ÍNDICE
 Carta ao leitor

Velocidade: O avanço exponencial da tecnologia

Nanotecnologia: A Lilipute da ciência

Biotecnologia: As pesquisas com células e genes

Entrevista: Judah Folkman

Transgênicos: As vantagens para o consumidor

Vida digital: Serviços proliferam na rede

Entrevista: Vinton Cerf

Entrevista: Tim Berners-Lee

Artigo: Kevin Kelly

Conectividade: A ligação entre as redes sem fio

Neurotecnologia: Próteses controladas pela mente

Robótica: As máquinas ameaçam aprender

Bell Labs: A rede que imita o corpo

Entrevista: Charles Townes

Apple: Modelo de inovação

Perfil: Steve Jobs

Carros: Combustíveis e motores do futuro

Produtos: TVs, pen drives e celulares

Artigo: Michio Kaku

Engenharia: Prédios cada vez mais altos

Artigo: Jaron Lanier

Computação gráfica: O realismo na animação
   
 

PESQUISA
A mágica do laser

A criação que rendeu o Nobel ao físico
Charles Townes em 1964 é um
marco
entre as inovações modernas e
ainda
hoje fonte de novas aplicações


Alessandro Greco

Em 1937, Charles Townes fazia pós-graduação no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, na sigla em inglês) quando optou por se tornar físico experimental. Fugiu da teoria, pois as "letrinhas miúdas dos livros" o deixavam com "dor nos olhos". E acertou na mosca. Foi o caminho dos laboratórios que o levou à descoberta da primeira versão do laser, que em vez de luz usava microondas, em 1951. Chamava-se "Maser", em inglês, um acrônimo de Amplificação de Microondas pela Emissão Estimulada de Radiação. As possibilidades óticas do invento foram descritas em um artigo em 1958. No início da pesquisa, o físico americano não tinha a menor idéia do que iria produzir. Achava apenas interessante unir num estudo microondas e moléculas. Acertou de novo. Pelo trabalho, Townes emplacou o Prêmio Nobel de Física em 1964, dividido com os cientistas russos Nicolay Basov e Aleksandr Prokhorov.

Apesar da idade, o laser é uma invenção que parece nunca se esgotar. Não param de surgir em todo o mundo novas aplicações e aprimoramentos para a Amplificação de Luz pela Emissão Estimulada de Radiação (Laser, na sigla em inglês). Esses novos usos abrangem áreas tão distintas como a medicina, caso de cirurgias, e a informática. Atingem ainda a renovação de aparelhos domésticos. Os badalados Blu-Ray e o HD-DVD, por exemplo, tidos como sucessores dos DVDs, são resultado de uma evolução da tecnologia da luz mágica. Ambos usam um feixe azul-violeta, mais sensível que o laser infravermelho dos leitores de CDs convencionais.

Townes acredita que dois fatores são essenciais para a inovação: a liberdade de pesquisa e o convívio com bons profissionais, que cria um ambiente estimulante e propício para a troca de idéias. Ele teve as duas coisas. Recebeu o apoio necessário para levar adiante suas pesquisas e, nas várias instituições por onde passou, fez amigos como J. Robert Oppenheimer, o pai do Projeto Manhattan, que levou à construção da bomba atômica, Linus Pauling, ganhador de dois prêmios Nobel, além de William Shockley e Walter Brattain, co-inventores do transistor. "Decididamente, dinheiro não é o mais importante para a inovação", diz o cientista, que completa 91 anos em 28 de julho e ainda trabalha na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

VEJA: Por que inovar é tão difícil para uma empresa ou para um país?
CHARLES TOWNES: Somente países e companhias que fazem muitas coisas diferentes em ciência e tecnologia inovam, pois a inovação geralmente é inesperada. Algumas invenções acontecem com base em pesquisas orientadas, mas a maioria ocorre quase por acidente. A ciência é imprevisível. Se olharmos para o que aconteceu no século passado, veremos que todas as grandes mudanças foram repentinas e inesperadas. Quando inventei o laser, eu estava tentando fazer ciência. Não pretendia criar uma aplicação. Não pensava em um feixe que produzisse uma luz brilhante e intensa. Mas, agora, olhe o que aconteceu a partir do laser: aplicações de todos os tipos.

VEJA: Como o laser, uma inovação de meados do século passado, pode ainda produzir tantas novas aplicações?
TOWNES: Basicamente, porque há pessoas inteligentes debruçadas sobre o laser e desenvolvendo novas pesquisas. Mas isso não foi sempre assim. Quando o laser surgiu, os comentários eram: "Ah, muito bom, mas para que serve?". Diziam que era uma solução à procura de um problema. A invenção era tão inovadora que ninguém tinha pensado no que poderia fazer. Eu respondia: "Olha, o laser une óptica e eletrônica. Essas são áreas muito importantes. Certamente, haverá diversas aplicações". Acertei.

VEJA: É preciso muito dinheiro para inovar?
TOWNES: Dinheiro ajuda, mas o mais importante é deixar as pessoas fazer coisas diferentes. Elas têm de explorar livremente suas idéias. É assim que as inovações aparecem. Não acredito em outra solução.

VEJA: E como o senhor decidiu se dedicar à pesquisa que resultou
no laser?
TOWNES: Eu estava nos Bell Labs e disse às pessoas que deveriam me deixar na área de pesquisa de interação entre microondas e moléculas. As microondas são importantes para a comunicação. E eu acreditava que as moléculas poderiam interagir com microondas de uma forma útil. O pessoal do laboratório autorizou o trabalho. É um pouco técnico, mas funciona assim: as microondas têm comprimentos de onda que vão de 2 a 60 centímetros. Eu queria produzir ondas muito mais curtas, bem mais intensas, pois os efeitos seriam mais fortes. Mas não foi fácil conseguir esse resultado. Tentei várias possibilidades, mas nenhuma funcionou bem. Continuei pensando por vários anos até solucionar o problema.

VEJA: Como o senhor o solucionou?
TOWNES: A Marinha americana sabia que eu estava trabalhando nisso e me pediu para comandar um comitê nacional em torno do assunto. Viajamos o país inteiro visitando laboratórios, mas não encontramos nada realmente importante, nenhuma solução. Na verdade, a resposta que eu procurava só me ocorreu no último dia da reunião do comitê, em Washington. Naquela manhã, acordei preocupado com a falta de uma solução. Era um belo dia e fui andando até um parque. Lembro que me sentei em um banco ao lado de umas azaléias. Pensei em tudo que tínhamos tentado e por que não havia funcionado. De repente, achei que poderíamos usar a radiação para estimular as moléculas a liberar sua energia. Foi assim que tudo começou.

VEJA: Quais são as áreas com maior potencial de inovação atualmente?
TOWNES: Acho que nanotecnologia e biotecnologia (veja reportagens nas págs. 16 e 24, respectivamente) são muito importantes e interessantes. Elas têm um campo enorme de possibilidades.

VEJA: O senhor acredita que a tecnologia pode realmente ajudar a diminuir a pobreza?
TOWNES: Essa não é uma relação tão garantida como muitos imaginam. A tecnologia dá aos homens o poder, o potencial para isso. Mas temos de fazer com que ela seja usada na direção correta.

 
   
 
COPYRIGHT © EDITORA ABRIL S.A. - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS