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BIOTECNOLOGIA
Salvos pelo detalhe
Pesquisadores especificam cada vez
mais as terapias contra as doenças
com
base na análise minuciosa dos genes

Ruth Helena Bellinghini
Suzanne Kreiter/The New York Times
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| George Daley, de Harvard: uma proposta para
reprogramar as células doentes, corrigir os defeitos e, depois,
devolvê-las aos pacientes |
Algumas tecnologias se incorporam
de tal forma ao cotidiano das pessoas que passam despercebidas,
independentemente de sua importância e complexidade. Os cartões
eletrônicos, como os de crédito e os de débito
bancário, atingiram esse estágio. Mas há outro
grupo de tecnologias definido como de "ruptura". Essas técnicas
e suas eventuais aplicações têm um potencial
tão grande de mudar as perspectivas de futuro que, a cada
passo, a cada novidade, produzem uma pequena revolução.
A biotecnologia encaixa-se nesse time. Em linhas gerais, essa ciência
se vale de processos biológicos para produzir materiais e
substâncias para uso industrial, medicinal ou farmacêutico.
As pesquisas estendem-se por áreas bastante amplas. Alcançam,
por exemplo, os trabalhos com células-tronco e células
precursoras (veja o quadro). Nos laboratórios,
ambos os tipos de célula carregam a promessa, ainda que distante,
de reparar ou mesmo substituir órgãos ou tecidos danificados
no corpo humano.
Na fronteira dessas investigações
atua a equipe do cientista Robert Langer, professor do departamento
de engenharia química do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT, na sigla em inglês). Langer é um dos mais destacados
pesquisadores em áreas como engenharia biomédica e
de tecidos, nas quais acumula mais de 500 patentes. Em uma de suas
frentes de trabalho, tem como alvo a criação de moldes
nos quais as células-tronco possam proliferar e, eventualmente,
criar órgãos inteiros. Os órgãos humanos
são estruturas extremamente complexas. É a combinação
de nervos, músculos, vasos sanguíneos e tecidos altamente
especializados que forma, por exemplo, um rim. Muitos cientistas
acreditam que as células-tronco não são capazes
de reproduzir sozinhas toda essa arquitetura. Daí a necessidade
do molde de Langer. "Nosso trabalho consiste em criar uma plataforma
artificial para ajudar as células a seguir a receita correta
da estrutura de um órgão", disse a VEJA o pesquisador.
"O grande desafio é desenvolver os materiais que vão
compor essas molduras. Eles têm de ser inteligentes o suficiente
para ajudar no controle do crescimento e do comportamento das células."
A linha de pesquisa de Langer
não é a única entre as chamadas terapias celulares.
Em abril, cientistas do Instituto de Medicina Regenerativa da Universidade
Wake Forest, nos Estados Unidos, criaram bexigas artificiais usando
tecidos cultivados em laboratório. Para isso, utilizaram
as células precursoras (ou progenitoras) da própria
bexiga dos pacientes. Essas células são definidas
como "especializadas", pois só podem produzir um tipo de
tecido. Os pesquisadores levaram dezesseis anos tentando descobrir
meios para identificá-las entre todas as outras células
da bexiga. Sete pacientes, entre crianças e adolescentes,
foram submetidos ao tratamento com sucesso.
Steven Senne/AP
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| A busca da digital do mal: Golub, de Harvard,
com um aparelho usado para analisar genes em células cancerígenas
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Outro estudo nesse campo, um dos mais ambiciosos do mundo, é
conduzido por George Daley, professor da escola de medicina e diretor
do instituto de células-tronco da Universidade Harvard. Daley
quer aplicar em seres humanos o conhecimento obtido numa bem-sucedida
experiência que realizou em camundongos. O processo começa
com a coleta de células da pele de um paciente com uma doença
genética, como a anemia falciforme (que leva à produção
de glóbulos vermelhos em forma de foice, causando fadiga,
dores nas juntas e coágulos). Depois, Daley quer reprogramar
essas células, de modo a torná-las, de adultas, em
embrionárias, que são mais versáteis. O passo
seguinte é corrigir os defeitos genéticos e reconvertê-las
em células saudáveis. "Depois disso, vamos devolvê-las
aos pacientes", disse Daley a VEJA.
A biotecnologia também
engloba o estudo de novas formas de aplicação de remédios
de acordo com a necessidade de cada paciente. É uma individualização
do tratamento. Uma das vantagens desse tipo de abordagem é
a redução de efeitos colaterais, uma vez que os medicamentos
e sua dosagem são personalizados. Robert Langer, do MIT,
também atua nessa área. Trabalha com microesferas
que, injetadas ou implantadas nos pacientes, carregam drogas liberadas
aos poucos, à medida que são necessárias ao
organismo. "O uso de algumas dessas microesferas já está
liberado pelos órgãos de controle para o tratamento
de câncer, alcoolismo e distúrbios mentais", observa
Langer.
A individualização
do tratamento já permite que os especialistas saibam, em
alguns tipos de câncer, quais genes de um paciente estão
alterados e quais são essas alterações. "Nesses
casos, conseguimos recolher a digital de cada doença, válida
para aquela pessoa", disse a VEJA Todd Golub, pesquisador do Dana-Farber
Cancer Institute e do Broad Institute (Harvard/MIT). Golub, professor
de pediatria da Escola de Medicina de Harvard, é um dos líderes
mundiais na aplicação de ferramentas genômicas,
como a bioinformática, no estudo do câncer. Com os
dados que obtém, ele produz um guia individualizado para
definir, entre vinte ou trinta drogas, quais são as ideais
para cada doente. Ou, ainda, se no caso observado apenas a cirurgia
é suficiente. "Os novos tratamentos individualizados são
mais racionais e, conseqüentemente, mais baratos", diz Golub.
"Eles vão funcionar melhor e reduzir tanto o custo financeiro
da terapia como o sofrimento dos pacientes." Agora, o desafio de
Golub é provar até que ponto sua estratégia
é segura.
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O poder
das células
Os pesquisadores na área
de terapia celular trabalham, basicamente, com células-tronco
e, mais recentemente, com células precursoras. Conheça
as diferenças e o potencial de cada grupo.
Células-tronco: dividem-se em embrionárias
e adultas. As embrionárias são encontradas em
embriões humanos de até 5 dias e têm o
poder de se transformar em praticamente qualquer célula
do organismo. Sua maior vantagem é essa versatilidade.
Desvantagens: são difíceis de cultivar e controlar
em laboratório e despertam polêmica, pois sua
obtenção implica destruição de
embriões humanos. As células-tronco adultas
já foram identificadas em vários órgãos
(medula óssea, pele, cérebro). Não têm
a mesma versatilidade das embrionárias, pois podem
dar origem a um número limitado de tecidos, mas são
mais fáceis de obter e de controlar. São usadas
em testes clínicos no Brasil e em outros países.
Células precursoras: são encontradas
em alguns órgãos e sua função
natural é repor aquelas que morrem e se gastam com
o tempo. São mais limitadas do que as células-tronco
adultas, já que dão origem somente a células
idênticas a si mesmas. Ou seja, uma célula precursora
de bexiga só pode ser usada para a eventual reparação
de uma bexiga. Não se sabe ao certo em que órgãos
podem ser encontradas e sua identificação é
difícil.
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