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Internacional 1968 | 1º ano de VEJA
A curta primavera da liberdade

Libor Hajsky/AFP

SINAIS TROCADOS
Tropas soviéticas em Praga, em agosto de 1968: a reação dos checos incluiu a sabotagem de tanques, a obstrução de ruas e a mudança de placas de trânsito de lugar, para dificultar a circulação dos invasores

A ousadia dos checos enfureceu Moscou e maravilhou o mundo. "Ivan, volte para casa!", gritava a multidão de jovens para os soldados russos, enquanto cercava seus tanques nas ruas de Praga, em agosto de 1968. A divisão do mundo, durante a Guerra Fria, em um bloco comunista e um capitalista não significava um antagonismo perfeito. Entre os países comunistas, havia sérias divergências, como mostrou o rompimento da então Iugoslávia e da Albânia com a União Soviética, em 1948 e 1961, respectivamente. Mais tarde, as tentativas da Hungria, da Polônia e da então Checoslováquia de sair da órbita de Moscou foram esmagadas à força. Apenas três semanas antes da publicação do primeiro número de VEJA, os tanques soviéticos invadiram a Checoslováquia, a fim de reprimir os anseios de autonomia da liderança do Partido Comunista local e o movimento popular de libertação nacional que ficou conhecido como Primavera de Praga. A população da capital checa tentou resistir entupindo os canhões dos tanques com lixo, obstruindo ruas e trocando os sinais de trânsito de lugar, para confundir os invasores.

Tudo começou com a ascensão de Alexander Dubcek à liderança do Partido Comunista do país, no início do ano. Dubcek queria "dar uma face humana ao socialismo" e aboliu a censura. Não demorou a que se acendesse a chama da liberdade contra a ocupação soviética, que remontava ao final da II Guerra. A reação de Moscou foi fulminante. Em outubro de 1968, Dubcek foi preso e a Checoslováquia permaneceu satélite soviético nas duas décadas seguintes. Os russos só foram embora em 1989, com a Revolução de Veludo, movida pelo mesmo desejo de mudanças que, naquele ano, derrubou o Muro de Berlim. Depois da derrocada do comunismo, o país desmembrou-se em República Checa e Eslováquia, duas nações prósperas e, hoje, integrantes da União Européia.

O que disse VEJA em 1968 "A invasão da Checoslováquia rebelde, ainda que muito menos sangrenta do que as repressões de Berlim e Budapeste, põe em xeque um dos pontos altos da retórica comunista: o ‘bloco monolítico’ – como se autodefinia a compacta e afinada galáxia vermelha – já não é mais monolítico."

 

As barricadas de maio
de 68 em Paris

Naquele maio de quarenta anos atrás, o novo enfrentou o velho nas ruas de Paris, em protestos que começaram com uma greve estudantil à qual aderiram quase dois terços dos trabalhadores franceses. O movimento, uma mixórdia que reunia maoístas, trotskistas e anarquistas, tinha em seu cerne o desejo da juventude por mudanças profundas na política, na sociedade e na cultura da França – um país no qual as mulheres, até então, precisavam do aval do marido para abrir uma conta bancária. O episódio a desencadear os confrontos entre estudantes e a polícia foi o fechamento da Universidade de Nanterre, no início de maio, cuja reitoria havia sido tomada por jovens que exigiam uma reforma educacional e, entre outros tópicos mais substanciais, o direito de os rapazes entrarem nos dormitórios das moças – com uma finalidade óbvia. Desse epicentro, a agitação foi se alargando em círculos concêntricos, até ultrapassar as fronteiras francesas com slogans tão fascinantes quanto vazios. Entre eles, os célebres "É proibido proibir" e "A imaginação no poder". O movimento de maio – que, na verdade, durou até junho, com a desocupação da Universidade Sorbonne – fracassou em quase todas as suas reivindicações objetivas, incluindo a queda imediata do governo do conservador Charles de Gaulle. Mas fez explodir em poucas semanas a energia represada da juventude ocidental, que já aflorava, na Inglaterra e nos Estados Unidos, em manifestações esparsas que pediam o fim da Guerra do Vietnã e reivindicavam direitos para os negros e liberação sexual.

Se não foi bem-sucedida no plano político, inclusive pelo fato de sua ideologia ser difusa, inconsistente, a agitação dos estudantes franceses representou uma lufada de ar fresco em termos culturais e comportamentais. Por ter adquirido também uma profunda carga simbólica, maio de 1968 tornou-se uma referência para movimentos anti-establishment surgidos não só no mesmo ano como nas décadas seguintes, em diferentes países.

O que disse VEJA em 1968 "O asfaltamento-relâmpago de todas as ruas estratégicas do Quartier Latin – bairro estudantil de Paris e teatro das batalhas de rua de maio último – indica que a guerra dos ‘pavés’ (paralelepípedos), a principal arma de ataque (quando lançados contra as forças da polícia) e de defesa (quando usados para a construção de barricadas) dos estudantes, não será mais tolerada."

Agonia africana

A Guerra de Biafra (1967-1970) foi uma das primeiras guerras da África pós-colonial a conter as principais características dos conflitos que estouraram no continente nas décadas seguintes: as rivalidades tribais, a ferocidade dos senhores da guerra, a escala genocida, a interferência desastrosa de nações ocidentais (no caso de Biafra, com a venda de armas para ambos os lados do confronto) e a crise humanitária. Nos quarenta anos que se seguiram, a população africana sofreu com mais de trinta guerras. A de Biafra nasceu de um conflito étnico no norte da Nigéria, em uma região onde as tribos muçulmanas perseguiam e expulsavam as minorias cristãs. Estima-se que 30 000 pessoas tenham sido mortas e 1 milhão se refugiado em Biafra, no sudeste do país, em 1966. No ano seguinte, Biafra declarou sua independência da Nigéria. A superioridade militar do governo nigeriano levou a um lento estrangulamento das forças rebeldes e do território separatista, provocando a morte de cerca de 2 milhões de pessoas de fome, varíola ou vitimadas diretamente pelo conflito armado. Ao final, a região foi reintegrada à Nigéria.

O que disse VEJA em 1969 "Em setembro do ano passado, Biafra estava quase morta. (...) Milhares de crianças morriam de inanição, todos os dias, e centenas de milhares mais exibiam sua barriga inchada e os cabelos avermelhados, vítimas de subnutrição em avançado grau."

 

A longa retirada

Entrar em uma guerra é fácil, difícil é sair. Os Estados Unidos enfrentaram essa máxima com toda a sua dramaticidade há quarenta anos, no Vietnã, e voltam a vivê-la hoje, no Iraque. O envolvimento das forças americanas na luta contra a guerrilha comunista no Vietnã do Sul e, por tabela, contra o Vietnã do Norte, que a alimentava, teve seu ápice em 1968. Os Estados Unidos estavam empenhados, na ocasião, em evitar no Sudeste Asiático o que os estrategistas do Departamento de Estado chamavam de "efeito dominó" – a possibilidade de que, uma vez instalado num país, o comunismo fosse exportado para o país vizinho e assim sucessivamente. Mas naquele momento, apesar de todo o poderio bélico empregado pelos americanos, já estava claro que eles não venceriam a guerra.

Além de combater um inimigo de moral alto no outro lado da fronteira – no início de 1968, o Vietnã do Norte fez a Ofensiva do Tet, que matou 3 700 soldados americanos no intervalo de oito semanas –, a guerrilha comunista no Vietnã do Sul ganhava território, graças também ao apoio da população, às voltas com um regime corrupto e cruel. Diante desse quadro, ao qual se acresciam dezenas de milhares de baixas militares dos Estados Unidos – 58 000 soldados mortos, esse é o saldo final –, Richard Nixon, eleito no fim de 1968 para a Presidência, teve de incluir entre suas promessas de campanha sair do Vietnã. A retirada das forças americanas, no entanto, só viria a ocorrer quatro anos depois, uma demora marcada pela fase mais sangrenta de todo o conflito. Entre 1968 e 1972, mais de 2 milhões de pessoas morreram no Vietnã. O país foi unificado, sob controle comunista, em 1976. Atualmente, segue o caminho econômico da China – e tem nos Estados Unidos um grande parceiro.

O que disse VEJA em 1968 "Esta paz, mesmo após a suspensão total dos bombardeios, ainda parece longe. (...) E as bombas americanas continuam caindo no Laos e no Camboja com o objetivo de impedir a passagem de homens e armas do Vietnã do Norte para ajudar os guerrilheiros do Vietnã do Sul."

 

Guerra sem fim

Há quarenta anos, o Oriente Médio vivia as conseqüências imediatas da Guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1967, em que Israel derrotou os vizinhos árabes e ocupou partes do Egito (há muito devolvidas) e da Síria, a totalidade de Jerusalém e outros territórios atualmente reivindicados pelos palestinos – obrigados, com o conflito, a refugiar-se aos milhares em países como o Líbano e a Jordânia. Foi nos campos de refugiados que Yasser Arafat, líder da Organização pela Libertação da Palestina, encontrou o material humano e os financiadores para sua luta – ou "terrorismo", como VEJA começou a chamá-la logo em seus primeiros meses – contra Israel. Quase três décadas mais tarde, em 1996, Arafat viria a ser eleito presidente da Autoridade Palestina (AP), uma entidade reconhecida internacionalmente e encarregada de administrar as áreas cedidas por Israel. Mas as esperanças que se criaram nesse período se esvaíram, com a impotência da AP para impedir os ataques terroristas contra o estado israelense e a incapacidade de Israel de retirar todas as colônias instaladas em terras palestinas. As fronteiras definidas pela Guerra dos Seis Dias são ainda o principal empecilho para a solução do conflito árabe-israelense, seis décadas depois da fundação do estado judaico.

Em maio deste ano, Israel e Síria – que estão tecnicamente em guerra há mais de sessenta anos – iniciaram negociações para selar um acordo de paz. A principal reivindicação dos sírios é a retomada das Colinas de Golã, ocupadas pelos israelenses desde o conflito de 1967.

O que disse VEJA em 1969 "Árabes e israelenses só se olham através de seteiras, o canhão continua sendo sua forma de diálogo mais constante, e nas ruas de Amã, Cairo, Jerusalém ou Damasco o povo se refere ao presente como um mero ‘entre-duas-guerras’."

 

O pesadelo da guerra total

No início da década de 60, ao ouvir que o arsenal nuclear americano poderia destruir o mundo duas vezes, ao passo que o soviético tinha a metade dessa capacidade, o líder soviético Nikita Kruschev fez um comentário tão sarcástico quanto verdadeiro: "Basta uma vez". Ainda assim, a corrida letal continuou pelas décadas seguintes. A lógica dos estrategistas de ambos os lados era a da "dissuasão nuclear". Ou seja, a de convencer o inimigo de que não valia a pena lançar o primeiro ataque, porque a resposta seria de uma magnitude tal que não haveria vencedores. Diante dessa escalada que poderia terminar num desastre de contornos apocalípticos, foram construídos enormes abrigos nucleares nos Estados Unidos e na União Soviética, para proteger integrantes do governo em caso de eclosão de uma guerra total. Entre os americanos, muitos cidadãos comuns também construíram refúgios nos porões de suas casas, com estoques de água e mantimentos. Com o fim da Guerra Fria, os arsenais americanos e russos diminuíram drasticamente de tamanho, mas permanecem extremamente mor–tíferos. O dado extraordinário é que, apesar da desconfiança mútua, em maio deste ano, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um acordo que permite a empresas de ambos os países atuar em conjunto no setor de energia nuclear. Hoje, o grande medo, no campo das armas atômicas, é que países como Coréia do Norte e Irã, considerados párias pela comunidade internacional, desenvolvam a tecnologia para fazer bombas e lançá-las em mísseis (os norte-coreanos, que já testaram um artefato, suspenderam seu programa nuclear, depois de um acordo com os americanos, mas nunca se sabe o que vai pela cabeça do líder malucão Kim Jong-Il). Outro pesadelo é o de que grupos terroristas consigam roubar ou contrabandear armas nucleares de países como o Paquistão e a própria Rússia, cujas Forças Armadas passaram por um processo de sucateamento com o fim da União Soviética. Essa última possibilidade, no entanto, tornou-se mais remota com a ascensão do czar Putin, que a tudo controla com mão-de-ferro.

O que disse VEJA em 1969 "É possível prever o que acontecerá no Brasil no dia em que as nações dispararem tantas bombas. (...) Antes mesmo que os ventos tragam do hemisfério norte grandes nuvens de poeira radiativa ou que as correntes marinhas empurrem para cá os restos atômicos, chegarão as primeiras bombas. A lógica da estratégia nuclear não permite que uma grande potência conte com o refúgio de um território aliado tão vasto e rico como o do Brasil."

O mau exemplo que veio de Cuba

Entre as aberrações políticas criadas pela Guerra Fria, está a transformação de Cuba, uma ilha do Caribe fadada à irrelevância, em ator de destaque na queda-de-braço entre capitalismo e comunismo. Ao alinhar-se com a União Soviética, o ditador Fidel Castro, líder da revolução que triunfou em 1959, levaria a cabo a tarefa de inspirar e financiar o terrorismo marxista que assombraria quase todos os países latino-americanos nas duas décadas seguintes. A relação com os soviéticos se transformou em caso de dependência já nos primeiros anos de regime castrista, quando as reformas comunistas na ilha se revelaram um desastre econômico. Os rotos cubanos passaram a viver do dinheiro fornecido pelos esfarrapados de Moscou. Em 1968, um ano após a morte de Che Guevara, que preferia uma aproximação com a China comunista, Fidel estreitou ainda mais os laços com os soviéticos, ao defender de maneira entusiasmada a invasão da Checoslováquia. O capachismo lhe rendeu uma remessa extra de petróleo e "empréstimos" de Moscou. A vitória sobre os terroristas marxistas na América Latina e a democratização da região, somadas ao fim da União Soviética, em 1991, empurraram Cuba de volta à sua insignificância. Hoje, o regime cubano, moribundo como seu chefe, tem um novo patrono: o petropopulista venezuelano Hugo Chávez.

O que disse VEJA em 1969 "Por sua vizinhança com Cuba, (a Venezuela) tem sofrido mais duramente as conseqüências do lema de Havana, ‘exportar a revolução’."

 

Obama não existiria sem eles

AP
O PODER NEGRO
Os atletas Tommie Smith e John Carlos fazem a saudação black power no México: expulsos da delegação americana


AP
MÁRTIR DA CAUSA
Luther King discursa em Washington, em 1963, durante a Marcha pela Defesa dos Direitos Civis


Pela primeira vez na história, existe um candidato negro com chances reais de se tornar presidente dos Estados Unidos. Por ter chegado aonde chegou, e com o apoio de milhões de brancos, Barack Obama é a concretização das esperanças de um herói assassinado em abril de 1968. Cinco anos antes, este homem, o pastor Martin Luther King, havia reunido 200 000 pessoas em uma manifestação em Washington, para dizer-lhes que tinha um sonho: o da igualdade entre brancos e negros em seu país. Desde a década de 50, Luther King mobilizava multidões em protestos contra a segregação racial que, vergonhosamente, ainda vigorava em estados americanos do sul. Sua persistência e seu carisma foram essenciais para a aprovação das leis federais que, em 1964 e 1965, tornaram ilegais práticas como as que impediam os negros de freqüentar as mesmas salas de aula que os brancos. Nos anos que antecederam a morte de Luther King, surgiram outros líderes e grupos negros, que consideravam insuficientes as táticas de não-violência do pastor batista – e desse modo partiam para o confronto físico com os brancos. O antípoda mais célebre de Luther King foi Malcolm X. Entre os grupos radicais, destacava-se o Panteras Negras, uma organização armada criada nos guetos da Califórnia. Havia ainda um movimento chamado de nacionalismo negro, cujo lema era "black power" (poder negro, em inglês). Dissidência do grupo de Luther King, promovia a idéia de que os descendentes de escravos formavam uma nacionalidade à parte. Em outubro de 1968, nas Olimpíadas do México, os atletas americanos Tommie Smith e John Carlos, medalhas de ouro e de bronze nos 200 metros rasos, fizeram a saudação black power durante a premiação – o braço esticado, com o punho fechado e vestido por uma luva negra. Eles acabaram banidos da delegação dos Estados Unidos. Luther King e os diversos movimentos negros da década de 60, por mais equivocados que fossem alguns deles, deixaram um legado que extrapolou os limites americanos. Sob sua inspiração, o racismo foi expurgado da mentalidade dominante nas sociedades ocidentais.

O que disse VEJA em 1969 "Um ano depois da morte de Martin Luther King, o líder negro da não-violência, seu sonho pacifista parece mais do que nunca longe da realidade. Desta vez, o protesto e a destruição que começam a brotar dos guetos não passam de pálidos reflexos daqueles trágicos dias de abril passado, quando o fogo e a irracionalidade tomaram conta de quase 150 cidades americanas."

Uma Europa sem fronteiras

A Comunidade Econômica Européia, criada em 1957 para evitar novas guerras no coração do continente por meio da integração econômica e política, aboliu as tarifas alfandegárias entre seus integrantes em 1968. A comunidade, então, se restringia a seis nações. O dilema era aceitar ou não a entrada da Inglaterra no bloco – o pedido formal havia sido feito em 1961. O presidente francês, Charles de Gaulle, era o principal empecilho à adesão inglesa. Apenas em 1969, com a sua renúncia, as negociações foram retomadas. A Inglaterra viu-se aceita em 1973. O bloco europeu ganhou, nas décadas que se seguiram, uma dimensão extraordinária, com os países cedendo tanto na abertura das fronteiras para o fluxo de mercadorias e de pessoas, como na renúncia a um quesito considerado pilar da soberania nacional – a moeda própria. Hoje, a União Européia congrega 27 nações e boa parte delas adota o euro como moeda.

O que disse VEJA em 1969 "A atual guerrilha diplomática entre Paris e Londres não é um acontecimento novo: há sete anos o general De Gaulle vem sabotando qualquer veleidade inglesa de ingressar no Mercado Comum Europeu, e há sete anos Harold Wilson, (...) primeiro-ministro da Inglaterra, usa dos mais variados recursos para burlar a atenção do ‘guardião gaulês’."

 

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