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Um mundo no século 19
Nunca houve tanta comida, mas 800 milhões
de pessoas estão passando fome
Daniela Pinheiro
humanidade
conseguiu realizar uma proeza aritmética. Ela desmentiu a equação formulada
por Thomas Malthus no século 18 (a população cresce em progressão geométrica,
enquanto a produção de alimentos, em progressão aritmética), mas, ao menos
parcialmente, convalidou sua conclusão. O economista inglês previu que,
por causa do descompasso entre um crescimento e outro, que não existiu,
o mundo iria passar fome. Os dados recentes mostram que a produção de
alimentos é tão grande que seria suficiente para abastecer não os 6 bilhões
de habitantes da Terra, mas 8 bilhões. Desde o início do século 20, o
aumento na oferta de alimentos tem sido maior que o crescimento da população.
Nos últimos cinqüenta anos, o número de habitantes do planeta mais que
dobrou, e a produção de alimentos triplicou. A fartura já se reflete no
custo da comida. Desde 1980, seu preço médio caiu à metade. Nos últimos
trinta anos, a quantidade de calorias ingerida por pessoa aumentou 27%
nos países em desenvolvimento. Ainda assim, 800 milhões de pessoas sofrem
de desnutrição crônica. Ou seja, uma em cada grupo de sete pessoas. Se
o planeta está abarrotado de comida, como pode acontecer isso?
É simples: ela existe, mas não chega até seu destino.
Há multidões de subnutridos vivendo na Ásia, África e América Latina.
A fome nesses lugares é resultado de problemas climáticos, agravados por
intermináveis guerras civis, que impedem a atividade agrícola. Enquanto
os grupos de ajuda humanitária consideram os alimentos como armas contra
a fome, as milícias os vêem como suprimentos para suas guerras. A comida
chega ao país, mas não às bocas famintas. No Sudão, o maior país da África,
uma severa escassez de alimentos ameaça de fome 2,6 milhões de pessoas,
das quais 350.000 correm o risco imediato de morte. A serviço do governo,
forças irregulares saqueiam as aldeias, queimam as lavouras e impedem
que qualquer tipo de alimento circule na região. Para completar, além
das guerras, existe a corrupção. Na Índia, em regiões castigadas pela
miséria, famílias que teriam direito a 10 quilos de cereais subsidiados
recebem apenas 4, depois que burocratas e atravessadores embolsam suas
cotas. A fila dos desvalidos anda mais rápido para quem paga propina.
O absurdo é que a fome troca de milênio juntamente com a internet, o telefone
celular e a televisão com tela de cristal líquido. Numa perversa máquina
do tempo, cenas do século 21 convivem no mesmo planeta com imagens do
século 19.
As
maiores ondas de fome do século foram motivadas por causas políticas.
Em 1932, na Ucrânia e na União Soviética, 8 milhões de camponeses que
se recusaram a dar suas terras para o regime comunista morreram de inanição
depois de o governo, em represália, ter confiscado todo o estoque de grãos.
Em 1984, a crise de alimentos na Etiópia foi conseqüência de uma política
econômica desastrosa, somada a guerras separatistas e a um período de
seca. Apesar do socorro internacional, morreu 1 milhão de etíopes. Logo
após, em 1990, a guerra civil e a pior seca do século deixaram 300.000
mortos na Somália. Um em cada grupo de três africanos está subnutrido.
É a maior concentração de famintos do planeta em termos proporcionais.
A imagem de destruição pode ser conferida em cada campo de refugiados.
São crianças deformadas pela desnutrição, adultos que parecem esqueletos
insepultos, a pele maltratada por feridas e o estômago inchado de vermes.
E todos com aquele mesmo olhar perdido, desiludido.
A cada três anos, a população mundial cresce quase
o equivalente ao número de habitantes dos Estados Unidos: 280 milhões.
Não haveria problema algum nisso se 98% dos recém-nascidos não estivessem
nos países pobres, onde 1,3 bilhão de pessoas vivem com renda inferior
a 1 dólar por dia. Ou seja, ainda que haja cada vez mais comida, a fome
corre o risco de aumentar.
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