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BIOTECNOLOGIA
Em vez da cura, o controle
Após 35 anos, a teoria do médico
Judah Folkman
virou revolução. Seguindo suas idéias,
a ciência
quer transformar o câncer numa doença
crônica,
como o diabetes

Ruth Helena Bellinghini
Janet Knott/NYT
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Judah Folkman, professor da Escola de Medicina de Harvard e diretor
do Programa de Biologia Vascular do Children's Hospital de Boston,
é uma das maiores estrelas da pesquisa mundial sobre câncer.
Calmo, ponderado e avesso a holofotes, é apenas cautelosamente
otimista. Por isso, quando diz que vem por aí uma revolução
no tratamento e na abordagem da doença, é bom prestar
muita atenção. "Há 35 anos, era uma idéia,
uma teoria, mas hoje está se tornando realidade: temos tudo
para transformar o câncer numa doença crônica,
administrável com alguns comprimidos, como fazemos com a
hipertensão e o diabetes", diz. Tal possibilidade começa
a se consolidar com o nascimento de uma nova classe de medicamentos.
Eles impedem que o câncer crie novos vasos sanguíneos
para se alimentar, crescer e se espalhar. Essas drogas, chamadas
antiangiogênicos, evitam o avanço do câncer,
mantendo-o pequenino e restrito ao órgão em que surgiu.
Detalhe: Folkman também foi pioneiro nas pesquisas nesse
campo. Eis suas respostas para algumas das grandes questões
em torno do assunto.
VEJA: Quantas drogas
capazes de barrar o avanço do câncer já estão
disponíveis?
JUDAH FOLKMAN: Nos Estados Unidos, são doze os
medicamentos aprovados pelos órgãos de controle e
mais 23 em diferentes fases de testes clínicos. Dois deles,
Tarceva e Avastin, estão prestes a ser liberados no Brasil.
Inicialmente, são indicados para pacientes com câncer
em estágio avançado, mas, aos poucos, isso vai mudar.
Existem várias substâncias que promovem o crescimento
de vasos sanguíneos e, por isso, precisamos ter um grande
arsenal de antiangiogênicos para combatê-las. São
drogas com pouquíssimos efeitos colaterais e podemos usá-las
alternadamente: se uma não funciona para o paciente, poderemos
recorrer a várias combinações.
VEJA: Como essas drogas
vão mudar o tratamento do câncer?
FOLKMAN: Hoje o paciente que tem um câncer de
intestino, por exemplo, faz uma cirurgia para removê-lo, quimioterapia
para evitar que se espalhe e, depois de oito ou nove anos, pode
descobrir um nódulo no fígado. A recidiva, que é
o reaparecimento da doença, e a metástase sua
disseminação pelo corpo são os maiores
problemas dos chamados três grandes tipos de câncer:
pulmão, cólon e mama. Eles respondem por 50% das mortes
provocadas pela doença. Se houver meios para acompanhar esses
pacientes e logo após a cirurgia iniciar uma quimioterapia
com as drogas antiangiogênicas, pode-se impedir que esses
tumores secundários cresçam. Eles até podem
estar em outros órgãos, em dimensões microscópicas,
nas chamadas micrometástases, mas serão incapazes
de recrutar nutrientes para crescer e causar problemas.
VEJA: Quando um tumor
aciona esse mecanismo para formar vasos?
FOLKMAN: Tumores são ocorrências comuns
no nosso organismo. Cerca de 30% das mulheres entre 40 e 50 anos
têm carcinomas (tumores malignos) de mama restritos e minúsculos,
que elas nunca vão descobrir. E nem precisam, pois eles jamais
lhes causarão o que se conhece como câncer. Praticamente
todas as pessoas entre 50 e 70 anos têm carcinomas de tireóide
e jamais saberão disso. Autópsias mostram que quase
80% dos homens de 80 anos, mesmo os que morrem por outras causas,
têm cânceres de próstata e poderiam ter vivido
até os 100 sem que isso lhes causasse problema. Isso porque,
além de pequenos, eles têm um desenvolvimento lento.
O câncer avança e se torna mortal num número
reduzido de pessoas, quando, além das alterações
genéticas que produzem o tumor, as células malignas
conseguem criar novos vasos sanguíneos para crescer rapidamente
e se tornar agressivas.
VEJA: Bloquear o processo
de formação de vasos sanguíneos não
cria problemas para o organismo?
FOLKMAN: Existem pouquíssimas situações
em que o organismo naturalmente cria vasos. Isso ocorre com embriões,
nas mulheres, durante o período menstrual e na gravidez,
e em casos de ferimentos. Por isso essas drogas têm poucos
efeitos colaterais. Além disso, à medida que chegarem
ao mercado, serão descobertos novos usos para essas drogas.
Já se sabe que elas podem ser utilizadas contra a degeneração
macular, uma doença que causa cegueira em idosos.
VEJA: Que pacientes
poderão usar as novas drogas e a partir de que momento do
tratamento?
FOLKMAN: Sabe-se que existem biomarcadores no organismo
que indicam, por exemplo, que o câncer vai voltar. Quem carrega
essa informação são as plaquetas, as estruturas
do sangue responsáveis pela coagulação. Plaquetas
vivem por apenas oito dias, mas, quando passam por uma célula
cancerosa, exibem um marcador. Em princípio, no futuro, um
simples exame de sangue deve bastar para saber se é hora
ou não de iniciar o tratamento com antiangiogênicos.
VEJA: Mas não
será preciso saber onde o tumor vai reaparecer?
FOLKMAN: Não. Antigamente, antes dos antibióticos,
quando alguém tinha uma infecção, esperava-se
que ela supurasse, criasse aquela bolha de pus, para o médico
lancetar. Hoje, pouco importa onde está o foco infeccioso.
Você toma um antibiótico e fica bom. Com o câncer
vai ser a mesma coisa. Essas novas drogas vão mudar a vida
de 500 milhões de pessoas nos próximos dez anos.
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