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. Não é só coisa de maluco
. Nunca deixe de fazer
. Por que eu sinto isso?
. Moacyr Scliar: O idioma da saúde
 

Coma de tudo um pouco

As dietas da moda podem até emagrecer, mas
não fazem bem
à saúde. Na verdade, quando se fala
em regimes, a maior novidade é a falta
de novidade:
uma alimentação equilibrada e parcimoniosa

Quem vive em guerra contra a balança alimenta o sonho de que, num futuro próximo, aparecerá uma pílula milagrosa que o fará acordar magro. Enquanto isso não acontece, o sonhador adere a dietas que trombeteiam a revogação de uma lei tão natural quanto a da gravidade – a de que só é possível emagrecer se o consumo de calorias for menor que o gasto de energia. A tradução mais comum dessa regra pétrea? Muito frango grelhado com saladinha. Uma dureza, enfim. Bem melhor é acreditar em miragens, que prometem emagrecer sem causar fome. A hora agora é do doutor Atkins. Ele mesmo, o cardiologista americano Robert Atkins, que, na década de 70, condenou os carboidratos e incensou as proteínas (leia-se, comidas gordurentas) como a grande aliada dos corpos esbeltos. Ele voltou com tudo. Conquistou milhões de seguidores ao redor do mundo, vendeu mais de 6 milhões de exemplares de seu último livro, A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins, criou uma linha de produtos paupérrimos em carboidratos e segue gerando polêmica – e enriquecendo. No outro extremo, está outro cardiologista americano, Dean Ornish, guru de várias estrelas de cinema. Diferentemente do que preconiza Atkins, Ornish é contra as gorduras e um entusiasta dos carboidratos. Tanto uma dieta quanto a outra primam pelo sectarismo alimentar (veja quadros).

O americano Horace Fletcher foi o inventor da primeira dieta dos tempos modernos. No início do século XX, ele aconselhava: "Mastigue cada pedaço vinte vezes" ou "Não coma quando estiver bravo ou triste". Das prosaicas recomendações de Fletcher aos dias de hoje, um mundaréu de gente ganhou dinheiro inventando regimes insanos. Quem não se lembra da dieta de Beverly Hills, com suas seis semanas à base de abacaxi? E da dieta da Lua, segundo a qual o sujeito só podia consumir líquidos nos dias de mudança da fase lunar? Até uma dieta do tipo sanguíneo andou circulando por aí. Se você aderiu a uma delas, não precisa ficar com vergonha. Milhões de pessoas fizeram o mesmo. Na verdade, por mais delirante que seja, qualquer regime funciona. Para os que desejam uma silhueta esbelta, no entanto, o desafio não é apenas se livrar dos quilos extras. É manter-se magro e – atenção – com saúde. Esse aspecto não é atendido por nenhuma das dietas da moda, ainda que seus idealizadores apregoem o contrário. Além de causarem malefícios ao organismo, restrições alimentares severas são deixadas de lado com mais rapidez. Pouquíssimos agüentam segui-las por muito tempo – e quem as abandona logo recupera os atormentadores quilos a mais. Uma pesquisa da Universidade de Boston mostra que 85% das pessoas que renunciaram a uma dieta extremamente restritiva voltaram ao peso original em no máximo dois anos.

Quando percebe que está engordando outra vez, a maioria opta por um regime tão severo quanto o anterior, que também será abandonado. O círculo vicioso não tem fim. Ao confundir o metabolismo, esse engorda-emagrece faz mal à saúde. Durante vinte anos, médicos da Universidade Harvard acompanharam três grupos de pacientes, compostos inicialmente de homens e mulheres jovens. O primeiro reunia magros. O segundo e o terceiro, gordos. Os integrantes dos dois primeiros mantiveram o mesmo peso do início ao fim da pesquisa, sem recorrer a regimes. O terceiro foi submetido a vários tipos de dieta, de forma intermitente. Ao término do estudo, as pessoas do último grupo mostravam-se bem mais propensas a sofrer de doenças cardiovasculares que as dos outros.

Todo mundo que já fez dieta alguma vez na vida sabe que no começo a perda de quilos extras é fácil, mas chega um determinado momento em que o ponteiro da balança custa muito a baixar. Não existe doutor americano, Lua ou tipo sanguíneo que resolva esse ponto. Por um único motivo: não dá para mexer muito no que veio pronto. Cada um de nós foi programado geneticamente para ter um peso. É o chamado "peso factível". Acima dele, o corpo acelera o metabolismo, na tentativa de consumir mais calorias. Abaixo, diminui, com o objetivo de economizá-las. Se não há anomalias que perturbem o seu funcionamento, o organismo regula até que ponto a perda ou o ganho de quilos pode ir. Brigar com a genética é quase sempre uma luta inglória. E perigosa.

Os endocrinologistas mais responsáveis vivem reafirmando que a melhor maneira de perder peso, mantê-lo e conservar a saúde é por meio da reeducação alimentar, com o perdão da expressão um tanto burocrática. Isso significa a adoção de uma dieta equilibrada, em que se come de tudo um pouco. Não, nada a ver com o tal frango grelhado e saladinha, embora ele de vez em quando até caia bem. Do total de calorias diárias consumidas por uma pessoa, 60% devem vir dos carboidratos, 30% das gorduras e 10% das proteínas. O tradicional arroz, feijão, bife e salada, seguido de uma sobremesa à base de frutas, é um exemplo de prato que supre o organismo de todos os nutrientes e não engorda. Desde que as garfadas sejam comedidas, é óbvio. Parcimônia, essa é a chave para ganhar a guerra do peso. No campo das dietas, a maior novidade é a falta de novidade.

Montagem sobre fotos: Marcelo Zocchio, Jorge Butsuem,
Lang, Marcelo Cabral



Dieta do dr. Ornish

Filosofia

Guru de várias estrelas de Hollywood, o cardiologista Dean Ornish é o grande rival de Robert Atkins. Para ele, a epidemia de obesidade é causada pelo consumo exagerado de gordura. Em nome da boa forma e da boa saúde do coração, o doutor Ornish propõe um cardápio farto em carboidratos, fibras e baixíssimo teor de gordura ­ não mais que 10% do total de calorias diárias. Em sua visão, hambúrguer saudável é aquele com carne de soja e pão integral.

Comentário

É claro que cortar a ingestão de alimentos gordurosos emagrece. Para se ter uma idéia, 1 grama de gordura equivale a 9 calorias. A mesma quantidade de carboidrato, a apenas 4 calorias. O problema é que a quantidade preconizada por Ornish está muito abaixo do ideal de 30% do total de calorias diárias. As gorduras são essenciais ao organismo. Elas ajudam na absorção das vitaminas A, D, E e K e têm papel importante no metabolismo hormonal e na produção do HDL, o colesterol bom.

Cardápio

Predominam os carboidratos complexos: muitos grãos, vegetais e frutas. As gorduras ingeridas em quantidades mínimas devem ser poliinsaturadas, encontradas nos peixes e nos óleos de soja e de milho, e monoinsaturadas, típicas dos azeites de oliva e canola. As saturadas devem ser banidas. Tradução: nada de carne vermelha e, dos ovos, só a clara pode ser ingerida.

 

Dieta do dr. Atkins

Filosofia

Na década de 70, o cardiologista americano Robert Atkins lançou a teoria de que o grande vilão dos corpos esbeltos são os carboidratos. Esses compostos, presentes em alimentos como pão e massas, são imediatamente transformados pelo organismo em açúcar, a maior fonte de energia. Seu excesso é estocado sob a forma de gorduras. Uma alimentação paupérrima em carboidratos, como propõe Atkins, implica o aumento da quantidade de cetonas, substâncias naturais inibidoras de apetite, e a maior utilização na produção de energia das gorduras diretamente ingeridas pela pessoa. Ou seja, aquela lingüiça consumida no almoço não se transformará em tecido adiposo, mas será queimada para compensar a falta de carboidratos. É por isso que Atkins estimula o consumo de gorduras.

Comentário

A dieta de Atkins funciona, mas não ensina a comer. Há quem perca até 10 quilos em um mês sem sentir fome. Isso porque o apetite é inibido pelas cetonas. O reverso da moeda é que, segundo os críticos de Atkins, esse regime alimentar aumenta os riscos de doenças cardíacas entre os que têm propensão ao problema. A falta de carboidratos resulta ainda na menor ingestão de fibras, o que pode causar distúrbios intestinais, desidratação, fraqueza e náuseas. Os rins também passam a trabalhar acima do limite, assim como o fígado, obrigado a processar uma quantidade de gorduras maior que a recomendável. Além disso, dietas ricas em gorduras e pobres em fibras e carboidratos estão relacionadas a alguns tipos de câncer.

Cardápio

Esqueça, evidentemente, pães, massas, bolos ou refrigerantes. Também devem ser evitadas raízes e bebidas com cafeína (chá e café, por exemplo). Em excesso, a cafeína, segundo Atkins, aumenta a produção de insulina ­ e grandes quantidades desse hormônio fazem com que o corpo estoque mais açúcar. Carnes, queijos amarelos e ovo podem e devem ser consumidos à vontade. Enfim, é a dieta com que todo glutão sempre sonhou.

 

Dieta de todos os outros doutores

Filosofia

Todo mundo que briga com a balança já ouviu: as dietas radicais podem até funcionar, mas ninguém é capaz de mantê-las por muito tempo. E, logo depois de abandonadas, o corpo volta a inflar. Em uníssono, os endocrinologistas recomendam que, para perder peso com saúde e permanecer com a silhueta alinhada, o importante é ter uma dieta balanceada.Ou seja, um cardápio que não exclua nenhum grupo alimentar. Do total de calorias ingeridas diariamente, 60% devem vir dos carboidratos, 30% das gorduras e 10% das proteínas.

Comentário

Com uma dieta balanceada, o organismo é suprido de todos os nutrientes imprescindíveis para funcionar bem. Mas a nova imagem no espelho demora a aparecer. O maior empecilho para a adoção desse regime é a correria do dia-a-dia. É mais difícil manter uma alimentação saudável quando se tem de comer em lanchonetes e a máquina de salgadinhos é a única opção em meio a um expediente atribulado. Além disso, a dieta que todo doutor prescreve exige educação de berço. Infelizmente, nem todos os pais inculcam bons hábitos alimentares em seus filhos. Nas merendas escolares, por exemplo, abundam salgadinhos e refrigerantes.

Cardápio

O tradicional prato brasileiro à base de arroz, feijão, bife e salada, acompanhado por uma fruta, é perfeito, de acordo com os médicos. Desde que, é lógico, não seja consumido às toneladas. A chave, aqui, é simples: comer de tudo um pouco. Para uma pessoa saudável e fisicamente ativa, nada engorda se há parcimônia.

 
 

 

Montagem sobre fotos: Luis Roberto Nogueira

 

 
   
 
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