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Artigo
A hora da colheita
Depois de bilhões de dólares
de investimentos
e anos de pesquisa, começam a chegar ao mercado
os aparelhos que complementam o teclado com recursos
de reconhecimento de voz, visão, tato e escrita manual
e acabam com a fronteira entre os idiomas

Bill Gates
Montagem Atomica Studio sobre foto AFP
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As pessoas me perguntam com freqüência
se a revolução da tecnologia digital está desacelerando.
Elas querem saber se tecnologias como o microprocessador ou a largura
de banda das redes estão chegando ao limite de sua capacidade
de evolução. Sob vários aspectos, acredito
que a revolução digital só agora esteja tomando
corpo. O extraordinário progresso das últimas décadas
serviu apenas para estabelecer as bases para transformações
ainda mais profundas que estão por vir. No decorrer dos próximos
anos, o hardware dará continuidade a seu processo de aperfeiçoamento.
Simultaneamente, o software também evoluirá, à
medida que criarmos novas ferramentas de desenvolvimento e novos
recursos que nos permitirão tirar proveito de processadores
mais poderosos, de sistemas com maior capacidade de armazenar dados
e de um acesso cada vez mais fácil à banda larga.
A questão, portanto, não
é saber se a tecnologia continuará a evoluir, mas,
sim, como a nossa interação com a tecnologia
e a nossa interação com o mundo mudará
nos próximos dez anos. Temos também de considerar
dois aspectos: um deles, já citado, é que os softwares
e os dispositivos serão cada vez mais poderosos. O outro
é que cresce a cada dia o volume de informações,
comunicações, comércio e entretenimento criados
em formato digital.
Numa análise preliminar,
daqui a dez anos estaremos muito mais conectados às pessoas,
às comunidades que nos dizem respeito e a todas as informações
e formas de entretenimento que nos interessam. Estaremos mais conectados,
pois os recursos de software, associados a PCs e à flexibilidade
dos serviços oferecidos pela internet, poderão nos
conduzir automaticamente a todas as informações de
que precisamos, em qualquer lugar. Estaremos mais conectados, pois
a computação será efetivamente móvel.
Os dispositivos serão menores, mais baratos e versáteis.
Seremos capazes de usá-los com grande facilidade, independentemente
de estarmos na mesa de trabalho ou em trânsito.
Eckehard Schulz/AP
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| Chip para conexões entre aparelhos |
Essa crescente conectividade
é decorrente de avanços que tornam a tecnologia muito
mais centrada no usuário. Hoje, o uso da tecnologia ainda
tende a ser bastante fragmentado. Transferir uma foto digital da
câmera para o computador doméstico ou compartilhar
essa imagem com a família ainda são processos bastante
complexos, que demandam várias etapas de execução.
Apesar de todos os aparelhos digitais que já utilizamos no
cotidiano, a capacidade de nos mantermos a par das informações
mais atualizadas seja de cotações de ações,
de resultados de eventos esportivos, seja de compromissos familiares
enquanto estamos em trânsito é bastante limitada.
Tudo isso deverá mudar
nos próximos dez anos. Em um futuro não tão
distante, qualquer dispositivo poderá estar conectado à
internet, oferecendo às pessoas tudo aquilo que diz respeito
a seus interesses: arquivos, agenda de compromissos, informações
e preferências. As notícias se moverão automaticamente
com os indivíduos, durante seus deslocamentos de um lugar
para outro, circulando também de um aparelho para outro.
Quando alguém tirar uma foto, várias coisas poderão
ocorrer instantaneamente: a imagem será armazenada no arquivo
adequado, podendo ser imediatamente compartilhada com as pessoas
autorizadas a visualizá-la. Não será mais necessário
preocupar-se com redes, endereços de e-mail ou com as diferenças
entre os vários aparelhos como celulares, computadores ou
tocadores de música digital.
Um recurso que tornará
a computação muito mais centrada no usuário
é a "percepção de contexto". Estamos avançando
rápido na criação de softwares capazes de antecipar
as necessidades do usuário. Essas decisões serão
tomadas com base no conhecimento das preferências das pessoas,
de suas ações anteriores, de suas atividades atuais
e em seu círculo de contatos. Com isso, a tendência
é o PC e os outros equipamentos de computação
se transformarem, cada vez mais, em autênticas secretárias
particulares. Quando alguém quiser se comunicar com esse
usuário seja por texto, voz ou vídeo ,
será informado se é possível interrompê-lo
ou se ele não quer ser perturbado.
Fotos divulgação
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| Touch screen: tudo na ponta dos dedos |
Também assistiremos a
uma grande evolução na maneira como as pessoas interagem
com os computadores e os eletrônicos. Estamos chegando muito
perto de um novo conceito denominado "interfaces naturais". Essa
é uma área na qual a Microsoft investiu literalmente
bilhões de dólares na última década.
Esses investimentos estão começando a dar frutos,
em forma de novos aparelhos que complementam o teclado com recursos
de entrada de voz, visão, tato e escrita manual. Isso deve
se transformar rapidamente em tecnologia-padrão. Estamos
falando desses recursos há muito tempo. Hoje, já podemos
apontar exemplos que comprovam nossos avanços nessa área,
incluindo a rápida evolução do reconhecimento
de voz e grandes avanços em direção à
capacidade do software de reconhecer e interagir com idiomas como
o chinês e o japonês, para os quais o teclado não
é a forma mais prática de digitar informações.
Outro exemplo prático
de um produto que usa esse tipo de interface é o Surface,
uma mesa eletrônica com uma tela de 30 polegadas, que oferece
uma interação natural com o universo digital
sem a necessidade de um mouse ou teclado. A entrada ou a manipulação
de informações pode se dar em forma de gestos, toques
ou pela própria interação com os objetos físicos.
Com o Surface, é possível manusear imagens e documentos,
bastando arrastar esses elementos na tela. Com o simples movimento
da mão, os componentes da tela podem ser movidos de um ponto
a outro, ampliados ou reduzidos. Pelo fato de reconhecer objetos
físicos como celulares e câmeras fotográficas
digitais , o Surface pode automatizar a transferência
de conteúdo digital, de um ponto para outro, ou do dispositivo
de uma pessoa para o de outra. O Surface é um aparelho com
tecnologia multitouch (reconhecimento de múltiplos
toques, em diferentes pontos de sua superfície) e multiusuária,
o que significa que várias pessoas podem utilizá-lo
ao mesmo tempo, abrindo novas possibilidades para a colaboração
em documentos ou, simplesmente, para interagir em jogos.
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| O Surface: mesa interativa |
Esse tipo de dispositivo representa
a vanguarda de uma nova tendência, denominada computação
onipresente (pervasive computing, em inglês). No futuro,
o potencial do software e dos microprocessadores girará em
torno de objetos do cotidiano, tais como a mesa de trabalho, o carro,
o telefone ou a geladeira. Todos esses objetos estarão conectados
à internet e poderão compartilhar informações
sobre as preferências, os contatos e os interesses dos usuários.
Eles agirão em conjunto, em sintonia, prevendo as necessidades
e contribuindo para a melhor qualidade de vida. O Surface também
aponta para o acelerado progresso que está ocorrendo na tecnologia
de telas e monitores de vídeo. Uma das importantes tendências,
que será observada ao longo desta década, indica que
os monitores se tornarão mais leves, baratos, portáteis
e onipresentes. No futuro, poderemos conectar nossos dispositivos
portáteis a qualquer monitor que estiver por perto, seja
a TV da sala ou qualquer outro, em qualquer local público
ou privado.
À medida que a computação
se tornar mais conectada e centrada no usuário, mais onipresente
e móvel, mais natural e intuitiva, o poder transformador
da tecnologia digital se expandirá de várias maneiras.
As duas áreas que receberão o maior impacto dessas
mudanças serão a comunicação por voz
e a televisão. Atualmente, para que uma pessoa possa efetivamente
se manter em contato com outra, ela precisa ter, ao menos, três
números de telefone: da casa, do trabalho e do celular. No
trabalho, dependemos ainda de um telefone fixo, conectado a um sistema
de PABX não digital. Só agora esses sistemas estão
migrando para o modo puramente digital, integrado à internet.
Daqui a algum tempo, quando alguém quiser entrar em contato
com outra pessoa, bastará dizer seu nome e sua comunicação
será automaticamente direcionada para o dispositivo indicado.
Os aparelhos telefônicos fixos devem desaparecer. As ligações
ficarão por conta do PC com recursos de software. Será
possível incluir alguém em uma teleconferência
bastando clicar seu nome na tela ou visualizar as últimas
chamadas da pessoa com quem se está conversando ao telefone.
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| TV na internet: convergência de mídias
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A televisão também
está migrando para redes que utilizam protocolos da internet.
Isso significa que os telespectadores não estarão
mais restritos às limitações das redes de televisão
que operam através dos sistemas convencionais de transmissão.
Ao contrário: eles terão acesso a um conteúdo
praticamente ilimitado, que abrange desde a programação
tradicional, com filmes, documentários e programas criados
por profissionais, até palestras, reuniões de negócios,
eventos esportivos ou qualquer coisa capturada em forma de vídeo
digital e disponível para visualização pública.
Todo esse conteúdo poderá ser acessado a qualquer
hora, e não mais de acordo com a programação
prévia das redes abertas ou das TVs a cabo.
O maior impacto que será
sentido nos próximos dez anos diz respeito à disseminação
da revolução digital entre bilhões de pessoas
ainda sem acesso aos instrumentos que permitem participar da chamada
"economia do conhecimento". Hoje, aproximadamente 1 bilhão
de pessoas usam PCs. Embora pareça muito, representa uma
fração modesta da população mundial
de 6 bilhões de pessoas. À medida que tornamos a tecnologia
mais acessível e mais simples de usar, podemos reduzir efetivamente
o abismo entre as sociedades ricas e as mais pobres e estender as
oportunidades sociais e econômicas a toda a humanidade. Essas
oportunidades podem ser traduzidas em maior acesso à educação,
à informação, à saúde e aos mercados
globais.
Obviamente, isso não ocorrerá
da noite para o dia. Ainda há problemas importantes a ser
resolvidos, que transcendem questões relativamente simples
como o preço e a acessibilidade dos dispositivos em si. Temos
de pensar em fatores como a conectividade, o treinamento, a manutenção
e o suporte. Na Microsoft, estabelecemos como meta, para os próximos
cinco anos, levar os benefícios da computação
a, no mínimo, mais 1 bilhão de pessoas. Com os rápidos
avanços da tecnologia, acredito que essa meta seja viável.
Acredito também que poderemos atingir um número de
pessoas bem maior, nos cinco anos subseqüentes.
Há trinta anos, fundamos
uma empresa com o sonho de colocar um computador em cada mesa e
em cada casa. É surpreendente olhar para trás e constatar
quanto já evoluímos para tornar esse sonho realidade.
É ainda mais animador olhar para a frente e vislumbrar um
mundo no qual esse sonho envolverá países e lugares
remotos do globo, capacitando bilhões de pessoas a participar
da economia do conhecimento. À medida que isso ocorre, vão
surgindo novas idéias, aparecem novas empresas e são
desenvolvidos grandes avanços na ciência e na medicina.
O resultado, estou certo, será o surgimento de uma nova onda
de inovações que tornará nossa vida mais plena,
mais produtiva e mais gratificante.
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