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Comportamento
Quero ser digital ...
Para se livrar de montanhas de papel,
o cientista Gordon
Bell arquiva no disco rígido de um computador tudo o que
ouve, diz, vê ou sente. Ele é um dos precursores
da era
da digitalização total, em que todas as experiências
de uma vida podem ser convertidas em bits

Carlos Rydlewski e Lia Luz
Montagem Atômica Studio sobre
foto de Hugh Kretschmer
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PELO FIM DO SUFOCO
Gordon Beel, um dos pioneiros
da era digital, foi descrito pela revista New Yorker
como o Frank Lloyd Wright dos computadores, numa alusão
ao genial arquiteto americano. Agora, quer ser digital |
A era digital atingiu uma nova
e insólita fronteira. Hoje, todos os fatos ocorridos ao longo
de uma vida podem ser transformados em bits e acomodados no disco
rígido de um computador. Tal possibilidade amplia-se rapidamente
com o surgimento de novos produtos e softwares que registram eletronicamente
as ações, reações e emoções
de uma pessoa. Abre-se, assim, o caminho para a digitalização
total do dia-a-dia de um indivíduo. Uma das experiências
em andamento que levam essa idéia ao extremo vem sendo feita
por Gordon Bell, pesquisador da Microsoft Research. Ele serve de
cobaia ao projeto MyLifeBits (Minha Vida em Bits). Bell digitaliza
tudo o que faz. Acredita que esse tipo de acervo, uma espécie
de memória sobressalente e acessível ao clique do
mouse, pode auxiliar pessoas com Alzheimer. No laboratório
de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT,
na sigla em inglês), o professor Deb Roy conduz uma empreitada
semelhante, mas com objetivo diverso. À frente do Human Speechome
Project (Projeto da Fala Humana em Casa), Roy gravou quase
na íntegra os três primeiros anos de vida do
seu filho. O pesquisador quer entender o processo de aquisição
da linguagem por parte das crianças. Crê que seus estudos
serão úteis para ensinar as máquinas a falar.
As aplicações para as memórias digitais ainda
estão sendo esboçadas. Mas, como mostram as páginas
seguintes, a conversão da vida em bits já começou.
Gordon Bell, de 74 anos, jamais
esquece o número de um telefone, o rosto de uma pessoa ou
o aroma de um vinho. Não tem uma memória excepcional,
mas conta com o subterfúgio dos arquivos digitais. Ele embutiu
toda a sua vida no disco rígido de um computador. Transformado
em bits, Bell ocupa um espaço de 180 gigabytes (GB). Ou seja,
pode ser armazenado num PC convencional. Os registros feitos pelo
cientista incluem conversas com amigos, fotografias de viagens,
documentos, artigos, cartas, telefonemas, recortes de jornal, livros
e surpreendentemente detalhes de sua navegação
na internet. Há cópias de 176 733 páginas consultadas
na web e de 136 675 e-mails trocados. Outras 800 páginas
oferecem um perfil da saúde do pesquisador, com informações
sobre a duração da bateria de seu marca-passo. São
mais de 460 000 itens. Bell digitaliza sua vida desde os anos 90.
No início, a curiosidade o motivou. "Eu queria saber
qual o tamanho da minha memória em bits", disse a VEJA.
Em 2001, o trabalho ganhou novo impulso, com o projeto MyLifeBits,
criado no centro de pesquisas da Microsoft, na Califórnia.
O backup do dia-a-dia do cientista
é feito com ferramentas especiais (veja
quadro). Quando trabalha no PC, Bell conta com um software
que armazena uma cópia de todas as páginas visitadas
na internet. O programa também faz uma transcrição
instantânea das mensagens recebidas, além de registrar
as buscas realizadas na web. Detalhista, o sistema identifica as
janelas em primeiro plano na tela do computador e a atividade do
mouse e do teclado. Desde 2003, Bell usa uma câmera, batizada
de SenseCam, pendurada no pescoço. A máquina tira
200 fotos por hora. Dispara automaticamente ao detectar, por meio
do calor, a proximidade de um corpo. Também é acionada
após alterações bruscas de luz, como na passagem
de um ambiente interno (escuro) para um externo (mais claro). O
MyLifeBits usa GPS para identificar a localização
de Bell e associá-la às imagens feitas pela SenseCam.
Para completar o arsenal, o cientista tem sempre à mão
um gravador de voz, capaz de armazenar 200 horas de bate-papo.
... e sou
E para que tudo isso? Um dos focos
do MyLifeBits é a área de saúde. O cientista-cobaia
Bell já recorreu ao HD pessoal para fornecer a um grupo de
médicos detalhes de uma cirurgia de ponte de safena feita
25 anos atrás. No futuro, o pesquisador imagina que a digitalização
maciça possa ser útil nos estágios iniciais
de doenças como Alzheimer. Nesse caso, os registros em bits
ajudariam as pessoas a ter uma idéia clara de uma determinada
seqüência de eventos. Jim Gemmell, responsável
pela criação de softwares no MyLifeBits, prevê
usos mais ambiciosos para o projeto. Acredita que um arquivo individual
poderá conter informações sobre os 3 bilhões
de batimentos cardíacos da vida de uma pessoa. Juntamente
com outros indicadores fisiológicos, qualquer alteração
nesse banco de dados faria soar um alarme na iminência de
um ataque cardíaco. "O sistema também pode catalogar
as calorias e os tipos de nutrientes consumidos por uma pessoa e,
no momento correto, indicar a necessidade de ingerir mais fibras,
carboidratos ou água", disse Gemmell a VEJA.
Atualmente, as memórias
artificiais já são aplicadas em pesquisas. O engenheiro
da computação Deb Roy, diretor do grupo de máquinas
cognitivas no laboratório de mídia do Instituto de
Tecnologia de Massachusetts, completou em julho a gravação
em áudio e vídeo de grande parte dos
três primeiros anos de vida de seu filho. Roy usa o material
para estudar a aquisição da linguagem. Conhecendo
o processo em detalhes, acredita que poderá identificar
e tratar precocemente eventuais problemas no desenvolvimento
de crianças. Posteriormente, quer ensinar as máquinas
a falar.
Peter Yang
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"É maravilhoso ter
todos os registros do meu filho ao longo de três anos.
Muitas coisas aconteceram quando menos esperávamos. No
futuro, haverá grande demanda por esse sistema de vídeo."
Deb Roy, diretor
do grupo de máquinas cognitivas do MIT |
Roy lida com o tema há
uma década, mas sempre esbarrou na falta de dados disponíveis
para a análise do aprendizado da fala. "Eu precisava
de observações completas, feitas diariamente, por
longo período de tempo e em ambiente real", disse Roy
a VEJA. Com a gravidez da esposa, a professora de patologias da
fala Rupal Patel, o problema acabou: Roy instalou em casa onze câmeras
com lentes grande-angulares, que permitem total monitoramento do
ambiente, e catorze microfones. Gravou 70% de toda a vida do filho
quando acordado. Os arquivos incluem 16 milhões de sons e
palavras balbuciados pelo garoto. "Ter todos os registros do
meu filho é um aspecto maravilhoso do projeto. Muitas situações
especiais, como aprender a andar, ocorreram quando menos esperávamos.
No futuro, haverá grande demanda por esse supersistema de
vídeo em casa", diz Roy.
Transpor a memória para
uma máquina não é uma idéia nova. Foi
sugerida pela primeira vez por Vannevar Bush, cientista da computação
e diretor do Escritório de Pesquisas e Desenvolvimento Científico
dos Estados Unidos, em 1945. Num ensaio clássico, "As
we may think" (Como podemos pensar), Bush imaginou o Memex,
uma abreviação de Memory Extender (ou extensor de
memória). No artigo, especulava que as pessoas armazenariam
todos os dados, como gravações de telefonemas, num
só lugar. O usuário do Memex também poderia
prender uma câmera ao redor da cabeça para captar imagens
curiosamente, Gordon Bell chegou a usar esse expediente no
início do MyLifeBits.
Uma série de avanços
tecnológicos favorece atualmente a criação
desses amplos arquivos pessoais. O custo do armazenamento de dados
despencou. No início dos anos 80, 1 gigabyte ocupava o espaço
de uma geladeira e custava 40 000 dólares. Hoje, a mesma
porção de memória cabe num pequenino pen drive,
vendido por menos de 50 reais. Paralelamente, os programas de compactação
de dados permitem que grandes volumes de informação
(como filmes) ocupem um espaço cada vez menor no disco rígido
de computadores. Softwares que rastreiam movimentos na web estão
se tornando comuns. Câmeras e gravadores digitais são
banais. Especialistas como o escritor Kevin Kelly, um dos gurus
do mundo digital, acreditam que a crescente facilidade de criar
arquivos em bits torna inevitável a digitalização
da vida das pessoas.
Mas algumas dificuldades têm
de ser superadas. Ainda não existe um produto eficaz que
permita uma busca rápida em documentos dispostos com formatos
tão variados como os que podem ser guardados ao longo de
uma vida. Além do mais, como um tipo de arquivo (Word ou
Excel) gravado hoje poderá ser consultado em 2018? Há
ainda questões de natureza ética e legal a ser consideradas.
Kevin Kelly sugere algumas: "Que parte do registro da minha
vida fere a privacidade de outra pessoa que também estava
envolvida naquele momento? As gravações podem servir
de testemunho em um processo judicial? É razoável
registrar o dia-a-dia de uma criança sem a permissão
dela?". Em suma, a exploração da nova fronteira
da era digital, desbravada por Gordon Bell, será feita sob
o signo da polêmica.
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Big
Brother doméstico
A imagem ao lado foi captada por
uma das onze câmeras com lentes grande-angulares instaladas
pelo cientista Deb Roy em sua casa. O sistema de monitoramento
contava ainda com catorze microfones. Tudo para registrar
quase na íntegra os três primeiros anos da vida
do filho. Roy, do MIT, quer entender o processo de aquisição
da linguagem para ensinar as máquinas a falar.
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Direto
para
o HD
Nem todas as ferramentas
usadas pelos pesquisadores Gordon Bell e Deb Roy para digitalizar
o dia-a-dia estão disponíveis nas lojas. Mas
há alguns aparelhos e programas que permitem uma abordagem
quase idêntica à dos cientistas
Caneta eletrônica
The New York Times
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A Livescribe é uma
caneta eletrônica que grava e digitaliza aulas, conferências
e entrevistas enquanto o usuário toma nota em um caderno
especial (foto). Ela grava o som da explanação
ao mesmo tempo em que se escreve. Depois, para localizar um
trecho específico do áudio, basta apontar a
caneta para a anotação correspondente. Nos Estados
Unidos, a versão com 1 GB de memória é
vendida por 150 dólares. O modelo de 2 GB custa 200
dólares. O preço de quatro cadernos especiais,
cada um com 100 páginas, é de 20 dólares.
Outras canetas eletrônicas não requerem papéis
especiais. É o caso da Mobile Digital Scribe (120 dólares)
e da ZPen (100 dólares), da Dane-Elec. Mas elas não
fazem gravações.
Fotos divulgação
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Gravadores
O software Dragon
Naturally Speaking converte as gravações
de voz em texto. A pessoa dita e ele cria um arquivo
de Word. Funciona em vários idiomas, mas não
em português. É usado em gravadores da
marca Sony (foto) e Olympus.
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fones na web
Programas existentes na
internet gravam conversas de áudio e vídeo feitas
no Skype. Entre eles estão o Pamela, o PrettyMay e
o Supertintin.
Roteiros
O GPS Nüvi, da Garmin
(1 400 reais), grava as rotas realizadas por um carro e as
arquiva no computador.
Internet
O software gratuito TimeSnapper
(http://timesnapper.com)
captura e arquiva as imagens da tela do computador a intervalos
de tempo especificados pelo usuário.
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