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O mundo se livrou deles
A humanidade, que hoje respira liberdades,
viveu uma era de terror sob o totalitarismo
Maurício Cardoso
e
o mundo ficou mais complicado em outros terrenos, é estimulante o grau
de liberdade política conquistado no planeta na última década do século
20. Pela primeira vez na História, há mais gente vivendo sob regimes constitucionais
do que sofrendo a violência das ditaduras. Em 1980, dos 121 países então
existentes, apenas 37 eram democráticos. Neles, vivia um terço dos habitantes
da Terra. De acordo com os dados mais recentes, 117 das 192 nações que
hoje fazem parte do mapa-múndi podem ser chamadas de democracia e abrigam
mais da metade da população mundial. Na maior parte dos noventa anos anteriores,
a arbitrariedade e o terror foram dados cotidianos para bilhões de pessoas
no mundo. Este foi o século dos regimes totalitários, nos quais o poder
absoluto e o assassínio em massa foram exercidos em escala jamais vista
na história humana. A caminhada rumo à liberdade no século, que durante
quase noventa anos pareceu fadada ao fracasso, é uma das vitórias mais
sofridas da humanidade. "Será necessária a passagem de pelo menos
uma geração, e possivelmente duas ou três, para exorcizar os fantasmas
do domínio totalitário", escreveu o jornalista irlandês Michael Dobbs,
autor do livro A Queda do Império Soviético.
O
totalitarismo é um mal que leva tempo para ser erradicado, mas floresce
rapidamente quando há estímulo para seu desenvolvimento. O oxigênio que
dá vida ao totalitarismo é em geral um ambiente de degradação social e
depressão econômica. Na Rússia, a população passava fome quando os bolcheviques
chegaram ao poder, em 1917, prometendo paz, pão e terra para todos. Vladimir
Lenin, o líder que transformou a Rússia num país comunista por meio da
revolução, admirava-se da maleabilidade da multidão de famélicos que herdara
do czar. "Em nenhuma outra parte do mundo seria tão fácil galgar
o poder e tão difícil permanecer nele", disse. Na Alemanha, destroçada
na I Guerra, fortalecia-se um sentimento nacionalista. Pela manipulação
das hordas de deserdados, Adolf Hitler criou o nazismo. Com o apoio da
máquina de propaganda montada por seu ministro Joseph Goebbels, que amplificou
e explorou ao máximo o carisma do líder, Hitler chegou ao poder mediante
eleições democráticas e nele se manteve por mais de uma década cometendo
atrocidades praticamente sem oposição.
A China pré-revolução, por sua vez, era um quintal
do Japão, palco das mais bárbaras violências. Nos três casos, Rússia,
Alemanha e China, o povo recebeu o ditador com esperança porque estava
sem auto-estima. Não parecia ser possível que o novo regime conseguisse
ser tão ruim ou pior do que o anterior. O totalitarismo vingou, e o mundo
faz até hoje as contas da passagem pelo poder de carniceiros como Josef
Stalin, Adolf Hitler e Mao Tsé-tung. Os três ditadores, exemplos acabados
da crueldade e do poder de destruição, são os campeões da matança em massa
dos próprios governados. O projeto de construir nações igualitárias por
meio da mão forte do Estado custou mais de 100 milhões de vidas neste
século.
Um recurso comum a ditadores como esses é prometer
o paraíso nos discursos, alimentando a população de frases tão fortes
quanto vazias que não traduzem o inferno que a aguarda. Em seu livro Mein
Kampf, Hitler deixa claro seu ódio aos estrangeiros, mas evidentemente
não informa que, se chegasse ao poder, mataria 6 milhões de judeus. Lenin
costumava definir o Estado como uma instituição construída para exercer
a violência. Disse: "Anteriormente, essa violência era exercida sobre
todo o povo por um punhado de ricaços. Agora, queremos organizar a violência
no interesse do povo". Quem seria capaz de interpretar a expressão
"interesse do povo" como um aviso sobre a matança generalizada
que a União Soviética conheceria nos anos seguintes?
O totalitarismo baseia-se num raciocínio de aparência
lógica. Qualquer um sabe como é complicado comandar um país na democracia.
Os projetos não andam do jeito que o governante quer. O ministro do partido
A atrapalha os planos da legenda B. O Parlamento não vota as medidas do
Executivo. E quando vota o Judiciário as derruba. Os anos vão passando
sem que se consiga produzir uma mudança radical no país, sem que o mandatário
deixe sua marca na História. Como é difícil governar com Parlamento funcionando
e Judiciário independente, o governante totalitário fecha os dois poderes
ou os deixa tão enfraquecidos que se tornam incapazes de se opor a seus
planos. E faz isso dizendo atuar em nome do povo. Como também é trabalhoso
conviver com a oposição, por que não eliminá-la? E já que o poder é absoluto,
por que não matar os adversários, reais e imaginários?
Foi isso que fizeram Hitler, Stalin e Mao, além
de uma dezena de filhotes de ditadores espalhados pelo mundo no decorrer
do século. A maior parte das mortes produzidas nesse período em nome de
um projeto de libertação popular ocorreu nos dois gigantes socialistas:
a União Soviética e a China. O regime soviético criou o "inimigo
objetivo", criminoso sem crime que morria sem saber por quê. Stalin
não poupou nem seus pares. Somente um membro do Politburo do Partido Comunista
Soviético de 1924 estaria vivo quinze anos mais tarde: o próprio Stalin.
Os demais foram assassinados. "Nenhum desses imensos sacrifícios
de vida humana foi motivado por razão de Estado. Nenhuma das camadas sociais
liquidadas era hostil ao regime", escreveu no livro Origens do
Totalitarismo a filósofa alemã Hannah Arendt, uma das maiores especialistas
no assunto em todo o mundo.
Arendt defende a tese de que a principal matéria-prima
do totalitarismo é a vida humana, já que o terror precisa matar para realizar
suas experiências. A fome causada pelo chamado "grande salto para
a frente", o desastroso projeto de modernização da China implantado
por Mao Tsé-tung em meados dos anos 50, deixou um saldo espantoso de 65
milhões de mortos. Entre 1975 e 1979, o general Pol Pot, do Camboja, e
seu Khmer Vermelho decidiram transferir a população das cidades para o
campo à força como forma de reeducação ideológica. Mataram de inanição
nada menos que 25% dos habitantes do país. Em termos proporcionais, foi
o maior genocídio do planeta. Pelo fato de sacrificar a vida humana, tais
regimes já seriam deploráveis. O que os torna ainda mais assustadores
é que o sacrifício foi inútil. Os regimes totalitários ficaram conhecidos
por sua incapacidade de promover o progresso.
Para as pessoas que nasceram nos últimos trinta
anos é difícil imaginar a que ponto fascismo e comunismo tiveram impacto
neste século. De todos os ismos, o nazismo talvez tenha sido o
mais funesto, e mais não estragou porque pouco durou. Para a sorte da
humanidade, foi derrotado pela democracia liberal do primeiro-ministro
inglês Winston Churchill, para alguns o maior líder civil do Ocidente
neste século. O comunismo, durante sua existência, manteve o mundo em
suspense enquanto travava luta contra o lado capitalista do planeta. As
bombas não explodiram, mas a Guerra Fria, que dividiu o Globo entre o
oeste capitalista e o leste socialista, marcou os momentos decisivos das
relações internacionais no século.
O mundo tinha valores tão diferentes dos de hoje
que até mesmo nações como a Holanda, a França e a Grã-Bretanha para certos
efeitos se opunham à liberdade. Até o fim da II Guerra, praticamente toda
a África e quase toda a Ásia estavam sob o jugo das potências colonialistas
solidificadas na Europa no século anterior. Mahatma Gandhi, uma das figuras
mais destacadas do século, foi o condutor da revolução que, sem violência,
obteve a independência da Índia em 1947, até então parte do Império Britânico.
E Nelson Mandela, o vencedor do apartheid racial na África do Sul, personificou
o ideal da sociedade sem discriminações e com dignidade, valores impossíveis
enquanto a população branca mandou no país. Infelizmente, muitas das ex-colônias,
especialmente da África, acabaram se tornando regimes totalitários.
De modo geral, o esforço de implantar a ditadura
do proletariado ou de brecar a expansão comunista fez com que a liberdade
fosse restrita à esquerda e à direita no mundo inteiro. Foi no campo fértil
do conflito ideológico que germinaram os golpes de Estado e os regimes
de força do general Augusto Pinochet, no Chile, e de Fidel Castro, em
Cuba. A queda do Muro de Berlim, em 1989, tornou-se um dos mais fortes
símbolos da ruptura do final do século. Pinochet e seus similares, à direita
e à esquerda, perderam a razão de ser com o fim do comunismo. Fidel Castro,
um dos últimos remanescentes da utopia socialista, é considerado o exemplar
anacrônico de uma espécie em extinção. A tecnologia da informação, que
transformou o mundo em uma aldeia global, confirmou a democracia e a liberdade
como valores universais. Ao fim da II Guerra, muitos alemães confessavam
sinceramente que não sabiam das atrocidades nazistas cometidas em seu
país. Hoje, com a onipresença da televisão, os satélites de comunicação,
os computadores e a internet, fica-se sabendo imediatamente das tentativas
de faxina ética de Slobodan Milosevic em Kosovo. O mundo, mesmo obrigado
a conviver com um Milosevic, parece estar mais protegido da loucura homicida
de gente como ele.
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