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Tim Woods, da Internet Home Alliance
Jonathan Cluts, da Microsoft
 
 
   
 

O dono da casa do futuro

Há dez anos a Microsoft criou em seu quartel-general de Redmond, nos Estados Unidos, o que batizou de "casa do futuro". Espécie de laboratório de novidades para uso doméstico, a casa tem tecnologia em todos os cômodos. Na sala, um sistema detecta quem acabou de entrar e ajusta luzes e música ambiente conforme o gosto da pessoa. No quarto, o espelho reconhece gestos e sugere que roupas combinam melhor com a camisa escolhida. Na cozinha, receitas com o que está disponível na geladeira são projetadas sobre a pia. "Pensamos no que pode despertar a imaginação das pessoas. Às vezes fazemos modelos puramente conceituais, outras algo bem próximo daquilo que o consumidor quer comprar", diz Jonathan Cluts, o diretor de estratégia para consumidores da Microsoft. Cluts falou a VEJA sobre êxitos e fracassos dessa casa-laboratório e como as idéias apresentadas nela vão afetar, ou já afetam, a vida doméstica.  

Veja – O que deu certo e o que deu errado nas pesquisas da Microsoft dos últimos dez anos?
Cluts – Em toda previsão com bola de cristal, que é o tipo de coisa que minha equipe tem de fazer, há erros e acertos. Um exemplo de algo em que erramos foi a TV interativa. Em 1994, estávamos convencidos de que todo mundo, pelo menos nos EUA, teria TV a cabo interativa dali a um ano. Até hoje estamos esperando pela tal universalização da rede a cabo. Mas já pensávamos em música à la carte. Na época, só se falava em filmes e em como as locadoras de vídeo iriam à falência. Já achávamos então que seria mais fácil fazer isso com música, por causa do tamanho dos arquivos. Acertamos, mas erramos no modo de distribuição. Pensávamos que seria por cabo.  

Veja – Que tecnologias da casa estarão disponíveis em breve?
Cluts – É mais ou menos como apostar em Las Vegas. Todas as coisas que temos na casa são tecnicamente possíveis dentro de dez anos. O que não dá para prever é quais delas milhões de pessoas em todo o planeta vão realmente querer. Hoje o americano médio gasta mais dinheiro com lazer do que com comida. Então achamos que o segmento de entretenimento tem mais perspectiva de adoção das novas tecnologias. Pensamos muito naquilo que chamamos de pontos de pressão na vida das pessoas: problemas para os quais elas gostariam de soluções melhores. Fazer a lista de compras, por exemplo. Seria bom ter uma geladeira que informa o que está acabando. Claro, a Microsoft nunca vai fabricar geladeiras. O que queremos é achar tecnologias que permitam que elas existam.

 
Divulgação
Sala da casa do futuro da Microsoft: tudo na tela da televisγo

Veja – A casa do futuro será totalmente sem fio?
Cluts –
Certamente vamos ver mais e mais coisas sem fio. Diferentes tecnologias permitem diferentes usos. O padrão 802.11 é ótimo para a comunicação de média velocidade entre computadores. O bluetooth tem um design perfeito para teclados, e assim por diante. As baterias estão cada vez melhores, mas não imagino as pessoas recarregando uma TV. Todos os fios podem desaparecer, menos o da parede. Mas podemos usar essa conexão elétrica também como conexão de dados.  

Veja – Que avanços tecnológicos permitiram o salto recente da convergência entre diferentes produtos?
Cluts –
O primeiro, é claro, é a potência dos equipamentos. A cada ano é possível obter mais velocidade pelo mesmo preço. Os computadores possuem mais portas de entrada para periféricos. Mas a transformação básica foi a possibilidade de converter tudo em zeros e uns, seja seu velho LP, seja sua fita VHS. Conexões sem fio e banda larga são grandes possibilitadores. Não há nada que uma rede sem fio faça que não se fizesse antes com fio. Mas o wireless acelera a adoção da nova tecnologia.  

Veja – Quais os avanços que o deixam mais animado?
Cluts –
Nosso foco atual é algo chamado seamless computing (algo como "computação transparente"). Acreditamos que a tecnologia vai existir em tudo na nossa vida. Na nossa casa do futuro, você entra em um cômodo e não precisa fazer nada: as luzes se acendem, a música começa a tocar, sem que você se dê conta de que há uma tecnologia em ação. Se eu quiser saber qual a minha agenda do dia, uma tela surge e me mostra essa informação. Isso é a computação transparente.  

Veja – Uma única empresa, como a Microsoft, vai impor seu padrão de conexão entre aparelhos ou haverá padrões comuns a várias concorrentes?
Cluts –
Acho que um pouco dos dois. As empresas estão ao mesmo tempo competindo para criar a melhor tecnologia e cooperando para propiciá-la aos consumidores. De fato é preciso algum grau de concordância, quanto a certos padrões, para as coisas avançarem. Um ótimo exemplo são os CDs de áudio. Um consórcio de empresas criou um formato de áudio viável para os aparelhos domésticos. Nenhuma delas tinha todas as respostas. Por outro lado, consentir que cada uma leve seu próprio padrão ao mercado permite que o melhor progrida, porque os padrões serão avaliados pelo mérito.  

Veja – Qual o futuro do telefone celular? Ele vai se tornar uma espécie de central de comando?
Cluts –
Europa e Ásia estão à frente dos Estados Unidos no que diz respeito ao uso do celular para uma infinidade de coisas. A ubiqüidade, a portabilidade e a capacidade de comunicação, em casa ou em qualquer lugar do planeta, tornam o aparelho muito poderoso. É, além disso, um objeto muito pessoal. Eu tenho um, minha mulher tem um, meu filho tem um, todos customizados. Faz muito sentido, então, que o celular sirva como um aparelho de comunicação com outras coisas da casa. A questão é até que ponto ele tem de ser potente. Duvido que alguém queira, por exemplo, armazenar filmes nele. Mas o celular pode permitir que eu acesse esses filmes quando estou viajando e quero vê-los no quarto do hotel. Acho que esse é o tipo de papel que o telefone vai desempenhar.

Veja – Suas pesquisas levam em conta o custo para o consumidor?
Cluts –
Sempre. É algo que nos preocupa muito. Por exemplo, criamos um ímã de geladeira que dá informações. Se você prega em um painel o ímã de uma pizzaria, por exemplo, ele entra na internet e informa qual a promoção do dia naquela pizzaria. Essa é uma tecnologia baratíssima chamada etiqueta de radiofreqüência. Custa 2 centavos de dólar por unidade. Já é usada em fábricas para controle de estoque.  

Veja – Em que estágio se encontra a pesquisa de reconhecimento de voz?
Cluts –
O desafio técnico é mais a acústica do que o reconhecimento de palavras. Este já é bastante bom, desde que eu me disponha a usar um fone para falar. Prova disso são os serviços automáticos por telefone. Na casa da Microsoft há alguns objetos que reconhecem voz. Mas o que as pessoas imaginam, andar pela casa falando em voz alta para as paredes e o sistema atender, ainda está distante. E não só por causa dos problemas de acústica, mas também devido à questão social: as pessoas ainda não estão preparadas para conversar com o abajur, pelo menos não na frente de outras pessoas.  

Veja – Toda essa tecnologia não cria o risco de aumentar o abismo entre os chamados "incluídos" e "excluídos digitais"?
Cluts –
A idéia de que algumas pessoas tenham acesso à tecnologia e outras não é uma de nossas preocupações. Claro, não é uma tragédia se nem todos puderem ter em casa o ímã de geladeira que dá informações. Sua vida vai continuar boa sem ele. No entanto, se você não dispõe de tecnologia alguma em sua vida, se não pode nem acessar a internet, aí é um problema crucial. Temos investido em soluções para mercados emergentes a preços aceitáveis. Por exemplo, estamos pensando em um celular extremamente barato, talvez a preço subsidiado, que proporcione alguns serviços tecnológicos.