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Um quarteto afinadíssimo |
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Receita para viver melhor |
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A medida da sua saúde |
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Com o coração nas mãos |
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Dá para vencer |
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O maior culpado é o cigarro |
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O mal das mulheres modernas |
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Vergonha que mata |
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Quando a coluna pede socorro |
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A praga dos ossos fracos |
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"Ela não pára de doer" |
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Um ninho de bactérias |
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A grande inimiga |
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Coma de tudo um pouco |
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Xô, preguiça! |
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A maior vitrine do tempo |
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O bisturi esculpe sonhos |
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Aquele calor... |
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...e aquele frio |
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É bom e faz bem |
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Não é só coisa de maluco |
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Nunca deixe de fazer |
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Por que eu sinto isso? |
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Moacyr Scliar: O idioma da saúde |
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O
idioma da saúde
Ilustração: Pepe Casals
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Em 1948, ano em que foi criada, a Organização Mundial de
Saúde (OMS) formulou um conceito de saúde que até
hoje é objeto de discussão: "Saúde é o mais
completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas
a ausência de enfermidade". Qualquer profissional da área
não, qualquer pessoa de bom senso assinaria embaixo.
Qual, então, o motivo da controvérsia? Resposta: a excessiva
abrangência do conceito, que o torna pouco prático, pouco
operacional. Serviria antes como definição de felicidade,
dizem os céticos.
Não sem alguma razão. Doença é uma coisa relativamente
fácil de definir: há critérios diagnósticos
para um grande número de enfermidades, estabelecidos pela própria
OMS e freqüentemente apoiados em parâmetros numéricos,
como temperatura corporal, medida de tensão arterial, dosagens
sanguíneas. Agora: que exame de sangue nos revela o grau de bem-estar?
Trata-se de uma avaliação inevitavelmente subjetiva. Nelson
Rodrigues falava com desprezo dos "idiotas da objetividade", mas ao fim
e ao cabo são estes que fornecem os elementos para o processo decisório.
Não por outra razão a saúde pública recorre
a indicadores numéricos para o planejamento e a avaliação
de suas atividades. Paradoxalmente, esses indicadores referem-se à
mortalidade mortalidade infantil, mortalidade materna, mortalidade
por causas específicas ou à morbidade, isto é,
doenças. Só raramente tratam da saúde propriamente
dita.
Há outro aspecto. A doença fala: ela nos faz gemer, gritar.
A doença tem voz, a voz de uma experiência física
e existencial intensa, motivo pelo qual serviu, e serve,
de tema para escritores: a tuberculose em A Montanha Mágica,
de Thomas Mann, a afasia em De Profundis: Valsa Lenta, de José
Cardoso Pires, a depressão em A Escuridão Visível,
de William Styron, a Aids em Ao Amigo que Não Me Salvou a Vida,
de Hervé Guibert, são apenas alguns exemplos. Raymond Carver,
enfermo, conseguiu mesmo antecipar a morte em uma dilacerante mensagem
a seus amigos: "I'll be wired every whichway/ in a hospital bed./ Tubes
running into/ my nose. But try not to be scared of me, friends./ I'm telling
you right now that this is okay". ("Estarei com fios por todos os
lados/ em um leito de hospital./ Tubos entrando/ em minhas narinas. Mas
tentem não se assustar, amigos./ Digo-lhes, neste instante, que
está tudo bem.")
Agora: ninguém escreveu um romance sobre um personagem cujo característico
maior é ser sadio. Há um silêncio literário
a respeito, contrapartida ao silêncio dos órgãos
uma das definições que já foram dadas à saúde.
Teoricamente, a higidez não tem voz. Para muitas pessoas estar
sadio é simplesmente, e ao contrário do que pretende a OMS,
não estar doente.
Mas será que isso é suficiente? Para falar de saúde,
precisamos aprender o idioma da saúde. Não é fácil.
A própria palavra "saúde", que usamos sobretudo para alguém
que espirra, soa prosaica, convencional, babaca até. "É
o mais tolo vocábulo em nosso idioma", disse, com desprezo, o iconoclasta
Oscar Wilde.
Mudar o jeito que falamos de saúde significa mudar o nosso estilo
de vida. No começo, lutamos contra a inércia. Mas então
vem aquilo que poderíamos chamar de "salto de qualidade" e passamos
a um novo patamar de nossa existência. Passamos a dialogar com nosso
corpo e, para nossa surpresa, descobrimos que esse é um diálogo
gratificante. Sabem-no bem as pessoas que embarcam em um programa de exercício.
A sensação de bem-estar que se tem depois é algo.
São as endorfinas? Bem, então são as endorfinas.
Se o corpo se expressa através delas, tudo bem. Às vezes
a voz da saúde é a voz do corpo grato. Ex-fumantes falam
da sensação de bem-estar que acompanha o abandono do tabaco:
melhora o apetite, melhora a capacidade física. Igualmente gratificante
é a adoção de uma dieta saudável.
Como é que a gente aprende o idioma da saúde? Esse é
um processo que compreende cinco etapas. A primeira é a da informação:
ficamos sabendo, por exemplo, que o tabaco causa câncer de pulmão.
Informação hoje não falta, mas ela não é
suficiente; pode ser neutralizada por um processo chamado dissonância
cognitiva, pelo qual negamos aquilo que contraria o que estamos fazendo:
não, o fumo não é tão ruim assim, conheço
fumantes que chegaram aos 90 anos (um mecanismo de defesa que a indústria
do tabaco reforça à exaustão). Admitida a informação,
é preciso adotar uma atitude positiva, a disposição
de mudar e, em seguida, colocá-la na prática: saúde
é comportamento. Mas esse comportamento não pode ser esporádico
o frenético esportista de fim de semana , ele precisa
transformar-se em hábito. E esse hábito, finalmente, deve
ser incorporado pela comunidade, quando então estará constituída
uma cultura da saúde, situação ideal. É o
momento em que a comunidade dialoga com a pessoa e a pessoa dialoga com
seu corpo no idioma da saúde. Podemos até chamar
a isso de felicidade, tanto faz. Nessa fase, à qual um dia chegaremos,
a vida será mais importante que os conceitos.
MOACYR
SCLIAR é médico e escritor, autor de
A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura
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