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Cultura 1968 | O 1º ANO DE VEJA
A música vai à luta

Divulgação
ARENA DA CULTURA
Toquinho (à esq., com violão), Chico Buarque e MPB4 cantam em um festival da Record, em 1968: disputas artísticas e ideológicas

Os festivais de música foram a grande arena da cultura brasileira nos anos 60. Os concursos principais, transmitidos pelas emissoras Record, Excelsior, Tupi e Globo, deram notoriedade a uma das gerações mais vigorosas da música popular brasileira – formada por compositores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Paulinho da Viola e Milton Nascimento, cujas criações foram defendidas por intérpretes carismáticas como Elis Regina, Gal Costa e Nara Leão.

Os festivais também foram palco de intensas disputas artísticas e ideológicas. Boa parte do público universitário que lotava teatros para acompanhar as apresentações exigia músicas politizadas e apupava os "alienados". Ironicamente, sobrou até mesmo para Chico Buarque, que se tornaria o queridinho das esquerdas: o público do Maracanãzinho vaiou Sabiá, parceria de Chico e Tom Jobim, quando a canção ganhou o primeiro lugar de um festival em 1968. É que a preferida da audiência era Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, canção de protesto que até hoje é a Marselhesa das passeatas.

Os expoentes daquela geração ainda criariam grandes discos nas décadas seguintes, mas hoje quase todos vivem acomodados. Chico Buarque, por exemplo, está mais interessado em escrever romances do que em compor sambas.

A fase de ouro dos festivais encerrou-se em 1972, com o último Festival Internacional da Canção, da Rede Globo. Tentativas de reavivar os certames musicais nos anos 80 só revelaram pérolas da mediocridade.

O que disse VEJA em 1968: "Os índices de vendagem de discos, ibopes e outras fontes de pesquisa popular levaram os patrocinadores a investir cada vez mais nos festivais, a ponto de chegarmos, neste ano de 1968, a uma verdadeira inflação: Universitário da Canção, Música Carnavalesca, de Sorocaba, dos Presidiários, de Juiz de Fora, do Violão e por aí afora."

Vanguarda bananeira

OS DOIS "MANOS"
Caetano Veloso e Gilberto Gil: para a esquerda, eram alienados; para a ditadura, subversivos

Capitaneada pelos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, a tropicália foi a última vanguarda brasileira. Colocou a guitarra elétrica na MPB, para horror dos tradicionalistas, e misturou poesia concreta com bolero e bossa nova com música brega. Vaiado pelas patrulhas de esquerda que o tinham por "alienado", Caetano deu o recado em um festival de 1968: "É esta a juventude que quer tomar o poder? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos". A ditadura também não gostava dos tropicalistas: Caetano e Gil foram presos depois da decretação do AI-5. O sopro libertário do movimento não foi muito além da prisão. O tropicalismo cumpriu a trajetória típica das vanguardas, que vão da inovação à institucionalização – e, neste caso, com o selo do governo: Gil se tornou ministro da Cultura de Lula. O movimento também abriu as portas para a praga da axé music.

O que disse VEJA em 1968: "Eles gostam de se dizer ‘antropofágicos’, isto é, seguidores do modernista Oswald de Andrade. São os poetas concretos e os músicos da tropicália e o que querem é criar uma nova linguagem. Os concretos, na faixa restrita dos livros, da poesia. Os tropicalistas, na faixa mais larga do consumo, através de discos, festivais e programas de TV."

 

O rei da jovem guarda amadurece


Divulgação
UMA BRASA, MORA
Roberto Carlos largou dos calhambeques e dos iê-iê-iês ingênuos para se lançar como o grande cantor romântico da MPB – e emplacar vendas na casa dos milhões

Artista mais proeminente da jovem guarda – uma ingênua, mas divertida, versão brasileira do rock –, Roberto Carlos partia em busca de um público mais maduro com Roberto Carlos, de 1969, disco recheado de canções românticas. Essa metamorfose de rei da juventude em rei da música de motel pagou bem: Roberto imperou absoluto nas paradas brasileiras da década de 70, chegando a vender 1 milhão de discos por ano. No mundo da música, porém, quem é rei perde, sim, a majestade – Roberto Carlos hoje é um artista que, apesar de muito popular, anima cruzeiros e se empenha em censurar seus biógrafos. Em 2007, conseguiu, na Justiça, que o livro Roberto Carlos em Detalhes, do historiador Paulo Cesar de Araújo, fosse retirado de circulação – e mandou 11 000 exemplares para a fogueira.

O que disse VEJA em 1969: "Roberto Carlos foi o primeiro ídolo cientificamente formado através de uma campanha organizada pelo publicitário João Carlos Magaldi, que sustenta que a publicidade não engana ninguém: ‘Roberto já era bom e continua sendo’. Mas os anunciantes recusavam Roberto. Uma indústria alimentícia disse que ‘aquele cabeludo’ daria indigestão aos clientes da sua comida."

 

Antenas do Brasil

Joel Maia
HERÓI SEM CARÁTER
Luiz Gustavo como Beto Rockfeller: o personagem "bicão" desbancou o dramalhão das telenovelas


Quando VEJA foi lançada, estava chegando ao fim a era dos dramalhões descabelados como O Direito de Nascer, sucesso de 1965. Sem perder as necessárias doses românticas, a telenovela brasileira encontrava um registro ao mesmo tempo mais bem-humorado e realista com Beto Rockfeller, de Bráulio Pedroso, que estreou na Tupi em 1968. O herói da história, interpretado por Luiz Gustavo, era o que na gíria do período se chamava de "bicão" – um pobretão que se passava por rico para freqüentar as altas-rodas. Primeira novela a merecer uma capa da revista, Beto Rockfeller marcou época ao fazer uma acurada crônica da sociedade brasileira – uma fórmula que se consolidaria nas décadas seguintes na Rede Globo. Os grandes autores da novela atual – gente como Gilberto Braga e Aguinaldo Silva – se caracterizam pela antena sensível com que captam mudanças na vida nacional.

O que disse VEJA em 1969: "Das 18h30min às 22h, 80% dos 3 500 000 aparelhos de tevê do país puxam para dentro das casas desfiles de personagens tão variados e ricos em roupagens e cenários quanto monótonos e esquemáticos em suas relações. Antes de tudo, são amores, geralmente impossíveis até o último capítulo, obstados por pais, madrastas, destino, preconceitos. (Ou, como diz Plínio Marcos, autor de Navalha na Carne e ator em Beto Rockfeller, do Canal 4 de São Paulo: ‘Basicamente é a história de um casal que quer ir para a cama e de mais cinco ou seis personagens que estão ali para atrapalhar’.)"

 

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