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Império sem fronteiras
Como surgiu e se mantém firme a
maior
potência que o mundo conheceu
Sérgio Ruiz Luz
escritor inglês Rudyard Kipling torceu o nariz ao visitar os Estados Unidos
no começo do século. "É um arquipélago de tribos selvagens prestes
a se digladiarem pela divisão dos parcos recursos naturais", sentenciou.
Seu colega de profissão e compatriota H.G. Wells, durante uma audiência
na Casa Branca com o presidente Theodore Roosevelt, em 1905, também manifestou
preocupação com o futuro da ex-colônia. "São os Estados Unidos uma
criança gigante ou uma futilidade gigante?", perguntou na ocasião.
Essas dúvidas e avaliações pessimistas já não fazem o menor sentido, mas
as troças dão a dimensão da mudança que o país sofreu neste século. Em
1900, os 76 milhões de americanos ocupavam um imenso campo agrícola isolado
do mundo, com produto interno bruto equivalente ao do Equador dos dias
de hoje. Era um país de importância secundária na época em que o mundo
vivia à sombra do império britânico, que chegou a dominar um quinto da
superfície terrestre e um quarto de sua população.
O poder da Inglaterra estava alicerçado numa folgada
liderança militar. Graças a uma temível esquadra marítima, o país ganhou
terreno como ninguém no século 19. No auge do domínio britânico, a Royal
Navy era maior e mais eficiente que a soma das forças das duas outras
potências militares da época, Rússia e França. Com isso, a extensão do
reino da rainha Vitória adquiriu proporções inéditas. Nem mesmo os grandes
impérios da Antiguidade, como o romano, mantiveram território tão vasto
sob seu domínio. Os britânicos, porém, seriam os últimos a basear sua
liderança numa política de expansão territorial. A virada do século e
a fulminante ascensão dos Estados Unidos inauguraram um novo estilo de
domínio. Sai de cena a guerra pela conquista de colônias, entra em jogo
o poder econômico, cultural e tecnológico.

Dois fatores transformaram o "arquipélago de
tribos selvagens" em potência mundial. Em primeiro lugar, as duas
grandes guerras. Enquanto a Europa saiu abalada dos conflitos, com graves
problemas econômicos e políticos, os Estados Unidos ficaram mais ricos
e cresceram na primeira metade do século. Em 1920, o censo americano registrava
pela primeira vez a predominância da população urbana sobre a rural, símbolo
do rápido processo de industrialização do país. Entre 1939 e 1945, o PIB
americano dobrou. Ocorreu também uma formidável expansão industrial, com
taxa de crescimento anual de 15% no mesmo período. Ao final da II Guerra,
os Estados Unidos eram líderes na produção manufatureira e concentravam
as maiores reservas de ouro do mundo.
O segundo fator responsável pelo surgimento do colosso
americano foi seu mercado interno, que absorveu o rápido crescimento industrial
do país. Na primeira metade do século, os Estados Unidos estavam produzindo
mais que todas as outras potências da época. Sua indústria automobilística
era nove vezes maior que a soma das fábricas da França, Grã-Bretanha e
Alemanha. Dessa forma, diante de uma Europa exaurida, o país colocava-se
naturalmente no centro da geopolítica mundial. Até o colapso do império
soviético, é verdade, Washington dividiu a liderança econômica e ideológica
mundial com Moscou. Mas, ao contrário dos rivais, os americanos sempre
fizeram a opção certa nos momentos cruciais.
Quando a supremacia tecnológica começou a representar
uma moeda de peso no jogo do poder, os Estados Unidos abriram suas fronteiras
e atraíram os grandes cérebros internacionais. Além de criar um novo tipo
de universidade, tomaram a frente na indústria de informática e outras
áreas estratégicas do conhecimento. No campo ideológico, o país saiu vitorioso
da Guerra Fria, enquanto os soviéticos se esfacelaram em várias repúblicas
e mergulharam numa profunda crise de identidade todo o mundo comunista.
Por fim, na abertura da década de 90, momento em que todos apostavam que
seu modelo de capitalismo estava decadente e prestes a ser engolido pelo
Japão e pelos emergentes Tigres Asiáticos, os EUA deram a volta por cima.
Com índice de crescimento médio de 7% nos últimos sete anos, consolidaram
sua posição de império do século.
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