ÍNDICE
 Carta ao leitor

Velocidade: O avanço exponencial da tecnologia

Nanotecnologia: A Lilipute da ciência

Biotecnologia: As pesquisas com células e genes

Entrevista: Judah Folkman

Transgênicos: As vantagens para o consumidor

Vida digital: Serviços proliferam na rede

Entrevista: Vinton Cerf

Entrevista: Tim Berners-Lee

Artigo: Kevin Kelly

Conectividade: A ligação entre as redes sem fio

Neurotecnologia: Próteses controladas pela mente

Robótica: As máquinas ameaçam aprender

Bell Labs: A rede que imita o corpo

Entrevista: Charles Townes

Apple: Modelo de inovação

Perfil: Steve Jobs

Carros: Combustíveis e motores do futuro

Produtos: TVs, pen drives e celulares

Artigo: Michio Kaku

Engenharia: Prédios cada vez mais altos

Artigo: Jaron Lanier

Computação gráfica: O realismo na animação
   
 

ECONOMIA ARTIGO: MICHIO KAKU*
A nova riqueza das nações

O que os países devem fazer
para prosperar na era do capitalismo
intelectual e quais empregos a tecnologia
vai de fato varrer do mapa

Se a ciência é o motor da prosperidade, como nações em desenvolvimento podem usá-la para criar riqueza? Para responder a essa questão, entrevistei 150 entre os cientistas mais conceituados do mundo, pessoas que inventam o futuro a partir de seus laboratórios. Conversei também com economistas e tecnocratas, profissionais que tentam traduzir os avanços científicos em ganhos econômicos concretos. Os economistas são unânimes em identificar pré-requisitos relacionados à prosperidade das nações. Enumeram ao menos três condições elementares para a construção da riqueza.

As duas primeiras são: 1) paz e estabilidade; e 2) disposição para o trabalho e união da população. (Ambas parecem simples demais, mas não são. Há muitas regiões do mundo tomadas por guerras, desastres naturais, fome e doenças, assim como por conflitos raciais e étnicos.) Como terceira condição, normalmente é destacada a abundância de recursos naturais, como petróleo, diamantes, metais ou mesmo trigo. Ocorre que, apesar de comum, essa avaliação merece um exame mais detalhado. O Japão industrializou-se não uma, mas duas vezes no século passado, e quase não dispõe de recursos naturais. É verdade que itens como madeira, trigo e açúcar já pavimentaram a estrada para o sucesso de muitos países e ainda são importantes. Mas é preciso reconhecer quanto antes que há uma profunda alteração em curso no mundo. Ela é ditada pela mudança na natureza da tecnologia.

 

Shane Young/The New York Times
Funcionários da Intel, nos EUA, preparam-se para entrar em área de produção de chips: o emprego vai valorizar o que os robôs não sabem fazer

Entre commodities e softwares – A economia mundial está passando por duas grandes guinadas. Primeiro, há a transição histórica do capitalismo das commodities para o capitalismo intelectual. Quando Adam Smith se debruçou sobre os fundamentos do capitalismo, ele sabia que qualquer nação que contasse com commodities valiosas era, por definição, rica. Os preços desses itens, no entanto, têm caído constantemente na média nos últimos 150 anos. Pode haver exceções, mas é justamente por isso que, hoje pela manhã, tomamos um café com fartura, ao qual o rei da Inglaterra não poderia ter acesso um século atrás. Delicatessens estrangeiras, extremamente caras há 100 anos, são trivialidades em nossas mesas. Isso é resultado de melhoria nos sistemas de transportes, da produção em massa, da competição e da automação.

Por outro lado, o capitalismo intelectual cresceu em valor e está se tornando gradualmente a fonte dominante de riqueza no planeta. Por capitalismo intelectual não entendo somente a alta tecnologia, mas "produtos" que computadores e máquinas não podem reproduzir facilmente. Há inúmeros exemplos nesse campo: liderança, imaginação, capacidade de julgamento e análise são alguns deles. A arte e os filmes, assim como os softwares, também integram o capitalismo intelectual. E é bom destacar que cérebros não podem ser produzidos em massa.

Para entender o capitalismo intelectual, é preciso compreender a natureza da inteligência artificial e dos computadores. Há duas tarefas que mesmo as nossas máquinas mais avançadas ainda não alcançam. A primeira é o reconhecimento de padrões. Ou seja, os computadores podem até enxergar melhor que os humanos, mas, em geral, não entendem o que vêem. A segunda é o senso comum. Sabemos, mesmo sem freqüentar escolas, que a água é molhada, que animais não gostam de sentir dor, que as mães são mais velhas que as filhas e que os fios podem ser esticados, mas não comprimidos. Temos consciência disso, pois convivemos com fios, água, filhas e animais. Isso é, simplesmente, senso comum. Parece pouco, mas os robôs não o possuem.

Trabalhos eliminados – Em qualquer economia, há vencedores e perdedores. Os postos de trabalho que serão gradualmente eliminados, como o ferreiro do século passado, serão aqueles que requerem um reconhecimento mínimo, quer de padrão, quer de senso comum. Isso coloca em risco não apenas o trabalhador da indústria automotiva, que freqüentemente executa tarefas repetitivas, mas também trabalhos associados a contabilidade e inventários simples, como os feitos por agentes de viagens, caixas de banco e corretores de imóveis. Esses são os "homens do meio". Estão nos chamados pontos de fricção do capitalismo.

É por isso que florescerão no futuro os postos de atividades que requerem senso comum, capacidade de julgamento e criatividade. Isso significa não somente engenheiros de software e cientistas, mas igualmente comediantes, estrelas de cinema, artistas e técnicos. (Infelizmente, para alguns, isso também quer dizer que teremos advogados no futuro. Cada caso é diferente do outro e requer interpretação de valores que mudam constantemente e necessitam da capacidade de julgamento humano. Um "advogado-robô" só tem chances de surgir num futuro distante.)

A segunda característica da economia atual é, como se sabe, a globalização. E quais são seus pré-requisitos? Em primeiro lugar, educar a população. As pessoas podem ser pobres, mas se interessam em aprender sobre as novas tecnologias que estão modificando o mundo. Isso significa que também é preciso difundir na nação o respeito pela ciência, o que se faz concedendo verbas para pesquisas, estimulando a proliferação de ambientes criativos e cuidando das universidades e centros de ensino. Só assim se aproveita o surgimento de um bloco imenso de novas indústrias (software, robótica, biotecnologia e telecomunicações) que não existiam alguns anos atrás.

A arte da transição – Além disso, e talvez mais importante, as nações precisam aprender a fazer a transição da economia fincada nas commodities para outro modelo, sustentado pelo capital intelectual. Isso se faz usando as commodities de hoje para pavimentar a modernização da economia de amanhã. Os produtos primários devem ser usados como um trampolim para o futuro. E nunca como um fim. Nações que não promoverem essa transição verão sua economia ser reduzida, gradualmente, a pó.

E a tecnologia não está tão distante dos países em desenvolvimento, pois vêm surgindo várias alternativas, que, muitas vezes, substituem os pesados investimentos tradicionais. Existem atalhos no mundo moderno. Por exemplo, em vez de interligar cada casa por cabos, o que levaria décadas, a internet sem fio permite às nações em desenvolvimento avançar estágios, chegando sem grandes esforços a padrões de conectividade dignos do século XXI. Investimentos relativamente baratos em satélites e torres de microondas permitem que países pobres se conectem com o futuro.

O objetivo dessas medidas é formar uma classe média crescente, próspera e estável. Infelizmente, muitas nações que começam o processo de industrialização oferecem recompensas apenas para uma pequena elite – o que atrasa o desenvolvimento da economia doméstica. Um processo inverso, que fortaleça a classe média, revigora os negócios, promove a estabilidade e um senso de justiça social. Idealmente, deveria haver uma corrente constante conduzindo as pessoas mais pobres para a classe média.

Em outras palavras, temos de ver o futuro como um trem de carga. O apito diz: "Internet, inteligência artificial, biotecnologia e nanotecnologia". Algumas pessoas, no entanto, responderão: "Sou muito velho, não consigo aprender todas essas novas tecnologias. Vou apenas me deitar e ser atropelado pela locomotiva". Outros, porém, pedirão: "Coloque-me no trem! Quero me sentar ao lado do maquinista. Esse é meu futuro e meu destino". A estrada para a prosperidade, portanto, não é tão difícil de ser vislumbrada. O problema é que somente algumas poucas nações vão trilhá-la.

 
* Professor de física da Universidade da Cidade de Nova York, autor de best-sellers
como
Visões do Futuro: Como a Ciência Revolucionará o Século XXI e Hiperespaço

 
   
 
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