ÍNDICE
 Carta ao leitor

Velocidade: O avanço exponencial da tecnologia

Nanotecnologia: A Lilipute da ciência

Biotecnologia: As pesquisas com células e genes

Entrevista: Judah Folkman

Transgênicos: As vantagens para o consumidor

Vida digital: Serviços proliferam na rede

Entrevista: Vinton Cerf

Entrevista: Tim Berners-Lee

Artigo: Kevin Kelly

Conectividade: A ligação entre as redes sem fio

Neurotecnologia: Próteses controladas pela mente

Robótica: As máquinas ameaçam aprender

Bell Labs: A rede que imita o corpo

Entrevista: Charles Townes

Apple: Modelo de inovação

Perfil: Steve Jobs

Carros: Combustíveis e motores do futuro

Produtos: TVs, pen drives e celulares

Artigo: Michio Kaku

Engenharia: Prédios cada vez mais altos

Artigo: Jaron Lanier

Computação gráfica: O realismo na animação
   
 

TRANSGÊNICOS
A vez da nova geração

Alimentos geneticamente modificados vão
trazer benefícios diretos
para os consumidores
e não só para
a indústria e os produtores


Ruth Helena Bellinghini


Fábrica de Quadrinhos

O mundo colheu no ano passado a décima safra de alimentos geneticamente modificados, os transgênicos. Ao longo desse período, o número de países que adotaram a tecnologia passou de seis para 21. A área plantada aumentou cinqüenta vezes, atingindo 90 milhões de hectares, o que equivale a um território quase três vezes maior que o da Alemanha. Esse avanço excepcional concentrou os benefícios diretos nos produtores e na indústria. Foi marcado pelo aprimoramento genético das sementes, que se tornaram mais tolerantes a herbicidas e resistentes a insetos. Atingiram, principalmente, a soja, o milho, o algodão e a canola. Melhoramentos desse tipo vão prosseguir, mas há uma nova geração de transgênicos em gestão nos laboratórios, cujas vantagens atingirão diretamente o consumidor. Devem chegar ao mercado em cinco anos e incluem, por exemplo, óleos mais saudáveis – alguns contendo ômega-3, substância basicamente encontrada em peixes que vivem em águas frias, como o atum e o salmão, e que se acredita tenha efeitos protetores sobre o coração. "Mas vamos obter esses óleos da soja, sem o risco de ingerir produtos que podem conter alto teor de mercúrio, como os peixes existentes em muitas regiões do planeta", disse a VEJA Neal Stewart Jr., professor de genética molecular de plantas da Universidade do Tennessee. "Há também vários estudos em andamento para produzir plantas com níveis ampliados de flavonóides, substâncias naturais que podem ter um efeito 'antiquase-tudo' (oxidante, cancerígeno e inflamatório)."

Apesar de as grandes plantações de transgênicos alcançarem 21 países em 2005, as pesquisas ocorriam em mais de sessenta. O que pode vir desses centros de estudo? "A imaginação é o nosso limite", disse a VEJA Randall Prather, professor de biotecnologia reprodutiva da Universidade de Missouri-Columbia. "Ela só será freada por aquilo que o consumidor recusar e pelos limites das agências reguladoras. Tecnicamente, já podemos fazer quase tudo." Foi no laboratório de Prather que nasceram neste ano os primeiros porcos geneticamente modificados capazes de produzir ômega-3. Os animais receberam um gene com a "receita" da substância, extraído do verme Caenorhabditis elegans, usado em pesquisas por ter um código genético fácil de ser manipulado. Resultado: os porcos comuns têm apenas 1% de ômega-3; os geneticamente modificados, 8%. Agora, Prather quer observá-los para ver se a dose extra os tornará mais saudáveis na vida adulta. Nenhum animal comestível geneticamente modificado chegou ao mercado. E isso não deve ocorrer tão cedo. A Food and Drug Administration (FDA), que regula a entrada de alimentos e remédios no mercado americano, tem tratado esses bichos com o mesmo rigor exigido para a liberação de novos medicamentos.

A técnica da transgenia, por meio da qual um ou mais genes são inseridos no genoma de um organismo de outra espécie, acrescentando-lhe novas características, vai além do uso para a produção de alimentos. É empregada na medicina desde o início dos anos 80, por exemplo, para a produção de hormônios de crescimento e insulina. Esta era inicialmente extraída de animais. Hoje, são bactérias que a fabricam a partir de genes humanos. Plantas e animais geneticamente modificados também podem produzir substâncias importantes para a indústria farmacêutica. Nesse caso, são chamados de biorreatores. No início de junho, foi autorizado na Europa o uso de antitrombina humana, um composto que impede a formação de coágulos, produzido por cabras transgênicas. A Embrapa promete para ainda este ano o nascimento da primeira vaca geneticamente alterada para produzir fator de coagulação do sangue para uma nascente indústria nacional de hemoderivados.

As pesquisas em geral também se valem dos transgênicos. Existem empresas hoje especializadas em produzir camundongos e outros animais sob encomenda, com o gene que os cientistas quiserem, para criar modelos capazes de ajudar os pesquisadores a compreender determinadas doenças. Estudos realizados em alguns laboratórios utilizam peixes com genes de câncer humano ou ratos com doenças cardiovasculares. Outra aplicação interessante é a que está sendo feita por uma empresa da Dinamarca que desenvolve uma variedade de mostarda que muda de cor em contato com gases liberados por minas terrestres. A planta pode funcionar como detector natural para livrar vastos territórios desses artefatos de guerra. "Podemos pensar em plantas como essa que funcionem ainda como sentinelas e mudem de cor na presença de pragas agrícolas ou substâncias tóxicas", diz Stewart Jr., da Universidade do Tennessee.

 

Mais uma chance

A idéia de que os transgênicos poderiam combater a fome e as doenças nunca saiu do papel. Não prosperaram projetos como o do arroz dourado, enriquecido com betacaroteno, substância responsável por suprir a carência de vitamina A – que mata ou deixa cegas milhares de crianças em nações pobres. A tecnologia foi emperrada pela ausência de leis que permitissem o plantio. "Os testes experimentais também são caríssimos", disse a VEJA Jorge Mayer, peruano que coordena o Projeto Arroz Dourado. Mas a trajetória desse tipo de produto ganhou novo alento. A Fundação Bill & Melinda Gates está financiando quatro trabalhos que incluem o aumento do teor de pró-vitamina A (o betacaroteno), ferro, zinco, vitamina E e aminoácidos essenciais na mandioca, no sorgo, na banana e no arroz. Cada ação envolve vários centros de pesquisa liderados por uma instituição. A Universidade Estadual de Ohio comanda os trabalhos com mandioca; a Africa Harvest, com sorgo; a Universidade de Queensland, na Austrália, com banana; e a Universidade de Freiburg, na Alemanha, com arroz.

 

 
   
 
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