ÍNDICE
 Carta ao leitor

Velocidade: O avanço exponencial da tecnologia

Nanotecnologia: A Lilipute da ciência

Biotecnologia: As pesquisas com células e genes

Entrevista: Judah Folkman

Transgênicos: As vantagens para o consumidor

Vida digital: Serviços proliferam na rede

Entrevista: Vinton Cerf

Entrevista: Tim Berners-Lee

Artigo: Kevin Kelly

Conectividade: A ligação entre as redes sem fio

Neurotecnologia: Próteses controladas pela mente

Robótica: As máquinas ameaçam aprender

Bell Labs: A rede que imita o corpo

Entrevista: Charles Townes

Apple: Modelo de inovação

Perfil: Steve Jobs

Carros: Combustíveis e motores do futuro

Produtos: TVs, pen drives e celulares

Artigo: Michio Kaku

Engenharia: Prédios cada vez mais altos

Artigo: Jaron Lanier

Computação gráfica: O realismo na animação
   
 

BIOTECNOLOGIA
Em vez da cura, o controle

Após 35 anos, a teoria do médico Judah Folkman
virou revolução.
Seguindo suas idéias, a ciência
quer
transformar o câncer numa doença crônica,
como o diabetes


Ruth Helena Bellinghini

Janet Knott/NYT


Judah Folkman, professor da Escola de Medicina de Harvard e diretor do Programa de Biologia Vascular do Children's Hospital de Boston, é uma das maiores estrelas da pesquisa mundial sobre câncer. Calmo, ponderado e avesso a holofotes, é apenas cautelosamente otimista. Por isso, quando diz que vem por aí uma revolução no tratamento e na abordagem da doença, é bom prestar muita atenção. "Há 35 anos, era uma idéia, uma teoria, mas hoje está se tornando realidade: temos tudo para transformar o câncer numa doença crônica, administrável com alguns comprimidos, como fazemos com a hipertensão e o diabetes", diz. Tal possibilidade começa a se consolidar com o nascimento de uma nova classe de medicamentos. Eles impedem que o câncer crie novos vasos sanguíneos para se alimentar, crescer e se espalhar. Essas drogas, chamadas antiangiogênicos, evitam o avanço do câncer, mantendo-o pequenino e restrito ao órgão em que surgiu. Detalhe: Folkman também foi pioneiro nas pesquisas nesse campo. Eis suas respostas para algumas das grandes questões em torno do assunto.

VEJA: Quantas drogas capazes de barrar o avanço do câncer já estão disponíveis?
JUDAH FOLKMAN: Nos Estados Unidos, são doze os medicamentos aprovados pelos órgãos de controle e mais 23 em diferentes fases de testes clínicos. Dois deles, Tarceva e Avastin, estão prestes a ser liberados no Brasil. Inicialmente, são indicados para pacientes com câncer em estágio avançado, mas, aos poucos, isso vai mudar. Existem várias substâncias que promovem o crescimento de vasos sanguíneos e, por isso, precisamos ter um grande arsenal de antiangiogênicos para combatê-las. São drogas com pouquíssimos efeitos colaterais e podemos usá-las alternadamente: se uma não funciona para o paciente, poderemos recorrer a várias combinações.

VEJA: Como essas drogas vão mudar o tratamento do câncer?
FOLKMAN: Hoje o paciente que tem um câncer de intestino, por exemplo, faz uma cirurgia para removê-lo, quimioterapia para evitar que se espalhe e, depois de oito ou nove anos, pode descobrir um nódulo no fígado. A recidiva, que é o reaparecimento da doença, e a metástase – sua disseminação pelo corpo – são os maiores problemas dos chamados três grandes tipos de câncer: pulmão, cólon e mama. Eles respondem por 50% das mortes provocadas pela doença. Se houver meios para acompanhar esses pacientes e logo após a cirurgia iniciar uma quimioterapia com as drogas antiangiogênicas, pode-se impedir que esses tumores secundários cresçam. Eles até podem estar em outros órgãos, em dimensões microscópicas, nas chamadas micrometástases, mas serão incapazes de recrutar nutrientes para crescer e causar problemas.

VEJA: Quando um tumor aciona esse mecanismo para formar vasos?
FOLKMAN: Tumores são ocorrências comuns no nosso organismo. Cerca de 30% das mulheres entre 40 e 50 anos têm carcinomas (tumores malignos) de mama restritos e minúsculos, que elas nunca vão descobrir. E nem precisam, pois eles jamais lhes causarão o que se conhece como câncer. Praticamente todas as pessoas entre 50 e 70 anos têm carcinomas de tireóide e jamais saberão disso. Autópsias mostram que quase 80% dos homens de 80 anos, mesmo os que morrem por outras causas, têm cânceres de próstata e poderiam ter vivido até os 100 sem que isso lhes causasse problema. Isso porque, além de pequenos, eles têm um desenvolvimento lento. O câncer avança e se torna mortal num número reduzido de pessoas, quando, além das alterações genéticas que produzem o tumor, as células malignas conseguem criar novos vasos sanguíneos para crescer rapidamente e se tornar agressivas.

VEJA: Bloquear o processo de formação de vasos sanguíneos não cria problemas para o organismo?
FOLKMAN: Existem pouquíssimas situações em que o organismo naturalmente cria vasos. Isso ocorre com embriões, nas mulheres, durante o período menstrual e na gravidez, e em casos de ferimentos. Por isso essas drogas têm poucos efeitos colaterais. Além disso, à medida que chegarem ao mercado, serão descobertos novos usos para essas drogas. Já se sabe que elas podem ser utilizadas contra a degeneração macular, uma doença que causa cegueira em idosos.

VEJA: Que pacientes poderão usar as novas drogas e a partir de que momento do tratamento?
FOLKMAN: Sabe-se que existem biomarcadores no organismo que indicam, por exemplo, que o câncer vai voltar. Quem carrega essa informação são as plaquetas, as estruturas do sangue responsáveis pela coagulação. Plaquetas vivem por apenas oito dias, mas, quando passam por uma célula cancerosa, exibem um marcador. Em princípio, no futuro, um simples exame de sangue deve bastar para saber se é hora ou não de iniciar o tratamento com antiangiogênicos.

VEJA: Mas não será preciso saber onde o tumor vai reaparecer?
FOLKMAN: Não. Antigamente, antes dos antibióticos, quando alguém tinha uma infecção, esperava-se que ela supurasse, criasse aquela bolha de pus, para o médico lancetar. Hoje, pouco importa onde está o foco infeccioso. Você toma um antibiótico e fica bom. Com o câncer vai ser a mesma coisa. Essas novas drogas vão mudar a vida de 500 milhões de pessoas nos próximos dez anos.

 
   
 
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