Brasil, mostra a tua cara

A busca de uma identidade nacional
é preocupação deste século

João Gabriel de Lima

o criar um livro, um quadro ou uma canção, o artista brasileiro dos dias atuais tem uma preocupação a menos: parecer brasileiro. A noção de cultura nacional é algo tão incorporado ao cotidiano do país que deixou de ser um peso para os criadores. Agora, em vez de servir à pátria, eles podem servir ao próprio talento. Essa é uma conquista deste século. Tem como marco a Semana de Arte Moderna de 1922, uma espécie de grito de independência artística do país, cem anos depois da independência política. Até esta data, o brasileiro era, antes de tudo, um envergonhado. Achava que pertencia a uma raça inferior e que a única solução era imitar os modelos culturais importados. Para acabar com esse complexo, foi preciso que um grupo de artistas de diversas áreas se reunisse no Teatro Municipal de São Paulo e bradasse que ser brasileiro era bom. O escritor Mário de Andrade lançou o projeto de uma língua nacional. Seu colega Oswald de Andrade propôs o conceito de "antropofagia", segundo o qual a cultura brasileira criaria um caráter próprio depois de digerir as influências externas.


Carmen Miranda: a fantasia de baiana estilizada reinou durante muitos anos como emblema do traje típico brasileiro

A semana de 22 foi só um marco, mas pode-se dizer que ela realmente criou uma agenda cultural para o país. Foi tentando inventar uma língua brasileira que Graciliano Ramos e Guimarães Rosa escreveram suas obras, as mais significativas do século no país no campo da prosa. Foi recorrendo ao bordão da antropofagia que vários artistas jovens, nos anos 60, inventaram a cultura pop brasileira, no movimento conhecido como tropicalismo. No plano das idéias, o século gerou três obras que se tornariam clássicos da reflexão sobre o país. Os Sertões, do carioca Euclides da Cunha, escrito em 1902, é ainda influenciado por teorias racistas do século passado, que achavam que a mistura entre negros, brancos e índios provocaria um "enfraquecimento" da raça brasileira. Mesmo assim, é um livro essencial porque o repórter Euclides, que trabalhava no jornal O Estado de S. Paulo, foi a campo cobrir a guerra de Canudos e viu na frente de combate muitas coisas que punham em questão as teorias formuladas em gabinete. Casa-Grande & Senzala, do pernambucano Gilberto Freyre, apresentava pela primeira vez a miscigenação como algo positivo e buscava nos primórdios da colonização portuguesa do país as origens da sociedade que se formou aqui. Por último, o paulista Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, partia de premissas parecidas mas propunha uma visão crítica, que influenciaria toda a sociologia produzida a partir de então.


Tom Jobim: desde Garota de Ipanema, o nome Brasil passou a evocar lá fora uma praia paradisíaca

O século também marcou o surgimento, no país, de uma indústria cultural forte. Setenta e cinco por cento da música consumida no mercado interno é autóctone. Isso significa que se toca mais música brasileira no Brasil do que francesa na França ou alemã na Alemanha. A televisão, implantada no país em 1950, criou uma linguagem própria. Para se afastar do modelo mexicano, a telenovela brasileira foi buscar inspiração na literatura. Dois de seus principais marcos são Gabriela e Escrava Isaura, baseadas, respectivamente, em livros de Jorge Amado e Bernardo Guimarães. O escritor baiano, aliás, forneceria combustível para vários produtos do gênero, tornando-se, em parte graças à televisão, o autor brasileiro mais conhecido do século. Ambas – a música e a novela – viraram produto de exportação. O chapéu de fruteira de Carmen Miranda e a praia paradisíaca evocada pelas músicas de Tom Jobim ainda são os principais cartões de visita culturais do Brasil no exterior. Na área da arte industrializada, apenas o cinema não se firmou. Muitos cineastas tentaram, e alguns trabalhos até mereceram elogios. Os produtores argumentam que o cinema não deslancha porque faltam recursos. Os espectadores que acabam preferindo as produções estrangeiras indicam que o problema é a falta de qualidade. O fato é que a sétima arte não emplaca na nona maior economia do mundo. Mas tudo bem. A televisão e a música estão aí para mostrar a cara do Brasil.