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PESQUISA
A mágica do laser
A criação que rendeu o
Nobel ao físico
Charles Townes em 1964 é um marco
entre as inovações modernas e ainda
hoje fonte de novas aplicações

Alessandro Greco
Em 1937, Charles Townes fazia pós-graduação
no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, na sigla
em inglês) quando optou por se tornar físico experimental.
Fugiu da teoria, pois as "letrinhas miúdas dos livros" o
deixavam com "dor nos olhos". E acertou na mosca. Foi o caminho
dos laboratórios que o levou à descoberta da primeira
versão do laser, que em vez de luz usava microondas, em 1951.
Chamava-se "Maser", em inglês, um acrônimo de Amplificação
de Microondas pela Emissão Estimulada de Radiação.
As possibilidades óticas do invento foram descritas em um
artigo em 1958. No início da pesquisa, o físico americano
não tinha a menor idéia do que iria produzir. Achava
apenas interessante unir num estudo microondas e moléculas.
Acertou de novo. Pelo trabalho, Townes emplacou o Prêmio Nobel
de Física em 1964, dividido com os cientistas russos Nicolay
Basov e Aleksandr Prokhorov.
Apesar da idade, o laser é uma invenção
que parece nunca se esgotar. Não param de surgir em todo
o mundo novas aplicações e aprimoramentos para a Amplificação
de Luz pela Emissão Estimulada de Radiação
(Laser, na sigla em inglês). Esses novos usos abrangem áreas
tão distintas como a medicina, caso de cirurgias, e a informática.
Atingem ainda a renovação de aparelhos domésticos.
Os badalados Blu-Ray e o HD-DVD, por exemplo, tidos como sucessores
dos DVDs, são resultado de uma evolução da
tecnologia da luz mágica. Ambos usam um feixe azul-violeta,
mais sensível que o laser infravermelho dos leitores de CDs
convencionais.
Townes acredita que dois fatores são
essenciais para a inovação: a liberdade de pesquisa
e o convívio com bons profissionais, que cria um ambiente
estimulante e propício para a troca de idéias. Ele
teve as duas coisas. Recebeu o apoio necessário para levar
adiante suas pesquisas e, nas várias instituições
por onde passou, fez amigos como J. Robert Oppenheimer, o pai do
Projeto Manhattan, que levou à construção da
bomba atômica, Linus Pauling, ganhador de dois prêmios
Nobel, além de William Shockley e Walter Brattain, co-inventores
do transistor. "Decididamente, dinheiro não é o mais
importante para a inovação", diz o cientista, que
completa 91 anos em 28 de julho e ainda trabalha na Universidade
da Califórnia, em Berkeley.
VEJA: Por que inovar é tão
difícil para uma empresa ou para um país?
CHARLES TOWNES: Somente países e companhias que
fazem muitas coisas diferentes em ciência e tecnologia inovam,
pois a inovação geralmente é inesperada. Algumas
invenções acontecem com base em pesquisas orientadas,
mas a maioria ocorre quase por acidente. A ciência é
imprevisível. Se olharmos para o que aconteceu no século
passado, veremos que todas as grandes mudanças foram repentinas
e inesperadas. Quando inventei o laser, eu estava tentando fazer
ciência. Não pretendia criar uma aplicação.
Não pensava em um feixe que produzisse uma luz brilhante
e intensa. Mas, agora, olhe o que aconteceu a partir do laser: aplicações
de todos os tipos.
VEJA: Como o laser, uma inovação
de meados do século passado, pode ainda produzir tantas novas
aplicações?
TOWNES: Basicamente, porque há pessoas inteligentes
debruçadas sobre o laser e desenvolvendo novas pesquisas.
Mas isso não foi sempre assim. Quando o laser surgiu, os
comentários eram: "Ah, muito bom, mas para que serve?". Diziam
que era uma solução à procura de um problema.
A invenção era tão inovadora que ninguém
tinha pensado no que poderia fazer. Eu respondia: "Olha, o laser
une óptica e eletrônica. Essas são áreas
muito importantes. Certamente, haverá diversas aplicações".
Acertei.
VEJA: É preciso muito dinheiro
para inovar?
TOWNES: Dinheiro ajuda, mas o mais importante é
deixar as pessoas fazer coisas diferentes. Elas têm de explorar
livremente suas idéias. É assim que as inovações
aparecem. Não acredito em outra solução.
VEJA: E como o senhor decidiu se
dedicar à pesquisa que resultou
no laser?
TOWNES: Eu estava nos Bell Labs e disse às pessoas
que deveriam me deixar na área de pesquisa de interação
entre microondas e moléculas. As microondas são importantes
para a comunicação. E eu acreditava que as moléculas
poderiam interagir com microondas de uma forma útil. O pessoal
do laboratório autorizou o trabalho. É um pouco técnico,
mas funciona assim: as microondas têm comprimentos de onda
que vão de 2 a 60 centímetros. Eu queria produzir
ondas muito mais curtas, bem mais intensas, pois os efeitos seriam
mais fortes. Mas não foi fácil conseguir esse resultado.
Tentei várias possibilidades, mas nenhuma funcionou bem.
Continuei pensando por vários anos até solucionar
o problema.
VEJA: Como o senhor o solucionou?
TOWNES: A Marinha americana sabia que eu estava trabalhando
nisso e me pediu para comandar um comitê nacional em torno
do assunto. Viajamos o país inteiro visitando laboratórios,
mas não encontramos nada realmente importante, nenhuma solução.
Na verdade, a resposta que eu procurava só me ocorreu no
último dia da reunião do comitê, em Washington.
Naquela manhã, acordei preocupado com a falta de uma solução.
Era um belo dia e fui andando até um parque. Lembro que me
sentei em um banco ao lado de umas azaléias. Pensei em tudo
que tínhamos tentado e por que não havia funcionado.
De repente, achei que poderíamos usar a radiação
para estimular as moléculas a liberar sua energia. Foi assim
que tudo começou.
VEJA: Quais são as áreas
com maior potencial de inovação atualmente?
TOWNES: Acho que nanotecnologia e biotecnologia (veja
reportagens nas págs. 16 e 24,
respectivamente) são muito importantes e interessantes.
Elas têm um campo enorme de possibilidades.
VEJA: O senhor acredita que a tecnologia
pode realmente ajudar a diminuir a pobreza?
TOWNES: Essa não é uma relação
tão garantida como muitos imaginam. A tecnologia dá
aos homens o poder, o potencial para isso. Mas temos de fazer com
que ela seja usada na direção correta.
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