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Fernanda
Torres
Sanfona
nunca mais
Oscar Cabral
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Nunca
fui do tipo atlético. Péssima em competições,
infância e adolescência roliças, tinha certeza
de estar condenada à celulite e às dietas para o resto
da vida. Se você é como eu era, tenho uma boa notícia:
esse drama tem solução, e ela se chama reeducação
física e alimentar. Não é milagre. Ninguém
vai perder 10 quilos em uma semana e você terá de contribuir
com disposição, disciplina e foco. Mas, depois de
uns dois anos, verá que as recompensas são inestimáveis.
Antes, quero deixar claro que não sou contra gordos. Sou
muito mais eles do que mulher-sanfona deprimida. E respeito o valor
de um bolinho de bacalhau.
Tive de começar a controlar o peso aos 9 anos. Cresci correndo
dos carboidratos e comendo salada com carne. Associei alimento a
culpa, uma espécie de religião que tem a batata, o
pão e o macarrão como a encarnação do
diabo. Angustiada com a sanfona engorda-emagrece, fui até
um clínico geral, raça em extinção nesse
oceano de especialistas que virou a medicina. O doutor Siffert me
deu uma explicação que mudou minha vida. Disse que
o corpo tem memória. Para alterá-la, você tem
de dar tempo ao organismo para que ele entenda que você mudou.
Até lá, o famoso efeito sanfona o traz sempre de volta
ao peso do início da dieta. O meu centro gravitacional, por
assim dizer, tinha o valor de 62,2 quilos. Saí do consultório
com o compromisso de manter o peso por um ano em 57 quilos e, desse
modo, mudar o meu centro gravitacional. Fechei a boca. Descobri
que dieta não dura um mês, dura um ano. E que apenas
dieta não basta.
Ser magra não era o suficiente. Tinha de ter músculos
para rechear o espaço entre a pele e os ossos. Fui malhar.
Apelei para tudo: de balé a tae-kwon-do e capoeira. Eu, que
só andava na praia, comecei a trotar e, não demorou
muito, acabei correndo. Passei a fazer atividade física,
no mínimo, três dias por semana. Hoje, não vivo
sem. Agora tenho 55 quilos e, se engordo, bato nos 58 -- nunca acima
disso. O corpo tem mesmo memória.
O meu acupunturista, o doutor Ronaldo Azem, me fez perder o medo
de comida. Por causa dele, pães, massas, arroz, frutas e
batatas voltaram para o meu cardápio. O diabo desencarnou.
Aberrações são essas dietas que cortam grupos
inteiros de alimentos, como a dieta das proteínas, o triunfo
do mau hálito. Se você se privar de algum nutriente,
o corpo vai sugar suas reservas e você vai emagrecer. E depois?
Nunca mais você vai ingerir esses alimentos? Quanto aos remédios
pra emagrecer, já tomei, uma vez, com 19 anos. Aquele papo
de fórmula natural, feita especialmente para você...
Tomei de manhã, fiquei ligada. Ao meio-dia trinquei. À
1 hora me deprimi. Deviam proibir remédio pra emagrecer e
salgadinho de pacote!
Quando engravidei, o que iria acontecer com meu corpo depois era
uma incógnita. Nunca atacava besteira -- na fome, coma comida,
não bobagem! Vi meu corpo voltar ao que era só com
a vida e a amamentação. Quando meu filho Joaquim tinha
1 ano, retornei ao teatro e me interessei pela ioga. Descobri Jesus.
Tentei o tênis no ano passado, mas minhas juntas, já
perto dos 40, gritaram e achei melhor parar.
Finalmente, gostaria de encerrar com um conselho: não gaste
sua refeição com comida ruim. Agarre-se ao azeite
de oliva virgem, sem fritá-lo. Esqueça o molho de
manteiga no peixe. Use limão, azeite e sal. Macarrão?
Molho de tomate com parmesão. Os italianos sabem tuuudo.
Corte carboidratos à noite, mas coma-os pela manhã.
Está a fim de um sanduíche? Embrulhe meio camarão
grande numa folha de alface, limão, azeite. Mande para dentro
quantos quiser, em vez de ficar anotando as calorias de uma gelatina
diet. Esqueça o açúcar, troque as balas por
frutas secas e os salgadinhos por nozes ou castanha. E dê
preferência aos alimentos orgânicos. Não seja
estúpido. Use os neurônios tanto quanto você
usa os bíceps.
Um beijo,
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