| | PERFIL
O antiblablablá
Nunca peça a Steve Jobs uma apresentação em PowerPoint
ou esqueminhas do gênero. O homem é puro talento e intuição
Ian
Waldie/Getty Images
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Steve Jobs, o manda-chuva da Apple e dos estúdios Pixar, é uma das
personalidades mais cativantes do mundo da tecnologia. Por isso mesmo, é
tema de quilos de artigos e livros de teor biográfico. Esses textos debruçam-se
sobre o homem para tentar explicar o sucesso do executivo. No geral, é
óbvio, falham. Mas o próprio Jobs resolveu esse problema. Apesar
de sempre refratário a abordagens em primeira pessoa, fez um discurso surpreendente
a estudantes que se formaram no ano passado em Stanford, na Califórnia.
Discorreu sobre sua adoção e o medo da morte, após a descoberta
de um tumor. Mostrou que é essencialmente prático e nunca deixou
de ter na intuição um lastro fortíssimo. A seguir, alguns
trechos da fala, o mais curioso auto-retrato do líder de uma das maiores
máquinas de inovações já montadas pela indústria
dos Estados Unidos. A ADOÇÃO
"Minha mãe biológica era jovem, solteira e recém-formada.
Decidiu me entregar para adoção. Queria que eu tivesse formação
universitária. Ficou arranjado que, ao nascer, eu seria entregue a um advogado
e a sua esposa. Mas, no último instante, eles decidiram que queriam uma
menina. Então, o casal seguinte da lista de espera recebeu uma ligação
no meio da noite: 'Temos um bebê inesperado, vocês querem ficar com
ele?'. Eles disseram: 'Claro'. Mas minha mãe (adotiva) nunca havia
se formado e meu pai (adotivo) não havia concluído a escola
secundária. Minha mãe biológica se recusou a assinar os papéis
de adoção. Só mudou de idéia depois de alguns meses,
quando meus pais prometeram que eu teria formação superior.
FACULDADE "E, dezessete
anos depois, entrei na faculdade. Mas escolhi uma escola cara. Todas as economias
de meus pais, que eram operários, foram gastas nas mensalidades. Depois
de seis meses, não conseguia ver benefícios naquilo. Decidi abandonar
o curso e acreditar que tudo daria certo. Foi assustador.
CALIGRAFIA "Nem tudo era romântico. Eu
não tinha onde dormir, passava a noite no chão do quarto de amigos.
Recolhia garrafas e recebia 5 centavos por cada uma. Caminhava 11 quilômetros
até o outro lado da cidade todo domingo à noite por uma boa refeição
em um templo hare krishna. Decidi fazer aulas de caligrafia. Era bonito, histórico,
artisticamente sutil. Eu achava isso fascinante. Nada disso tinha a menor esperança
de aplicação prática. Mas, dez anos depois, esses conhecimentos
me ajudaram a projetar o primeiro Macintosh. Se eu não tivesse freqüentado
aquele único curso na faculdade, o Mac nunca teria tantos tipos e fontes
proporcionalmente espaçadas. E, como o Windows apenas o copiou, é
provável que nenhum computador pessoal os tivesse.
AS MAÇÃS "Tive sorte. Descobri
cedo o que gostava de fazer. Woz (Steve Wozniak) e eu começamos
a Apple na garagem de meus pais. Eu tinha 20 anos. Em dez anos, a Apple se tornou
uma companhia de 2 bilhões de dólares com mais de 4 000 funcionários.
Tínhamos lançado nossa melhor criação o Macintosh
um ano antes e eu acabara de fazer 30 anos. Então, fui demitido.
E de uma maneira bem pública. Como você pode ser demitido de uma
empresa que fundou? Bem, à medida que a Apple crescia, contratei uma pessoa
que pensei ser talentosa para administrar a empresa comigo. Mas nossa visão
do futuro começou a divergir e tivemos um desentendimento. Quando isso
aconteceu, a diretoria ficou do lado dessa pessoa. Fiquei arrasado.
PIXAR "À época, não percebi,
mas foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. O peso do sucesso foi substituído
pela leveza de um iniciante, com menos certeza sobre tudo. Isso me deu liberdade
para entrar em um dos períodos mais criativos de minha vida. Fundei a NeXT
e a Pixar, que criou o primeiro filme animado por computador do mundo, Toy
Story. Numa notável seqüência de eventos, a Apple comprou
a NeXT. Voltei para a empresa, e a tecnologia que desenvolvemos na NeXT está
no coração do renascimento da Apple.
A MORTE "Um dia, fiz um exame às 7h30
que identificou um tumor no pâncreas. E eu nem sabia o que era o pâncreas!
Meu médico me aconselhou a ir para casa e colocar meus negócios
em ordem. Isso significa: prepare-se para morrer. Significa tentar dizer aos seus
filhos tudo o que você pensou que teria os próximos dez anos para
lhes falar. Vivi com esse diagnóstico o dia todo. Depois, no fim do dia,
fiz uma biópsia. Eu estava sedado, mas minha esposa disse que, quando os
médicos viram as células no microscópio, começaram
a chorar, pois descobriram que era uma forma rara de câncer tratável.
Isso foi o mais perto que cheguei da morte e espero que seja o mais perto por
algumas décadas mais. FOME
E JOVIALIDADE "Quando eu era jovem, havia uma publicação
maravilhosa chamada The Whole Earth Catalog (O Catálogo de Toda
a Terra), uma das bíblias da minha geração. Tudo era feito
com máquinas de escrever, tesouras e polaróides. Era tipo um Google
em formato brochura, mas 35 anos antes do Google. Era idealista e trazia uma abundância
de recursos elegantes e idéias brilhantes. Estávamos em meados dos
anos 70, eles publicaram uma edição final. Na contracapa, havia
a fotografia de uma estradinha de terra ao amanhecer. Embaixo, lia-se: Stay
hungry; stay foolish (Mantenha-se ávido; mas não se leve tão
a sério). Era a mensagem de despedida deles. E tenho sempre desejado isso
para mim." Fotos
divulgação
 |  | | O
primeiro Macintosh, de 1984: marco de uma revolução na interface com os usuários
| Cores inéditas: o iMac, de 1998, terminou com a ditadura
do cinza nos computadores |
 | | | Na
fronteira do estilo: o modelo de 2002, tipo abajur, mostrou a força do design
da marca | A cereja do bolo: vendas do iPod, lançado em
2001, atingiram a marca de uma a cada segundo |
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