| | NANOTECNOLOGIA O
mergulho num mundo invisível Pesquisas feitas
em escala milhões de vezes menor que um alfinete geram a primeira leva
de produtos  Heitor
Shimizu
Foi-se o tempo em que a regra era pensar grande.
Depois da miniaturização, que tornou portáteis rádios
e aparelhos de som, e da microeletrônica, que reduziu os computadores ao
tamanho das mãos, entrou em cena a nanotecnologia. Nesse campo, o trabalho
consiste em desenvolver técnicas que tornem o homem apto a manipular átomos
e moléculas, as partículas básicas do universo, como se fossem
bloquinhos de um brinquedo de montar. O que se pretende nos laboratórios
é rearranjar de maneira artificial essas partículas para forjar
novas estruturas e materiais, mais eficientes do que os fornecidos pela natureza.
Para se ter uma idéia de quão decisiva é a disposição
de moléculas na configuração da matéria, basta observar
os diamantes e o grafite. Ambos são formados por átomos de carbono.
O que os torna diferentes é justamente a maneira como se organizam. Além
de se intrometer na disposição natural das coisas, outra ambição
de técnicos e cientistas é aprimorar os frutos do engenho humano.
Testes recentes, por exemplo, mostram que a adição de quantidades
absolutamente irrisórias de argila aumenta em até 1 000 vezes a
resistência de plásticos. Fascinante?
Sim, mas o melhor está por vir. O mais intrigante na nanotecnologia é
que tentar reconstruir o mundo átomo por átomo implica mergulhar
num campo de dimensões infinitesimais, o que representa um desafio de porte
até para a imaginação. Isso porque o trabalho dos pesquisadores
se desdobra numa escala próxima a 1 nanômetro (a sigla é nm),
a unidade de medida que batiza a tecnologia e representa a bilionésima
parte do metro em números: 0,000000001 metro. Trata-se de algo 50
000 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo (veja
quadro). Essa nova fronteira oferece uma gama tão ampla
de oportunidades de conhecimento que se assemelha à conquista do espaço.
Ela representa, de certo modo, a operação inversa do que se sonha
diante da Odisséia de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke. Divulgação
 | | Mercedes
SLR McLaren: a utilização da nanotecnologia na pintura diminui a possibilidade
de riscos |
O universo da nanotecnologia
se expande em ritmo crescente, com um fluxo de investimentos intenso. Os americanos
têm destinado a esse ramo de pesquisas mais dinheiro do que aplicaram em
qualquer outra iniciativa desde o programa Apollo, na década de 60, que
levou o homem à Lua. Em 2007, vão gastar 1,2 bilhão de dólares
em laboratórios, seguindo a média dos últimos anos. O Japão
tem investido em proporção quase equivalente. Os pesquisadores chineses
aderiram de tal forma a essa nova dimensão da ciência que, no ano
passado, a China assumiu a liderança na publicação de artigos
científicos sobre o tema. A Fundação Nacional de Ciência
dos Estados Unidos estima que em 2015 o mercado mundial de nanotecnologia movimentará
1 trilhão de dólares. Perspectivas e aportes desse nível
fizeram com que o nanomundo deixasse de ser apenas uma tecnologia emergente, apesar
de haver alguns braços, como a nanobiologia, com resultados ainda incipientes.
Nas indústrias, já se altera a estrutura
molecular de fibras para a produção de tecidos que dificilmente
se molham, pois repelem líquidos. Celulares, câmeras e outros eletrônicos
usam visores mais econômicos e com propriedades mais brilhantes graças
à nanotecnologia. A Mercedes usa a técnica em diversos componentes,
quer em espelhos retrovisores que escurecem ao receber a luz de outro veículo,
quer em pinturas resistentes a pequenos riscos. A lista de pesquisas inclui ainda
gigantes como HP, Xerox, Kodak, General Electric e 3M. Cientistas da IBM buscam
um polímero elástico e resistente o bastante para dar vida ao Millipede,
um eventual substituto do disco rígido para computadores, com capacidade
para guardar mais de 1 terabyte de dados por polegada quadrada vinte vezes
mais do que a capacidade de armazenamento magnético dos maiores sistemas
disponíveis atualmente. Campo fértil
é a linha de pesquisas em torno de nanotubos de carbono. Essa novidade
é composta de cilindros que reúnem átomos de carbono. Podem
conduzir eletricidade e são flexíveis, com a maior resistência
mecânica entre todos os materiais conhecidos. É possível dizer
que são dezenas de vezes mais fortes que o aço. Imagina-se que encontrem
aplicações em todos os setores da indústria. Na eletrônica,
podem vir a substituir o silício hoje o componente básico
dos chips dos computadores. A medicina também deve se valer desse tipo
de dispositivo para aumentar a precisão de cirurgias e exames (leia
matéria sobre biotecnologia na pág. 24 ). "Ainda temos problemas
a superar, mas em pelo menos dez anos vão surgir importantes aplicações
para os nanotubos", disse a VEJA o cientista Malcolm Green, do departamento de
química inorgânica da Universidade de Oxford. "Hoje, há um
número imenso de pesquisadores atuando nessa área."
Recentes descobertas sobre o uso desses cilindros vêm da Universidade do
Texas, nos Estados Unidos. Ali, cientistas demonstraram por meio de pesquisas
com ratos que nanotubos de carbono podem ser usados para transmitir sinais elétricos
aos neurônios, as células cerebrais. Se a técnica prosperar
com humanos, isso representará uma imensa brecha para uma verdadeira revolução
no tratamento de problemas neurológicos. Os tubinhos poderiam ainda ser
usados para substituir nervos danificados, nos olhos ou na medula espinhal, por
exemplo. Embora aplicações como essas
ainda sejam promessas, o uso de partículas em escala nanométrica
é antigo muito mais velho do que a própria nanotecnologia.
O copo de Licurgo, que data da Roma do século IV a.C. e está exposto
no Museu Britânico, usa uma solução conhecida como ouro coloidal.
O método permite, por meio de um processo químico, saturar o ouro
e obter partículas do metal na escala dos bilionésimos de metro.
Ao ser aplicado em um vidro, por exemplo, o ouro coloidal muda a cor da superfície
dependendo da iluminação verde na luz indireta, vermelho
quando atingido diretamente por uma lâmpada. Artistas medievais usavam essa
técnica para fazer vitrais. Foi em 1959
que se começou a vislumbrar essa nova ciência. Naquele ano, o americano
Richard Feynman, um dos mais brilhantes físicos do século XX, Nobel
em 1965, sugeriu que chegara a hora de os cientistas deixarem de usar os materiais
da forma como eram conhecidos. Na palestra "Tem bastante espaço no fundo",
ele disse que seria possível arrumar átomos de maneira artificial.
Citou a possibilidade de condensar o texto de todos os 24 volumes da Enciclopédia
Britannica na cabeça de um alfinete. Em 1974, o japonês Norio
Taniguchi criou o termo "nanotecnologia". Ele começou a ganhar alguma popularidade
nos anos 80, especialmente depois dos trabalhos de cientistas como K. Eric Drexler
(veja entrevista).
Recentemente, ao lado das descobertas, a tecnologia
vem acumulando também polêmicas. Em março, um produto de limpeza
que prometia proteger banheiros da proliferação de bactérias
por até seis meses foi colocado à venda na Alemanha. O Magic Nano
tornou-se um sucesso imediato, mas durou pouco. Apenas três dias depois
do lançamento, teve de ser recolhido por causa de reclamações
de consumidores. Eles afirmavam que o produto provocara problemas respiratórios.
Seis foram hospitalizados. O fabricante defendeu-se argumentando que a intoxicação
foi causada por um líquido anticorrosivo contido na versão em aerossol.
O produto em vasilhame plástico não teria causado mal nenhum. Mas
sobrou para a nanotecnologia, dando espaço a grupos ambientalistas e a
outros que defendem uma maior atenção aos eventuais perigos dessa
nova área. "Qualquer atividade nova tem de ser analisada do ponto de vista
do risco, mas não podemos rotular antes de conhecer com exatidão
os prós e os contras", diz Henrique Toma, professor do Instituto de Química
da Universidade de São Paulo. "Tenho certeza de que, no caso da nanotecnologia,
os benefícios serão bem maiores."
A ciência como ela é
Nano, em grego, significa anão. O termo deu origem a uma unidade de medida,
o nanômetro, que equivale à bilionésima parte do metro.
Reengenharia molecular A nanotecnologia molecular
é um dos braços dessa ciência e tem como alvo a manipulação
de átomos e moléculas. O rearranjo dessas partículas permite,
por exemplo, a criação de novos materiais. A alteração
de princípios ativos para a produção de remédios tem
aqui um campo fértil. Novas estruturas Outro
ramo é a nanotecnologia de materiais, cujo foco é a construção
de dispositivos e equipamentos invisíveis, mas muito eficazes. As vedetes
nesse campo são os nanotubos. Eles conduzem eletricidade, são
flexíveis e extremamente resistentes. A medicina também pode se
valer desse tipo de dispositivo para aumentar a precisão dos tratamentos.
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Como manipular o que não se vê Divulgação
 | | Machu
Picchu atômico: imagem de partículas de cobre, em área 50
000 vezes menor que um fio de cabelo, obtida com um microscópio da IBM
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Os átomos não obedecem
às leis da física clássica. Por isso se desenvolveu uma nova
área de pesquisas, a da mecânica quântica, para estudar os
fenômenos que ocorrem no nível atômico. Se são tão
complexos, como os pesquisadores ligados à nanotecnologia conseguem enxergar
esses pedacinhos ínfimos de matéria e mexer neles? Tal façanha
só se tornou exeqüível a partir de 1981, com a criação
de microscópios hiperpotentes nos laboratórios da IBM, em Zurique,
na Suíça. "Esses aparelhos se transformaram nos olhos e nas mãos
para a manipulação direta de objetos em escala nanométrica",
disse a VEJA Zhong Lin Wang, diretor do Centro de Caracterização
e Fabricação de Nanoestruturas do Instituto de Tecnologia da Geórgia,
nos Estados Unidos. A invenção da máquina rendeu o Nobel
de Física de 1986 ao suíço Heinrich Rohrer e ao alemão
Gerd Binnig, ambos da IBM, que dividiram o prêmio com Ernst Ruska, outro
alemão, um dos maiores nomes da microscopia moderna.
O equipamento, conhecido como microscópio de tunelamento ou pela sigla
STM (scanning tunneling microscope), possui uma agulha finíssima,
cuja ponta é constituída de alguns poucos átomos ou
mesmo apenas um. Essa agulha funciona como as que equipavam os antigos toca-discos
de vinil, só que faz uma varredura da superfície analisada sem tocá-la.
Ela cria uma projeção ampliada do relevo atômico por meio
da emissão de um contínuo fluxo de elétrons. O STM deu origem
a uma família de instrumentos ainda mais avançados, como os microscópios
de varredura por sonda ou SPM (scanning probe microscopes). Além
da visualização nanométrica, a finíssima ponta do
SPM permite tocar nos átomos e arrastá-los de um ponto a outro.
Dá até para escrever palavras ou fazer esculturas com os átomos,
como se fossem peças de um quebra-cabeça para lá de minúsculo.
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O QUE VEM POR AÍ A invasão
dos nanorrobôs  | Reprodução
 | | É
tudo verdade: duas imagens do nanocarro, que, em vez de rodas, usa moléculas e
é movido a luz |
No filme Viagem Insólita
(1987), um veículo conduzido por um oficial da Marinha (Dennis Quaid) é
reduzido ao tamanho de uma molécula e avança, acidentalmente, dentro
do corpo de um hipocondríaco (Martin Short). Há menos de vinte anos,
navegar pela corrente sanguínea era coisa de cinema, mas recentes pesquisas
mostram que a criação de nanorrobôs, aptos a circular pelo
corpo humano, está mais próxima de se tornar realidade. Um grupo
da Universidade Rice, nos Estados Unidos, liderado pelo químico James Tour,
produziu o primeiro veículo motorizado com o tamanho de uma molécula.
Chamado de nanocarro, mede apenas 4 nanômetros de comprimento. Enfileirados,
20 000 deles teriam a espessura média de um fio de cabelo. O carrinho tem
um chassi e quatro eixos. Em vez de rodas, exibe moléculas de um composto
formado por carbono, hidrogênio e boro. O veículo é movido
a luz. Quando atingido por uma emissão luminosa, o motor gira e o impulsiona.
"A construção é feita de baixo para cima, molécula
por molécula, como tudo o que existe na natureza, desde uma árvore
até uma baleia", diz Tour. Outra pesquisa
de impacto pode resolver um dos maiores problemas dos dispositivos nanométricos:
a necessidade de fonte de energia externa para o movimento. A equipe de Zhong
Lin Wang, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, obteve sucesso nesse campo
ao transformar energia mecânica em elétrica. Esse princípio
é da mesma família dos que regem o funcionamento dos músculos
no corpo humano ou ainda a operação de uma usina hidrelétrica.
Os equipamentos de Wang foram chamados de nanogeradores. Produzem uma corrente
elétrica com o movimento de nanofios. "Há muita energia mecânica
disponível no meio ambiente. Os nanogeradores podem gerar eletricidade
baseados nos movimentos do corpo humano, com dispositivos colocados nos sapatos,
por exemplo. Também podem ser sensores sem fio que retiram energia do vento
ou de ondas sonoras. As possibilidades são ilimitadas", disse a VEJA Zhong
Wang. Já o combate de doenças não
precisará esperar pelos nanorrobôs. Diversos centros de pesquisa
têm desenvolvido dispositivos para levar medicamentos na quantidade exata
a pontos específicos do organismo. Bons resultados já foram obtidos
nesse ramo, e especialistas apontam que em uma década as novidades poderão
começar a ser aplicadas em seres humanos. Uma das soluções
é a nanocápsula, especialmente valiosa no combate ao câncer,
uma vez que pode transportar drogas usadas em quimioterapia diretamente aos locais
onde se encontram os tumores. Uma vez lá, a cápsula solta os medicamentos,
que atacam as células cancerosas, e não as saudáveis, com
exatidão nanométrica. | | |