A construção de um país

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A evolução do número de eleitores (ilustração em Shockwave Flash)
A evolução do PIB no século 20 (ilustração em Shockwave Flash)
A evolução da expectativa de vida (ilustração em Shockwave Flash)

Com vários borrões em sua
História, o Brasil deu um salto
significativo neste século

Antenor Nascimento

xistem algumas idéias resistentes a respeito do Brasil. A primeira é a de que não se trata de um único país, mas dois, antagônicos, separados entre si pela barreira da prosperidade. A outra é de que o Brasil tem recursos naturais e um povo de alta criatividade e, por isso, está destinado a se transformar mais cedo ou mais tarde em grande potência. As duas idéias são verdadeiras e transportaram-se do século 20 para o 21. Quem quiser interpretar o país em sua trajetória entre 1900 e 2000 pode usar as duas constatações como instrumento. Na virada do milênio, o Brasil que se apresenta ao mundo tem uma perna firmemente fincada na modernidade. É a maior economia industrial do hemisfério sul e a nona maior no concerto mundial. O salto foi feito no último século. A outra perna continua atolada no passado, pois o produto dessa economia vigorosa não foi entregue adequadamente à sociedade.

Álbum de família
Álbum de família
Antonio Milena
Getúlio, Juscelino e
Fernando Henrique:
uma perna no futuro
e outra atolada
no passado

Os brasileiros mudam de século com uma mancha em sua reputação, a de suportar um dos mais iníquos sistemas de distribuição de renda do mundo. A tarefa foi feita pela metade. O Brasil é uma quase potência, é um quase país rico, mas ainda não chegou lá. Ela é tão complexa e dinâmica que ainda espera um historiador para contá-la em detalhes. Ao virar o calendário de 1899 para 1900, o país era uma república nova, com menos de 11 anos de idade, e tinha um papel bem definido na ordem econômica mundial. Exportava café, a política era muito simples e a estrutura social também. Os fazendeiros de São Paulo alternavam-se no poder com os colegas de Minas Gerais. Estavam no topo da sociedade, enviavam os filhos para estudos na Europa e consumiam produtos importados.

No chão dessa estrutura estava o trabalhador, normalmente o ex-escravo e o imigrante. No meio, uma minúscula camada de prestadores de serviços, militares e burocratas, vivendo na cidade. Problemas sociais eram tratados no distrito policial. Ou pelo Exército, se tivessem proporções maiores. Problemas cambiais também eram fáceis de resolver. Se a cotação internacional do café caía, o governo desvalorizava a moeda nacional, um truque que ficou conhecido como "socialização de prejuízos". Socialização, entenda bem, significava repassar a conta das oscilações internacionais do preço do café integralmente para o colono da fazenda ou para o tenente do Exército. Nas décadas que se seguiram, o colono poupou, mudou-se para a cidade e engrossou a classe média. E os tenentes formaram o primeiro grupo de contestação armada ao regime dos fazendeiros.

Se há alguma coisa que se pode dizer do século brasileiro é que ele começou em 1930, em outubro, quando um movimento militar liderado pelo civil Getúlio Vargas impediu a posse do presidente eleito pelo Partido Republicano Paulista, o PRP, Júlio Prestes. Até então, a república dos fazendeiros era um seguimento do império de Pedro II, e este, uma extensão da política colonizadora portuguesa. A passo trepidante e autoritário, Getúlio quebrará todos os paradigmas da República Velha, a começar pelos dois que definiam esse sistema. A autonomia política dos Estados (e dos fazendeiros) é eliminada. Interventores nomeados pelo Palácio do Catete substituem os governadores. A isso acrescenta-se um discurso de unidade nacional, centrado na figura do ditador.

Começa também a transformação econômica. Baseada numa fonte única de renda, o café, a posição brasileira era frágil no comércio mundial. Ela ficou exposta no início da década de 30, após a quebra da Bolsa de Nova York, quando o mundo entrou em depressão e a exportação do café caiu pela metade. Como essa fragilidade não cabia no projeto de Getúlio, de construção de um país forte, ele inicia o primeiro movimento significativo de substituição de importações. A indústria brasileira já existia, desde o começo do século, fundada em geral por imigrantes italianos. Mas era fraca. Produzia banha enlatada, tecidos grosseiros, sapatos. Seu cliente era o trabalhador da lavoura. Com a usina siderúrgica de Volta Redonda, financiada pelos americanos em troca de bases militares no Nordeste, a conversa é outra. O Brasil parte para realizar seu sonho de transformar-se numa potência industrial, auto-suficiente, com a vida centrada em grandes cidades.

Getúlio teve um êxito admirável nesse processo. De todos os países de colonização ibérica, com exceção da Argentina, o Brasil foi o único capaz de tamanha transformação em tempo tão curto. Entre 1945 e 1953, o fazendão vai para a gaveta do passado. Em 1953, suprida pelas estatais de aço criadas por Getúlio, a Volkswagen chega ao país. Seis anos depois, o primeiro Fusca com peças inteiramente nacionais sai da linha de montagem. Getúlio governou o país de forma ditatorial durante quinze anos até ser deposto, em 1945. Encheu as cadeias de oponentes políticos, censurou a imprensa. Censurou até mesmo livros escolares. Nesse sentido, pode ser comparado a outros ditadores de sua época, como o espanhol Francisco Franco ou o português António Salazar. O inegável é que ele plantou marcas profundas que podem ser vistas como boas ou más conforme o avaliador.

Se o país passou a crescer num ritmo estonteante, enveredou também por uma trilha autoritária que só terminaria em 1984. Perto das eleições viciadas da República Velha, o que veio depois foi muito pior. Entre 1930 e 1999, o país passou quarenta anos sem eleger o presidente. No breve período entre 1945 e 1964, o Brasil teve quatro presidentes eleitos pelo voto direto – Eurico Gaspar Dutra, o próprio Getúlio, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. Apenas Dutra e Juscelino terminaram o mandato. Mesmo nessa oscilação entre democracia e ditadura, o Brasil trilhou um caminho próprio. Em comparação com outras nações, pode-se dizer que a conquista da democracia e da estabilidade política veio através de um processo menos traumático. A Europa obteve sua unidade continental e consenso político após duas guerras mundiais. Chile e Argentina recuperaram a democracia, interrompida nos anos 70, ao preço de 30.000 mortos. Atribuem-se ao regime de 64 cerca de 400 mortos e desaparecidos.

No plano político, os anos 60 e 70 foram terríveis, superando a ditadura Vargas, e vão ficar como um borrão na história. No aspecto econômico e no aprimoramento das condições sociais houve um progresso que não pode ser contestado. Os presidentes militares lideraram o terceiro grande empuxo da industrialização brasileira, com programas que, pela promessa, poderiam ter dado certo. E em grande parte deram. Itaipu foi construída, assim como a Eletrobrás e o sistema Telebrás. Foram obras gigantes, projetadas para se autofinanciar. Pagava-se, por exemplo, uma tarifa maior pelo consumo de eletricidade. O dinheiro extra ia para um fundo que serviria para expandir a rede de energia. O sistema Telebrás funcionava da mesma maneira. Assim como o Sistema Financeiro de Habitação. O projeto dos militares era grandioso. Em seus melhores momentos o produto interno bruto (PIB) cresceu 11,9% (em 1972).

Por essa época, o brasileiro comum sentiu que seu país estava para plugar-se a qualquer momento nos circuitos de riqueza do mundo desenvolvido. Ele podia se orgulhar da magnífica seleção que ganhou a Copa do Mundo no México, assistia às vitórias de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1 via satélite, na TV em cores, observava os espigões serem erguidos em sua cidade. Adultos aprendiam a ler e a escrever nas salas do Mobral e populações carentes do sertão eram atendidas por alunos de medicina e de odontologia do Projeto Rondon. No mundo, falava-se no "milagre brasileiro".

Havia defeitos nesse milagre, que explodiriam no início dos anos 80. Crescia-se ao preço do endividamento externo e graças ao escudo protetor da indústria nacional. Quando os juros internacionais se elevaram, o país ficou sem ter como rolar sua dívida e procurou o FMI. E as pessoas começaram a tomar contato com inflação e recessão. Pela primeira vez, desde 1900, o Brasil ficou sem um projeto de crescimento. Ficou parado, sem nenhuma orientação econômica. Recuperou-se a democracia, mas em outros terrenos a sensação que se tinha – e que se tem – era de perda.

A inflação foi debelada a custo, a abertura comercial melhorou a quantidade e a qualidade dos produtos brasileiros, além de reduzir seu preço por força da concorrência. Mas aquele que acha que nada será como antes tem toda a razão. Um novo ciclo de crescimento não depende mais da força de vontade do presidente ou de um banco oficial. Depende de trabalho mais duro, menos visível e de prazo mais longo. É esse trabalho que poderia ter sido feito durante o século 20 e não foi realizado. Em sua conta positiva, o Brasil se mostra no final do século sem impedimentos sérios para o desenvolvimento. Não sofre conflitos étnicos ou religiosos. A taxa demográfica é decrescente, o que afasta o fantasma da superpopulação. E sua democracia pode ser vista agora como sólida.

Mas ele ainda é um país duplo, dividido entre os que têm – ricos e classe média – e os que não têm. Estima-se que 33% da população viva em condição de pobreza acentuada, uma distribuição de renda pior do que a que existe na Colômbia. Para esses, de nada adianta que o país fabrique automóveis e satélites, ou que tenha abundância de minérios, e que o presidente seja eleito pelo voto direto e secreto em terminais de computador. O progresso do século não os tocou.

Outras questões ficaram para as gerações que governarão o país no século 21. A primeira e mais urgente está no padrão educacional. O brasileiro fica, em média, apenas cinco anos na escola. Com essa bagagem, não poderá ajudar o país a realizar suas potencialidades. Pode-se citar vários outros problemas, como reforma agrária, violência urbana, falta de crédito, velhice desamparada, sistema judiciário falho. Ou um dos mais revoltantes, que é a rede pública de saúde em seu estado atual, desolador. Justiça seja feita aos brasileiros que construíram o século 20. Fizeram um bom trabalho. Um voto de confiança deve ser depositado nos que construirão os próximos 100 anos.

Com reportagem de João Sorima Neto e Lucila Soares