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"Os filhos devem ajudar na conta"

Jorma Ollila, presidente mundial da Nokia

Por Leandra Peres



Germano Luders


A Nokia era, até 1992, uma empresa centenária e tradicional. Quem diria que a fabricante finlandesa de televisores e pneus se tornaria a líder mundial no mercado de aparelhos celulares onze anos depois? A mudança que hoje parece óbvia foi marcada por muita coragem e riscos. O finlandês Jorma Ollila, 53 anos, que está no comando da empresa há pouco mais de uma década, foi o grande responsável pela aposta bem-sucedida. Graças à virada da Nokia, Ollila é uma referência no mundo dos negócios. O ex-funcionário do Citibank e assíduo jogador de tênis aposta no crescimento de 50% no mercado de celulares na América Latina até 2008, puxado pelo Brasil. Para atender o novo consumidor, diz que será preciso oferecer produtos cada vez mais integrados à internet. Em visita ao Brasil, Ollila concedeu a seguinte entrevista a VEJA:

Veja – Como será o celular do futuro? Em dez anos, vai ser possível, por exemplo, desligar o ar-condicionado ou trancar a porta de casa com uma ligação do celular?
Jorma Ollila – Se os consumidores desejarem esse serviço, sim, será possível, pois os programas para celulares estarão muito mais desenvolvidos. Mas para que isso, de fato, aconteça, haverá um custo. E minha dúvida é se as pessoas estarão dispostas a pagá-lo. Sobre o futuro dos celulares, é razoável afirmar que eles serão ferramentas de comunicação multifacetadas que as pessoas usarão para gerenciar a vida pessoal ou profissional.

Veja – Os celulares poderão substituir os PCs?
Ollila – Substituir, não. Mas desempenharão muitas das funções que os PCs tinham nos anos 90. Com certeza, agendas e compromissos diários serão cada vez mais armazenados nos celulares, que estarão conectados ao PC, de modo que a informação esteja sempre disponível on-line. Muitas pessoas terão os dois: um PC e um equipamento portátil, que poderá ser um telefone e que estará conectado ao PC.

 
Divulgação
É brincadeira: parece um game, mas é o celular N-Gage, equipadíssimo, que custa 1 700 reais

Veja – Já existem mais telefones celulares que fixos no mundo. Isso significa que as pessoas estão trocando um pelo outro?
Ollila – Tenho três filhos que não moram mais comigo, e nenhum deles teve um telefone fixo. Essa tem sido a tendência em vários mercados. Na Escandinávia, 20% dos usuários de celular não têm linha fixa. A geração mais nova prefere um telefone celular para as comunicações de voz e um PC em casa conectado a um serviço de internet de banda larga. Isso ainda não está acontecendo no Brasil, mas acredito que logo ocorrerá aqui também. Basta ver como as pessoas mais jovens estão usando os serviços já disponíveis nos celulares.

Veja – Funções como o envio de imagens por meio do celular ainda custam caro. Quando será possível usar esse serviço a um preço razoável?
Ollila – O custo de enviar uma fotografia ou um cartão-postal pelo celular vai cair significativamente em dois ou três anos. Sempre que se introduz um novo serviço, o preço é inicialmente mais elevado e se reduz à medida que aumenta seu uso. Os operadores e também as empresas que desenvolveram a tecnologia aprendem a acionar o sistema com maior eficiência. Isso é inevitável e vai acontecer.

Veja – Por que as pessoas estão constantemente trocando de aparelho celular quando o antigo ainda funciona perfeitamente?
Ollila – Há dois fatores. O primeiro é o avanço tecnológico. À medida que a tecnologia melhora, as pessoas sentem que têm algo a ganhar com a troca do aparelho. O outro motivo é que o telefone celular é um item bastante pessoal. As pessoas querem se expressar por meio dele. Querem certo design ou uma cor específica. Há dez anos, o celular era visto como um aparelho mais funcional. Hoje, como seu uso está muito mais disseminado na sociedade, tornou-se um bem muito mais pessoal e um item da moda.

Veja – Que tipos de serviço o setor está desenvolvendo para atender à necessidade de maior conectividade?
Ollila – O mercado corporativo tende a crescer, e muito. Os usuários empresariais vão querer seus equipamentos sem fio e móveis totalmente interligados aos sistemas de tecnologia da informação da empresa, de tal modo que um vendedor envie dados diretamente ao sistema da companhia, com o e-mail como principal aplicativo. A outra área em que estamos trabalhando pode ser chamada de diferentes aplicações multimídia. No caso das imagens, por exemplo, o uso profissional da câmera digital é uma delas. Um corretor de seguros ou um policial poderá fotografar um carro, enviar a imagem e receber a cotação do seguro, ou qualquer outra informação que seja necessária, imediatamente. As imagens também são importantes como complemento das mensagens escritas, pois transmitem emoções de maneira bastante diferente. O segmento jovem tem igualmente um grande potencial. Acreditamos que os jogos por meio de equipamentos sem fio serão muito importantes.

Veja – O senhor disse que usa três celulares. Não é demais?
Ollila – Tenho um celular de uso pessoal e um Communicator (aparelho que é uma espécie de mininotebook e celular ao mesmo tempo) que uso para acessar e-mails quando estou viajando. Armazeno grande número de endereços e informações no meu Communicator. Também uso o modelo 6060, que ainda será lançado pela Nokia. Não sou fanático por tecnologia. Sou um usuário médio.

Veja – Muitos pais sofrem com a conta de celular dos filhos. O senhor teve de lidar com esse problema também?
Ollila – Meus filhos têm 27, 22 e 20 anos, e em nossa casa nunca pagamos toda a conta do celular. Eles sempre tiveram de arcar com uma parte. Essa parcela aumentou com o tempo para que eles entendessem que na vida não há almoço grátis.

Veja – O senhor se incomoda quando um celular toca no meio de uma reunião?
Ollila – Não tenho nenhuma regra explícita no meu escritório, mas acho que já se estabeleceu uma espécie de etiqueta não escrita, que é manter os telefones em modo silencioso. As pessoas recebem e enviam mensagens durante reuniões, mas não há barulho de campainha. Funciona em 95% das vezes. Tento deixar meu celular sempre em modo silencioso, mas também já fui surpreendido por chamadas em horas impróprias.