Quem melhor capitalizou essa, digamos, tendência foi o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi, cujo retiro espiritual no Himalaia atraiu celebridades como os Beatles e a atriz americana Mia Farrow. Vagamente inspirada no hinduísmo, a meditação transcendental propagada por Maharishi até hoje enriquece espertalhões da área corporativa. Versões diluídas de outras religiões orientais continuam fazendo adeptos, sempre com o aval de estrelas da música ou de Hollywood. Um dos atuais beneficiados é o budista Dalai-Lama, best-seller de auto-ajuda e líder espiritual do Tibete no exílio.

O que disse VEJA em 1969: "Com a explosão das comunicações na era tecnológica atual, o Oriente parece hoje a Grécia antiga, cuja cultura conquistou Roma, que a vencera pelas armas: do Japão dominado, os soldados do general MacArthur levaram para os Estados Unidos o zen-budismo, que fascinou a geração dos beatniks. Da Índia, antigo vice-reino colonial inglês, difundiu-se por universidades e editoras inglesas o estudo do budismo, que propiciou a viagem de vários líderes espirituais indianos à Grã-Bretanha. Foi num desses ciclos de conferências que os Beatles decidiram seguir Maharishi aos píncaros gelados de seu retiro espiritual perto do Himalaia."

 

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