ÍNDICE
  Carta ao leitor

INTERNET
Civilização on-line: A vida entre o real e o virtual
Avatar: As histórias de quem que se recriou na web
"Nerds": Como eles vivem dez anos depois

GAMES
O hiper-realismo dos jogos

CONEXÕES
O mapa da web

IDÉIAS
Kevin Kelly – Como a tecnologia melhora as pessoas

PRODUTOS
Um show de eletrônicos

CARRO
Um elétrico esportivo

ARTIGO
Bill Gates – Tendências para os próximos dez anos

AMBIENTE
O ouro que vem do lixo eletrônico

DIVERTIMENTO
No pôquer, o computador perde

MEGALABORATÓRIOS
Gigantes a serviço da ciência

ENTREVISTA
Cinco perguntas para Steven Johnson
     
 

Internet
Os "nerds" dez anos depois

Em 1998, VEJA reuniu para um bate-papo na redação
em São Paulo um grupo de garotos cuja obsessão pelos
computadores os distinguia dos colegas. Eles foram mais
uma vez reunidos agora, quase dez anos depois, para
debater uma questão simples: como a afinidade precoce
e forte com as novas tecnologias influiu em sua vida e
carreira profissional. A seguir, os melhores trechos da
mesa-redonda coordenada pelo editor Carlos Rydlewski.

 
Montagem sobre fotos Lailson Santos
A partir da esquerda, Rafael Tinoco, Guilherme Cervenka, Ugo Pozo, Carlos Franco, Felipe Russo e Ricardo Ruiz


Veja também
Vídeo - Depoimento
Tecnologia e vida profissional
Velocidade: Baixa | Média | Alta

Veja – Valeu a pena ter passado tanto tempo na frente de um computador na adolescência?
Felipe – Para mim, foi ótimo. Consegui dominar uma ferramenta que pouca gente conhecia e isso me trouxe uma vantagem competitiva. Entrei mais cedo no mercado de trabalho, graças ao que aprendi naquele tempo. Comecei criando sites para o comércio eletrônico. Hoje, sou gerente de sistemas em um grande banco.

Veja – O que você aprendeu de tão vital naqueles tempos?
Felipe –
Quando comecei a usar a internet, as ferramentas da rede eram muito precárias e pouco amigáveis. Para construir páginas na web, por exemplo, era preciso aprender algum tipo de linguagem de programação. Assim, desde cedo, eu me tornei um programador. Isso fez a diferença.

Fotos Roberto Setton
Formado em engenharia elétrica, Ricardo Ruiz, 25 anos, trabalha com publicidade virtual. Aos 16 anos (foto à esq.), seu acesso à internet era limitado pelo custo da ligação


Ricardo –
Meu ramo de atividade é a publicidade, mas meu trabalho é totalmente focado em tecnologia. Acredito que o aprendizado precoce me ajudou a ver as coisas relacionadas à computação de uma maneira mais simples ou mais natural. Quando comecei a trabalhar, às vezes meus colegas se descabelavam durante oito horas para fazer um relatório de links patrocinados. Sem grande esforço, eu criei uma ferramenta que reduziu esse tempo para alguns minutos. Esse tipo de situação acontece sempre. Algo que adquiri na adolescência, e ainda é vital, foi o gosto por novidades. Tenho vontade de estar sempre na vanguarda. Assim, sempre tento descobrir coisas novas e repasso o que encontro de interessante a outras áreas da empresa.

Veja – Há dez anos, alguém imaginava que no futuro trabalharia com tecnologia?
Rafael – Aos 16 anos, eu já havia decidido o que queria fazer e onde iria trabalhar. Sempre gostei de estudar sistemas operacionais e me apaixonei pelo Solaris, da Sun. Desde então, só me imaginava trabalhando nessa empresa. Passei uns quatro anos mandando currículos para a Sun toda semana. Deu certo. Hoje, no trabalho, mantenho contato com pessoas incríveis e tenho acesso a versões preliminares de programas, chamadas de beta, antes que cheguem ao mercado.
É isso que me dá prazer.

Carlos – Acho que quem começou com tecnologia na adolescência hoje está mais bem preparado. Há pouca mão-de-obra no setor tecnológico.

Veja – A evolução no mundo da tecnologia nos últimos dez anos correspondeu ao que vocês imaginavam?
Ricardo – A tecnologia digital espalhou-se de forma impressionante. Poucas pessoas tinham computador dez anos atrás. Hoje, a telefonia, a televisão, os vídeos, a música, tudo está no computador. A facilidade de acesso aos equipamentos também aumentou, de modo que ninguém precisa ser um especialista para aproveitar todos esses recursos.

Arquiteto de software na Sun Microsystems, Rafael Tinoco, 24 anos, realizou seu sonho: aos 16 anos (foto à esq.) já queria trabalhar na Sun

Rafael – Comercialmente, os sites estão muito diferentes. Antes, a única preocupação era exibir um produto ou ganhar dinheiro com banners de propaganda. Agora, as empresas de tecnologia, como o Google ou a Amazon, gerenciam a identidade e os hábitos de quem acessa suas páginas na web. Querem conhecer detalhes do comportamento dos consumidores para oferecer exatamente o que eles procuram. Isso é muito mais sutil do que os velhos banners.

Felipe – Há dez anos, o brasileiro mal tinha telefone. Havia filas de espera por uma linha, que era caríssima. Ninguém conseguia fazer uma transferência bancária pela internet. Hoje, fazemos tudo na web. A transformação foi radical. O que me surpreende é o volume da informação. Até relativamente pouco tempo atrás, os textos, as músicas, tudo o que circulasse pela rede era necessariamente pequeno. Um disquete armazenava 1,4 megabyte de dados e parecia muita coisa. Hoje, nem se usam mais disquetes.

Veja – O que demorou mais do que vocês imaginavam?
Felipe – A expansão da internet foi grande, mas bem mais lenta do que eu imaginava. Achei que em um curto espaço de tempo o mundo todo, independentemente da classe social, estaria conectado. Outra coisa que avançou pouco foi o acesso à web pelo celular. Só agora a conexão e a navegação estão começando a melhorar.

Frederic Jean
Ugo Pozo, 21 anos, estuda jornalismo. Mas seu passatempo ainda é a programação de computador. Na foto à esquerda, aos 13 anos, na mesa-redonda de VEJA


Veja – Dez anos atrás, havia grande expectativa em relação à inteligência artificial. A demora no desenvolvimento dessa tecnologia foi uma frustração?

Ugo – Sempre achei que isso fosse coisa de escritor de ficção científica.

Veja – Quais as tecnologias surgidas ou consolidadas nos últimos anos que vocês destacam como mais importantes?
Ricardo – A grande virada digital e a facilidade na transferência de dados. Eu aposentei a minha TV. Baixo filmes e vídeos pela internet. É tudo muito rápido. Se um episódio de uma série começa a ser transmitido numa rede de televisão americana, ele é imediatamente capturado e jogado na web. Em meia hora, está disponível para mim, no meu computador. O melhor é que está disponível para ser visto a qualquer hora, quando eu quiser.

Ugo – Com esse tipo de recurso, acaba o atraso com que certas coisas chegam ao Brasil. Alguns seriados demoram tanto para passar por aqui que todo mundo já sabe o que aconteceu. Parece o Vale a Pena Ver de Novo.

Felipe Russo, 25 anos, é gerente de sistemas de tecnologia no Banco Santander. Aos 17 anos (foto à esq.), ele descobriu as possibilidades oferecidas pelos chats

Felipe – Acredito que o avanço não se resume a apenas uma coisa. O que temos é a soma de várias coisas. Há dez anos, quanto tempo uma pessoa demoraria para comprar um livro, pagar uma conta no banco ou descobrir se tinha uma multa de carro pendente? Hoje, isso tudo pode ser feito e resolvido em pouco tempo. Basta estar na rede.

Guilherme – Acho que isso tudo se resume em mais conforto. A tecnologia trouxe comodidade.

Veja – Entre vocês, apenas dois não vivem mergulhados em tecnologia. Por quê?
Ugo – Eu ainda faço páginas na internet e gosto de colaborar com sites de código aberto. Também uso linguagens de programação alternativas, como Phyton. Mas não tenho muito prazer em trabalhar profissionalmente com tecnologia. Por enquanto, estou dando um tempo.


Frederic Jean
Formado em engenharia química, Guilherme Cervenka, 24 anos, é trainee numa grande indústria. Aos 15 anos (foto à esq.), ele passava a madrugada na internet

Guilherme – Eu deixei tudo para trás. Na faculdade de engenharia, ainda brinquei bastante com programação. Cheguei a vender trabalhos sobre computação, porque muitas pessoas no curso nada sabiam do assunto. Agora, trabalho com treinamento em produção industrial.

Veja – Vocês deixariam seus filhos passar tanto tempo na frente do computador como vocês passaram na adolescência?
Ricardo – Sim. Hoje, as crianças estão começando até mais cedo a lidar com tecnologia. A diferença é que não precisam mais navegar só de madrugada como antes, quando a conexão era menos lenta e os custos, menores.

Ugo – Esse é um assunto a ser discutido entre pais e filhos. Para mim, o envolvimento com o computador foi bom. Antes de usar a internet, eu era o grande excluído no meu círculo de conhecidos. Não conversava com ninguém. Depois que comecei a usar a rede, fiz amigos e, mais tarde, os conheci pessoalmente. Com a interação que surgiu, passei a conviver mais com o pessoal da escola. A web foi um grande catalisador de relações sociais.

Guilherme – É preciso controlar o uso pelas crianças, porque hoje há muita porcaria na internet e o acesso é muito fácil.

Frederic Jean

Formado em publicidade, Carlos Franco, 26 anos, trabalha com internet. Aos 17 anos (na foto à esq.), ele já sabia do potencial comercial da web


Carlos –
Eu também controlaria um pouco. Há certo exagero na forma com que as pessoas usam o fato de estarem conectadas. Às vezes, no trabalho, uma pessoa pode estar quase ao lado da outra, mas, em lugar de andar um pouco para conversar ou mesmo cutucar o ombro do colega, manda uma mensagem instantânea. Isso é demais.

Rafael – Eu daria total liberdade. Vejo crianças com pouco mais de 3 anos que já jogam e identificam teclas no computador. Não entendem o significado, nem mesmo que aquilo é uma letra, mas sabem a função que a tecla tem no jogo. Isso é uma lição de tecnologia que será útil para toda a vida.

 

Em que mundo vivíamos

Regis Filho


Visto em retrospecto, o Brasil estava na pré-história da tecnologia em 1998. A internet era incipiente, a telefonia, jurássica, e os computadores, caros. Pouco se falava em mobilidade

Pager

1998: 1,2 milhão de usuários  
Hoje: 50 000 usuários, na maioria médicos

Fonte: Teletrim

 

Internet  

1998: apenas 3,4 milhões de pessoas tinham acesso à internet. Só empresas contavam com banda larga
Hoje: 33 milhões de brasileiros usam a web, sendo que 6,4 milhões têm acesso à internet por banda larga

 

Celular

J. Miranda
StarTac: inovador, mas com visor minúsculo, custava 2 500 reais


1998:
7,3 milhões de usuários. O StarTac, o mais cobiçado, custava 2 500 reais
Hoje: 107 milhões de usuários. Muitos aparelhos são oferecidos de graça pelas operadoras

Fonte: Teleco/StarTAC

 

 

 

Computador

Dercilio
Lançamento em 1998: desktop com Pentium II


1998:
O Pentium II, o processador mais avançado, realizava 1 bilhão de operações por segundo
Hoje: O processador
Core 2 Quad executa 10 bilhões de operações por segundo

Fonte: Intel

 

 

 

Música digital

1998: baixar uma música da web demorava seis horas, já que a velocidade de conexão discada era 8 000 vezes mais lenta que a atual
Hoje: o download de um arquivo de MP3 exige menos de dez segundos dos computadores munidos com conexão de banda larga

Fonte: Intel

 
     
 
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