ÍNDICE
 Carta ao leitor

Velocidade: O avanço exponencial da tecnologia

Nanotecnologia: A Lilipute da ciência

Biotecnologia: As pesquisas com células e genes

Entrevista: Judah Folkman

Transgênicos: As vantagens para o consumidor

Vida digital: Serviços proliferam na rede

Entrevista: Vinton Cerf

Entrevista: Tim Berners-Lee

Artigo: Kevin Kelly

Conectividade: A ligação entre as redes sem fio

Neurotecnologia: Próteses controladas pela mente

Robótica: As máquinas ameaçam aprender

Bell Labs: A rede que imita o corpo

Entrevista: Charles Townes

Apple: Modelo de inovação

Perfil: Steve Jobs

Carros: Combustíveis e motores do futuro

Produtos: TVs, pen drives e celulares

Artigo: Michio Kaku

Engenharia: Prédios cada vez mais altos

Artigo: Jaron Lanier

Computação gráfica: O realismo na animação
   
 

BIOTECNOLOGIA
Salvos pelo detalhe

Pesquisadores especificam cada vez
mais as terapias contra as doenças com
base na análise minuciosa dos genes


Ruth Helena Bellinghini


Suzanne Kreiter/The New York Times
George Daley, de Harvard: uma proposta para reprogramar as células doentes, corrigir os defeitos e, depois, devolvê-las aos pacientes

Algumas tecnologias se incorporam de tal forma ao cotidiano das pessoas que passam despercebidas, independentemente de sua importância e complexidade. Os cartões eletrônicos, como os de crédito e os de débito bancário, atingiram esse estágio. Mas há outro grupo de tecnologias definido como de "ruptura". Essas técnicas e suas eventuais aplicações têm um potencial tão grande de mudar as perspectivas de futuro que, a cada passo, a cada novidade, produzem uma pequena revolução. A biotecnologia encaixa-se nesse time. Em linhas gerais, essa ciência se vale de processos biológicos para produzir materiais e substâncias para uso industrial, medicinal ou farmacêutico. As pesquisas estendem-se por áreas bastante amplas. Alcançam, por exemplo, os trabalhos com células-tronco e células precursoras (veja o quadro). Nos laboratórios, ambos os tipos de célula carregam a promessa, ainda que distante, de reparar ou mesmo substituir órgãos ou tecidos danificados no corpo humano.

Na fronteira dessas investigações atua a equipe do cientista Robert Langer, professor do departamento de engenharia química do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Langer é um dos mais destacados pesquisadores em áreas como engenharia biomédica e de tecidos, nas quais acumula mais de 500 patentes. Em uma de suas frentes de trabalho, tem como alvo a criação de moldes nos quais as células-tronco possam proliferar e, eventualmente, criar órgãos inteiros. Os órgãos humanos são estruturas extremamente complexas. É a combinação de nervos, músculos, vasos sanguíneos e tecidos altamente especializados que forma, por exemplo, um rim. Muitos cientistas acreditam que as células-tronco não são capazes de reproduzir sozinhas toda essa arquitetura. Daí a necessidade do molde de Langer. "Nosso trabalho consiste em criar uma plataforma artificial para ajudar as células a seguir a receita correta da estrutura de um órgão", disse a VEJA o pesquisador. "O grande desafio é desenvolver os materiais que vão compor essas molduras. Eles têm de ser inteligentes o suficiente para ajudar no controle do crescimento e do comportamento das células."

A linha de pesquisa de Langer não é a única entre as chamadas terapias celulares. Em abril, cientistas do Instituto de Medicina Regenerativa da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos, criaram bexigas artificiais usando tecidos cultivados em laboratório. Para isso, utilizaram as células precursoras (ou progenitoras) da própria bexiga dos pacientes. Essas células são definidas como "especializadas", pois só podem produzir um tipo de tecido. Os pesquisadores levaram dezesseis anos tentando descobrir meios para identificá-las entre todas as outras células da bexiga. Sete pacientes, entre crianças e adolescentes, foram submetidos ao tratamento com sucesso.

Steven Senne/AP
A busca da digital do mal: Golub, de Harvard, com um aparelho usado para analisar genes em células cancerígenas


Outro estudo nesse campo, um dos mais ambiciosos do mundo, é conduzido por George Daley, professor da escola de medicina e diretor do instituto de células-tronco da Universidade Harvard. Daley quer aplicar em seres humanos o conhecimento obtido numa bem-sucedida experiência que realizou em camundongos. O processo começa com a coleta de células da pele de um paciente com uma doença genética, como a anemia falciforme (que leva à produção de glóbulos vermelhos em forma de foice, causando fadiga, dores nas juntas e coágulos). Depois, Daley quer reprogramar essas células, de modo a torná-las, de adultas, em embrionárias, que são mais versáteis. O passo seguinte é corrigir os defeitos genéticos e reconvertê-las em células saudáveis. "Depois disso, vamos devolvê-las aos pacientes", disse Daley a VEJA.

A biotecnologia também engloba o estudo de novas formas de aplicação de remédios de acordo com a necessidade de cada paciente. É uma individualização do tratamento. Uma das vantagens desse tipo de abordagem é a redução de efeitos colaterais, uma vez que os medicamentos e sua dosagem são personalizados. Robert Langer, do MIT, também atua nessa área. Trabalha com microesferas que, injetadas ou implantadas nos pacientes, carregam drogas liberadas aos poucos, à medida que são necessárias ao organismo. "O uso de algumas dessas microesferas já está liberado pelos órgãos de controle para o tratamento de câncer, alcoolismo e distúrbios mentais", observa Langer.

A individualização do tratamento já permite que os especialistas saibam, em alguns tipos de câncer, quais genes de um paciente estão alterados e quais são essas alterações. "Nesses casos, conseguimos recolher a digital de cada doença, válida para aquela pessoa", disse a VEJA Todd Golub, pesquisador do Dana-Farber Cancer Institute e do Broad Institute (Harvard/MIT). Golub, professor de pediatria da Escola de Medicina de Harvard, é um dos líderes mundiais na aplicação de ferramentas genômicas, como a bioinformática, no estudo do câncer. Com os dados que obtém, ele produz um guia individualizado para definir, entre vinte ou trinta drogas, quais são as ideais para cada doente. Ou, ainda, se no caso observado apenas a cirurgia é suficiente. "Os novos tratamentos individualizados são mais racionais e, conseqüentemente, mais baratos", diz Golub. "Eles vão funcionar melhor e reduzir tanto o custo financeiro da terapia como o sofrimento dos pacientes." Agora, o desafio de Golub é provar até que ponto sua estratégia é segura.

 

O poder das células

Os pesquisadores na área de terapia celular trabalham, basicamente, com células-tronco e, mais recentemente, com células precursoras. Conheça as diferenças e o potencial de cada grupo.

Células-tronco: dividem-se em embrionárias e adultas. As embrionárias são encontradas em embriões humanos de até 5 dias e têm o poder de se transformar em praticamente qualquer célula do organismo. Sua maior vantagem é essa versatilidade. Desvantagens: são difíceis de cultivar e controlar em laboratório e despertam polêmica, pois sua obtenção implica destruição de embriões humanos. As células-tronco adultas já foram identificadas em vários órgãos (medula óssea, pele, cérebro). Não têm a mesma versatilidade das embrionárias, pois podem dar origem a um número limitado de tecidos, mas são mais fáceis de obter e de controlar. São usadas em testes clínicos no Brasil e em outros países.

Células precursoras: são encontradas em alguns órgãos e sua função natural é repor aquelas que morrem e se gastam com o tempo. São mais limitadas do que as células-tronco adultas, já que dão origem somente a células idênticas a si mesmas. Ou seja, uma célula precursora de bexiga só pode ser usada para a eventual reparação de uma bexiga. Não se sabe ao certo em que órgãos podem ser encontradas e sua identificação é difícil.

 

 
   
 
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