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O capitalista desapareceu
Prepare-se: as transformações
que sacudiram
a economia continuam no século 21
João Sorima Neto
maha
é uma pacata cidade do Estado de Nebraska, no meio-oeste americano,
tem cerca de 350.000 habitantes e sua principal atividade é a agropecuária.
Nos últimos tempos, Omaha ganhou fama por sediar uma vez por ano
um evento que ficou conhecido como o "Woodstock Capitalista". Uma multidão
de investidores ocupa os hotéis da cidade, complica o trânsito
e lota os restaurantes. Eles querem ouvir conselhos para ganhar dinheiro
no mercado financeiro. O anfitrião desse encontro é um homem
de 68 anos chamado Warren Buffett, dono de uma fortuna estimada em 36
bilhões de dólares. Como investidor, Buffett é um
fenômeno. Ele administra um fundo de investimentos chamado Berkshire
Hathaway que dá lucro há muitos anos. Em 1999, sua palestra
atraiu 15.000 pessoas e lotou o principal auditório da cidade
um recorde absoluto. A platéia costuma delirar: grita e aplaude
como se estivesse num jogo de beisebol. Cada vez mais pessoas colocam
dinheiro sob seus cuidados. Atualmente seu fundo reúne 1,6 milhão
de associados.
Na
virada do século, o dinheiro que circula na economia e enriquece
ou quebra nações está pulverizado nas mãos
de milhões de pessoas, que compram ações ou se organizam
em grupos de investimentos. Nos Estados Unidos, 76 milhões de pessoas
investem em fundos e 30 milhões aplicam em ações.
Apenas os fundos movimentam 6 trilhões de dólares ao ano,
o que corresponde a quase 80% do produto interno bruto americano. No Brasil,
o volume é mais modesto, da ordem de 200 bilhões de reais
por ano, mas os fundos são igualmente um dos motores da economia.
Ou seja, aquele capitalista que era dono de seu próprio negócio
e tomava decisões em sua sala foi substituído por um tipo,
digamos, mais popular.
Além
do capitalista, quem também trocou de patamar foi o chamado consumidor,
que neste século se firmou como o grande pilar da economia. O movimento
começou quando o americano Henry Ford inventou a produção
em série dos automóveis, em 1913, e o preço do produto
começou a baixar. Em pouco tempo, os funcionários da Ford
podiam ir trabalhar de carro. Henry Ford impôs um padrão
que logo alcançaria empregados de outros ramos industriais. O consumidor
ficou tão importante que a empresa capaz de desagradá-lo
perde espaço para o concorrente. Ford experimentou isso na pele.
Depois de comercializar 15 milhões de unidades do Ford Modelo T
em menos de duas décadas, todos eles carros pretos, viu suas vendas
despencarem quando outras montadoras passaram a fabricar automóveis
coloridos.
Luís Crispino
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Neste século, assistiu-se a um fenômeno
que de tão assimilado hoje em dia parece banal. A classe média
assumiu as rédeas do consumo. Massas consumidoras é uma
característica deste século que está acabando. Atualmente,
a classe média representa 75% da população dos países
desenvolvidos, ou cerca de 600 milhões de pessoas. Essa multidão
está por trás da geração de fortunas incomensuráveis
que giram pelos mercados financeiros de todo o mundo, em forma de dinheiro
volátil aplicado em bolsas, câmbio ou juros. Estima-se que
cerca de 3 trilhões de dólares sejam movimentados a cada
dia nessas transações financeiras globalizadas, soma que
equivale à receita de 25 anos do governo brasileiro. Como esse
capital corre atrás de uma boa taxa de retorno mas precisa voltar
intacto para as mãos dos aplicadores, prefere estacionar em países
de economia equilibrada. É por essa razão que, ao primeiro
sinal de fumaça, ele desaparece. Até as décadas passadas,
quando o Estado tinha fontes de financiamento para fomentar a economia,
os investidores batiam à porta dos governos para obter recursos.
Agora, dá-se o contrário. Os países é que
assediam os investidores.
Para
alguns estudiosos, as transformações preocupam. Elas podem
estar apontando para um processo irreversível na economia. Como
subproduto dessa monumental reviravolta, as taxas de desemprego estão
subindo na Europa e na América Latina. Diferentemente do desemprego
motivado por recessões, que cedo ou tarde passavam, o desfalque
no número de empregos atualmente se deve mais à adoção
de robôs nas fábricas e à informatização
dos escritórios, além de um processo veloz de fusão
de empresas que concentra operações e dispensa mão-de-obra.
Os analistas informam aos incautos que a única medida eficiente
para evitar o pior é preocupar-se não com o emprego, mas
com a empregabilidade. Ou seja, com o desenvolvimento de habilidades e
hábitos apreciados no mercado, tais como o domínio de uma
ou mais línguas estrangeiras e preocupação constante
em estar atualizado. Todos são unânimes em dizer: o desemprego
é o desafio do capitalismo do próximo século.
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