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TRANSGÊNICOS
A vez da nova geração
Alimentos geneticamente modificados
vão
trazer benefícios diretos para os consumidores
e não só para a indústria e os produtores

Ruth Helena Bellinghini
Fábrica de Quadrinhos
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O mundo colheu no ano passado a décima
safra de alimentos geneticamente modificados, os transgênicos.
Ao longo desse período, o número de países
que adotaram a tecnologia passou de seis para 21. A área
plantada aumentou cinqüenta vezes, atingindo 90 milhões
de hectares, o que equivale a um território quase três
vezes maior que o da Alemanha. Esse avanço excepcional concentrou
os benefícios diretos nos produtores e na indústria.
Foi marcado pelo aprimoramento genético das sementes, que
se tornaram mais tolerantes a herbicidas e resistentes a insetos.
Atingiram, principalmente, a soja, o milho, o algodão e a
canola. Melhoramentos desse tipo vão prosseguir, mas há
uma nova geração de transgênicos em gestão
nos laboratórios, cujas vantagens atingirão diretamente
o consumidor. Devem chegar ao mercado em cinco anos e incluem, por
exemplo, óleos mais saudáveis alguns contendo
ômega-3, substância basicamente encontrada em peixes
que vivem em águas frias, como o atum e o salmão,
e que se acredita tenha efeitos protetores sobre o coração.
"Mas vamos obter esses óleos da soja, sem o risco de ingerir
produtos que podem conter alto teor de mercúrio, como os
peixes existentes em muitas regiões do planeta", disse a
VEJA Neal Stewart Jr., professor de genética molecular de
plantas da Universidade do Tennessee. "Há também vários
estudos em andamento para produzir plantas com níveis ampliados
de flavonóides, substâncias naturais que podem ter
um efeito 'antiquase-tudo' (oxidante, cancerígeno e inflamatório)."
Apesar de as grandes plantações
de transgênicos alcançarem 21 países em 2005,
as pesquisas ocorriam em mais de sessenta. O que pode vir desses
centros de estudo? "A imaginação é o nosso
limite", disse a VEJA Randall Prather, professor de biotecnologia
reprodutiva da Universidade de Missouri-Columbia. "Ela só
será freada por aquilo que o consumidor recusar e pelos limites
das agências reguladoras. Tecnicamente, já podemos
fazer quase tudo." Foi no laboratório de Prather que nasceram
neste ano os primeiros porcos geneticamente modificados capazes
de produzir ômega-3. Os animais receberam um gene com a "receita"
da substância, extraído do verme Caenorhabditis
elegans, usado em pesquisas por ter um código genético
fácil de ser manipulado. Resultado: os porcos comuns têm
apenas 1% de ômega-3; os geneticamente modificados, 8%. Agora,
Prather quer observá-los para ver se a dose extra os tornará
mais saudáveis na vida adulta. Nenhum animal comestível
geneticamente modificado chegou ao mercado. E isso não deve
ocorrer tão cedo. A Food and Drug Administration (FDA), que
regula a entrada de alimentos e remédios no mercado americano,
tem tratado esses bichos com o mesmo rigor exigido para a liberação
de novos medicamentos.
A técnica da transgenia, por meio da
qual um ou mais genes são inseridos no genoma de um organismo
de outra espécie, acrescentando-lhe novas características,
vai além do uso para a produção de alimentos.
É empregada na medicina desde o início dos anos 80,
por exemplo, para a produção de hormônios de
crescimento e insulina. Esta era inicialmente extraída de
animais. Hoje, são bactérias que a fabricam a partir
de genes humanos. Plantas e animais geneticamente modificados também
podem produzir substâncias importantes para a indústria
farmacêutica. Nesse caso, são chamados de biorreatores.
No início de junho, foi autorizado na Europa o uso de antitrombina
humana, um composto que impede a formação de coágulos,
produzido por cabras transgênicas. A Embrapa promete para
ainda este ano o nascimento da primeira vaca geneticamente alterada
para produzir fator de coagulação do sangue para uma
nascente indústria nacional de hemoderivados.
As pesquisas em geral também se valem
dos transgênicos. Existem empresas hoje especializadas em
produzir camundongos e outros animais sob encomenda, com o gene
que os cientistas quiserem, para criar modelos capazes de ajudar
os pesquisadores a compreender determinadas doenças. Estudos
realizados em alguns laboratórios utilizam peixes com genes
de câncer humano ou ratos com doenças cardiovasculares.
Outra aplicação interessante é a que está
sendo feita por uma empresa da Dinamarca que desenvolve uma variedade
de mostarda que muda de cor em contato com gases liberados por minas
terrestres. A planta pode funcionar como detector natural para livrar
vastos territórios desses artefatos de guerra. "Podemos pensar
em plantas como essa que funcionem ainda como sentinelas e mudem
de cor na presença de pragas agrícolas ou substâncias
tóxicas", diz Stewart Jr., da Universidade do Tennessee.
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Mais uma chance
A idéia de que os transgênicos
poderiam combater a fome e as doenças nunca saiu do
papel. Não prosperaram projetos como o do arroz dourado,
enriquecido com betacaroteno, substância responsável
por suprir a carência de vitamina A que mata
ou deixa cegas milhares de crianças em nações
pobres. A tecnologia foi emperrada pela ausência de
leis que permitissem o plantio. "Os testes experimentais também
são caríssimos", disse a VEJA Jorge Mayer, peruano
que coordena o Projeto Arroz Dourado. Mas a trajetória
desse tipo de produto ganhou novo alento. A Fundação
Bill & Melinda Gates está financiando quatro trabalhos
que incluem o aumento do teor de pró-vitamina A (o
betacaroteno), ferro, zinco, vitamina E e aminoácidos
essenciais na mandioca, no sorgo, na banana e no arroz. Cada
ação envolve vários centros de pesquisa
liderados por uma instituição. A Universidade
Estadual de Ohio comanda os trabalhos com mandioca; a Africa
Harvest, com sorgo; a Universidade de Queensland, na Austrália,
com banana; e a Universidade de Freiburg, na Alemanha, com
arroz.
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