| Entrevistas
1951 entrevistas em 39 anos As
páginas amarelas de VEJA, com uma entrevista em pingue-pongue, apareceram
pela primeira vez na edição de número 39, de junho de 1969,
quase um ano depois do lançamento da revista. A estréia foi com
o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues. No início, as entrevistas tinham
quatro páginas, eram impressas em papel mais grosso e o entrevistado era
retratado com uma caricatura. Em 1970, chegou-se ao formato próximo do
atual, com três páginas e foto das personalidades. Nas 1 951 entrevistas
que publicou até hoje, VEJA ouviu os maiores nomes da política,
economia, ciência, literatura, arte e do mundo dos espetáculos. Ouviu,
ainda, algumas cabeças ocas, porque jornalismo também é puro
entretenimento. A seguir, uma seleção de trechos das páginas
amarelas publicadas ao longo de 39 anos.
"Para o comunista, o pequeno-burguês
é um idiota absoluto justamente porque tem escrúpulos."
Nelson Rodrigues | Antonio
Andrade  |
Nelson Rodrigues
- 1969 Cronista e dramaturgo Mas,
na política, o que você é exatamente? Eu sou
um anticomunista. Conhecíamos o canalha, o mentiroso, o vampiro de Düsseldorf.
Todos os pulhas de todos os tempos e de todos os idiomas, mas, ainda assim, homens.
O comunismo inventou alguém que não é homem. Para o comunista,
o que nós chamamos de dignidade é um preconceito burguês.
Para o comunista, o pequeno-burguês é um idiota absoluto justamente
porque tem escrúpulos. Yasser
Arafat - 1970 Líder palestino Os
israelenses juram que o senhor invadiu Israel por duas vezes. Aquilo
que você chama de Israel é a minha casa. Portanto, eu não
estava invadindo Israel. Realmente, já estive lá e não só
duas vezes, mas muitas outras. Nós não queremos a paz. Queremos
a guerra, a vitória. A paz, para nós, significa a destruição
de Israel e nada mais. Salvador
Dalí - 1971 Pintor espanhol Atualmente,
acho que você é a única pessoa do mundo a favor da Guerra
do Vietnã, não? Eu não sou somente a favor
da Guerra do Vietnã, mas a favor de todas as guerras. A guerra é
uma empresa saudável, gloriosa. Faz com que os homens sonhem, traz à
tona paixões recalcadas, é uma época de esperanças
e grandes ilusões. Com isso, com sua intensidade, faz com que a arte, a
ciência e as idéias se desenvolvam. Do ponto de vista erótico,
as guerras desencadeiam impulsos reprimidos e estimulam a sensibilidade das pessoas.
E veja: além de tudo, se houvesse paz o tempo inteiro, nós seríamos
vítimas de uma mortal monotonia. Silvio
Santos - 1971 Apresentador de TV Televisão
é um bom negócio? Não, é um negócio
arriscado. Mas não é isso que me importa. Meu objetivo é
ter uma emissora, e vou ter. Comecei minha carreira como locutor, como um soldado,
e gostaria de terminar como um marechal. Só no dia em que eu tiver uma
estação de TV, me sentirei realizado. Se perder algum dinheiro nisso,
não faz mal. Estarei gastando no meu hobby. Assim como o Onassis dá
festas em seu iate e gasta milhões, eu faço televisão. Tarsila
do Amaral - 1972 Pintora Como
surgiu o famoso Abaporu? Quis fazer um quadro que assustasse o
Oswald de Andrade, sabe? Que fosse uma coisa mesmo fora do comum. O Abaporu
era aquela figura monstruosa, a cabecinha, aquelas pernas compridas, enormes,
junto a um cacto. Quando viu o quadro, o Oswald ficou assustadíssimo e
perguntou: "Mas o que é isso? Que coisa extraordinária!". David
Ben-Gurion - 1973 Ex-primeiro-ministro de
Israel Não é terrível
pensar que essa guerra vai continuar? Temos alguma escolha? Um dia, nossos
inimigos acabarão se convencendo de que precisam tanto da paz quanto nós.
Mas, até que isso aconteça, precisamos nos defender. Somos um pequeno
país e um pequeno povo, e continuaremos a viver perigosamente. Sérgio
Buarque de Holanda - 1976 Historiador Quando
o senhor afirma que no Brasil nunca houve democracia, isso talvez signifique que,
em certo sentido, as massas populares jamais participaram do jogo político
nacional? Claro. No Brasil, sempre foi uma camada miúda
e muito exígua que decidiu. O povo sempre está inteiramente fora
disso. As lutas, ou mudanças, são executadas por essa elite e em
benefício dela, é óbvio. A grande massa navega adormecida,
num estado letárgico, mas em certos momentos, de repente, pode irromper
brutalmente. Norberto Bobbio -
1979 Filósofo italiano Quais
os erros que o senhor vê na aplicação prática do marxismo
nos chamados países de socialismo real? Acho que um problema
básico é recolocar a estratégia de Lenin em nossos dias,
ou seja, a tomada do poder por um partido que, uma vez no comando, elimina os
demais. Pode parecer um pouco simplificador o que estou dizendo, mas, reduzindo-se
o leninismo ao essencial, é isso mesmo. Vinicius
de Moraes - 1979 Poeta e Compositor Você
é um homem religioso? Tenho a impressão de que,
no fundo, sou. Mas não acredito no candomblé, tampouco acho que
deva acreditar: é uma religião deles, dos negros, e eu sou um homem
branco, com uma cultura muito diferente. Agora, a beleza dos ritos, a Mãe
Menininha... Minha relação é mais com a Menininha que com
o candomblé, é algo mais pessoal que místico. E
você segue essa religião? Não... Eu faço
lá as coisas que a velha manda, isso eu faço. Por exemplo, não
entro num avião sem pegar uma bolinha de farinha e passar no corpo todo.
Tudo isso, evidentemente, é fruto da imaginação. Mas também
é chato você não acreditar em nada.
"Para que se façam eleições,
as condições são claras: tem que haver partidos, candidatos
e liberdade." Ulysses Guimarães | Rogério
Reis  |
Ulysses Guimarães -
1980 Presidente do PMDB O
governo Figueiredo tem reiteradamente advertido que, unindo liberais e radicais,
o PMDB inviabiliza a eleição direta dos governadores em 1982.
Esse tipo de raciocínio é viciado. O governo aplica
o raciocínio de democracia relativa. Não lhe cabe designar os membros
de um partido. Eu não aceito isso. Estabelecer que só haverá
eleições se os candidatos se comportarem assim ou assado, ficarem
aqui ou ali, não tem sentido. Para que se façam eleições,
as condições são claras: tem que haver partidos, candidatos
e liberdade. Jorge
Luis Borges - 1980 Escritor argentino O
senhor já leu Pablo Neruda? Pouco, mas o conheci pessoalmente.
Foi um encontro breve, ele me disse que o espanhol não lhe servia mais
e que pensava em escrever em inglês. Eu lhe respondi que respeitava demais
o inglês para aconselhá-lo a fazer uma coisa dessas. Nosso diálogo
acabou aí. Como poeta, tem algumas coisas boas. Mas seus versos de amor
são fracos. Carlos
Drummond de Andrade - 1980 Poeta Sem
falsa modéstia: o senhor tem consciência da dimensão de sua
obra? Acho minha obra uma obra falha, uma obra que podia ser melhor.
Ao escrever poesia, o que procurei fazer foi resolver problemas internos meus,
problemas de ascendência, problemas genéticos, problemas de natureza
psicológica, de adaptação ao mundo como ele existia. O resultado
é esse. Não tenho maiores pretensões. As coisas mudam muito.
Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e virão novos poetas, novas
formas de poesia, novos critérios, novas tendências. Amanhã
ou depois, daqui a cinqüenta anos, um sujeito diz: "Olha, descobrimos
um poeta chamado Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Que coisa curiosa".
Ou "que coisa chata". Roberto
Carlos - 1981 Cantor Você
está processando seu ex-mordomo, que lançou um livro a seu respeito.
Por quê? O livro é uma inverdade no seu todo. Esse
livro é um desrespeito não só a mim, mas também às
pessoas que são citadas nele. Não permitir seu lançamento
é uma questão moral. Estou defendendo não só o meu,
mas sim o direito que toda pessoa de vida pública tem de se defender da
exploração de seu nome e de sua imagem, indevidamente. Pierre
Cardin - 1981 Estilista francês O
senhor foi o primeiro grande costureiro a partir para a massificação,
para o prêt-à-porter, ainda na década de 50, e naquela ocasião
sofreu muitas críticas de outros costureiros. O que pensa hoje dessas críticas?
A alta-costura era um privilégio. Não se podia conceber
que o patrão e o empregado vestissem as mesmas roupas. Hoje, isso acontece.
É uma questão de mentalidade. Nessa época, eu era jovem e
contestador. Não compreendia por que algumas pessoas tinham dinheiro para
comprar um modelo e outras não. Eu era jovem... Telê
Santana - 1981 Técnico da Seleção
Brasileira de Futebol Um jogador homossexual
teria lugar no seu time? Homossexual, não. Não joga
de jeito nenhum. Pode ser muito bom para outras áreas, mas num clube de
futebol não tem lugar para gente assim. Não fica bem ter um homem
com um homossexual numa concentração.
"O universo é três vezes mais
velho que a Terra. Parece improvável que sejamos os únicos seres
inteligentes. É possível, mas é improvável." Carl
Sagan | Bill Ray  |
Carl Sagan - 1982
Astrônomo americano O senhor
é criticado por outros cientistas quando defende a possibilidade de vida
em outros planetas. A descoberta da inexistência de micróbios em
Marte alterou suas convicções? Essa questão
é extremamente importante. Estamos sozinhos no universo ou há outros
seres? Existem micróbios em outros mundos? E vida inteligente? Não
há respostas fáceis. Não basta pousar uma vez em Marte para
saber se existem por lá uns seres esverdeados ou não. Como poderíamos,
hoje, concluir que não há vida no resto do universo, se existem
400 bilhões de sóis apenas na Via Láctea, a galáxia
em que está a Terra, e se há pelo menos mais 100 bilhões
de galáxias além da nossa? A química que produz a vida é
reproduzida facilmente por todo o cosmo. Por que seríamos tão privilegiados?
O universo é três vezes mais velho que a Terra; devem existir, portanto,
lugares em que houve mais tempo para a evolução biológica
que em nosso planeta. Parece improvável que sejamos os únicos seres
inteligentes. É possível, mas é improvável. Gilberto
Freyre - 1984 Sociólogo Em
Casa-Grande & Senzala, o senhor sustenta que a miscigenação
ocorrida no Brasil, ao superar os conflitos de classe e raça, se transformou
numa experiência bastante bem-sucedida. Mas a última Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios, do IBGE, mostra que a ascensão social
do mulato e do negro está virtualmente bloqueada. A democracia racial não
seria também um mito? O problema é que a abolição
da escravatura, embora tenha sido fato notável na história da formação
brasileira, foi muito incompleta. Joaquim Nabuco, um homem de extrema visão,
lembrava que, com a abolição, os problemas do negro não estariam
resolvidos, eles estariam apenas começando. Nabuco dizia que era necessário
preparar o negro para ser cidadão, mas quem se interessou por isso? O novo
governo, os novos líderes, os industriais, a Igreja? Ninguém se
interessou. O negro livre deixou as fazendas e os engenhos e foi inchar as periferias
das cidades. Abandonado, constituiu-se num sub-brasileiro. Por isso, os dados
dessa pesquisa só revelam que há uma discriminação
contra homens que não foram educados para ser cidadãos brasileiros. Emílio
Garrastazu Médici - 1984 Ex-presidente da República Os
militares, porém, continuaram envolvidos nas operações antiterrorismo.
Por quê? Uma vez, os ministros militares quiseram usar as
Forças Armadas para combater o terrorismo, mas eu não deixei: "Isso
é trabalho para a polícia", avisei. Mas houve um tiroteio num
aparelho e um major da PM morreu ao socorrer um sargento que foi ferido. Então,
tive uma conversa com o ministro do Exército, general Orlando Geisel, e
perguntei: "Mas só os nossos morrem? Quando invadirem um aparelho,
terão de invadir metralhando. Estamos numa guerra e não podemos
sacrificar os nossos". Não há dúvida de que era uma
guerra, depois da qual foi possível devolver a paz ao Brasil. Eu acabei
com o terrorismo neste país. Ayrton
Senna - 1985 Piloto de Fórmula 1 Em
que você fica pensando nas duas horas que dura uma corrida? Não
penso em nada. A cabeça fica a mil por hora, mas absolutamente concentrada
na corrida. O piloto fica completamente amarrado dentro do carro, preso pelo abdômen,
pernas e braços, controlando a própria respiração.
Quanto mais imóvel seu corpo, mais estabilidade terá para dirigir.
Na corrida chego ao limite da resistência física e psicológica.
Emoção, eu só sinto depois de passar a linha de chegada.
Luiz Inácio Lula
da Silva - 1987 Sindicalista e presidente
do PT O senhor seria candidato à
Presidência da República? Eu concorreria se meu nome
ajudasse na organização do partido em nível nacional. Seria
uma oportunidade de promover a apresentação do programa de governo
do PT. Sei que tenho apenas o diploma primário, o curso do Senai e o meu
aprendizado na vida sindical, mas, ao analisar os conhecimentos políticos,
sociológicos e filosóficos dos últimos presidentes, sinto-me
superior a eles porque tenho um diploma que eles não têm: o da compreensão
dos problemas sociais.
"Aí vem um Paulo Francis e escreve:
A bossa nova é 50% jazz. Mentira. É um troço
brasileiro." Antonio Carlos Jobim | Ricardo
Chvaicer  |
Antonio Carlos
Jobim - 1988 Compositor Ainda
hoje há críticos que dizem que bossa nova não é música
brasileira. Como você reage a isso? A bossa nova é um negócio
que apareceu com um baiano chamado João Gilberto, que é um cara
de um talento genial. Aí vem um Paulo Francis e escreve: "A bossa
nova é 50% jazz". Mentira. É um troço brasileiro que
surgiu aqui com Chega de Saudade, com uma introdução tipo
choro, e não tem nada de jazz. Paul
McCartney - 1989 Ex-beatle O
que os Beatles tinham que Madonna e Michael Jackson não têm?
Falta-lhes profundidade. Falta-lhes qualidade musical. Parece pretensioso,
mas é certo que as músicas de Lennon e McCartney eram muito melhores
do ponto de vista musical. Até hoje são modernas, intrigantes, ousadas.
Michael Jackson, por exemplo, é um bom cantor, mas é, sobretudo,
um showman. É um grande bailarino, mas não toca nenhum instrumento. Roberto
Campos - 1989 Senador da República Por
suas idéias, o senhor já foi chamado de entreguista, reacionário,
conservador e outras coisas. Não se cansou de ser malhado?
Sinto tédio. Digo há trinta anos que o Brasil deveria optar pela
absorção de capital e tecnologia externos e cultivar uma orientação
exportadora, e a esquerda sempre me criticou por isso. Esses postulados tornaram-se
evangelhos na União Soviética, com Gorbachev. Vê-se agora
que eu estou certo há trinta anos, e a esquerda está errada há
trinta anos. Bill Gates -
1992 Presidente da Microsoft Como
serão os computadores daqui a dez anos? O computador terá
o tamanho que você quiser. Poderá ser do tamanho da sua carteira
ou da sua parede. A pessoa andará com um computador do tamanho da carteira,
dará os comandos através de teclados, da escrita manual ou da fala
e as informações serão vistas em terminais planos, finos,
pendurados nas paredes. Nessas superfícies planas, substitutas daquilo
que hoje são os tubos dos terminais e das televisões, aparecerão
dados, filmes, textos, arquivos, o que você quiser. Haverá telas
desse tipo em todos os lugares. As pessoas terão uma enorme liberdade de
escolha desses equipamentos. Não vai existir mais aquilo que hoje nós
chamamos de "o meu computador". Steven
Spielberg - 1992 Cineasta americano O
que o senhor acha da tese de que a violência no cinema e na televisão
estimula o público a agir da mesma forma? Acho correta.
Assistir à violência no cinema ou em programas de TV estimula muito
mais os espectadores a imitar o que vêem do que assistir a ela ao vivo nos
telejornais. No cinema, a violência é filmada com iluminação
perfeita, em cenas espetaculares, em câmera lenta, tornando-se até
romântica. Já no noticiário o público tem a percepção
muito melhor de como a violência pode ser horrorosa, e usada com finalidades
que não existem no cinema. Madonna -
1992 Cantora americana Você
gosta de apanhar, de levar tapas? Verdade. Que
sensações as palmadas lhe dão? Não é
da sua conta. Nelson Piquet -
1993 Piloto de Fórmula 1 Que
piloto é mais assediado pelas mulheres: o mais bonito ou o que estiver
em primeiro lugar no campeonato? O que passar na frente delas. Pode ser
bonito, feio, azul, branco, tanto faz. A mulherada fica louca. Stephen
Jay Gould - 1993 Paleontólogo americano O
homem é uma espécie vitoriosa por ter chegado aonde chegou?
Não. Em primeiro lugar, porque ainda é muito cedo para qualquer
comemoração. Estamos na Terra há muito pouco tempo na escala
geológica. Mesmo em relação a outras espécies que
já desapareceram, como é o caso dos dinossauros, não podemos
ser vistos como os seres vivos que se saíram melhor. Os dinossauros viveram
durante 120 milhões de anos. A espécie humana vive há 250
000. Não existe uma vantagem absoluta no desenvolvimento da inteligência.
Ela é uma tremenda adaptação, uma formidável ferramenta
desenvolvida pela humanidade, mas não é uma garantia de que vamos
sobreviver para sempre como espécie. Pelo que temos visto até agora,
o intelecto humano ajudou bastante, mas não tem compromisso absoluto com
a sobrevivência da humanidade nem com a manutenção da vida
no planeta. Existem indícios de que pode ser exatamente o oposto, e o progresso
que a inteligência produziu pode ser um atalho para a extinção
da espécie humana. Margaret
Thatcher - 1994 Ex-primeira-ministra da Inglaterra A
senhora sente falta do poder? Não. Estive mais de onze
anos no poder, era hora de uma mudança. Creio que fiz um bom trabalho,
em prol da reputação da Inglaterra, tanto internamente quanto no
resto do mundo. Acho também que o presidente Ronald Reagan e eu demos uma
grande contribuição à demolição do comunismo. Hebe
Camargo - 1994 Apresentadora de televisão O
nome Hebe Camargo virou sinônimo de burrice. Por quê? Porque
o sucesso incomoda. E, se é para fazer sucesso, prefiro continuar burra. Carmen
Mayrink Veiga - 1996 Socialite A
senhora disse que jamais trabalharia na vida. Eu nunca disse isso.
O que eu declarei certa vez é que na minha vida, cheia de compromissos
e de viagens, não tinha lugar para o trabalho. Penei com termos pejorativos
horrorosos, como grã-fina, dondoca e, agora, essa tragédia de ser
chamada de socialite. Nem sei o que é isso. Sempre trabalhei como uma negra,
grátis, sem ter férias nem salário. Você acha que ser
dona-de-casa é pouco? Robert
Gallo - 1996 Cientista americano Por
que é tão difícil produzir uma vacina contra a aids?
Um dos problemas é a enorme capacidade do HIV de executar mutações.
Uma vacina que use o vírus vivo, mas atenuado, a exemplo das vacinas já
existentes para muitas outras doenças, seria altamente arriscada. O HIV
pode mudar de configuração e provocar a doença mesmo em pessoas
vacinadas. Isso já foi comprovado. Outro problema é que o vírus
integra seus genes às células de defesa do organismo. O próprio
sistema imunológico, assim, estimula a reprodução do inimigo
que é encarregado de combater. Uma vacina contra o HIV terá
de bloquear a entrada do vírus na célula, para impedir que a infecção
ocorra, e colaborar na ação do sistema imunológico. Além
dos problemas científicos, há limitações financeiras.
As empresas farmacêuticas não estão querendo dar o dinheiro
necessário às pesquisas. Querem lucros imediatos.
"Não vou a conferências, nem
a festas literárias. Gosto mesmo é de cozinhar e de assistir a futebol
e boxe." Rachel de Queiroz | Oscar
Cabral  |
Rachel
de Queiroz - 1996 Escritora Como
é a vida de escritora? Se for levar essa vida a sério,
é bastante chata. Mas vivo nela toda satisfeita. Não vou a
conferências, nem a festas literárias. Gosto mesmo é de
cozinhar e de assistir a futebol e boxe. Fico até tarde da noite para
assistir a uma luta do Mike Tyson. Raduan
Nassar - 1997 Escritor O
que o senhor gosta de fazer nas horas vagas? Gostar, gostar para valer,
eu gosto mesmo é de dormir. Dormir é a melhor coisa deste
mundo. Nem leitura, nem diversão, nem uma boa mesa, nada se compara. Sexo
então é fichinha perto. É um momento de magia quando
você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o seu corpo
e a sua cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade,
tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília
para o sono. É o nirvana! Norman
Mailer - 1998 Escritor americano O
senhor acha que o mundo era melhor nos anos 60, quando o senhor apanhava da polícia
ao lado dos estudantes nos protestos de rua em Washington? Pelo menos
havia mais esperança naquela época. O mundo parecia uma obra aberta.
Pensávamos que podía-mos tudo. Logo descobrimos que nossa força
era falsa. A polícia matou quatro estudantes no câmpus da Universidade
Estadual da Pensilvânia em 1968, e nós nos escondemos. A revolta,
em vez de se incendiar, tomar conta do país e derrubar o governo, estiolou-se.
Descobrimos que não éramos revolucionários coisa nenhuma.
Tínhamos um movimento de classe média espasmódico e inconseqüente.
Foi uma dura revelação. A esquerda acabou nos Estados Unidos. Pelo
mundo afora ela continuou produzindo seus erros prodigiosos, trocando princípios
por pequenas vitórias eleitorais. Abraçou uma via racional para
o poder enterrando o que tinha de melhor, a meu ver, que era o apelo quase religioso
à igualdade. Paul
Johnson - 1998 Ensaísta inglês O
senhor não acredita que haja um legado de esquerda a ser explorado no presente?
Não. Karl Marx foi um embusteiro intelectual que distorcia fatos.
É claro que seu sistema não funcionou quando aplicado à
União Soviética: estava todo embasado em falsidades. Seu único
legado foi conduzir um país rico como a Rússia à pobreza.
Não há qualidades redentoras, nenhuma que seja, no marxismo. Aqueles
que discordarem de mim que mostrem provas. Mostrem-me um regime que tenha empregado
princípios marxistas e tenha melhorado a vida de seus cidadãos.
Não há. Todos os que enveredaram por esse caminho na Europa, América
Latina, Ásia ou África falharam. Também não faço
nenhuma distinção entre nazismo, comunismo e fascismo. Foram todos
movimentos totalitários e radicais pertencentes à esquerda. Marx,
afinal de contas, derivou todas as suas teorias de Hegel, assim como os nazistas.
Todos os sistemas totalitários do século XX foram de esquerda: apenas
na superfície pareceram pertencer à direita.
"Nunca fui coronel, nunca. Fiz minha carreira
ligada ao povo. Poucos receberam no Brasil tanto batismo popular quanto eu." Antonio
Carlos Magalhães | Ana Araujo
 |
Antonio Carlos
Magalhães - 1998 Político O
senhor é um coronel? Nunca fui coronel, nunca. Fiz minha carreira
ligada ao povo. Poucos receberam no Brasil tanto batismo popular quanto eu. Não
sou truculento, e a prova é que 80% dos baianos votam em mim. Tenho
voto no interior e na capital. Precisam rotular ACM de coronel porque ACM é um
homem forte. Se é verdade que sou pai do meu povo, sou um pai amoroso. Tom
Wolfe - 1999 Jornalista e escritor americano
Seus ternos brancos já se tornaram
lendários. Por que o senhor os usa? Comecei a usá-los há
mais de vinte anos. Naquela época, usar ternos brancos o ano inteiro costumava
ser divertido, porque as pessoas realmente se sentiam ofendidas e perturbadas
com isso. Hoje em dia, infelizmente, o impacto diminuiu um pouco: todo mundo veste
qualquer tipo de roupa. Mark Twain também usava ternos brancos, como eu
descobri há alguns anos, bem depois de ter aderido ao hábito. Ele
tinha uma ótima frase a respeito do assunto. Twain dizia: "Jamais
me passou pela cabeça dar tanto na vista. Por outro lado, também
não me desagrada a idéia de ser notado em toda parte". Isso
resume a questão. Além disso, as roupas costumavam ser um meio direto
de manifestar o status social. Hoje, ocorre certa inversão. Pessoas com
dinheiro e poder procuram vestir-se e comportar-se como trabalhadores rurais.
Não se barbeiam nos fins de semana e dirigem essas caminhonetes rústicas,
que podem enfrentar qualquer picada na floresta. Reginaldo
Rossi - 1999 Cantor Um
dos temas recorrentes na sua música é a traição.
O senhor já foi traído? Que eu saiba, não.
O marido traído é sempre o último a saber. Se fui, ainda
não me contaram. Fernando
Henrique Cardoso - 1999 Presidente da República O
senhor é acusado de ser muito lento para tomar decisões...
Eu não tomo decisões de repente. Exatamente porque sei qual é
o custo dessas decisões. Vivemos num país relativamente mal organizado,
contraditório, segmentado. O Brasil não é homogêneo.
Se o governo não imprimir certa tranqüilidade ao país, pode
provocar tumulto o tempo todo. Não se deve governar um país na base
do supetão. O pior é que esse tem sido um padrão cada vez
mais adotado na política. A política cada vez mais é mídia,
e a mídia requer o inusitado. Se o político vier com uma surpresa,
se atacar alguém, por exemplo, terá direito a um espaço nobre
na mídia e, portanto, na política. É difícil governar
com estabilidade num mundo que requer instabilidade, excitação e
nervosismo. Se o governante se transformar num político comum, ele vai
para o abismo. Um sujeito que não tem a responsabilidade que eu tenho no
governo pode dizer qualquer coisa e aparecer no jornal num dia, no dia seguinte,
mas esse procedimento não tem substância. Pelé -
2001 Ex-jogador de futebol O
que você achou da confusão criada pela Fifa em torno da eleição
do maior jogador do século? Foi desnecessária. Acho que
ninguém tinha dúvida antes sobre quem foi o melhor jogador de futebol
de todos os tempos. Ninguém tem dúvida agora. O melhor jogador foi
o Pelé. O Diego Maradona ganhou uma Copa do Mundo e fez 341 gols. O Romário
também ganhou uma Copa do Mundo e fez 760 gols. Se o Romário tivesse
nascido na Argentina, seria mais endeusado que o Diego. No dia que surgir um jogador
que vença três Copas do Mundo, dois campeonatos mundiais de clubes
e faça mais de 1 300 gols, eu quero estar vivo para passar-lhe pessoalmente
a faixa de o melhor do mundo em todos os tempos. Mas, sinceramente, não
acho que surgirá outro Pelé. Paulo
Coelho - 2001 Escritor Houve
uma época em que o senhor dizia que era capaz de promover magias como fazer
ventar, por exemplo. Hoje se arrepende dessas declarações?
Não me arrependo, porque isso é verdade. O
senhor pode fazer ventar agora? Não, não faço mais.
Isso é bobagem. Não preciso mais fazer demonstrações
públicas. E magias em benefício
próprio? O senhor dizia que costumava abrir o trânsito com a força
do pensamento. Ainda faz isso? Não, de jeito nenhum. Não
vou gastar energia com isso. Já fiz, já passou. Não
fica mais invisível, como dizia ficar? Não, isso é inútil.
Gasto minha energia em outras coisas agora.´ Wanessa
Camargo - 2003 Cantora Você
contou a seus pais sobre a sua primeira vez? Minha mãe questionou
minha virgindade quando eu tinha 15 anos e pedi para ir ao ginecologista. E olhe
que eu era mesmo virgem. Desde então, nunca mais tocou no assunto. Com
meu pai, jamais conversei a respeito de sexo. Ele vai ficar louco da vida quando
souber que perdi minha virgindade, porque sempre me viu como a menininha do papai.
E o pior é que ele vai saber através de VEJA... Mas, enfim,
sou uma mulher, tenho meus desejos e minhas vontades. Michael
Schumacher - 2003 Piloto de Fórmula
1 O senhor já dirigiu em São
Paulo? Já, claro. Dirijo quando vou ao circuito treinar ou a um
restaurante. É muito difícil. Os engarrafamentos são
inacreditáveis. De longe, é o pior lugar em que já dirigi
na minha vida. Rudolph Giuliani 2003
Prefeito de Nova York durante os atentados de 11 de setembro de 2001 Os
Estados Unidos voltarão a ser o mesmo país de antes dos ataques
terroristas? Não. Este país nunca mais será o mesmo.
A consciência dos perigos a que estamos expostos não vai se dissipar
nunca mais. Antônio
Ermírio de Moraes - 2003 Empresário Em
meio século dirigindo um dos maiores conglomerados industriais do país,
o senhor deve ter visto diversas modalidades de gestão, planejamento e
teorias administrativas. Qual delas lhe pareceu a mais útil? Sempre
procurei não seguir nenhuma moda. Não acredito em nenhum guru. Acredito
em dois mais dois é igual a quatro. Tudo o que estiver fora disso me parece
esquisito. Há uns cinco anos recebi a visita de um rapaz de uma dessas
firmas de consultoria que gostam de cobrar em dólar e falar inglês.
Quando o rapaz disse que tínhamos de sair do negócio de alumínio,
pedi licença e não fiquei para ouvir o resto. Vem aqui dar palpite
em idioma estrangeiro e ainda fala bobagem. Perdi a paciência. O fundamental
é seguir a lógica, o bom senso, e ouvir as boas cabeças
que você tem na empresa. Não existem truques. Nossos melhores colaboradores
estão conosco há várias décadas, trabalham dez horas
por dia e são homens sinceros. É isso que vale.
"Tenho certeza de que o melhor homem, no
seu melhor dia, ainda bate o computador em um jogo de xadrez." Garry
Kasparov | Stuart Ramson/AP  |
Garry
Kasparov - 2004 Enxadrista russo Nas
partidas que disputou contra o computador, o senhor ganhou e perdeu. Na sua opinião,
quem é mais forte: o homem ou a máquina? A desvantagem
do homem em relação à máquina é que o computador
é psicologicamente preciso, perfeito. Não tem instabilidade, mau
humor, irritação, dor de cabeça. Já a vantagem do
homem sobre o computador é a flexibilidade. O computador nasce programado
para olhar o jogo de um determinado jeito, com uma estratégia preestabelecida,
amarrada. E não muda. Eu, não. Tenho a habilidade de refazer a estratégia,
trocar minhas prioridades. A máquina é movida pela lógica
do cálculo perfeito. O homem tem o poder de fazer julgamentos. Tenho certeza
de que o melhor homem, no seu melhor dia, ainda bate o computador em um jogo de
xadrez e vai ser assim durante muito tempo. Quando digo "o melhor
homem", estou me referindo a não mais que quatro, cinco jogadores
no mundo inteiro. Eu já provei ser um deles. Venci, mas fiquei exaurido,
estraçalhado. Colin
Powell - 2004 Secretário de Estado
dos Estados Unidos Muita gente está
convencida de que os Estados Unidos não estão lutando contra o terrorismo,
mas atacando pessoas, religiões e países. O que o senhor diria a
essas pessoas? Primeiro, que os Estados Unidos foram atacados.
Nós não atacamos, fomos atacados. Em 11 de setembro fomos atacados
por terroristas baseados no Afeganistão que investiram contra nós
em nome da Al Qaeda e que viviam sob a proteção do Talibã.
Mataram 3 000 pessoas e dois prédios foram destruídos. O Pentágono
foi atingido e outro avião caiu no interior da Pensilvânia. Fomos
atacados. Esse é o inimigo que fomos caçar. Quando partimos atrás
dos membros da Al Qaeda, percebemos que existiam outras organizações
terroristas no mundo que estavam comprometidas com esses atos terríveis.
Nós sabíamos de sua existência, mas não havíamos
percebido o perigo que os terroristas representavam para todo o mundo civilizado. Jane
Fonda - 2005 Atriz americana Na
sua autobiografia, a senhora fala abertamente de temas como a sua bulimia e o
fato de sair em busca de prostitutas para fazer ménages à trois
e assim agradar a seu primeiro marido, Roger Vadim. Por que essa franqueza?
A idéia não era falar dos meus problemas alimentares e conjugais
de forma salaz. Mas que importância teria o livro se eu não fosse
100% honesta e só tratasse do que aparento ser? Isso é o que se
encontra na maioria das biografias de celebridades: uma reafirmação
das aparências e de inverdades. Chega dessa bobagem. Meu objetivo é
o oposto. É mostrar que as pessoas traem a si mesmas por insegurança.
A perfeição e o sucesso são fraudes a que não temos
de almejar. Al Gore -
2006 Ex-vice-presidente dos Estados Unidos Já
é possível imaginar um mundo que não dependa do petróleo?
O Brasil não só inovou no desenvolvimento desse combustível
alternativo, como se tornou líder mundial dessa indústria. O país
pode ensinar o resto do mundo a ter um melhor entendimento na solução
de problemas relacionados aos combustíveis fósseis. Prova disso
é o sucesso dos carros flex. Esses veículos mostram aos demais
países que há alternativas viáveis e que não é necessário
mendigar a misericórdia dos países do Oriente Médio e da
Venezuela.
"Pelas minhas estimativas, a situação
climática se tornará insuportável antes mesmo da metade do
século, lá pelo ano 2040." James
Lovelock | Suzanne Dechillo/The New York Times
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James Lovelock - 2006
Cientista inglês Quando o aquecimento
global chegará a um ponto sem volta? Já passamos desse
ponto há muito tempo. Os efeitos visíveis da mudança climática,
no entanto, só agora estão aparecendo para a maioria das pessoas.
Pelas minhas estimativas, a situação se tornará insuportável
antes mesmo da metade do século, lá pelo ano 2040. Alain
Ducasse - 2007 Chef francês A
alta gastronomia deve ser necessariamente cara? Essa questão
é levantada com menos freqüência em relação
aos preços da alta-costura. Ora, o brilho da alta-costura serve como referência
máxima da moda, ajuda a impulsionar o prêt-à-porter. E a tecnologia
de ponta dos carros de Fórmula.1 se presta ao desenvolvimento da indústria
automobilística. A mesma coisa acontece com a alta gastronomia, que contribui
para a culinária de modo geral. Ela só pode ser cara. Afinal de
contas, é feita com conhecimento e técnicas apuradas, por profissionais
altamente qualificados e com os melhores produtos. É proposta ao cliente
acompanhada de objetos refinados e no contexto de ambientes raros. Como em qualquer
outro campo, a excelência merece ser premiada. Madeleine
Albright - 2008 Ex-secretária de
Estado dos Estados Unidos Os questionamentos
sobre a liderança americana se tornaram mais freqüentes depois que
começou a guerra contra o terror. Os Estados Unidos são menos indispensáveis
hoje? As pessoas criticam a forma como exercemos o poder, mas
o país continua indispensável. Acabo de voltar do Oriente Médio
e da Europa. Lá, todos acompanham de perto nossas eleições.
Essa excitação prova que as pessoas querem, sim, nossa liderança.
Muitos chegaram a me dizer que os estrangeiros deveriam ter o direito de votar
nos Estados Unidos, porque o que acontece aqui os afeta diretamente. O que precisamos
discutir é de que forma nós devemos nos engajar. |