O século terrível

Ele teve as piores guerras, holocausto
e Hiroshima. Mas acaba glorioso

Luminosos de saudação à chegada
do século 20: o mundo daquela época
acreditava em verdades absolutas

o ponto de vista das matrizes históricas e mentais – e não do calendário –, este século foi mais curto que os outros. Começou na I Guerra Mundial, em 1914, e se encerrou com o esfacelamento do império soviético, em 1991. Até a I Guerra, a humanidade vivia no clima de estabilidade política e crença no progresso que caracterizaram o século anterior. Depois do colapso do comunismo soviético, o mundo subitamente se descobriu num período tão diferente do século 20 que seria mais apropriado imaginar que já estava com a cabeça no século seguinte, o 21. Curiosamente, as duas extremidades deste século mantêm semelhanças enormes. A democracia, tanto lá quanto aqui, é um valor universal e conquista um número crescente de países. A tecnologia em expansão acelerada devolve à humanidade a esperança de progresso continuado e padrão de vida ascendente. Há, ainda, a globalização do comércio e das finanças, que envolve o mundo numa teia fabulosa de possibilidades.

Entre as duas pontas, a humanidade conheceu o que, sob alguns aspectos, foi o período mais negro de sua história. As guerras mais sangrentas já vistas pelo homem foram travadas no século 20. Competiram pelo domínio do mundo os dois totalitarismos, o comunista e o nazi-fascista, que aplicaram projetos monstruosos de engenharia social em milhões de seres humanos e, no processo, cometeram as maiores barbaridades testemunhadas contra multidões indefesas. Em decorrência da disputa ideológica e armamentista entre Estados Unidos e União Soviética, o mundo tornou-se um silo atômico capaz de dectruir toda a vida na Terra várias vezes. É difícil imaginar um século mais terrível do que este.

O século 20 será lembrado ainda por uma mudança espiritual de grande impacto em todos os aspectos da vida humana. Pensadores, cientistas, escritores e pintores, pela primeira vez na história da humanidade, fizeram evaporar de um momento para o outro certezas que levaram eras inteiras para se solidificar. Foi no século 20 que se tornaram relativas coisas concretas como matéria e energia, tempo e distância, da mesma forma que sofreram uma relativização conceitos abstratos como certo e errado, justo e injusto. Isso teria conseqüências de alcance extraordinário na história desse período. O homem que chegou ao limiar do século 20 e aquele que agora se prepara para ultrapassar a entrada do século 21 são criaturas separadas por essa terrível transformação. O primeiro acreditava em verdades absolutas, em códigos morais, na conduta certa e na errada. O segundo olha tudo isso sob o prisma da dúvida. Perdeu as certezas.

grande marco da relativização como um processo do século 20 pode ser atribuído ao físico Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade, de 1905, comprovada empiricamente logo depois da I Guerra Mundial. O mundo, que já vinha convivendo com a destruição das certezas desde o século anterior, com a popularização das idéias de Karl Marx e, na virada do século, com a divulgação da psicanálise de Sigmund Freud, ficou sabendo com Albert Einstein que o tempo podia transcorrer mais depressa ou mais devagar. E que o espaço podia se curvar.

O austríaco Sigmund Freud acabou com a noção da responsabilidade pessoal pelas deficiências humanas. Segundo ele, o homem é mau, violento, sovina ou invejoso não por sua própria escolha, e sim levado a esses estados por forças além de seu controle.

Ao propor que os fatos da economia constituíam um motor de tal potência que era capaz de determinar o que os homens pensavam, sentiam e desejavam, Karl Marx também tirou o destino humano das mãos dos indivíduos e entregou-o às engrenagens da História. A revolução de Einstein e as análises marxista e freudiana combinaram-se para subverter, cada uma a sua maneira, a idéia de que o mundo era um lugar simples regulado por valores universais e eternos, aquela reconfortante crença em absolutos que foi o centro da civilização ocidental no século 19.

instein, que se tornaria o protótipo do cientista para o homem moderno, determinou que, com exceção da velocidade da luz, que é constante, todas as outras medidas do universo são relativas. Ou seja, só podem ser determinadas em relação a um observador específico. A velocidade de um foguete é zero em relação ao astronauta que viaja nele. Engenhoso, inédito, brilhante, genial e provado empiricamente – mas e daí? Por que uma teoria científica, por mais poderosa que seja, pode mexer com a arte, com a literatura e com os costumes da população civilizada do planeta? Bem, essa é outra característica marcante do século 20: a apropriação de verdades científicas para uso cotidiano. No romance Em Busca do Tempo Perdido, do francês Marcel Proust, o tempo adquire uma dimensão possível apenas no universo de Einstein. O escritor irlandês James Joyce teria relativizado a linguagem no seu livro de ruptura com a tradição literária, Ulisses. E o que fez a vasta legião de pintores impressionistas, expressionistas e abstratos de todas as denominações? Eles relativizaram a própria luz.

Com todos os problemas que perturbam o mundo nos dias atuais, a impressão que se tira deste fim de século é que ele acaba muito melhor do que começou. Eis a grande surpresa do século 20. Ter desembocado num presente estável, quando tudo nele foi violento e imprevisível. Com um pouco de otimismo, pode-se constatar que nos últimos dez anos, pela primeira vez na história da humanidade, a liberdade política e sua irmã gêmea, a liberdade econômica, espalharam-se, em graus variados, pela maioria dos países do planeta. O espectro da guerra é menos presente hoje do que em décadas anteriores, num século que começou com a guerra que acabaria com todas as guerras. Menos indivíduos temem hoje a ira do ditador. Mais gente desfruta bens materiais, maior segurança contra as intempéries e as iniqüidades da condição humana, como as doenças. A expectativa de vida chegou aos 80 anos nos países industrializados. Já beira os 70 nas nações em desenvolvimento.

Sob certos aspectos, este é um período formidável. As descobertas científicas feitas durante o século começam a dar frutos. A quebra do átomo, a decifração da linguagem genética do DNA, as tecnologias limpas, a racionalidade crescente das doutrinas econômicas, tudo isso permite visualizar o futuro imediato com menos apreensão. Milhões de crianças, mulheres e homens ainda sofrem nos bolsões medievais do planeta, mas começa a parecer possível que a miséria deles seja erradicada um dia. A fome tornou-se um fenômeno insular, produzida principalmente por guerras civis no sub-Saara africano. É um avanço notável especialmente quando a lotação da Terra é significativa. Vive-se em um mundo onde o número de terráqueos, mais de 6 bilhões, equivale a quatro vezes o total de habitantes no começo do século.

omodidades mínimas como carruagens ou operações com uso do éter anestésico só estavam disponíveis para a ínfima parcela de 1,6 bilhão de seres humanos contemporâneos do final do século 19. É impressionante que se tenha obtido no alvorecer do terceiro milênio um grau razoável de qualidade de vida para a maioria dos 6 bilhões de habitantes do mundo. Esse período viu o surgimento do avião e da nave espacial, do televisor e do telefone celular, da manipulação genética e dos transplantes, do computador e da internet. Não se sabe como esses campos se desenvolverão no próximo século, mas a expectativa é de que os saltos sejam de magnitude jamais vista. O impacto da internet será seguramente tão grande quanto o da tipografia desenvolvida pelo ourives alemão Johannes Gutenberg em 1455, a grande revolução tecnológica do milênio que está acabando. A disseminação da informação numa velocidade e alcance impossíveis antes da internet tem potencial para instalar uma nova idade de ouro no planeta. Algo parecido com o Renascimento de 500 anos atrás. É com esse grau de expectativa que se transpõe a fronteira para o século que está chegando.