| | ECONOMIA
• ARTIGO:
MICHIO KAKU* A nova riqueza das nações
O que os países devem fazer
para prosperar na era do capitalismo intelectual e quais empregos a tecnologia
vai de fato varrer do mapa Se a ciência é
o motor da prosperidade, como nações em desenvolvimento podem usá-la
para criar riqueza? Para responder a essa questão, entrevistei 150 entre
os cientistas mais conceituados do mundo, pessoas que inventam o futuro a partir
de seus laboratórios. Conversei também com economistas e tecnocratas,
profissionais que tentam traduzir os avanços científicos em ganhos
econômicos concretos. Os economistas são unânimes em identificar
pré-requisitos relacionados à prosperidade das nações.
Enumeram ao menos três condições elementares para a construção
da riqueza. As duas primeiras são: 1) paz
e estabilidade; e 2) disposição para o trabalho e união da
população. (Ambas parecem simples demais, mas não são.
Há muitas regiões do mundo tomadas por guerras, desastres naturais,
fome e doenças, assim como por conflitos raciais e étnicos.) Como
terceira condição, normalmente é destacada a abundância
de recursos naturais, como petróleo, diamantes, metais ou mesmo trigo.
Ocorre que, apesar de comum, essa avaliação merece um exame mais
detalhado. O Japão industrializou-se não uma, mas duas vezes no
século passado, e quase não dispõe de recursos naturais.
É verdade que itens como madeira, trigo e açúcar já
pavimentaram a estrada para o sucesso de muitos países e ainda são
importantes. Mas é preciso reconhecer quanto antes que há uma profunda
alteração em curso no mundo. Ela é ditada pela mudança
na natureza da tecnologia. Shane
Young/The New York Times
 | | Funcionários
da Intel, nos EUA, preparam-se para entrar em área de produção de chips: o emprego
vai valorizar o que os robôs não sabem fazer |
Entre
commodities e softwares A economia mundial está passando por
duas grandes guinadas. Primeiro, há a transição histórica
do capitalismo das commodities para o capitalismo intelectual. Quando Adam Smith
se debruçou sobre os fundamentos do capitalismo, ele sabia que qualquer
nação que contasse com commodities valiosas era, por definição,
rica. Os preços desses itens, no entanto, têm caído constantemente
na média nos últimos 150 anos. Pode haver exceções,
mas é justamente por isso que, hoje pela manhã, tomamos um café
com fartura, ao qual o rei da Inglaterra não poderia ter acesso um século
atrás. Delicatessens estrangeiras, extremamente caras há 100 anos,
são trivialidades em nossas mesas. Isso é resultado de melhoria
nos sistemas de transportes, da produção em massa, da competição
e da automação. Por outro lado, o
capitalismo intelectual cresceu em valor e está se tornando gradualmente
a fonte dominante de riqueza no planeta. Por capitalismo intelectual não
entendo somente a alta tecnologia, mas "produtos" que computadores e máquinas
não podem reproduzir facilmente. Há inúmeros exemplos nesse
campo: liderança, imaginação, capacidade de julgamento e
análise são alguns deles. A arte e os filmes, assim como os softwares,
também integram o capitalismo intelectual. E é bom destacar que
cérebros não podem ser produzidos em massa.
Para entender o capitalismo intelectual, é preciso compreender a natureza
da inteligência artificial e dos computadores. Há duas tarefas que
mesmo as nossas máquinas mais avançadas ainda não alcançam.
A primeira é o reconhecimento de padrões. Ou seja, os computadores
podem até enxergar melhor que os humanos, mas, em geral, não entendem
o que vêem. A segunda é o senso comum. Sabemos, mesmo sem freqüentar
escolas, que a água é molhada, que animais não gostam de
sentir dor, que as mães são mais velhas que as filhas e que os fios
podem ser esticados, mas não comprimidos. Temos consciência disso,
pois convivemos com fios, água, filhas e animais. Isso é, simplesmente,
senso comum. Parece pouco, mas os robôs não o possuem.
Trabalhos eliminados Em qualquer economia, há
vencedores e perdedores. Os postos de trabalho que serão gradualmente eliminados,
como o ferreiro do século passado, serão aqueles que requerem um
reconhecimento mínimo, quer de padrão, quer de senso comum. Isso
coloca em risco não apenas o trabalhador da indústria automotiva,
que freqüentemente executa tarefas repetitivas, mas também trabalhos
associados a contabilidade e inventários simples, como os feitos por agentes
de viagens, caixas de banco e corretores de imóveis. Esses são os
"homens do meio". Estão nos chamados pontos de fricção do
capitalismo. É por isso que florescerão
no futuro os postos de atividades que requerem senso comum, capacidade de julgamento
e criatividade. Isso significa não somente engenheiros de software e cientistas,
mas igualmente comediantes, estrelas de cinema, artistas e técnicos. (Infelizmente,
para alguns, isso também quer dizer que teremos advogados no futuro. Cada
caso é diferente do outro e requer interpretação de valores
que mudam constantemente e necessitam da capacidade de julgamento humano. Um "advogado-robô"
só tem chances de surgir num futuro distante.)
A segunda característica da economia atual é, como se sabe, a globalização.
E quais são seus pré-requisitos? Em primeiro lugar, educar a população.
As pessoas podem ser pobres, mas se interessam em aprender sobre as novas tecnologias
que estão modificando o mundo. Isso significa que também é
preciso difundir na nação o respeito pela ciência, o que se
faz concedendo verbas para pesquisas, estimulando a proliferação
de ambientes criativos e cuidando das universidades e centros de ensino. Só
assim se aproveita o surgimento de um bloco imenso de novas indústrias
(software, robótica, biotecnologia e telecomunicações) que
não existiam alguns anos atrás. A
arte da transição Além disso, e talvez mais importante,
as nações precisam aprender a fazer a transição da
economia fincada nas commodities para outro modelo, sustentado pelo capital intelectual.
Isso se faz usando as commodities de hoje para pavimentar a modernização
da economia de amanhã. Os produtos primários devem ser usados como
um trampolim para o futuro. E nunca como um fim. Nações que não
promoverem essa transição verão sua economia ser reduzida,
gradualmente, a pó. E a tecnologia não
está tão distante dos países em desenvolvimento, pois vêm
surgindo várias alternativas, que, muitas vezes, substituem os pesados
investimentos tradicionais. Existem atalhos no mundo moderno. Por exemplo, em
vez de interligar cada casa por cabos, o que levaria décadas, a internet
sem fio permite às nações em desenvolvimento avançar
estágios, chegando sem grandes esforços a padrões de conectividade
dignos do século XXI. Investimentos relativamente baratos em satélites
e torres de microondas permitem que países pobres se conectem com o futuro.
O objetivo dessas medidas é formar uma classe
média crescente, próspera e estável. Infelizmente, muitas
nações que começam o processo de industrialização
oferecem recompensas apenas para uma pequena elite o que atrasa o desenvolvimento
da economia doméstica. Um processo inverso, que fortaleça a classe
média, revigora os negócios, promove a estabilidade e um senso de
justiça social. Idealmente, deveria haver uma corrente constante conduzindo
as pessoas mais pobres para a classe média.
Em outras palavras, temos de ver o futuro como um trem de carga. O apito diz:
"Internet, inteligência artificial, biotecnologia e nanotecnologia". Algumas
pessoas, no entanto, responderão: "Sou muito velho, não consigo
aprender todas essas novas tecnologias. Vou apenas me deitar e ser atropelado
pela locomotiva". Outros, porém, pedirão: "Coloque-me no trem! Quero
me sentar ao lado do maquinista. Esse é meu futuro e meu destino". A estrada
para a prosperidade, portanto, não é tão difícil de
ser vislumbrada. O problema é que somente algumas poucas nações
vão trilhá-la. *
Professor de física da Universidade da Cidade de Nova York, autor de
best-sellers como Visões do Futuro: Como a Ciência Revolucionará
o Século XXI e Hiperespaço | |