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40 coisas que mudaram sua vida em 40 anos

   
 

Imagens de 40 anos

Vermelho e irreverente

Em maio de 1968, estudantes tomaram conta das ruas de Paris, para atacar o poder político, as instituições e o capitalismo, num movimento que se espraiaria por outras capitais européias e marcaria o imaginário juvenil. Seu líder: um cidadão alemão ruivo e rechonchudo, chamado Daniel Cohn-Bendit, ou "Dany Le Rouge" (O Vermelho), em referência tanto à cor de seu cabelo quanto a seu esquerdismo. Ele foi transformado em ícone graças a imagens como a que ilustra estas páginas, na qual enfrenta policiais armado apenas de seu sorriso gaiato. Filho de judeus que emigraram para a França fugindo do nazismo, Cohn-Bendit acabou expulso do país. Durante a década de 70, flanou pela Europa aproveitando a dolce vita que a aura de líder revolucionário lhe proporcionava. Nos anos 80, fixou-se na Alemanha, onde abraçou de vez a política. Trocou o vermelho pelo verde da ecologia e elegeu-se deputado do Parlamento Europeu – o emprego que todo revolucionário pediu a Deus.

 

O segundo mártir

Depois da morte de seu irmão mais velho – o presidente John Kennedy, assassinado em 1963 –, Robert Kennedy assumiu a responsabilidade de manter o legado de sua família na política americana. Braço-direito de John na Casa Branca, ele se encarregara de missões duras: enfrentar a Máfia, monitorar os comunistas e ajudar a contornar a crise dos mísseis em Cuba, o momento da Guerra Fria em que Estados Unidos e União Soviética estiveram mais perto de um confronto nuclear. Em 1968, demonstrava ter superado a tragédia familiar e era popular como nunca. Com declarações a favor da igualdade racial e contra a Guerra do Vietnã, lutava para ser escolhido candidato do Partido Democrata nas eleições presidenciais daquele ano, e tinha boas chances de sucesso. Nem mesmo as suspeitas de seu envolvimento na morte da atriz Marilyn Monroe – de quem foi amante, assim como seu irmão John – pareciam capazes de deter sua trajetória. Mas ela foi interrompida em 5 de junho por Sirhan Bishara Sirhan, radical palestino que o matou a tiros depois do anúncio de sua vitória nas primárias da Califórnia. Era a segunda vez na década que os Estados Unidos choravam pela família Kennedy.

 

Nasa

A Lua é americana

"Este é um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco salto para a humanidade", disse Neil Armstrong, ao pisar na superfície lunar, em 20 de julho de 1969. O tom épico do astronauta americano se justificava também pelas circunstâncias históricas: no capítulo "corrida espacial", um dos mais vistosos da Guerra Fria, a chegada do homem à Lua representou a maior vitória dos Estados Unidos sobre a então União Soviética. Outras missões americanas fincaram bandeiras e passearam de jipe no satélite da Terra, mas a imagem que ficou registrada para a posteridade foi a dos pioneiros da Apollo 11. Eles proporcionaram um espetáculo do outro mundo para 1 bilhão de pessoas, que assistiram ao vivo, pela TV, ao pouso na região lunar batizada de Mar da Tranqüilidade. Com o desligamento do motor da Guerra Fria, as missões tripuladas ao espaço perderam as conotações ideológicas e, em conseqüência, boa parte do patrocínio oficial. Isso porque, nas contas ainda mais frias da ciência e da administração pública, missões não-tripuladas têm melhor relação custo-benefício. Só nos últimos dois anos se voltou a falar seriamente em enviar astronautas à Lua e – no que seria um salto bem maior para a humanidade – ao planeta Marte.

 

Michael Ochs Archives/Getty Images

Os inventores do pop

Paul McCartney, Ringo Starr, George Harrison e John Lennon moldaram a música que você, leitor, ouve hoje no rádio. O grupo formado no fim dos anos 50 em Liverpool, na Inglaterra, pode ser considerado o inventor do gênero pop, com seus concertos para multidões de fãs que não se limitam a ouvir a música de seus ídolos, mas também querem emulá-los. O quarteto ditou grande parte do comportamento e da moda dos anos 60. Apóstolos da vertente psicodélica, eles ajudaram a divulgar a cultura da droga e flertaram com o misticismo indiano. Gravaram canções pegajosas como I Wanna Hold Your Hand e discos que ainda hoje soam inovadores, como Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Durante quase uma década, foram mesmo, como John Lennon disse numa entrevista polêmica em 1966, mais famosos do que Jesus Cristo. Hoje, a beatlemania só sobrevive como nostalgia. Não parece casual que a banda tenha se desfeito em 1970: a dissolução dos Beatles foi o fim espiritual dos anos 60. "O sonho acabou", decretou Lennon, assassinado por um maluco em 1980.

 

O profeta radical

Bettmann/Corbis/Latin Stock


Quem sabia o que era um xiita antes de 1979?
Ao chegar ao poder no Irã, o aiatolá Khomeini inseriu o nome dessa corrente muçulmana no vocabulário mundial. Com seus sermões gravados enviados do exílio, ele mobilizou as massas que derrubaram a monarquia. Parecia um profeta barbudo repetindo verdades imemoriais, mas na realidade estava reinventando algo que não se via fazia 1 400 anos no mundo muçulmano: um regime absolutista exercido diretamente pelos homens de turbante, os chefes religiosos. Um regime repressivo e sombrio, que colocou outras expressões em circulação – Grande Satã (os Estados Unidos na ótica dos fundamentalistas), xador (a roupa negra obrigatória para as mulheres), sharia (a lei islâmica). Venerado como um messias, desencadeou a onda de fervor religioso e reivindicação política que continua a reverberar do Líbano ao Iraque. Khomeini morreu em 1989. O Irã continua fanático e radical. Ou, numa palavra, xiita.

 

Tiro pela culatra

Robert Nickelsberg/Getty Images


Em 1979, o mundo foi apresentado aos mujahidin, combatentes muçulmanos entrincheirados nas cavernas do Afeganistão dispostos a resistir à invasão do Exército soviético. Em meio à disputa da Guerra Fria, depois de serem ignorados por anos a fio, eles acabaram recebendo ajuda militar e financeira dos Estados Unidos. Boa parte do esforço americano foi destinada a entregar aos combatentes afegãos centenas de lançadores de mísseis Stinger, uma arma portátil, precisa e mortal. Guiados pelo calor das turbinas dos helicópteros russos, os mísseis raramente erravam seus alvos. A combinação da combatividade rústica dos mujahidin com a precisão tecnológica dos mísseis derrotou militarmente os soviéticos. Eles se retiraram do Afeganistão em 1989. Anos mais tarde, ironicamente, esse mesmo caldo de cultura da resistência religiosa e nacionalista afegã, acrescido de tecnologias explosivas, faria da rede terrorista Al Qaeda um perigo para o mundo e, em especial, para os Estados Unidos, como se veria em 11 de setembro de 2001.

 

Juca Martins

Nasce uma estrela

O estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, nunca recebeu uma partida de futebol digna de nota. Mas foi naquele campo que um homem começou a entortar a lógica da política brasileira. O pobre, nordestino e iletrado Luiz Inácio da Silva, o Lula, emergiu como líder dos metalúrgicos do ABC no fim dos anos 70. Sob seu comando, milhares de trabalhadores enfrentaram grandes empresas e a ditadura militar. Das empresas, queriam melhores condições de trabalho. Dos generais, liberdade de organização. Para se fazerem ouvir, retomaram uma prática que havia quase uma década estava banida do Brasil: a greve. O líder desse movimento mostrou, desde o início, a capacidade de mesmerizar a massa, de cativar a esquerda universitária – e de apresentar-se aos patrões como um sindicalista responsável, apesar dos discursos raivosos diante das platéias operárias. Na foto destas páginas, feita em 1979, em Vila Euclides, Lula discursa para um estádio lotado de grevistas. Ninguém mais fala, ninguém se move. Todos estão magnetizados pelo barbudo. Por meio de seu líder carismático, o movimento do ABC animou sindicatos de outras categorias e se espalhou pelo país. As greves daquele período renderam direitos aos trabalhadores e apressaram a abertura do regime. Em pouco tempo, a reivindicação sindical se transformaria em luta político-institucional. Lula fundou o Partido dos Trabalhadores e decidiu que, em vez de enfrentar o governo, queria ser o governo. Candidato à Presidência da República, perdeu três disputas antes de ser eleito, em 2002. Hoje, está à frente de uma das administrações mais bem avaliadas da história, apesar dos escândalos de corrupção. Nos próximos meses, Lula enfrentará sua última tentação: sairá do cargo no fim de 2010, obedecendo à Constituição, ou, hipnotizado também pela própria imagem, embarcará na aventura de um terceiro mandato? Ele continua a jurar que a segunda hipótese não existe.

 

Epa/Corbis/Latin Stock

Um homem sem medo

"Não tenham medo!", disse o polonês Karol Wojtyla à multidão reunida na Praça de São Pedro, no Vaticano, em sua primeira fala como papa, em 1978. Nos 26 anos seguintes, João Paulo II provou que a mensagem inicial ultrapassava em muito os limites da retórica. João Paulo II não teve medo de enfrentar – e ajudar a vencer – o comunismo na Europa. Não teve medo de enfrentar – e vencer – a Teologia da Libertação na América Latina. Não teve medo de enfrentar – numa batalha antecipadamente perdida – o relativismo moral. Não à dissolução do casamento; não ao aborto; não aos métodos anticoncepcionais artificiais; não à união entre homossexuais: João Paulo II manteve a Igreja Católica na trincheira antípoda à modernidade e, assim, só fez aumentar a sangria de fiéis de que ela padece. Seu sucessor, Bento XVI, segue à risca tais preceitos – e, para falar a verdade, ser católico de fato talvez não signifique outra coisa. Mas, à diferença do pontífice alemão, o papa polonês era uma figura iluminada e grandiosa, que se sobrepôs à instituição milenar que governou por quase três décadas. Católicos e não-católicos podiam não concordar com ele, mas o admiravam. Em 1981, o turco Mehmet Ali Agca o alvejou em plena Praça de São Pedro (foto). Dono de uma profunda fé mariana, João Paulo II atribuiu o fato de ter sobrevivido a uma intervenção direta de Nossa Senhora de Fátima. Dois anos depois do atentado, visitou Agca na prisão, estendeu-lhe a mão e o perdoou. Até hoje não se sabe se o turco era apenas um louco ou um assassino a soldo de Moscou. Em sua última década de vida, alquebrado pela doença de Par-kinson, não raro excedeu o limite de suas forças, expondo sua dor ao mundo e renovando o sentido do sacrifício cristão. No dia em que morreu, em 2005, milhares de pessoas clamaram por sua canonização. João Paulo II, um homem sem medo, deverá tornar-se santo em 2010.

 

Orlando Brito

No mesmo palanque

Em 1984, o regime militar estava com seus dias contados. Depois de vinte anos amordaçados, os cidadãos brasileiros saíram às ruas para pedir a volta da democracia ao país. A campanha das diretas já, que exigia a retomada do voto popular para presidente da República, eletrizou a atmosfera política. Entre janeiro e abril daquele ano, dezenas de comícios foram organizados nas principais cidades brasileiras. O maior deles teve São Paulo como palco. Cerca de 1,5 milhão de pessoas foram ao Vale do Anhangabaú, no centro da cidade. A foto destas páginas mostra o palanque onde foram feitos os discursos naquele dia. Três dos que aparecem na imagem viriam a ser eleitos para a Presidência da República: Lula (à esquerda, ainda na versão "sapo barbudo"), Tancredo Neves (com um braço erguido, ao lado do microfone) e Fernando Henrique Cardoso (do lado direito, batendo palmas). Entre eles, da esquerda para a direita, aparecem Ulysses Guimarães, Orestes Quércia, Leonel Brizola e Franco Montoro, além do locutor esportivo Osmar Santos, mestre-de-cerimônias do evento. A emenda constitucional que previa a eleição para presidente da República por voto popular não passou, mas a oposição conseguiu eleger, por via indireta, Tancredo – que morreu antes de tomar posse e, por ironia da história, foi substituído por José Sarney, ex-prócer do partido do regime militar. Depois que o Brasil finalmente retomou as eleições diretas para a Presidência, em 1989, os personagens da foto nunca mais voltariam a dividir o mesmo palanque.

 

Anwar Hussein/Wireimage/Getty Images

A princesa do povo

No reino das celebridades, ela não era princesa. Era rainha. A inglesa Diana Spencer fez súditos em todo o mundo. Quando o casamento com o príncipe Charles começou a desmoronar, por causa da onipresença de Camilla Parker-Bowles na vida do marido, a simpatia popular foi herdada, é claro, por Diana. Nem os seus próprios escândalos de infidelidade, nem as entrevistas oportunistas, com pose de coitadinha, abalaram o fascínio que "a princesa do povo" exercia. Na verdade, até o aumentaram.
Na foto desta página, de 1985 – quatro anos depois do casamento e sete antes da separação tumultuada –, Diana se mostra no máximo de sua desenvoltura, dançando com o ator John Travolta, sob o olhar admirado de Nancy Reagan, em uma recepção na Casa Branca. Na frente das câmeras, ela estava em seu elemento. Nobre também na alma, Diana emprestou sua fama a causas humanitárias, como a campanha contra minas terrestres que matam e aleijam civis em zonas conflagradas da África. Morreu perseguida por paparazzi, em um acidente de carro em Paris, em 1997. Diana foi devorada pelo monstro que ela mesma alimentava.

 

Diana Walker/Time Life Pictures/Getty Images

Os vencedores da Guerra Fria

Nenhum dos dois conheceu a derrota. A primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o presidente americano Ronald Reagan capitanearam, na década de 80, reformas liberais que arejaram a economia de seus países. Thatcher, a Dama de Ferro, peitou os barulhentos sindicatos britânicos para realizar sua política de privatizações e ainda bateu a ditadura argentina na Guerra das Malvinas (aliás, Falklands), em 1982. Ex-ator canastrão, Reagan era um comunicador nato, dono de uma oratória direta, sem adornos. "O governo não é parte da solução. O governo é o problema", dizia o presidente que devolveu a auto-estima aos americanos. Juntos, eles minaram o poder da União Soviética, com uma aguerrida batalha ideológica e econômica – os investimentos americanos no desenvolvimento de novas armas, especialmente no programa "Guerra nas Estrelas", foram decisivos para arruinar de vez as finanças soviéticas, cujo rígido planejamento central não conseguia acompanhar o dinamismo ocidental. Eleito duas vezes para a Presidência, Reagan (morto em 2004) ficou no cargo de 1981 a 1989. Deixou o governo antes da queda do Muro de Berlim. Thatcher, por sua vez, primeira-ministra de 1979 a 1990, pôde assistir à debacle comunista no número 10 de Downing Street. Ambos deixaram a casa em ordem em seus respectivos países – mas o seu maior legado é sentido, hoje, fora dos Estados Unidos e da Inglaterra. Está na liberdade que se respira em Berlim, Praga ou Budapeste.

 

Stuart Franklin/Imagnum Photos/Divulgação

Herói anônimo

Em 1989, um anônimo demonstrou que, sim, ainda existiam heróis. E que, não, estados totalitários não são capazes de dobrar todas as consciências. Armado apenas de seu próprio corpo, ele tentou deter a fileira de tanques que avançava rumo à Praça da Paz Celestial, em Pequim, onde centenas de estudantes pediam liberdades democráticas. Duzentos manifestantes foram massacrados pelo Exército. Mas sua luta não foi em vão: ao se dar conta de que o país virara uma panela de pressão pronta a explodir, o regime destapou algumas válvulas. Quase vinte anos depois, a China é a economia mais pujante do planeta, mas permanece uma ditadura de partido único. Quanto ao herói anônimo, sua imagem continua a inspirar alguns jovens chineses que, agora em blogs dissidentes da internet controlada pelo governo, pregam que a abertura econômica do país seja acompanhada pela política.

 

Fritz Hoffman/National Geographic

O império do consumo

Três décadas depois de abraçar o capitalismo, a China diminuiu pela metade o número de miseráveis. O país mais populoso do mundo, com 1,3 bilhão de habitantes, também se tornou mais urbano. No fim da década de 60, 17% da população vivia nas cidades. Hoje, a proporção é de 42%. O crescimento econômico, aliado a essa virada demográfica, transformou as feições de metrópoles como Xangai. Com seus novos arranha-céus, feericamente iluminados à noite, e estilo de vida que ombreia com o das grandes capitais européias, a cidade é a vitrine da nova China.

 

Gamma

Derrubado pela história

O Muro de Berlim era a representação física da Cortina de Ferro – expressão cunhada pelo primeiro-ministro inglês Winston Churchill para designar a divisão entre as democracias ocidentais e os países comunistas da Europa Oriental. É natural, portanto, que sua queda tenha se tornado o marco simbólico do fim do comunismo. O muro infame que dividia a capital da Alemanha veio abaixo na noite de 9 de novembro de 1989, sem que um só tiro fosse disparado. Enquanto os berlinenses de ambos os lados comemoravam o fim de quatro décadas de opressão, Mikhail Gorbachev, o último premiê soviético, dormia em Moscou. Com seu histórico de milhões de mortos, a União Soviética desmanchou-se no ar dois anos depois. Imaginava-se que o pesadelo comunista estaria definitivamente encerrado, mas ele resiste em grotões como Coréia do Norte e Cuba, além de contar com uma sobrevida exclusivamente política no autoritarismo chinês. Como não poderia deixar de ser, o velho monstro ainda mostra sua renitência no cemitério de idéias chamado América Latina, em especial no "socialismo bolivariano" que Hugo Chávez quer implantar na Venezuela. Parafraseando o pai da besta, Karl Marx, é a história repetindo-se como farsa.

 

Laurent van der Stockt/Gamma

Guerra pós-moderna

O ano em que a Guerra Fria chegou ao fim, com a dissolução da União Soviética, começou com uma demonstração de força assombrosa daquela que passaria a ser a única superpotência mundial: os Estados Unidos. Em janeiro e fevereiro de 1991, com o aval das Nações Unidas, as forças americanas empurraram facilmente os iraquianos para fora do Kuwait e, ao fazê-lo, apresentaram o que seria a guerra pós-moderna – com "ataques cirúrgicos" e "bombas inteligentes". A nova forma de combate provocava o menor número possível de baixas civis e – principalmente – de soldados americanos. A Guerra do Golfo foi um show de tecnologia militar e um prodígio da era da informação: o bombardeamento do Iraque, como o desta foto (sobre Bagdá), era transmitido ao vivo pela televisão. Dez anos depois, os atentados de 2001 jogaram os Estados Unidos e outros países ocidentais num conflito inédito na história: a guerra assimétrica, em que estados nacionais lutam contra organizações terroristas sem fronteiras, sem exércitos e sem populações civis a defender. Contra elas, ataques cirúrgicos e bombas inteligentes têm efeito quase nulo.

 

Hans Gedda/Sygma/Corbis

Símbolo da tolerância

O senhor elegante cujo retrato ilustra esta página foi o mais famoso prisioneiro do século XX. Nelson Mandela, hoje com 90 anos, dedicou sua vida a combater o apartheid, o odioso regime de segregação racial adotado como política de estado na África do Sul. Encarcerado em 1962, foi condenado à prisão perpétua dois anos depois, acusado de liderar as milícias armadas que desafiavam o regime racista dos afrikaners, os descendentes de europeus que dominavam pela violência a política sul-africana. Na cadeia, tornou-se símbolo mundial da luta pela igualdade. Campanhas em defesa de sua libertação foram organizadas em todos os continentes. De sua cela, Mandela passou anos escrevendo cartas que inspiravam seus companheiros a manter a luta. Na mais famosa delas, divulgada em 1980, clamava: "Unam-se! Mobilizem-se! Lutem! Entre a bigorna que é a ação da massa unida e o martelo que é a luta armada devemos esmagar o apartheid!". A radicalidade havia desaparecido em 1990, quando Mandela foi libertado por pressões internacionais. O homem que emergiu dos 27 anos de cárcere estava disposto a enfrentar a segregação por meios pacíficos. E foi o que fez. Eleito presidente da África do Sul, legou a seu país e ao mundo uma mensagem de tolerância. Mandela é um símbolo em vida.

 

Wojtek Laski/Getty Images

O urso trôpego

No fim dos anos 80, desmoralizada e ineficiente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) era uma locomotiva em pleno descarrilamento, com o maquinista Mikhail Gorbachev tentando evitar que o desastre deixasse mortos e feridos pelo caminho. Quando a URSS foi oficialmente extinta, em 1991, coube a Boris Ieltsin, o primeiro presidente da Rússia, conduzir seu país rumo à democracia e ao capitalismo – pelo menos à democracia e ao capitalismo um tanto peculiares das estepes. Ieltsin não deixou que o caldo entornasse, mas adorava entornar um copo. Comparecia embriagado a cerimônias oficiais e, como se vê nesta foto, feita em 1996 durante um show de rock, abriu mão de ter a sobriedade como marca de seu governo. Consumido pelo álcool e responsabilizado pelo atoleiro econômico do qual a Rússia não conseguia sair, Ieltsin renunciou em 1999, deixando a Presidência nas mãos de Putin, o Terrível.

 

AFP

O novo czar

Desde Josef Stalin, o líder supremo da União Soviética morto em 1953, a Rússia não tinha um governante tão absoluto quanto Vladimir Putin. Presidente entre 1999 e 2008, Putin ajudou a eleger com facilidade um sucessor, Dimitri Medvedev, de forma a continuar no poder, agora no cargo de primeiro-ministro. Com as feições de um inescrutável leopardo eslavo, o ex-agente da KGB, a polícia secreta soviética, é centralizador e pouco amigável, para dizer o mínimo, com a oposição. A comparação com Ivan, o Terrível, o primeiro czar russo, é a preferida de seus críticos. Os quais, por sua vez, diminuíram bastante em quantidade: no governo de Putin, morreram catorze jornalistas da imprensa independente que se atreveram a criticar o presidente. Mas, se a economia vai bem, tudo vai bem. Sob seu comando, a Rússia saiu da estagnação econômica e entrou na rota do progresso – não sem o benefício das altas contínuas do petróleo e do gás, duas fontes de riqueza também usadas por Putin como instrumentos de pressão sobre uma Europa sedenta de energia.

 

Divulgação

O muro e a mala

Para quem acompanhou as transformações políticas dos últimos quarenta anos, nenhum acontecimento foi tão impressionante quanto a queda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991. O desmanche do gigante vermelho teve início por obra de um único homem: Mikhail Gorbachev. Ele começou a alterar a história em 1985. Como secretário-geral do Partido Comunista, anunciou ao mundo a perestroika (ou reestruturação), por meio da qual se dispôs a arrancar a URSS das trevas da economia de estado. Em um discurso feito em Moscou, disse ser inaceitável que um país capaz de fabricar foguetes espaciais fosse inepto na hora de produzir eletrodomésticos. Para quem só queria, a princípio, bons televisores e batedeiras, ele foi longe. A abertura econômica e política (glasnost) arquitetada por Gorbachev, aliada às pressões do Ocidente, acabou esfacelando o império comunista. Ele deixou o poder dois anos depois da queda do Muro de Berlim. Desde então, amarga extrema impopularidade entre os russos, feridos em seu orgulho pelo fato de Gorbachev ter escancarado o fracasso da URSS. Na banda rica do capitalismo, o antigo líder é chamado para fazer palestras e análises, em troca das quais tira o seu sustento. Na foto destas páginas, datada de 2007, Gorbachev aparece em campanha publicitária da grife de luxo Louis Vuitton, símbolo do capitalismo globalizado, olhando o que restou do muro berlinense que ajudou a derrubar. A história, quando não se repete como farsa, se desenrola como ironia.

 

AP

A face do mal

O saudita Osama bin Laden, fundador e chefe da Al Qaeda, a multinacional do terror islâmico, é um velho conhecido dos serviços de informação do Ocidente. Mas, ainda assim, ninguém conseguiu evitar que ele se tornasse a face do mal deste início de século. Idealizador dos atentados de 2001 em território americano, e escondido desde então em algum buraco na fronteira do Paquistão com o Afeganistão, Bin Laden conta com uma legião de seguidores dispostos a morrer em ataques suicidas contra os Estados Unidos e seus aliados. A sua única religião é a do ódio.

 

John Weller

Alerta do fim do mundo

O pingüim solitário sobre uma placa de gelo à deriva na Antártica é uma imagem eloqüente do pesadelo que começa a ganhar contornos de realidade – o aquecimento global causado pela ação do homem. Em busca de respostas para o futuro do planeta, boa parte dos cientistas que estudam o fenômeno concentra suas análises na região em torno do Pólo Sul. O continente antártico responde por 90% do volume de água congelada do mundo. Se toda essa massa derretesse, o nível dos oceanos subiria seis dezenas de metros. A maioria dos estudos, no entanto, indica que o gelo antártico deve permanecer estável pelos próximos milênios. A exceção é uma pequena parcela da Antártica Ocidental, onde as temperaturas médias, em constante aumento, já fizeram diminuir a população de pingüins-de-adélia – como o que aqui aparece à deriva.