188 milhões de mortos

O século que inventou o bombardeio criou
uma maneira rápida de liquidar a vida humana

Monica Weinberg

guerra é tão antiga quanto as sociedades humanas, mas no século 20 ela ganhou um poder de destruição que a humanidade até então não conhecia. As batalhas viraram carnificina. Conforme estimativa de baixas em combate, no decorrer dos últimos 1 000 anos teriam morrido 230 milhões de pessoas, das quais 188 milhões neste século. Nunca o mundo havia registrado tantas baixas – e em tão pouco tempo. A I Guerra Mundial, marco inicial da barbárie na escala posta em prática no século 20, dizimou gerações em diversos países. Os franceses perderam mais de 20% de seus homens em idade militar. Os ingleses encerraram o conflito com uma lista trágica de meio milhão de vidas perdidas, entre os homens com menos de 30 anos. Um quarto dos alunos das universidades de Oxford e Cambridge não voltou para casa. O pior, no entanto, ainda estava por vir. Apenas nos seis anos de duração da II Grande Guerra, auge da destruição global, mais de 50 milhões de pessoas nascidas em cinco continentes foram mortas. O sacrifício de vidas humanas nos combates foi tão grande neste século que é de se perguntar se a humanidade não foi acometida de um surto violentíssimo de loucura coletiva.

O homem continuou o mesmo. As circunstâncias é que mudaram. Até o final do século 19, os combates se davam basicamente entre tropas de infantaria que marchavam a pé e se escondiam em trincheiras. Muitos dos soldados morriam espetados pelas baionetas. As armas mais poderosas, os canhões, eram transportadas em carroças puxadas a cavalo. Embora o cavalo e a baioneta não tenham sido abandonados na I Guerra Mundial, ela incorporou o avião, e com ele surgiram os bombardeios. Os soldados deixaram de mirar exclusivamente nos alvos militares e passaram a fazer chover bombas nas cidades. Em vez de matar a tropa inimiga, a estratégia passou a ser eliminar a vida dos parentes civis. O saldo dessa conduta imoral é assombroso: metade de todos os mortos nos conflitos ocorridos no século não usava farda.

A frieza da guerra em que o predador não vê a vítima teve sua tradução mais assombrosa nas bombas atômicas lançadas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945. A imagem dos cogumelos que consumiram em segundos mais de 120.000 vidas nas duas cidades ficará gravada na lembrança como um dos momentos mais horripilantes da trajetória humana. Uma das idéias dos americanos era apresentar a nova criação bélica aos inimigos japoneses por meio de um teste no mar, longe o bastante da praia, para não fazer vítimas, mas perto o suficiente para que as futuras vítimas pudessem ver o que lhes aconteceria se não se rendessem de uma vez. O plano foi abandonado. Transferiu-se a demonstração para Hiroshima e Nagasaki.

Com a bomba atômica, o homem percebeu que a tecnologia poderia varrer a vida da Terra. Passou-se a conviver com a possibilidade real da deflagração da III Guerra Mundial, dessa vez uma guerra nuclear, durante o período da Guerra Fria. Nessa fase, iniciada no final dos anos 40 e terminada por obra dos líderes dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e da União Soviética, Mikhail Gorbachev, as duas grandes potências empreenderam uma corrida armamentista sem precedente. O medo de que o outro lado apertasse o botão primeiro fez com que os governantes tendessem à acomodação. De certa forma, a mais pavorosa das armas passou a ser uma alavanca para a manutenção da paz. Afinal, não havia meio-termo. Era a convivência tensa mas, sem explosões, ou a guerra de eliminação total.

No auge da Guerra Fria, na década de 60, o governo americano avaliou que as probabilidades de eclosão da guerra nuclear era de uma em quatro. O arsenal dos dois países tornara-se gigantesco. A União Soviética chegou a manter 5.000 mísseis de longo curso apontados para as principais cidades dos EUA. Os americanos tinham seus foguetes apontados para o território soviético. Prognósticos da época apontavam que a guerra nuclear provocaria, de imediato, 200 milhões de mortes. Hoje, com as ogivas russas enferrujando, o risco de uma catástrofe atômica planetária é muito pequeno.

No fim do século, se assiste a um paradoxo. O aperfeiçoamento das armas está produzindo um cenário em que a guerra pode matar pouco, desde que assim se deseje. As armas tornaram-se mais potentes, mas também ganharam precisão. Na I Guerra os militares lançavam uma média de 1 000 bombas para acertar um alvo. Um único míssil de última geração faz o serviço. A tecnologia deu às guerras um aspecto de videogame, em que o teatro de operações é guiado por uma rede de computadores. Desde a Guerra do Golfo, em 1991, os militares americanos estão obcecados pela idéia de que é possível entrar numa guerra e vencê-la sem a perda de um único combatente. O número de baixas durante os ataques da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, na Guerra do Kosovo, entre março e junho deste ano, mostra que isso é viável, pelo menos nesse tipo de guerra localizada. O século da carnificina termina bem melhor do que começou.