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Brasil 1968 | O
1º ANO DE VEJA
A grande passeata
Evandro Teixeira/Ag.JB
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ABAIXO A DITADURA
A Passeata dos Cem Mil tomou o centro
do Rio de Janeiro em junho de 1968. A foto foi feita do alto
das escadarias do Teatro Municipal, de onde líderes estudantis,
artistas e intelectuais discursaram para a multidão |
Em 26 de junho de 1968, o centro
do Rio de Janeiro foi cenário de uma passeata que entraria
para a história. Dezenas de milhares de pessoas saíram
às ruas para protestar contra os generais encastelados no
poder havia quatro anos. Programada originalmente como um protesto
pela morte do estudante Edson Luís, assassinado pela Polícia
Militar três meses antes, a manifestação encorpou-se,
para se tornar o maior ato de repúdio à ditadura.
Ainda seria preciso enfrentar 21 anos de exceção antes
que o país voltasse a realizar eleições diretas
para presidente. Mas a Passeata dos Cem Mil, como foi chamada, deixou
claro que a opção dos brasileiros pela democracia
era e é inegociável. Foi nesse ambiente
de ebulição e esperança que VEJA surgiu. A
primeira edição da revista chegou às bancas
em setembro, menos de três meses depois do grande ato público.
Em seus primeiros números, VEJA registrou atentamente os
desdobramentos da manifestação do Rio de Janeiro.
O movimento estudantil ganhou novo alento, na crença de que
seria possível derrubar os militares no grito. Os políticos
de oposição, embora um tanto perdidos, aumentaram
o tom de suas críticas. A esperança revelou-se vã.
Sob a justificativa de que a ordem pública corria perigo,
os generais não demoraram a contra-atacar. Em dezembro daquele
ano, endureceram ainda mais o regime, editando o Ato Institucional
Número 5, o derradeiro golpe no que ainda restava de liberdade
no Brasil (veja matéria). Com
o AI-5, registrado tristemente na capa da penúltima edição
de VEJA de 1968, inaugurava-se a fase mais escura do regime militar.
As ruas foram caladas à força. Os princípios
defendidos na tarde carioca de quarenta anos atrás sobreviveram
à truculência.
O que disse VEJA em 1968
"Estudantes e polícia são como duas moléculas
diferentes colocadas uma diante da outra. Elas se atraem, provocam
o encontro de energias contrárias e geram o atrito. Se elas
fossem iguais o resultado seria a estabilidade. A explicação
é de uma aluna de Química Orgânica da Universidade
de Brasília."
"O Movimento Estudantil veio
num crescendo que teve dois pontos culminantes: a passeata de 100
000 pessoas, em junho deste ano, no Rio, para protestar contra o
assassínio do secundarista Edson Luís por tropas da
Polícia Militar, e a série de ocupações
de faculdades, de norte a sul do país."
O movimento estudantil
Carlos Namba
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"TODOS PRESOS"
Com esse título, VEJA
registrou numa capa de outubro
de 1968 o desfecho do congresso da União Nacional dos
Estudantes em Ibiúna
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Em 1968, a oposição
à ditadura militar estava desarticulada. Boa parte dos líderes
políticos não-alinhados aos generais havia sido cassada
ou exilada e a oposição consentida como partido, o
Movimento Democrático Brasileiro (MDB), ainda engatinhava.
Nesse vácuo, o movimento estudantil transformou-se na válvula
de escape pela qual a sociedade conseguia manifestar seu descontentamento
com as arbitrariedades dos militares. Muitos dos universitários
que protestavam contra os generais eram movidos pela legítima
aspiração de lutar pela volta da democracia ao país.
Mas também não era pequeno o número daqueles
que queriam apenas trocar um regime de exceção por
outro, e defendiam a instalação de um regime comunista
no Brasil. Nos câmpus foram criadas praticamente todas as
organizações marxistas que escolheram o caminho do
terrorismo (veja matéria).
Além do esquerdismo, outro problema dos estudantes em 1968
era que eles se deixavam guiar por líderes como Vladimir
Palmeira, Luís Travassos e José Dirceu, imersos em
projetos personalistas. Para essa turma, o essencial era consolidar
e ampliar a própria influência. No segundo semestre
de 1968, Dirceu e Travassos disputavam cada centímetro de
poder dentro da União Nacional dos Estudantes (chamada por
VEJA de "ex-UNE", por estar relegada à clandestinidade).
Os dois arrastaram os estudantes para um malfadado congresso na
cidade de Ibiúna, em São Paulo. O objetivo era decidir
quem seria o novo presidente da entidade. Sem nenhum esforço,
a polícia descobriu o local do encontro e prendeu 712 participantes.
Morria ali o movimento estudantil brasileiro. O de hoje não
passa de uma paródia financiada com recursos liberados pelo
governo.
O que disse VEJA em 1968
"A ex-UNE engloba diversas tendências, que vão
da esquerda cristã (a Ação Popular, que chegou
a dominá-la) aos grupos marxista-leninistas, maoístas,
pró-castristas e, recentemente, althusserianos, que defendem
as idéias do filósofo francês Louis Althusser.
É impossível hoje definir uma tendência homogênea
dentro da ex-UNE. Novas correntes se formaram, chamadas dissidências,
e na própria organização da esquerda católica
também se verificam cisões."
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A escola de Dirceu
Divulgação
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RISONHO E PREGUIÇOSO
Dirceu sorri ao ser levado para
a cadeia, em 1968.
O então líder estudantil foi apontado como
"o mais preguiçoso" por seus colegas
de cela |
José Dirceu é
um homem de múltiplos talentos. Já foi deputado
federal, presidente do PT, ministro da Casa Civil e chefe
dos mensaleiros. Hoje, é um consultor empresarial quentíssimo,
embora não diga quais clientes costuma atender. Sua
"vida profissional" por assim dizer
começou no movimento estudantil. Ele foi um dos personagens
mais citados por VEJA em 1968. Seu grande feito foi liderar
os esquerdistas na estúpida batalha da Rua Maria Antônia,
em São Paulo, que opôs estudantes do Mackenzie
aos da Filosofia da USP e terminou com um rapaz morto. O líder,
é claro, não sofreu nenhum arranhão.
Depois, acabaria preso no congresso da UNE em Ibiúna.
Ele e outros líderes estudantis ficaram detidos por
um mês em uma prisão no litoral paulista. Lá,
os prisioneiros dividiram-se em três turmas. Enquanto
uma cuidava da roupa e outra da limpeza, a terceira descansava.
"Dirceu foi unanimemente apontado pelos colegas como
o mais preguiçoso", registrou VEJA. Mesmo em cana,
fugia do trabalho. Liberado em troca do embaixador americano
Charles Burke Elbrick, seqüestrado em 1969, partiu para
o exílio em Cuba, onde fez uma plástica para
mudar de rosto. Voltou ao Brasil escondido, em 1975, e casou-se
com uma mulher a quem não revelou a verdadeira identidade.
Com a abertura política, abandonou a moça, desfez
a plástica e voltou a agitar, agora no PT. Chegou ao
seu ápice como ministro-chefe da Casa Civil, quando,
segundo o Ministério Público, se tornou o chefe
da "sofisticada organização criminosa"
que criou o mensalão e pretendia eternizar-se no poder.
O menino é mesmo pai do homem.
O que disse VEJA em 1968
"O presidente da ex-UEE, José Dirceu, dorme
cada noite numa casa diferente, passa o dia todo entre seus
colegas, na Faculdade de Filosofia de São Paulo, e
quando sai está sempre armado e protegido por dois
guarda-costas. (...) Seu nome é o primeiro da lista
de estudantes que o Dops quer prender."
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Terrorismo à brasileira
Fotos AE e Bras
Bezerra/JB
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A LUTA RENDEU
O terrorista Marighella (no detalhe)
e o assassino Lamarca: eles pegaram em armas. Agora, o estado
indeniza suas famílias |
Com os partidos de esquerda jogados
na ilegalidade em 1965, e seduzidos pelo mito romântico construído
ao redor do argentino Ernesto Che Guevara, militantes marxistas
deliravam com a possibilidade de conquistar o poder pela via da
luta armada. Essa conquista visava a instaurar uma "democracia
popular" no Brasil, como a que vigorava nos países comunistas
ou seja, uma ditadura de partido único que, em nome
do ideal socialista, aboliria a propriedade privada, os direitos
individuais e a liberdade de reunião, expressão e
opinião. Um punhado de universitários, intelectuais
e ex-militares esquerdistas dividiu-se, então, em organizações
terroristas. Os mais agressivos iam a Cuba para tomar aulas de guerrilha
e voltavam ao Brasil para disseminar o "conhecimento".
Essa turma tinha como referências nativas as figuras de Carlos
Marighella, antigo comunista baiano que achava razoável seqüestrar
pessoas em nome de suas aspirações políticas
(assim como os radicais das Farc colombianas), e Carlos Lamarca,
um capitão do Exército que desertou, assassinou um
companheiro de armas, roubou fuzis do arsenal de sua força
e passou a assaltar bancos. A polícia os considerava bandidos
perigosos e os caçava. Descobertos, os dois foram executados
por forças do estado Marighella em 1969, em São
Paulo, e Lamarca em 1971, no sertão da Bahia. Recentemente,
as famílias de ambos receberam dinheiro público, a
título de indenização, por decisão da
Comissão de Anistia do governo. Uma peculiaridade do terrorismo
à brasileira.
O que disse VEJA em 1968
"Em lugar nenhum, em época nenhuma, o terrorismo político
se manteve indefinidamente. Os radicais cedo ou tarde perceberão
que o terrorismo lhes pode parecer necessário, mas certamente
não é suficiente para a tomada do poder. No máximo
cria um clima de instabilidade política."
O
país na escuridão
Folha Imagem
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IMAGEM SIMBÓLICA
O presidente Costa e Silva no plenário
vazio do Congresso, que havia sido fechado pelo AI-5: a foto,
sem chamada, foi uma das capas históricas de VEJA |
A sexta-feira 13 de dezembro de 1968 é o dia mais infame
da história política do Brasil. Com o Ato Institucional
Número 5, o AI-5, o marechal Arthur da Costa e Silva deu
início a um período de trevas que se estenderia até
1979. O ato foi uma resposta brutal e desmedida às passeatas
que pediam democracia, às organizações estudantis
que exigiam o fim do regime instalado em 1964 e ao terrorismo de
esquerda. Sob o pretexto de enfrentar tais opositores e restabelecer
a ordem pública, o governo militar usou o AI-5 para fechar
o Congresso, cassar o mandato de deputados, prender dezenas de pessoas
e suspender a concessão de habeas corpus. O presidente ganhou
a prerrogativa de nomear prefeitos e governadores. Com o cassetete
legal cantando no térreo, o pessoal dos porões sentiu-se
à vontade para baixar o pau com os porretes de verdade. A
tortura e a morte de presos políticos tornaram-se rotina
(veja mais). Em dezembro de 1968, a ditadura,
enfim, se revelou com todos os seus dentes. O terror do estado se
voltaria também contra juízes, professores e artistas.
Nos anos seguintes, centenas de perseguidos partiram para o exílio.
A maior parte só retomou a vida normal nos anos 80, com a
abertura lenta, gradual e segura arquitetada pelo general Ernesto
Geisel e executada pelo último dos presidentes militares,
João Baptista Figueiredo.
O que disse VEJA em 1968
"É o mais drástico de todos os atos editados
e deve-se pensar segundo revelações de uma
fonte militar que ele foi feito para ser também o
último, o definitivo."
O troféu do terror
radical
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REFÉM NO RIO
O embaixador americano Charles Burke
Elbrick: seqüestrado pelos então terroristas Fernando
Gabeira e Franklin Martins |
A mais cinematográfica das ações
praticadas pelos terroristas de esquerda durante o regime militar
foi o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick,
ocorrido em setembro de 1969. Ele foi rendido no Rio de Janeiro
e passou 76 horas nas mãos de jovens esquerdistas de classe
média. Entre eles, Fernando Gabeira, hoje deputado federal,
e Franklin Martins, o atual ministro de Comunicação
Social do governo Lula. Para não matarem o embaixador ("Seremos
obrigados a cumprir a justiça revolucionária",
ameaçavam), exigiam a libertação de quinze
esquerdistas, incluindo José Dirceu. Os presos foram soltos
e o embaixador também. Os seqüestradores, todos amadores,
foram descobertos em menos de uma semana. Mas estimularam outros
grupos de esquerda a realizar ações semelhantes. Nos
meses seguintes, terroristas seqüestraram o cônsul japonês
Nobuo Okuchi e os embaixadores da Alemanha, Ehrenfried von Holleben,
e da Suíça, Giovanni Enrico Bucher. O governo cedeu
em todos os casos e libertou mais 115 presos políticos. Elbrick
deixou o Brasil em 1970 e morreu em Washington, de pneumonia, treze
anos depois.
O que disse VEJA em 1969 "No caso
do seqüestro do embaixador americano, a escolha da vítima
e o preço exigido pelo resgate são evidentemente políticos,
mas o seqüestro em si é crime comum."
Os anos mais duros
Assis Hoffmann
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FORA DE SINTONIA
Médici, o presidente dos anos
de chumbo: enquanto ele e o país ouviam futebol, ninguém
escutava os gritos dos torturados
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Quando o Alto-Comando das Forças Armadas escolheu o general
Emílio Garrastazu Médici para ser presidente do Brasil,
em 1969, uma onda de esperança varreu o país. Ele
tomaria posse no lugar de Costa e Silva, que estava muito doente
e cujo governo ficara marcado pelo violento AI-5 e pelo fechamento
do Congresso. Médici assumiu com promessas de distensão
política, liberdade e diálogo. Ludibriou a todos com
esse discurso, inclusive VEJA, que registrou de forma positiva sua
chegada ao poder. Sob Médici, que permaneceu na Presidência
até 1974, a repressão política ganhou contornos
medievais e as torturas tornaram-se prática corrente no país.
Das 354 pessoas que morreram ou desapareceram em poder do estado
na ditadura militar, mais de 60% foram vitimadas enquanto Médici
esteve no poder. (Estima-se que, durante todo o regime, 10 000 pessoas
tenham sido presas por motivos políticos.) Além de
estraçalhar adversários, o general decidiu investir
maciçamente em propaganda. Apaixonado por futebol, queria
que a população torcesse pelo sucesso do governo da
mesma forma que torcia pelos gols da seleção que se
tornaria tricampeã em 1970. São desse período
a campanha "Brasil: ame-o ou deixe-o" e também
a série de obras grandiosas (Itai-pu, Transamazônica,
Ponte Rio-Niterói) que integravam o "Projeto Brasil,
Grande Potência", uma espécie de PAC da ditadura.
Médici foi o presidente do "milagre brasileiro",
período em que houve o maior crescimento contínuo
do produto interno bruto (PIB). VEJA registrou o desempenho vigoroso
da economia em diversas ocasiões. Em uma das mais célebres,
estampou na última capa de 1971 o índice do aumento
do PIB naquele ano: 11,3%.
O que disse VEJA em 1969 "Garrastazu
falou em sindicatos livres, imprensa livre, Igreja livre. (...)
Livre e liberdade foram as palavras mais usadas no discurso. (...)
Deve-se esperar brevemente o anúncio de programas que permitam
alguma forma de participação popular. Garrastazu anuncia
que a revolução busca popularidade."
O futuro nas cidades
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PÉ NA ESTRADA
Os caminhões de paus-de-arara mudaram
a demografia brasileira nos anos 60 |
Os anos 60 registraram um dramático
fluxo migratório do campo para as cidades. Quando a década
terminou, um recenseamento revelou a situação inédita:
pela primeira vez, no Brasil, havia mais gente vivendo em áreas
urbanas do que em zonas rurais. Semana após semana, milhares
de pessoas trocavam as cidades do interior pelas capitais e, principalmente,
os estados pobres pelos mais ricos. Buscavam empregos nas áreas
onde a industrialização começava a despontar.
Rota movimentadíssima era a que levava famílias inteiras
do Nordeste para as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Viajavam como podiam, a maioria na caçamba de caminhões
carregados de tralhas conhecidos como "paus-de-arara".
Em 1968, só a capital paulista recebia 10 000 novos moradores
a cada mês. O fluxo Nordeste-Sudeste caiu quase pela metade
nos anos 80 e, atualmente, é insignificante. A tendência
desenhada nos anos 60, entretanto, definiu o Brasil do século
XXI.
O
último censo realizado pelo governo mostrou que, em 2000,
81% da população já vivia em áreas urbanas.
Esse número estará na casa dos 90% até 2020.
A novidade é que, agora, não são os estados
mais desenvolvidos que atuam como pólos de atração.
Nos últimos cinco anos, o saldo migratório de São
Paulo e do Rio de Janeiro tem sido negativo. Há mais gente
saindo do que entrando. O inchaço populacional e a fuga de
algumas empresas atraídas por generosos benefícios
fiscais oferecidos por outros estados ajudaram a empurrar
para fora das duas maiores cidades brasileiras milhares de pessoas.
As novas rotas migratórias
apontam para o Pará, ao norte, Santa Catarina, ao sul, e
para os três estados do Centro-Oeste Mato Grosso, Mato
Grosso do Sul e Goiás. Em todos esses casos, é a pujança
do agronegócio que tem criado empregos e atraído milhares
de pessoas. O Brasil, enfim, não é mais o "velho
arquipélago separado pela distância, espaço
geográfico, ignorância, preconceitos e regionalismos"
de que falava Victor Civita na Carta do Editor publicada na primeira
edição de VEJA. O país hoje está preparado
para crescer de maneira horizontal e equilibrada. Pela primeira
vez, as riquezas e as oportunidades brotam por todo o território
nacional.
O que disse VEJA em 1969 "As
grandes capitais sempre apareceram nos sonhos do homem do campo
como uma espécie de Eldorado com promessas de riqueza. No
Recife, a maior das capitais nordestinas, a população
aumentou de 780 000 em 1960 para 1,2 milhão de habitantes
em 1969. (...) Porém, para a grande maioria de nordestinos
que procuram esse Eldorado, a riqueza ainda é um sonho."

A Igreja confusa
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O BOM PASTOR
Dom Eugênio Sales ajudou a salvar a vida de milhares de
pessoas durante a ditadura |
Na esteira do Concílio
Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965 para aproximar a Igreja
Católica dos temas contemporâneos e modernizar a liturgia
(daí aquele violãozinho nas missas de hoje), uma parte
dos padres latino-americanos começou a disseminar a Teologia
da Libertação concepção que tentava
enxertar o marxismo em ensinamentos cristãos, sob o argumento
da "opção preferencial pelos pobres". Alguns
desses padres, inclusive, apoiaram os grupos de luta armada que
assolavam o subcontinente. No Brasil, o dramaturgo Nelson Rodrigues
deu-lhes o apelido de "padres de passeata". O mais célebre
era dom Hélder Câmara, cuja juventude, ironicamente,
foi passada entre as hostes da extrema direita. Entre a ala que
aderira ao regime dos generais e a esquerdista da Teologia da Libertação,
havia um grupo equilibrado dentro dos muros da Igreja, que manteve
seus votos de misericórdia e não sucumbiu aos proselitismos
políticos. Foi o que enfrentou de verdade a ditadura, ao
salvar a vida de muitos presos da esquerda brasileira. Dom Eugênio
Sales figurava entre essas batinas. Como escreveu VEJA em 2001,
quando de sua aposentadoria, ele "teve a coragem de dizer um
rotundo não a uma idéia fora de lugar
que permanece popularíssima no baixo clero latino-americano:
a Teologia da Libertação, que adicionou ao sangue
de Cristo o vermelho da bandeira comunista. Não era fácil
fazê-lo no auge da ferocidade da ditadura militar brasileira,
quando a tentação marxista parecia ser a resposta
ao autoritarismo de inspiração fascista. Dom Eugênio,
desde sempre, esteve do lado de Deus o da Igreja Católica,
Apostólica, Romana, à qual jurou fidelidade quando
se ordenou". Nessa condição, sem alarde, ajudou
a livrar da morte e da prisão mais de 4 000 pessoas.
O que disse VEJA em 1968
"Uma renovação nesse setor não poderá
ser puramente exterior, fazer a missa mais bonitinha,
com música mais moderna e alguma movimentação
diferente melhor embalagem para vender melhor a mercadoria.
Em breve enjoará. A reforma tem de ser profunda, levar a
uma conscientização do sentido profundo da missa."
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As greves ilegais
Folha Imagem
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MÃO
NA CABEÇA
Sindicalistas presos na cidade de Osasco, em São
Paulo, em 1968. Hoje, eles fazem a política dos
coquetéis |
Em 1968, o Brasil vivia
a política do arrocho salarial. O governo só
autorizava reajustes abaixo dos índices de inflação.
Queria tirar dinheiro de circulação para impedir
uma disparada dos preços. O problema óbvio dessa
política é que ela destrói o poder de
compra dos salários e causa insatisfação
geral. Para se precaverem contra protestos, os generais estabeleceram
uma série de regras para a realização
de greves. Eram tantos entraves que, na prática, todas
eram consideradas ilegais. Ainda assim, dois importantes movimentos
grevistas eclodiram, desafiando o governo. O primeiro, em
Contagem (Minas Gerais), teve sucesso: os operários
conquistaram 10% de aumento, posteriormente estendido a todos
os trabalhadores do país. O segundo, em Osasco (São
Paulo), teve outro desfecho: a ditadura prendeu quarenta metalúrgicos
e acabou com a agitação a golpes de cassetete.
Daí em diante, os sindicatos foram duramente perseguidos.
Só voltariam à cena no fim dos anos 70, no ABC
paulista, quando, além de lutar por melhores salários,
ajudaram a derrubar o regime militar, exigindo maior abertura
política. Hoje, os sindicatos viraram negócio.
A Constituição de 1988 lhes garantiu imensas
fontes de financiamento oficial. Com o PT no governo, incrustaram-se
de vez no poder. Os sindicalistas não fazem mais panfletagem
em porta de fábrica, nem enfrentam a polícia.
Dis-putam indicações para cargos públicos,
freqüentam coquetéis do governo e fazem negócios
obscuros com bancos oficiais. Conquistas sindicais, agora,
só são brindadas com uísque escocês.
O que disse VEJA em 1968
"Nenhuma greve pode exigir mais do que o acordo fixado
pelo governo, pois é ilegal e será reprimida."
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Salve a seleção
AP
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PRA FRENTE, BRASIL
Pelé, o rei do futebol, recebe sua coroação
definitiva depois da final da Copa do México. Em 1969,
chegaram a dizer que ele estava tão míope que
não poderia mais jogar |
|
AE

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PEITOU O GENERAL
Saldanha montou a base da seleção que venceu a
Copa de 1970, mas foi demitido após divergir de Médici |
No fim da década de 60, havia duas visões políticas
antagônicas sobre a então genial seleção
brasileira de futebol. Do lado dos generais, o "escrete canarinho",
para usar a expressão dos antigos locutores de rádio
e televisão, era visto como uma ótima forma de fazer
propaganda do regime. Seria a metáfora, nos gramados, das
vitórias obtidas no campo econômico. Do lado da esquerda,
os ânimos apresentavam-se iracundos. Alegava-se que a possível
vitória do time na Copa do Mundo de 1970 serviria para "alienar"
ainda mais o povo dos reais problemas do país. Longe dessas
palermices, o brasileiro comum nunca se mostrou tão apaixonado
pela seleção brasileira quanto naquele tempo. Quando
começaram as eliminatórias, em 1969, a torcida parecia
saber que uma conquista histórica estava a caminho. Pouco
antes, o jornalista João Saldanha havia aceitado o convite
para dirigir a equipe e dissera que só convocaria feras.
As "feras do Saldanha" não decepcionaram. Formaram
um time que, para muitos, foi o melhor da história. A primeira
providência do novo treinador foi harmonizar o posicionamento
de dois atacantes que jogavam no mesmo pedaço: Pelé
e Tostão. Quando eles se entenderam, o resto se encaixou
por mágica. Saldanha, no entanto, ficou pelo caminho. Recusou-se
a convocar jogadores indicados pelo presidente Médici (que,
apesar de flamenguista, era fã de Dadá Maravilha,
do Atlético Mineiro) e foi demitido. Em seu lugar, assumiu
Zagallo, que teve a sabedoria de não mexer no time. A formação
que venceu a Itália por 4 a 1 na final da Copa era irretocável:
Félix; Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza e Everaldo; Gérson,
Clodoaldo, Pelé e Rivellino; Tostão e Jairzinho. Naquele
tempo, além desse timaço, o Brasil tinha 90 milhões
de torcedores em ação. Hoje, tem o dobro da torcida,
mas nem metade do futebol.
O que disse VEJA em 1968 "Na
reunião com João Havelange, da Confederação
Brasileira de Desportos, o presidente Costa e Silva criticou o individualismo
no futebol. A base de tudo é disciplina, treinamento
e hierarquia, disse o presidente, iniciando a conversa. Os
outros não falavam nada. Ouviam. Expansivo, o marechal criticou
o personalismo, o individualismo de alguns jogadores, principalmente
Jairzinho, do Botafogo. Como ele dribla, exclamou o
presidente, como quer ir sozinho para o gol! E proibiu:
Não pode. Justificando-se, lembrou que as equipes
alemãs ou inglesas têm método de jogo. Há
sobretudo disciplina. Lá não há individualismo.
Então, o presidente foi ao que interessava: Precisamos
combinar, porque em 1970 eu ainda sou governo e quero ver se dou
ao Brasil esse tricampeonato."
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