ÍNDICE
 Carta ao leitor

Velocidade: O avanço exponencial da tecnologia

Nanotecnologia: A Lilipute da ciência

Biotecnologia: As pesquisas com células e genes

Entrevista: Judah Folkman

Transgênicos: As vantagens para o consumidor

Vida digital: Serviços proliferam na rede

Entrevista: Vinton Cerf

Entrevista: Tim Berners-Lee

Artigo: Kevin Kelly

Conectividade: A ligação entre as redes sem fio

Neurotecnologia: Próteses controladas pela mente

Robótica: As máquinas ameaçam aprender

Bell Labs: A rede que imita o corpo

Entrevista: Charles Townes

Apple: Modelo de inovação

Perfil: Steve Jobs

Carros: Combustíveis e motores do futuro

Produtos: TVs, pen drives e celulares

Artigo: Michio Kaku

Engenharia: Prédios cada vez mais altos

Artigo: Jaron Lanier

Computação gráfica: O realismo na animação
   
 

ROBÓTICA
A superameba

É um robozinho com número de "neurônios" pouco
superior ao de um verme. Mas isso já é espetacular


Heitor Shimizu


Divulgação
Máquina, mas curiosa: o Darwin se interessa pelos cubos que acha pelo caminho

É antigo o desejo do homem de construir máquinas que pensam – no limite, à sua imagem e semelhança. Algo como os robôs descritos por Isaac Asimov (1920-1992), um dos mais populares escritores de ficção científica do século passado. O autor imaginou engenhocas que vão muito além dos computadores. Elas não só processariam as informações como também teriam cérebro permeado por caminhos neuronais sintéticos – parecido com o dos humanos. Claro que isso não tem nada a ver com o mundo real. Hoje, os pesquisadores de todo o planeta ainda não conseguiram levar a inteligência artificial muito além da fronteira cerebral de uma ameba. As máquinas existentes nem de longe formulam raciocínios, mas, ainda que de forma incipiente, entraram num estágio notável de desenvolvimento. Elas começam a dar sinais de que podem aprender. Prova disso vem do Instituto de Neurociências de La Jolla, na Califórnia. Ali, um grupo de pesquisadores construiu uma série de robôs chamados Darwin, sendo que o último apresentado no fim de 2005 atingiu uma capacidade de "raciocínio", ou processamento de informações, considerada equivalente à de 20 000 células cerebrais (ou neurônios). Há uma versão em estudo com 53 450. Uma idéia do que isso representa: o homem tem em torno de 100 bilhões de neurônios; um rato, 100 milhões; e um verme como o Caenorhabditis elegans, simples, mas que desempenha todas as funções básicas de um animal, 300 neurônios – ou seja, é pior do que o Darwin.

Visualmente, o invento também não tem nada a ver com aqueles que habitam as telas do cinema. Lembra mais um aspirador de pó – e depois de uma briga com a vassoura. Mas superou em muito o patamar de qualquer aparelho que funcione à base de controles remotos ou execute funções pré-programadas. Ele opera com base em princípios biológicos. O robozinho aparenta interagir com o ambiente e demonstra interesse com o que encontra pela frente. Ao deparar com blocos de montar espalhados no chão, por exemplo, não os evita, mas usa seus bracinhos mecânicos para pegar as peças e experimentá-las em alguns tipos de disposição. Tem a curiosidade de um bebê que encontra objetos e não sabe para que servem. Assim, o Darwin, chamado de "dispositivo baseado no cérebro" (Brain-Based Devices, ou BBD), é capaz de mudar ações a partir do auto-aprenzidado. "A máquina se relaciona cada vez mais com o ambiente", disse Jeffrey Krichmar, um dos pais do pequeno Darwin, cujos primeiros trabalhos teóricos datam de 2003.

Porém, há diferentes abordagens em busca da construção da máquina "pensante". Rodney Brooks, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, um dos mais destacados pesquisadores nessa área, prega o avanço passo a passo, como têm feito os pesquisadores do Darwin. Acredita que o melhor é começar de baixo, caminhando da ameba para o inseto, depois para o rato, passando pelo chimpanzé até, um dia, construir um cérebro artificial, minimamente digno do nome. Outros pesquisadores, como o americano Daniel Hillis, que em 1983 fundou a empresa Thinking Machines (Máquinas Pensantes), defendem trajetória diferente. Julgam que a busca do robô-homem terminará quando os computadores tiverem pelo menos 1 milhão de processadores, que seriam suficientes para simular a capacidade dos cerca de 100 bilhões de neurônios do cérebro humano. Atualmente, porém, o equipamento desse tipo mais potente do planeta, o Blue Gene/L, da IBM, tem "somente" 131 072 processadores.

Ainda que a ciência não tenha chegado à construção de uma inteligência artificial com a complexidade do sistema nervoso de um simples inseto, muitos acham que a pesquisa avançará com o desenvolvimento da informática. "Antes do fim do século XXI, os humanos já não serão a entidade mais inteligente e capaz do planeta", indicou o cientista Ray Kurzweil, um dos pesquisadores mais otimistas com o futuro da tecnologia, no livro The Age of Spiritual Machines. Ele acredita que a evolução da inteligência eletrônica é exponencial, com os saltos ocorrendo em períodos cada vez menores. Ou seja, será preciso menos tempo para chegar do rato ao homem do que da ameba ao inseto. E o pulo seguinte será ainda mais rápido. "Assim que o computador alcançar o nível da inteligência humana, ele a ultrapassará", disse Kurzweil a VEJA. Se for assim, resta esperar que, se um dia as máquinas adquirirem a inteligência da ficção, ao menos não aprontem a bagunça que costumam armar nas telas do cinema.

 
   
 
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