| | ROBÓTICA A
superameba É um robozinho com
número de "neurônios" pouco superior ao de um verme. Mas isso
já é espetacular  Heitor
Shimizu
Divulgação
 | | Máquina,
mas curiosa: o Darwin se interessa pelos cubos que acha pelo caminho |
É antigo o desejo do homem de construir máquinas
que pensam no limite, à sua imagem e semelhança. Algo como
os robôs descritos por Isaac Asimov (1920-1992), um dos mais populares escritores
de ficção científica do século passado. O autor imaginou
engenhocas que vão muito além dos computadores. Elas não
só processariam as informações como também teriam
cérebro permeado por caminhos neuronais sintéticos parecido
com o dos humanos. Claro que isso não tem nada a ver com o mundo real.
Hoje, os pesquisadores de todo o planeta ainda não conseguiram levar a
inteligência artificial muito além da fronteira cerebral de uma ameba.
As máquinas existentes nem de longe formulam raciocínios, mas, ainda
que de forma incipiente, entraram num estágio notável de desenvolvimento.
Elas começam a dar sinais de que podem aprender. Prova disso vem do Instituto
de Neurociências de La Jolla, na Califórnia. Ali, um grupo de pesquisadores
construiu uma série de robôs chamados Darwin, sendo que o último
apresentado no fim de 2005 atingiu uma capacidade de "raciocínio", ou processamento
de informações, considerada equivalente à de 20 000 células
cerebrais (ou neurônios). Há uma versão em estudo com 53 450.
Uma idéia do que isso representa: o homem tem em torno de 100 bilhões
de neurônios; um rato, 100 milhões; e um verme como o Caenorhabditis
elegans, simples, mas que desempenha todas as funções básicas
de um animal, 300 neurônios ou seja, é pior do que o Darwin.
Visualmente, o invento também
não tem nada a ver com aqueles que habitam as telas do cinema. Lembra mais
um aspirador de pó e depois de uma briga com a vassoura. Mas superou
em muito o patamar de qualquer aparelho que funcione à base de controles
remotos ou execute funções pré-programadas. Ele opera com
base em princípios biológicos. O robozinho aparenta interagir com
o ambiente e demonstra interesse com o que encontra pela frente. Ao deparar com
blocos de montar espalhados no chão, por exemplo, não os evita,
mas usa seus bracinhos mecânicos para pegar as peças e experimentá-las
em alguns tipos de disposição. Tem a curiosidade de um bebê
que encontra objetos e não sabe para que servem. Assim, o Darwin, chamado
de "dispositivo baseado no cérebro" (Brain-Based Devices, ou BBD), é
capaz de mudar ações a partir do auto-aprenzidado. "A máquina
se relaciona cada vez mais com o ambiente", disse Jeffrey Krichmar, um dos pais
do pequeno Darwin, cujos primeiros trabalhos teóricos datam de 2003.
Porém, há diferentes abordagens em busca da construção
da máquina "pensante". Rodney Brooks, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT), nos Estados Unidos, um dos mais destacados pesquisadores nessa área,
prega o avanço passo a passo, como têm feito os pesquisadores do
Darwin. Acredita que o melhor é começar de baixo, caminhando da
ameba para o inseto, depois para o rato, passando pelo chimpanzé até,
um dia, construir um cérebro artificial, minimamente digno do nome. Outros
pesquisadores, como o americano Daniel Hillis, que em 1983 fundou a empresa Thinking
Machines (Máquinas Pensantes), defendem trajetória diferente. Julgam
que a busca do robô-homem terminará quando os computadores tiverem
pelo menos 1 milhão de processadores, que seriam suficientes para simular
a capacidade dos cerca de 100 bilhões de neurônios do cérebro
humano. Atualmente, porém, o equipamento desse tipo mais potente do planeta,
o Blue Gene/L, da IBM, tem "somente" 131 072 processadores.
Ainda que a ciência não tenha chegado à construção
de uma inteligência artificial com a complexidade do sistema nervoso de
um simples inseto, muitos acham que a pesquisa avançará com o desenvolvimento
da informática. "Antes do fim do século XXI, os humanos já
não serão a entidade mais inteligente e capaz do planeta", indicou
o cientista Ray Kurzweil, um dos pesquisadores mais otimistas com o futuro da
tecnologia, no livro The Age of Spiritual Machines. Ele acredita que a
evolução da inteligência eletrônica é exponencial,
com os saltos ocorrendo em períodos cada vez menores. Ou seja, será
preciso menos tempo para chegar do rato ao homem do que da ameba ao inseto. E
o pulo seguinte será ainda mais rápido. "Assim que o computador
alcançar o nível da inteligência humana, ele a ultrapassará",
disse Kurzweil a VEJA. Se for assim, resta esperar que, se um dia as máquinas
adquirirem a inteligência da ficção, ao menos não aprontem
a bagunça que costumam armar nas telas do cinema. | |