Vitória da vida

A medicina aprendeu a curar,
a prevenir e até a prever doenças

Daniela Pinheiro

que se associa à vida no século passado em geral tem alguma relação com o ideal pastoril. Árvores frondosas, campinas floridas, regatos que sussurram, rebanhos gordos, charretes e pessoas que uniam a calma à cordialidade. Bem, havia um pouco de tudo isso, mas também ruas enlameadas na chuva e eternamente cobertas de estrume de cavalo, quando não de esgoto correndo ao ar livre. Além das condições sanitárias péssimas, não existiam remédios, cirurgia nem anestésicos, pelo menos como os entendemos hoje. No limiar deste século, a expectativa de vida estava ao redor dos 40 anos, contra os 68 de hoje, e as pessoas enfrentavam terrores difíceis de imaginar atualmente. Um talho superficial aberto no dedo com uma faca suja talvez levasse a um quadro de infecção generalizada e à morte. Algumas gripes matavam. Passear num dia de vento forte poderia significar exposição ao bacilo de Koch, causador da tuberculose, a segunda maior causa de morte da época. Uma criança acometida de poliomielite, mais conhecida como paralisia infantil, estava condenada a permanecer o resto da vida presa a uma cadeira de rodas. E raramente completava 15 anos. Ignorava-se que essas mortes prematuras por sufocamento decorriam de uma paralisia pulmonar provocada pela doença. Em 1918, 20 milhões de pessoas morreram em todo o mundo vítimas da gripe espanhola, enquanto os médicos assistiam a tudo sem recursos para interferir.

Graças aos progressos no campo sanitário e ao desenvolvimento da medicina e dos padrões nutritivos das pessoas, desse quadro tétrico ficou apenas a lembrança. Nos últimos 100 anos, o mundo passou por uma faxina, mesmo que ainda esteja longe de se apresentar como um lugar imaculado. É difícil apontar um marco para a mudança. Há várias datas, algumas delas separadas por décadas. Talvez a mais marcante seja 1928. Naquele ano, o médico escocês Alexander Fleming notou que uma pequena quantidade de mofo que crescera numa cultura de estafilococos destruiu as bactérias. Mais tarde, ele deu ao extrato do bolor o nome de penicilina. Fleming, anos depois agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina de 1945, criou a revolução batizada como antibiótico. No começo da década de 40, depois que outros cientistas refinaram o antibiótico, os grandes laboratórios farmacêuticos iniciaram sua produção em massa, tornando possível aquilo que antes parecia impensável. Infecções incuráveis, como pneumonia, escarlatina, febre reumática, sífilis, tétano, gangrena, passaram a ser valentemente combatidas. A tuberculose, o maior problema de saúde pública da época, ficaria sob controle. Tamanho era o entusiasmo com tais progressos que epidemiologistas chegaram a decretar o fim das doenças contagiosas, o que não aconteceu porque gerações de bactérias cada vez mais fortes desafiam a medicina até hoje.

Pode-se dizer que a medicina teve três fases mais decisivas e nítidas neste século. A penicilina introduziu a primeira delas: a da cura de doenças. Na vigência da segunda fase, tão benéfica quanto a primeira, descobriu-se o papel extraordinário das vitaminas na manutenção e incremento da saúde e inventaram-se as vacinas. Com essas ferramentas, o homem, que já curava, também conseguiu estabelecer uma rotina de prevenção de doenças. Entre as vacinas, a mais destacada foi inventada em 1954, pelo microbiologista americano Jonas Salk, para combater a poliomielite. Aplicada por meio de injeções, acabou superada por uma evolução que viria logo a seguir, a famosa gotinha do doutor Albert Sabin.

Nos últimos anos, a medicina decidiu enfrentar um novo desafio muito mais ambicioso com a ajuda da engenharia genética. A ciência entraria em sua terceira fase: a da previsão de doenças. Ela começou quando a dupla de cientistas James Watson e Francis Crick decifrou a estrutura do DNA, em 1953. Já é possível saber se o DNA de uma pessoa acusa a predisposição a certos tipos de câncer e, a partir desta constatação, aplicar um tratamento preventivo no paciente. Num futuro que parece não estar tão distante, várias outras doenças geneticamente programadas para aparecer poderão ser tratadas ainda antes de começar a se manifestar. Aposta-se hoje em dia que, no século 21, com o mapeamento do DNA de um embrião recém-fecundado, será possível atacar males como a fibrose cística ou a síndrome de Down.

As descobertas nesse campo são acompanhadas por um intenso debate ético, que tenderá a se acirrar à medida que a intervenção humana na vida biológica for se acentuando. O nascimento do primeiro bebê de proveta, Louise Brown, que completou 21 anos em 1999, deu a partida ao debate. Sua mãe tinha uma obstrução nas trompas de Falópio, não podia engravidar, e os médicos resolveram o problema com a fecundação in vitro. Era uma novidade bombástica, apenas vinte anos atrás. Hoje, popularizada pelo mundo afora, inclusive no Brasil, a técnica não oferece nenhum motivo para surpresa. De cada dez recém-nascidos no mundo, um é resultado da fertilização in vitro. No início dos anos 80, a taxa de sucesso dos tratamentos era de apenas 5%. Hoje, é até sete vezes mais alta, conforme o método utilizado. Naquela época, iniciou-se uma discussão sobre o perigo de a inseminação artificial desagregar a família. O debate surgiu porque a ciência, que se especializou em ajudar o homem a desviar-se da morte, ingressou num campo divino, o da produção da vida. Com a clonagem da ovelha Dolly, o tema ganhou uma excitação extra já que, agora, a clonagem de seres humanos é apenas questão de tempo. E, provavelmente, de pouco tempo.

Por maiores que tenham sido os progressos científicos neste século, cada avanço representa um desafio novo para a ciência. Tome-se o caso da duração média da vida humana, que vem aumentando continuamente. Conforme progridem os avanços científicos e as pessoas vivem mais, a ciência passa a ser apresentada a doenças que não existiam antes, quando a sociedade não era tão longeva. Os médicos passam a ter de descobrir a cura para esse novo conjunto de doenças. Males degenerativos como o de Alzheimer e a artrite reumática nem chegavam a aparecer de forma estatisticamente significativa em indivíduos do começo do século. Morria-se antes. Atualmente, a Organização das Nações Unidas, ONU, prevê que o número de centenários em 2050 será dezesseis vezes maior do que o atual. E a população com mais de 80 anos vai se multiplicar por seis. O que se deve esperar? É um fato instigante. Ao alongar a vida humana, a ciência é desafiada por seu próprio feito: como tratar o efeito colateral do avanço anterior? Esse é um dos grandes desafios do próximo século. Há outros dois.

No passado, quando as doenças matavam milhares ou milhões de pessoas de uma vez, bastava desenvolver a fórmula de um remédio e encerrar a tragédia. Agora não. De acordo com os estudos, as moléstias que mais matam já não são as contagiosas, mas aquelas que "não pegam", como as cardiopatias e o câncer. Uma projeção da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard aponta que as principais causas de morte em 2020 serão doenças do coração e depressão crônica. A dificuldade de medicar a sociedade com doenças assim é muito maior. Até porque a prevenção envolve uma mudança de hábitos cotidianos, não apenas o fornecimento de medicamentos.

O segundo grande desafio diz respeito à Aids. Ela não existia na década de 50, há dezesseis anos começaram a ser identificados os primeiros casos e a lista de mortos já está em 14 milhões de pessoas. Há outros 35 milhões de portadores do vírus HIV. Até agora, não existe nenhuma esperança de cura. Os testes mostram que, quando se tenta matar o vírus, morre também a célula. A saída seria uma vacina. Mais de doze já foram testadas, nenhuma delas com sucesso. Para os pessimistas, pode ficar parecendo que os bilhões de dólares empregados em pesquisa estão sendo desperdiçados. Nada disso. Os remédios descobertos até agora têm mostrado grande eficiência para prolongar a vida. O sucesso é ainda maior no caso das grávidas soropositivas. A mãe toma um comprimido de uma droga denominada nevirapina durante o parto e outro é administrado ao bebê até os três primeiros dias depois do nascimento.O risco de contaminação cai para algo como 10%. Até que se descubra uma vacina eficiente, os médicos vão controlando como podem o castigo final do século 20.