ÍNDICE
 Carta ao leitor

Velocidade: O avanço exponencial da tecnologia

Nanotecnologia: A Lilipute da ciência

Biotecnologia: As pesquisas com células e genes

Entrevista: Judah Folkman

Transgênicos: As vantagens para o consumidor

Vida digital: Serviços proliferam na rede

Entrevista: Vinton Cerf

Entrevista: Tim Berners-Lee

Artigo: Kevin Kelly

Conectividade: A ligação entre as redes sem fio

Neurotecnologia: Próteses controladas pela mente

Robótica: As máquinas ameaçam aprender

Bell Labs: A rede que imita o corpo

Entrevista: Charles Townes

Apple: Modelo de inovação

Perfil: Steve Jobs

Carros: Combustíveis e motores do futuro

Produtos: TVs, pen drives e celulares

Artigo: Michio Kaku

Engenharia: Prédios cada vez mais altos

Artigo: Jaron Lanier

Computação gráfica: O realismo na animação
   
 

NANOTECNOLOGIA
O mergulho num mundo invisível

Pesquisas feitas em escala milhões de vezes menor
que um alfinete geram a primeira leva de produtos


Heitor Shimizu

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"Chega de perder tempo com besteiras"

Foi-se o tempo em que a regra era pensar grande. Depois da miniaturização, que tornou portáteis rádios e aparelhos de som, e da microeletrônica, que reduziu os computadores ao tamanho das mãos, entrou em cena a nanotecnologia. Nesse campo, o trabalho consiste em desenvolver técnicas que tornem o homem apto a manipular átomos e moléculas, as partículas básicas do universo, como se fossem bloquinhos de um brinquedo de montar. O que se pretende nos laboratórios é rearranjar de maneira artificial essas partículas para forjar novas estruturas e materiais, mais eficientes do que os fornecidos pela natureza. Para se ter uma idéia de quão decisiva é a disposição de moléculas na configuração da matéria, basta observar os diamantes e o grafite. Ambos são formados por átomos de carbono. O que os torna diferentes é justamente a maneira como se organizam. Além de se intrometer na disposição natural das coisas, outra ambição de técnicos e cientistas é aprimorar os frutos do engenho humano. Testes recentes, por exemplo, mostram que a adição de quantidades absolutamente irrisórias de argila aumenta em até 1 000 vezes a resistência de plásticos.

Fascinante? Sim, mas o melhor está por vir. O mais intrigante na nanotecnologia é que tentar reconstruir o mundo átomo por átomo implica mergulhar num campo de dimensões infinitesimais, o que representa um desafio de porte até para a imaginação. Isso porque o trabalho dos pesquisadores se desdobra numa escala próxima a 1 nanômetro (a sigla é nm), a unidade de medida que batiza a tecnologia e representa a bilionésima parte do metro – em números: 0,000000001 metro. Trata-se de algo 50 000 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo (veja quadro). Essa nova fronteira oferece uma gama tão ampla de oportunidades de conhecimento que se assemelha à conquista do espaço. Ela representa, de certo modo, a operação inversa do que se sonha diante da Odisséia de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke.

 

Divulgação
Mercedes SLR McLaren: a utilização da nanotecnologia na pintura diminui a possibilidade de riscos

O universo da nanotecnologia se expande em ritmo crescente, com um fluxo de investimentos intenso. Os americanos têm destinado a esse ramo de pesquisas mais dinheiro do que aplicaram em qualquer outra iniciativa desde o programa Apollo, na década de 60, que levou o homem à Lua. Em 2007, vão gastar 1,2 bilhão de dólares em laboratórios, seguindo a média dos últimos anos. O Japão tem investido em proporção quase equivalente. Os pesquisadores chineses aderiram de tal forma a essa nova dimensão da ciência que, no ano passado, a China assumiu a liderança na publicação de artigos científicos sobre o tema. A Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos estima que em 2015 o mercado mundial de nanotecnologia movimentará 1 trilhão de dólares. Perspectivas e aportes desse nível fizeram com que o nanomundo deixasse de ser apenas uma tecnologia emergente, apesar de haver alguns braços, como a nanobiologia, com resultados ainda incipientes.

Nas indústrias, já se altera a estrutura molecular de fibras para a produção de tecidos que dificilmente se molham, pois repelem líquidos. Celulares, câmeras e outros eletrônicos usam visores mais econômicos e com propriedades mais brilhantes graças à nanotecnologia. A Mercedes usa a técnica em diversos componentes, quer em espelhos retrovisores que escurecem ao receber a luz de outro veículo, quer em pinturas resistentes a pequenos riscos. A lista de pesquisas inclui ainda gigantes como HP, Xerox, Kodak, General Electric e 3M. Cientistas da IBM buscam um polímero elástico e resistente o bastante para dar vida ao Millipede, um eventual substituto do disco rígido para computadores, com capacidade para guardar mais de 1 terabyte de dados por polegada quadrada – vinte vezes mais do que a capacidade de armazenamento magnético dos maiores sistemas disponíveis atualmente.

Campo fértil é a linha de pesquisas em torno de nanotubos de carbono. Essa novidade é composta de cilindros que reúnem átomos de carbono. Podem conduzir eletricidade e são flexíveis, com a maior resistência mecânica entre todos os materiais conhecidos. É possível dizer que são dezenas de vezes mais fortes que o aço. Imagina-se que encontrem aplicações em todos os setores da indústria. Na eletrônica, podem vir a substituir o silício – hoje o componente básico dos chips dos computadores. A medicina também deve se valer desse tipo de dispositivo para aumentar a precisão de cirurgias e exames (leia matéria sobre biotecnologia na pág. 24 ). "Ainda temos problemas a superar, mas em pelo menos dez anos vão surgir importantes aplicações para os nanotubos", disse a VEJA o cientista Malcolm Green, do departamento de química inorgânica da Universidade de Oxford. "Hoje, há um número imenso de pesquisadores atuando nessa área."

Recentes descobertas sobre o uso desses cilindros vêm da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Ali, cientistas demonstraram por meio de pesquisas com ratos que nanotubos de carbono podem ser usados para transmitir sinais elétricos aos neurônios, as células cerebrais. Se a técnica prosperar com humanos, isso representará uma imensa brecha para uma verdadeira revolução no tratamento de problemas neurológicos. Os tubinhos poderiam ainda ser usados para substituir nervos danificados, nos olhos ou na medula espinhal, por exemplo.

Embora aplicações como essas ainda sejam promessas, o uso de partículas em escala nanométrica é antigo – muito mais velho do que a própria nanotecnologia. O copo de Licurgo, que data da Roma do século IV a.C. e está exposto no Museu Britânico, usa uma solução conhecida como ouro coloidal. O método permite, por meio de um processo químico, saturar o ouro e obter partículas do metal na escala dos bilionésimos de metro. Ao ser aplicado em um vidro, por exemplo, o ouro coloidal muda a cor da superfície dependendo da iluminação – verde na luz indireta, vermelho quando atingido diretamente por uma lâmpada. Artistas medievais usavam essa técnica para fazer vitrais.

Foi em 1959 que se começou a vislumbrar essa nova ciência. Naquele ano, o americano Richard Feynman, um dos mais brilhantes físicos do século XX, Nobel em 1965, sugeriu que chegara a hora de os cientistas deixarem de usar os materiais da forma como eram conhecidos. Na palestra "Tem bastante espaço no fundo", ele disse que seria possível arrumar átomos de maneira artificial. Citou a possibilidade de condensar o texto de todos os 24 volumes da Enciclopédia Britannica na cabeça de um alfinete. Em 1974, o japonês Norio Taniguchi criou o termo "nanotecnologia". Ele começou a ganhar alguma popularidade nos anos 80, especialmente depois dos trabalhos de cientistas como K. Eric Drexler (veja entrevista).

Recentemente, ao lado das descobertas, a tecnologia vem acumulando também polêmicas. Em março, um produto de limpeza que prometia proteger banheiros da proliferação de bactérias por até seis meses foi colocado à venda na Alemanha. O Magic Nano tornou-se um sucesso imediato, mas durou pouco. Apenas três dias depois do lançamento, teve de ser recolhido por causa de reclamações de consumidores. Eles afirmavam que o produto provocara problemas respiratórios. Seis foram hospitalizados. O fabricante defendeu-se argumentando que a intoxicação foi causada por um líquido anticorrosivo contido na versão em aerossol. O produto em vasilhame plástico não teria causado mal nenhum. Mas sobrou para a nanotecnologia, dando espaço a grupos ambientalistas e a outros que defendem uma maior atenção aos eventuais perigos dessa nova área. "Qualquer atividade nova tem de ser analisada do ponto de vista do risco, mas não podemos rotular antes de conhecer com exatidão os prós e os contras", diz Henrique Toma, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. "Tenho certeza de que, no caso da nanotecnologia, os benefícios serão bem maiores."

 

A ciência como ela é

Nano, em grego, significa anão. O termo deu origem a uma unidade de medida, o nanômetro, que equivale à bilionésima parte do metro.

Reengenharia molecular
A nanotecnologia molecular é um dos braços dessa ciência e tem como alvo a manipulação de átomos e moléculas. O rearranjo dessas partículas permite, por exemplo, a criação de novos materiais. A alteração de princípios ativos para a produção de remédios tem aqui um campo fértil.  

Novas estruturas
Outro ramo é a nanotecnologia de materiais, cujo foco é a construção de dispositivos e equipamentos invisíveis, mas muito eficazes. As vedetes nesse campo são os nanotubos. Eles conduzem eletricidade, são flexíveis e extremamente resistentes. A medicina também pode se valer desse tipo de dispositivo para aumentar a precisão dos tratamentos.

 

Como manipular o que não se vê

 
Divulgação
Machu Picchu atômico: imagem de partículas de cobre, em área 50 000 vezes menor que um fio de cabelo, obtida com um microscópio da IBM

Os átomos não obedecem às leis da física clássica. Por isso se desenvolveu uma nova área de pesquisas, a da mecânica quântica, para estudar os fenômenos que ocorrem no nível atômico. Se são tão complexos, como os pesquisadores ligados à nanotecnologia conseguem enxergar esses pedacinhos ínfimos de matéria e mexer neles? Tal façanha só se tornou exeqüível a partir de 1981, com a criação de microscópios hiperpotentes nos laboratórios da IBM, em Zurique, na Suíça. "Esses aparelhos se transformaram nos olhos e nas mãos para a manipulação direta de objetos em escala nanométrica", disse a VEJA Zhong Lin Wang, diretor do Centro de Caracterização e Fabricação de Nanoestruturas do Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos Estados Unidos. A invenção da máquina rendeu o Nobel de Física de 1986 ao suíço Heinrich Rohrer e ao alemão Gerd Binnig, ambos da IBM, que dividiram o prêmio com Ernst Ruska, outro alemão, um dos maiores nomes da microscopia moderna.

O equipamento, conhecido como microscópio de tunelamento ou pela sigla STM (scanning tunneling microscope), possui uma agulha finíssima, cuja ponta é constituída de alguns poucos átomos – ou mesmo apenas um. Essa agulha funciona como as que equipavam os antigos toca-discos de vinil, só que faz uma varredura da superfície analisada sem tocá-la. Ela cria uma projeção ampliada do relevo atômico por meio da emissão de um contínuo fluxo de elétrons. O STM deu origem a uma família de instrumentos ainda mais avançados, como os microscópios de varredura por sonda ou SPM (scanning probe microscopes). Além da visualização nanométrica, a finíssima ponta do SPM permite tocar nos átomos e arrastá-los de um ponto a outro. Dá até para escrever palavras ou fazer esculturas com os átomos, como se fossem peças de um quebra-cabeça para lá de minúsculo.

 

O QUE VEM POR AÍ

A invasão dos nanorrobôs

 
Reprodução
É tudo verdade: duas imagens do nanocarro, que, em vez de rodas, usa moléculas e é movido a luz

No filme Viagem Insólita (1987), um veículo conduzido por um oficial da Marinha (Dennis Quaid) é reduzido ao tamanho de uma molécula e avança, acidentalmente, dentro do corpo de um hipocondríaco (Martin Short). Há menos de vinte anos, navegar pela corrente sanguínea era coisa de cinema, mas recentes pesquisas mostram que a criação de nanorrobôs, aptos a circular pelo corpo humano, está mais próxima de se tornar realidade. Um grupo da Universidade Rice, nos Estados Unidos, liderado pelo químico James Tour, produziu o primeiro veículo motorizado com o tamanho de uma molécula. Chamado de nanocarro, mede apenas 4 nanômetros de comprimento. Enfileirados, 20 000 deles teriam a espessura média de um fio de cabelo. O carrinho tem um chassi e quatro eixos. Em vez de rodas, exibe moléculas de um composto formado por carbono, hidrogênio e boro. O veículo é movido a luz. Quando atingido por uma emissão luminosa, o motor gira e o impulsiona. "A construção é feita de baixo para cima, molécula por molécula, como tudo o que existe na natureza, desde uma árvore até uma baleia", diz Tour.

Outra pesquisa de impacto pode resolver um dos maiores problemas dos dispositivos nanométricos: a necessidade de fonte de energia externa para o movimento. A equipe de Zhong Lin Wang, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, obteve sucesso nesse campo ao transformar energia mecânica em elétrica. Esse princípio é da mesma família dos que regem o funcionamento dos músculos no corpo humano ou ainda a operação de uma usina hidrelétrica. Os equipamentos de Wang foram chamados de nanogeradores. Produzem uma corrente elétrica com o movimento de nanofios. "Há muita energia mecânica disponível no meio ambiente. Os nanogeradores podem gerar eletricidade baseados nos movimentos do corpo humano, com dispositivos colocados nos sapatos, por exemplo. Também podem ser sensores sem fio que retiram energia do vento ou de ondas sonoras. As possibilidades são ilimitadas", disse a VEJA Zhong Wang.

Já o combate de doenças não precisará esperar pelos nanorrobôs. Diversos centros de pesquisa têm desenvolvido dispositivos para levar medicamentos na quantidade exata a pontos específicos do organismo. Bons resultados já foram obtidos nesse ramo, e especialistas apontam que em uma década as novidades poderão começar a ser aplicadas em seres humanos. Uma das soluções é a nanocápsula, especialmente valiosa no combate ao câncer, uma vez que pode transportar drogas usadas em quimioterapia diretamente aos locais onde se encontram os tumores. Uma vez lá, a cápsula solta os medicamentos, que atacam as células cancerosas, e não as saudáveis, com exatidão nanométrica.

 
   
 
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