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Internet
A nova civilização on-line
A geração que
cresceu com a internet vive em
ritmo acelerado e já aboliu a separação entre
os
relacionamentos do mundo real e aqueles do virtual

Érica Chaves e Lia Luz
Montagem sobre Atômica Studio
sobre foto Fabiano Accorsi
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| O paulista Lucas da Costa Moura,
17 anos, criou uma comunidade para a banda americana
Panic! At the Disco que já tem
70 000 membros. "Só para administrá-la
fico três horas por dia conectado ao Orkut", ele
conta |
O círculo
de amizades de Lucas da Costa Moura, estudante paulistano de 17
anos, é formado por meio milhão de pessoas. Lucas
coordena um fórum no Orkut que reúne 70 000 fãs
da banda de rock Panic! At the Disco. Ele também freqüenta
outras cinqüenta comunidades na internet. Uma delas tem mais
de 250 000 participantes. Como se vê, a atividade de Lucas
na rede mundial de computadores é intensa. Diariamente, confere
uma centena de recados postados por integrantes do fã-clube
on-line, cuja maioria tem entre 13 e 18 anos. Responsável
pela página, tem o dever de vigiar o comportamento alheio.
"Não permitimos ofensas contra a banda ou contra algum membro
da comunidade", explica. Para completar, ainda precisa ser ativo
na militância roqueira. Recentemente, ele e alguns amigos
lançaram um ataque cibernético para abarrotar as caixas
de e-mail de gravadoras e órgãos de imprensa. Os
milhares de mensagens exigiam a vinda do Panic! ao Brasil. Para
dar conta de toda essa atividade, Lucas passa cinco horas diárias
diante do computador. "Acho que num dia tenho contato com mais gente
do que meus pais tiveram a vida toda", diz.
Fabiano Accorsi
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| A paulista Ana Carolina Pugliesi Sanches,
15 anos, conversa com 700 pessoas no MSN. "Quando a gente conhece
uma pessoa virtualmente, a amizade nasce pelo que ela é,
não pela aparência física", ela avalia |
A rotina on-line
de Lucas é condizente com os hábitos de sua geração.
A antropóloga americana Anne Kirah, que trabalhou na Microsoft
e hoje está num centro de estudos da inovação,
na Dinamarca, cunhou a expressão "nativos da geração
digital" para definir os jovens que não conheceram o mundo
antes do e-mail. Os "nativos" dedicam bastante tempo aos sites de
relacionamento, nos quais podem compartilhar conhecimento, músicas,
fotos, filmes e muita conversa furada. O maior desses espaços
é o MySpace, com 70 milhões de pessoas cadastradas.
Em um mês, os usuários realmente ativos do site americano
chegam a 60 milhões. Em média, cada um permanece conectado
duas horas e dez minutos por dia. Outro campeão em popularidade,
o Facebook, cujo criador tem apenas 23 anos, atingiu 33 milhões
de usuários cadastrados, segundo a última conta. Estima-se
que 260 milhões de pessoas freqüentem sites de relacionamento
em comunidades virtuais em todo o mundo. O preferido dos brasileiros
é o pioneiro Orkut, com 50 milhões de cadastros
os chamados perfis , mas muitos deles são duplicados.
É uma forma de driblar o limite máximo de 1 000 contatos
por perfil.
Ernani D'Almeida
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| A comerciária carioca Patrícia
Ferreira Barbosa se preocupa com o filho Pedro, de 15 anos,
porque ele passa oito horas diárias na frente do computador.
"Sei que muitos jovens são assim, mas tenho de lembrá-lo
até de almoçar e jantar, senão ele não
come", ela conta |
O universo digital
constitui um claro separador entre gerações, ainda
que não seja privativo de nenhuma delas. Menos conhecido
é seu impacto no comportamento daqueles que nasceram nesta
era tomada pela tecnologia. A socióloga Sherry Turkle, do
Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês),
disse a VEJA que "a pressão de estar conectado pode ser um
peso para os adolescentes". O mais notável nesta geração
é o fim da separação entre o mundo real e o
virtual. Um diálogo por mensagem instantânea é
hoje tão intenso quanto um encontro cara a cara e, muitas
vezes, até mais íntimo. É uma realidade sem
volta. Pesquisa divulgada em junho pela consultoria americana NPD
Group mostrou que as primeiras incursões no mundo on-line
ocorrem cada vez mais cedo. A média atual é de 6,7
anos. Em 2005, era de 8,1 anos.
Os adolescentes usam a web como
uma espécie de laboratório social, para testar limites
do relacionamento. A estudante paulista Larissa Stephanie Bozzolan,
15 anos, assídua no Orkut e no MSN, diz ter maior intimidade
com o computador do que com os pais. "Quando estou dando uma bronca,
prefiro falar pessoalmente, mas tem coisas que só consigo
digitar", diz. As novidades não dizem respeito apenas a relacionamento
e troca de informações mas, também,
a velocidade. A antropóloga Anne Kirah observou que a maior
dificuldade dos imigrantes (isto é, aquelas pessoas nascidas
quando o telefone tinha disco e, em caso de urgência, enviavam-se
telegramas) é entrar em sintonia com o ritmo atual e acelerado
da sociedade on-line. Para os jovens, que não conheceram
outra vida, isso é perfeitamente natural.
Fabiano Accorsi
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| Larissa Stephanie Bozzolan, 15 anos, chega
da escola e logo entra no Orkut e no MSN. "Quando revelo um
segredo ou quero dar uma bronca, prefiro olhar para a pessoa,
mas tem coisas que, por vergonha, só consigo dizer através
do computador", conta ela |
A tecnologia abriu uma porta para que as pessoas possam estar em
contato permanente umas com as outras e para que tenham acesso ininterrupto
à informação. Ainda é cedo para conhecer
os efeitos a longo prazo da cultura da comunicação.
O modelo é espetacular, e seus benefícios para a difusão
do conhecimento são evidentes. Em contrapartida, a conexão
permanente parece estar reduzindo o tempo disponível para
simplesmente sentar e pensar. Sherry Turkle, do MIT, teme que a
falta de momentos freqüentes de isolamento, característicos
da adolescência no passado, possa prejudicar o amadurecimento
das pessoas. Mas seria realista tentar se desconectar num mundo
em que tudo o que é interessante parece estar ocorrendo on-line?
Durante o período de férias, a carioca Patrícia
Ferreira Barbosa acordava regularmente às 3 horas da manhã
só para tirar da web seu filho Pedro, de 15 anos. Quando
está fora de casa, telefona para lembrá-lo de almoçar
e jantar. Ela diz que, em geral, mesmo quando Pedro está
em casa, sente falta do filho. "Para eu ficar com ele, tenho de
sentar ao lado do computador. Ele só deixa a internet para
ficar comigo por no máximo alguns minutos", diz Patrícia.
Bem-vindo ao admirável mundo novo.
Com reportagem de Rodrigo Martim
de Macedo
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