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A conta vai para todos nós

A criminalidade inflaciona os gastos das
empresas
com segurança e cria um custo
adicional que,
na prática, assalta a todos

Enquanto a General Motors do Brasil fabrica um veículo, a matriz da empresa, nos Estados Unidos, produz 27. O faturamento anual da filial brasileira, de 4,5 bilhões de dólares, corresponde a 2,4% do da gigante mundial com sede em Detroit, que atingiu 185 bilhões de dólares no ano passado. Em número de empregados, a proporção é de um brasileiro para dezessete trabalhadores na matriz. O gasto com segurança é o único ponto em que a unidade nacional ganha de forma disparada de sua controladora. Para cada dólar despendido nos Estados Unidos nesse item, a filial brasileira gasta quase 3.

Tanto aqui como na sede, a companhia utiliza forte esquema de proteção para seu presidente. Na General Motors do Brasil, Walter Wieland circula sempre a bordo de um veículo blindado, dirigido por um agente de segurança treinado para situações de risco. É acompanhado de perto por outro carro blindado com dois agentes armados. O presidente mundial, Richard Wagoner Jr., utiliza uma escolta semelhante. No Brasil, porém, a proteção do carro blindado é estendida a outros vinte diretores e executivos. Resultado: para cobrir suas despesas com segurança, a GM brasileira tem de fabricar e vender por ano 44 Blazers (42.000 reais a unidade), três vezes mais que sua congênere americana.

O caso da GM é um exemplo de como os gastos com segurança aumentam o chamado custo Brasil para as empresas que operam aqui. A despesa extra com segurança de executivos e proteção patrimonial é debitada no custo de produção e acerta em cheio o bolso do consumidor. É ele quem paga, embutido no preço dos produtos que compra, o salário dos seguranças e o carro blindado dos executivos. Dessa forma, mesmo quem nunca foi assaltado acaba arcando indiretamente com o ônus da violência. E quem já enfrentou um assaltante na realidade sofreu dois assaltos: um no momento em que foi abordado pelo criminoso e outro de forma bem mais sutil, aos poucos, desembolsando mais do que devia na compra de bens e serviços por causa do adicional que as empresas reservam para compensar despesas decorrentes da criminalidade.

Os gastos preventivos, como sistemas de segurança eletrônicos e salários de um exército de mais de 400 000 vigilantes no país, chegam a 6 bilhões de reais por ano, segundo estimativas da empresa americana Kroll Associates, especializada em segurança empresarial. Significa que a indústria de segurança já está faturando mais do que gigantes respeitáveis, como a Volkswagen, o Carrefour, a Telefônica e a Shell, as quatro maiores companhias privadas do país, com arrecadação anual entre 4 bilhões e 5 bilhões de dólares. Só o setor bancário gasta 1,5 bilhão de reais por ano em segurança, valor que é repassado para os correntistas na forma de tarifas.

Além de tornar as coisas mais caras, o medo da violência provoca alterações de comportamento que causam impacto no consumo. Boa parte da população evita circular à noite. O dinheiro despendido em seguros, alarmes e reforço da segurança reduz a disponibilidade de gastos com lazer, cultura e aquisição de bens de consumo. Um cálculo feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 1999, indicou que o gasto do país com a violência, incluindo perdas materiais, despesas na área de saúde, deterioração de consumo e da produtividade, chega a 105 bilhões de reais anuais, ou 10% do produto interno bruto. "As empresas brasileiras gastam bastante com segurança e investem muito pouco em ações sociais que poderiam ajudar a reduzir os índices de criminalidade a longo prazo", afirma o administrador Stephen Kanitz, colunista de VEJA. Segundo ele, as 500 maiores empresas do país doam aproximadamente 300 milhões de dólares a entidades beneficentes, de forma aleatória e sem estratégia definida. Só com serviços de consultoria e planejamento de segurança pessoal para executivos, as companhias brasileiras despenderam 1,2 bilhão de reais no ano passado.

Os gastos com ações contra o crime decorrem da incapacidade dos governos de conter o problema da violência. Sob esse ponto de vista, a situação é ainda nais grave, pois indica que os brasileiros estão sendo duplamente penalizados, pagando impostos que deveriam garantir a segurança e um preço extra sobre suas compras para compensar despesas das empresas com seguranças e vigilância. Isso contribui para emperrar a produção e o desenvolvimento econômico. Além desse prejuízo, existe também a conta de quanto o país deixa de ganhar. O noticiário internacional sobre a criminalidade prejudica o turismo no Brasil. O presidente da filial brasileira de uma multinacional alemã do setor eletroeletrônico diz que a empresa enfrenta dificuldade quando precisa convencer funcionários da matriz a trabalhar no Brasil.

No setor financeiro, grandes bancos, como Itaú, Bradesco e Unibanco, já utilizam helicópteros na vigilância aérea para prevenção de assalto. Mesmo com todo o aparato, os ladrões conseguiram roubar 130 milhões de reais das agências bancárias no ano passado. O custo do investimento em proteção, assim como o prejuízo com assaltos, é repassado aos clientes. "O gasto dos bancos com segurança é muito maior no Brasil que em países onde as autoridades conseguem controlar de forma mais eficiente a criminalidade", afirma Hélio Duarte, coordenador da comissão de segurança da Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban).

Em decorrência do explosivo crescimento no número de roubos e furtos de veículos nos últimos anos, as seguradoras aumentaram o valor cobrado mensalmente dos segurados. Isso eleva o peso relativo do seguro na média ponderada de gastos dos brasileiros. Segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), responsável pelo cálculo do custo de vida das famílias com poder aquisitivo de até vinte salários mínimos, 80% da população de São Paulo enquadrada nessa faixa de renda gasta mais com o seguro do automóvel que com feijão. O seguro no setor de transportes também afeta os custos das empresas. No ano passado, os ladrões de carga desviaram nada menos que 500 milhões de reais. Ninguém imagina que as empresas ou suas seguradoras assumiram o prejuízo sozinhas. A conta da violência é debitada, mesmo que indiretamente, no bolso de todos os brasileiros.

 

Escudos humanos


Foto: Claudio Rossi

Treinamento de elite: os agentes são preparados para proteger o cliente com a própria vida


O maior requinte que se pode usufruir na prevenção contra seqüestros não é um veículo blindado ou um sistema de monitoramento por satélite. A arma mais poderosa disponível no mercado são os seguranças de elite, os brutamontes de ternos e óculos escuros que costumam adornar a comitiva dos ricos e famosos. São profissionais com treinamento militar para enfrentar situações das mais arriscadas. Eles se destacam pela rapidez de movimentos, flexibilidade e capacidade de identificar, enfrentar e imobilizar agressores em questão de segundos. Se necessário, podem alvejá-los a distância. Sua pontaria faz com que acertem o alvo em até 97% dos tiros. Mas o item realmente impressionante de seu trabalho é a disposição de colocar seu corpo entre a bala de um atirador e a vida de seu protegido. Em segurança, isso é o que há de mais precioso. Um desses super-heróis profissionais custa, aos poucos que podem pagar, a bagatela de 5 000 reais por mês. Se a proteção for por 24 horas, pode chegar a seis vezes esse valor, com o revezamento dos agentes.

 
       
     
 
Montagem sobre foto: André Batistela - Ivan Carneiro




 
     
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