| |
VIDA DIGITAL
... e ele criou a web
O físico Tim Berners-Lee,
o "pai da www", prevê
novo salto da rede com intercâmbio maior
de dados

Alessandro Greco
Wendy Maeda/The New York Times
 |
| Berners-Lee não quis patentear o invento:
"Fiz uma obra social, e não um brinquedinho" |
A internet é formada, basicamente,
pela ligação entre computadores, via cabo. Mas os
recursos que conferem "inteligência" à rede são
aqueles que permitem a interação entre os milhões
de páginas que abrigam textos, imagens e sons. Esse mundo
virtual regido pela conectividade é chamado de web. É
nele que os internautas navegam pelos sites com apenas um toque
no mouse sem que ninguém precise decorar códigos
complexos ou números extensos. O mérito pela criação
desse espaço é do físico inglês Tim Berners-Lee.
Foi ele quem inventou a World Wide Web, a "teia do tamanho do mundo",
conhecida pela sigla www. O homem, enfim, é o pai da web.
Mas não quis patentear o invento. "Ela é uma criação
social, e não um brinquedinho", escreveu Berners-Lee, no
fim dos anos 90. Hoje, o físico garante que não se
arrepende da decisão, que poderia tê-lo tornado biliardário.
Atualmente, ele se dedica a aprimorar ainda mais os recursos da
rede e está à frente do projeto da "web semântica".
Berners-Lee acredita que essa nova versão aumentará
consideravelmente as possibilidades da internet, pois torna possível
o cruzamento de dados que hoje ficam confinados em programas diferentes.
A seguir trechos da entrevista concedida por Berners-Lee a VEJA.
VEJA: Hoje, o senhor
se arrepende de não ter patenteado a web?
TIM BERNERS-LEE: Não. A web só decolou
porque não estava vinculada a nenhum sistema proprietário,
pelo qual as pessoas teriam de pagar para ter acesso. Digo isso
porque, antes da web, muitas idéias de sistemas fracassaram.
Eram semelhantes ao que criei, mas não eram abertos.
VEJA: Muitas coisas
na web são construídas de forma colaborativa, como
a Wikipedia, a enciclopédia da rede. Essa cultura tende a
crescer?
BERNERS-LEE: Acredito que sim. Desenhei a web para que
fosse um espaço colaborativo. Esse é o espírito
da coisa. O que está acontecendo mostra que as pessoas têm
a necessidade de exercer a criatividade juntas.
VEJA: Participação
demais pode piorar a confiabilidade do conteúdo. Como tornar
a web mais confiável?
BERNERS-LEE: Acho que a rede não é diferente
de nenhuma outra fonte de informação. Em qualquer
situação, é preciso saber sua procedência.
Na web, quando seguimos links de boas fontes, as informações
podem ser confiáveis.
VEJA: Por que a www
proliferou tão rapidamente?
BERNERS-LEE: Um dos motivos é o que chamo de
"gratificação instantânea". É isso o
que as pessoas sentem ao construir uma página na web e, imediatamente,
vê-la pronta em um navegador. Também é possível
copiar a página de uma pessoa para fazer a sua. A tecnologia
é simples e foi criada justamente para facilitar as coisas.
VEJA: O que contribuiu
para a criação da web?
BERNERS-LEE: Na época, eu vivia no mundo da física
de alta energia, que era uma comunidade quase perfeita para adotar
esse tipo de ferramenta. Eu trabalhava no Cern (centro europeu de
pesquisas voltado para o estudo das partículas) e tínhamos
alguns problemas sérios. Havia pessoas participando de alguns
projetos mas que estavam separadas por longas distâncias e
usando sistemas de computadores diferentes. As ferramentas que criei
resolveram esse entrave. Também existiam pessoas brilhantes
dispostas a encarar um novo sistema virtual integrado.
VEJA: Quem vai vencer:
os que querem controlar a internet ou os que querem mantê-la
como é hoje livre e com o conteúdo acessível
a qualquer pessoa?
BERNERS-LEE: Essa é uma batalha constante, mas
o acesso não-controlado à informação
é tão importante para as pessoas que elas sempre lutam
duramente contra qualquer tipo de restrição. É
verdade que alguns governos ainda tentam criar limites nesse campo,
mas acredito que, pelo menos a longo prazo, eles terão de
mudar de postura. Só com o tipo de liberdade da web um país
pode realmente ser mais competitivo econômica e cientificamente.
VEJA: O senhor
já se sentiu responsável pelos problemas criados pela
web, como novas modalidades de crime?
BERNERS-LEE: Não acredito que eu possa ser responsabilizado
nem pelo que há de bom nem pelo que existe de ruim na web.
Não mais do que os inventores do papel podem ser responsabilizados
pelo que é feito com ele. A web é um meio neutro.
Mas acho importante que todos os engenheiros e pesquisadores que
constroem a infra-estrutura da rede fiquem atentos aos possíveis
benefícios e ameaças que ela pode representar. O que
temos de oferecer é uma infra-estrutura que garanta a existência
de uma sociedade justa, aberta e democrática.
VEJA: Agora o senhor
se dedica a divulgar a web semântica. O que é isso?
BERNERS-LEE: Hoje, programas como editores de texto,
planilhas e calendários captam e formatam a informação
de uma maneira específica. Por isso, os dados ficam confinados
a esses programas. A web semântica traz tecnologias que permitem
o cruzamento dessas informações com facilidade, independentemente
do tipo de programa em que elas estejam guardadas. Um exemplo: vamos
supor que um cientista esteja trabalhando no desenvolvimento de
uma nova droga. Ele sabe que efeitos a substância provoca
no corpo. Outro entende por que isso acontece. Muitos outros técnicos
podem ter informações sobre o que ocorreu no passado,
quando se tentou usar esse mesmo medicamento. Mas nenhum deles,
e principalmente nenhum programa ou aplicação, é
capaz de reunir e cruzar todas essas informações.
A web semântica pode conectá-los e reunir esses dados.
No mundo da medicina, já estamos fazendo algumas experiências
com a web semântica, reunindo um vasto volume de informações.
E muitos programas poderão surgir para aproveitar esse tipo
de base de dados, não só serviços de busca
ou navegadores.
| |