O
mal-estar, Freud e a maternidade
as
primeiras décadas do século XX, Freud atribuiu os
sofrimentos psíquicos de seus contemporâneos essencialmente
à insatisfação dos impulsos primordiais, insatisfação
imposta pela sociedade em grau muito superior ao que seria necessário.
A autoridade, na sociedade dita "patriarcal", se manifestava pela
repressão; a moral sexual exigia pesadas renúncias
dos indivíduos, fazendo com que se sentissem culpados por
seus desejos e fantasias, recalcando-os e engendrando os fenômenos
neuróticos. Repressão social e recalque sexual combinavam-se
assim, dizia Freud, para produzir uma grande dose de infelicidade,
o que o levava a advogar uma vida sexual mais livre, e de modo geral
uma maior aceitação da individualidade de cada um,
com o que a sociedade como um todo só poderia beneficiar-se.
Freud não defendia a supressão de todo controle social,
o que seria absurdo, e também levava em conta fatores individuais
como parte das condições que favoreciam a eclosão
de neuroses; mas sem dúvida seu diagnóstico era que
a sociedade estava frustrando demasiadamente seus membros, e que
as conseqüências disso não seriam nada positivas.
Ilustração: Evandro Luiz
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Setenta
anos depois de publicado seu artigo "O mal-estar na civilização",
será que essa análise ainda se sustenta? Em parte
sim, e em parte não. Houve importantes transformações
nos costumes e nas formas de controle social, ao menos nos países
ocidentais; mesmo em sociedades periféricas, como a brasileira,
a modernização acarretou muitas mudanças nos
comportamentos e nas mentalidades. Basta comparar o Brasil de Getúlio
Vargas (contemporâneo do texto de Freud) e o da atualidade:
do grau médio de instrução à mobilidade
social e à expectativa de vida, passando pela urbanização
e por tudo o que a economia industrial introduziu em nosso modo
de viver, avançamos bastante no rumo da despatriarcalização.
Ainda falta muito para atingirmos um grau aceitável de qualidade
de vida, mas é inegável que as mudanças foram
profundas e, ao que tudo indica, duradouras.
No entanto, o mal-estar não desapareceu: apenas assumiu novas
formas. Em primeiro lugar, a repressão não foi eliminada
(ainda que possa revestir-se de roupagens mais sutis); e, em segundo,
surgiram novas fontes de inquietação. Se a sociedade
antiga era em muitos aspectos mais rígida, a atual é
por vezes desnorteante na sua fragmentação e na aceleração
do ritmo das mudanças; se aquela opunha ao avanço
do indivíduo obstáculos sedimentados na tradição,
a de hoje já não oferece valores nem rumos claramente
identificáveis. Existe uma maior tolerância quanto
aos aspectos sexuais em sentido estrito o corpo é
cuidado no esporte e exibido sem tantos pruridos, a homossexualidade
já não é perseguida como delito, as oportunidades
para relacionamentos sexuais antes ou fora do casamento se multiplicaram;
mas a violência urbana, o consumo de drogas e outras pragas
sociais se alastraram num grau que Freud jamais poderia ter previsto.
O
afrouxamento da autoridade patriarcal e de seus derivados nas diversas
esferas da vida não deu lugar à fraterna união
dos iguais, porém a um universo de desorientação
e de insegurança cujos sinais estão por toda parte.
A globalização da economia traz sua contribuição
para esse panorama, por meio do desemprego estrutural e da enorme
aceleração no fluxo de mercadorias e de idéias
característica desta fase do capitalismo; mas não
se pode dizer que ela seja a única, nem a principal causa
do mal-estar contemporâneo. Segundo a posição
social e a situação geográfica de cada pessoa
pois a esse respeito não é indiferente se ela
vive numa sociedade avançada ou numa sociedade periférica,
e, mesmo nesta, se pertence às classes dominantes ou ao contingente
dos explorados , o mal-estar se manifesta através de
fenômenos como stress, depressão, episódios
psicossomáticos, adição a drogas ou mesmo delinqüência.
Talvez se possa dizer que a angústia seja o ponto para o
qual convergem essas diversas condições, angústia
sem dúvida conatural ao ser humano, mas certamente fomentada
e potencializada pelas condições socioeconômicas
da atualidade.
A angústia se expressa de muitas maneiras, uma das quais
é a sensação de desamparo e de desorientação
diante das exigências da vida. É muito comum vivenciarmos
uma dolorosa sensação de impotência, advinda
da perda de parâmetros e da fragmentação da
experiência cotidiana em segmentos que não se comunicam
nem formam um todo coerente.
As manifestações mais comuns do mal-estar contemporâneo
são de índole depressiva. Das depressões graves
de fundo neurológico às formas mais brandas do tédio,
da desesperança ou da desilusão, elas se ligam estreitamente
à maneira atual pela qual se organiza socialmente a subjetividade.
Se na época da repressão mais explícita sobre
a sexualidade o mal du siècle era por excelência
a histeria, hoje o panorama social favorece a eclosão de
padecimentos mais difusos, menos centrados em sintomas claramente
identificáveis, mais ligados à sensação
de que "a vida não dá certo". As depressões,
caracteristicamente, estão ligadas à perda real ou
imaginada dos objetos de amor, bem como a sensações
subjetivas de baixa auto-estima, de descrença nas próprias
possibilidades, de incapacidade para usufruir os recursos psíquicos
de que cada um dispõe.
Ilustração: Evandro Luiz
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A natureza da experiência contemporânea ajuda a entender
por que elas são tão freqüentes: o indivíduo
tende a sentir-se confuso diante da velocidade com que seu mundo
se modifica, que torna nebulosa sua própria inserção
nele e faz evaporar todas as certezas. A vivência da perda
associa-se assim à proliferação de apelos ao
consumo e ao sucesso, às imagens inatingíveis de corpos
belos, jovens e magros, de indivíduos felizes porque usufruem
em abundância e sem demora aquilo que almejam do carro
do ano ao brinquedo da moda, do molho de tomate à roupa de
grife. Pressionado pelas exigências de desempenho em todas
as áreas da vida, o sujeito se vê às voltas
com suas limitações e com a impossibilidade de corresponder
aos modelos identificatórios com que lhe acena a mídia,
de onde a difusa sensação de impotência e o
recurso a tentativas muitas vezes desesperadas para "ser como se
deve".
Diante dessa situação, que fazer? O recurso a meios
ilusórios para negá-la mostra-se cada vez menos eficaz
embora o leque desses meios não cesse de ampliar-se,
dos manuais de auto-ajuda às crenças semidelirantes,
do uso de drogas à busca de terapias mágicas e indolores.
Mas, se a psicanálise nos ensinou alguma coisa, é
que somente no esforço crítico para compreender as
circunstâncias de nosso presente e no cultivo de relações
afetivas intensas e satisfatórias podemos encontrar forças
para o trabalho de invenção de nós mesmos:
pois é este que se faz necessário para superar, embora
precariamente, a alienação e o vazio. Não é
uma solução fácil: mas ainda é a que
nos pode permitir vislumbrar a luz no fim do túnel.
Não
existe solução fácil para o mal-estar que as
pressões da vida provocam. Mezan aconselha as pessoas a cultivar
intensamente as relações afetivas. No campo da razão,
ele sugere que é preciso se esforçar para entender
criticamente as circunstâncias da realidade que nos cerca.
Ou seja, o amor e o conhecimento nos darão força.
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