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Internet
Os "nerds" dez anos depois
Em 1998, VEJA reuniu para um bate-papo
na redação
em São Paulo um grupo de garotos cuja obsessão pelos
computadores os distinguia dos colegas. Eles foram mais
uma vez reunidos agora, quase dez anos depois, para
debater uma questão simples: como a afinidade precoce
e forte com as novas tecnologias influiu em sua vida e
carreira profissional. A seguir, os melhores trechos da
mesa-redonda coordenada pelo editor Carlos Rydlewski.
Montagem sobre fotos Lailson Santos
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| A partir da esquerda, Rafael Tinoco, Guilherme
Cervenka, Ugo Pozo, Carlos Franco, Felipe Russo e Ricardo Ruiz
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| Veja
também |
Vídeo - Depoimento
Tecnologia e vida profissional
Velocidade: Baixa
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Veja Valeu a pena ter passado
tanto tempo na frente de um computador na adolescência?
Felipe Para mim, foi ótimo.
Consegui dominar uma ferramenta que pouca gente conhecia e isso
me trouxe uma vantagem competitiva. Entrei mais cedo no mercado
de trabalho, graças ao que aprendi naquele tempo. Comecei
criando sites para o comércio eletrônico. Hoje, sou
gerente de sistemas em um grande banco.
Veja O que você
aprendeu de tão vital naqueles tempos?
Felipe
Quando comecei a usar a internet, as ferramentas da rede eram muito
precárias e pouco amigáveis. Para construir páginas
na web, por exemplo, era preciso aprender algum tipo de linguagem
de programação. Assim, desde cedo, eu me tornei um
programador. Isso fez a diferença.
Fotos Roberto Setton
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| Formado em engenharia elétrica, Ricardo
Ruiz, 25 anos, trabalha com publicidade virtual. Aos 16 anos
(foto à esq.), seu acesso à internet era limitado
pelo custo da ligação |
Ricardo Meu ramo de atividade é a publicidade,
mas meu trabalho é totalmente focado em tecnologia. Acredito
que o aprendizado precoce me ajudou a ver as coisas relacionadas
à computação de uma maneira mais simples ou
mais natural. Quando comecei a trabalhar, às vezes meus colegas
se descabelavam durante oito horas para fazer um relatório
de links patrocinados. Sem grande esforço, eu criei uma ferramenta
que reduziu esse tempo para alguns minutos. Esse tipo de situação
acontece sempre. Algo que adquiri na adolescência, e ainda
é vital, foi o gosto por novidades. Tenho vontade de estar
sempre na vanguarda. Assim, sempre tento descobrir coisas novas
e repasso o que encontro de interessante a outras áreas da
empresa.
Veja Há dez
anos, alguém imaginava que no futuro trabalharia com tecnologia?
Rafael
Aos 16 anos, eu já havia decidido o que queria fazer e onde
iria trabalhar. Sempre gostei de estudar sistemas operacionais e
me apaixonei pelo Solaris, da Sun. Desde então, só
me imaginava trabalhando nessa empresa. Passei uns quatro anos mandando
currículos para a Sun toda semana. Deu certo. Hoje, no trabalho,
mantenho contato com pessoas incríveis e tenho acesso a versões
preliminares de programas, chamadas de beta, antes que cheguem ao
mercado.
É isso que me dá prazer.
Carlos Acho que
quem começou com tecnologia na adolescência hoje está
mais bem preparado. Há pouca mão-de-obra no setor
tecnológico.
Veja A evolução
no mundo da tecnologia nos últimos dez anos correspondeu
ao que vocês imaginavam?
Ricardo A tecnologia digital
espalhou-se de forma impressionante. Poucas pessoas tinham computador
dez anos atrás. Hoje, a telefonia, a televisão, os
vídeos, a música, tudo está no computador.
A facilidade de acesso aos equipamentos também aumentou,
de modo que ninguém precisa ser um especialista para aproveitar
todos esses recursos.
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| Arquiteto de software na Sun Microsystems,
Rafael Tinoco, 24 anos, realizou seu sonho: aos 16 anos (foto
à esq.) já queria trabalhar na Sun |
Rafael Comercialmente,
os sites estão muito diferentes. Antes, a única preocupação
era exibir um produto ou ganhar dinheiro com banners de propaganda.
Agora, as empresas de tecnologia, como o Google ou a Amazon, gerenciam
a identidade e os hábitos de quem acessa suas páginas
na web. Querem conhecer detalhes do comportamento dos consumidores
para oferecer exatamente o que eles procuram. Isso é muito
mais sutil do que os velhos banners.
Felipe Há
dez anos, o brasileiro mal tinha telefone. Havia filas de espera
por uma linha, que era caríssima. Ninguém conseguia
fazer uma transferência bancária pela internet. Hoje,
fazemos tudo na web. A transformação foi radical.
O que me surpreende é o volume da informação.
Até relativamente pouco tempo atrás, os textos, as
músicas, tudo o que circulasse pela rede era necessariamente
pequeno. Um disquete armazenava 1,4 megabyte de dados e parecia
muita coisa. Hoje, nem se usam mais disquetes.
Veja O que demorou
mais do que vocês imaginavam?
Felipe
A expansão da internet foi grande, mas bem mais lenta do
que eu imaginava. Achei que em um curto espaço de tempo o
mundo todo, independentemente da classe social, estaria conectado.
Outra coisa que avançou pouco foi o acesso à web pelo
celular. Só agora a conexão e a navegação
estão começando a melhorar.
Frederic Jean
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| Ugo Pozo, 21 anos, estuda jornalismo. Mas
seu passatempo ainda é a programação de
computador. Na foto à esquerda, aos 13 anos, na mesa-redonda
de VEJA |
Veja Dez anos atrás, havia grande expectativa em
relação à inteligência artificial. A
demora no desenvolvimento dessa tecnologia foi uma frustração?
Ugo Sempre achei que isso
fosse coisa de escritor de ficção científica.
Veja Quais as tecnologias
surgidas ou consolidadas nos últimos anos que vocês
destacam como mais importantes?
Ricardo
A grande virada digital e a facilidade na transferência de
dados. Eu aposentei a minha TV. Baixo filmes e vídeos pela
internet. É tudo muito rápido. Se um episódio
de uma série começa a ser transmitido numa rede de
televisão americana, ele é imediatamente capturado
e jogado na web. Em meia hora, está disponível para
mim, no meu computador. O melhor é que está disponível
para ser visto a qualquer hora, quando eu quiser.
Ugo Com esse tipo
de recurso, acaba o atraso com que certas coisas chegam ao Brasil.
Alguns seriados demoram tanto para passar por aqui que todo mundo
já sabe o que aconteceu. Parece o Vale a Pena Ver de Novo.
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| Felipe Russo, 25 anos, é gerente de
sistemas de tecnologia no Banco Santander. Aos 17 anos (foto
à esq.), ele descobriu as possibilidades oferecidas
pelos chats |
Felipe Acredito
que o avanço não se resume a apenas uma coisa. O que
temos é a soma de várias coisas. Há dez anos,
quanto tempo uma pessoa demoraria para comprar um livro, pagar uma
conta no banco ou descobrir se tinha uma multa de carro pendente?
Hoje, isso tudo pode ser feito e resolvido em pouco tempo. Basta
estar na rede.
Guilherme Acho
que isso tudo se resume em mais conforto. A tecnologia trouxe comodidade.
Veja Entre vocês,
apenas dois não vivem mergulhados em tecnologia. Por quê?
Ugo Eu ainda faço páginas na
internet e gosto de colaborar com sites de código aberto.
Também uso linguagens de programação alternativas,
como Phyton. Mas não tenho muito prazer em trabalhar profissionalmente
com tecnologia. Por enquanto, estou dando um tempo.
Frederic Jean
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| Formado em engenharia química, Guilherme
Cervenka, 24 anos, é trainee numa grande indústria.
Aos 15 anos (foto à esq.), ele passava a madrugada
na internet |
Guilherme Eu deixei
tudo para trás. Na faculdade de engenharia, ainda brinquei
bastante com programação. Cheguei a vender trabalhos
sobre computação, porque muitas pessoas no curso nada
sabiam do assunto. Agora, trabalho com treinamento em produção
industrial.
Veja Vocês
deixariam seus filhos passar tanto tempo na frente do computador
como vocês passaram na adolescência?
Ricardo
Sim. Hoje, as crianças estão começando até
mais cedo a lidar com tecnologia. A diferença é que
não precisam mais navegar só de madrugada como antes,
quando a conexão era menos lenta e os custos, menores.
Ugo Esse é
um assunto a ser discutido entre pais e filhos. Para mim, o envolvimento
com o computador foi bom. Antes de usar a internet, eu era o grande
excluído no meu círculo de conhecidos. Não
conversava com ninguém. Depois que comecei a usar a rede,
fiz amigos e, mais tarde, os conheci pessoalmente. Com a interação
que surgiu, passei a conviver mais com o pessoal da escola. A web
foi um grande catalisador de relações sociais.
Guilherme É
preciso controlar o uso pelas crianças, porque hoje há
muita porcaria na internet e o acesso é muito fácil.
Frederic Jean
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Formado em publicidade, Carlos Franco, 26 anos,
trabalha com internet. Aos 17 anos (na foto à esq.),
ele já sabia do potencial comercial da web
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Carlos Eu também controlaria um pouco. Há
certo exagero na forma com que as pessoas usam o fato de estarem
conectadas. Às vezes, no trabalho, uma pessoa pode estar
quase ao lado da outra, mas, em lugar de andar um pouco para conversar
ou mesmo cutucar o ombro do colega, manda uma mensagem instantânea.
Isso é demais.
Rafael Eu daria
total liberdade. Vejo crianças com pouco mais de 3 anos que
já jogam e identificam teclas no computador. Não entendem
o significado, nem mesmo que aquilo é uma letra, mas sabem
a função que a tecla tem no jogo. Isso é uma
lição de tecnologia que será útil para
toda a vida.
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Em que mundo vivíamos
Regis Filho
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Visto em retrospecto, o Brasil estava na pré-história
da tecnologia em 1998. A internet era incipiente, a telefonia,
jurássica, e os computadores, caros. Pouco se falava
em mobilidade
Pager
1998: 1,2 milhão
de usuários
Hoje: 50 000 usuários,
na maioria médicos
Fonte: Teletrim
Internet
1998: apenas 3,4
milhões de pessoas tinham acesso à internet.
Só empresas contavam com banda larga
Hoje: 33 milhões
de brasileiros usam a web, sendo que 6,4 milhões têm
acesso à internet por banda larga
Celular
J. Miranda
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| StarTac: inovador, mas com visor minúsculo,
custava 2 500 reais |
1998: 7,3 milhões de usuários. O StarTac,
o mais cobiçado, custava 2 500 reais
Hoje: 107 milhões
de usuários. Muitos aparelhos
são oferecidos de graça pelas
operadoras
Fonte: Teleco/StarTAC
Computador
Dercilio
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| Lançamento em 1998: desktop com
Pentium II |
1998: O Pentium II, o processador mais avançado,
realizava 1 bilhão de operações por segundo
Hoje: O processador Core
2 Quad executa 10 bilhões de
operações por segundo
Fonte: Intel
Música digital
1998: baixar uma
música da web demorava seis horas, já que a
velocidade de conexão discada era 8 000 vezes mais
lenta que a atual
Hoje: o download de um arquivo
de MP3 exige menos de dez segundos dos computadores munidos
com conexão de banda larga
Fonte: Intel
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