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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Renato Mezan  
   

O mal-estar, Freud e a maternidade

as primeiras décadas do século XX, Freud atribuiu os sofrimentos psíquicos de seus contemporâneos essencialmente à insatisfação dos impulsos primordiais, insatisfação imposta pela sociedade em grau muito superior ao que seria necessário. A autoridade, na sociedade dita "patriarcal", se manifestava pela repressão; a moral sexual exigia pesadas renúncias dos indivíduos, fazendo com que se sentissem culpados por seus desejos e fantasias, recalcando-os e engendrando os fenômenos neuróticos. Repressão social e recalque sexual combinavam-se assim, dizia Freud, para produzir uma grande dose de infelicidade, o que o levava a advogar uma vida sexual mais livre, e de modo geral uma maior aceitação da individualidade de cada um, com o que a sociedade como um todo só poderia beneficiar-se. Freud não defendia a supressão de todo controle social, o que seria absurdo, e também levava em conta fatores individuais como parte das condições que favoreciam a eclosão de neuroses; mas sem dúvida seu diagnóstico era que a sociedade estava frustrando demasiadamente seus membros, e que as conseqüências disso não seriam nada positivas.

Ilustração: Evandro Luiz

Setenta anos depois de publicado seu artigo "O mal-estar na civilização", será que essa análise ainda se sustenta? Em parte sim, e em parte não. Houve importantes transformações nos costumes e nas formas de controle social, ao menos nos países ocidentais; mesmo em sociedades periféricas, como a brasileira, a modernização acarretou muitas mudanças nos comportamentos e nas mentalidades. Basta comparar o Brasil de Getúlio Vargas (contemporâneo do texto de Freud) e o da atualidade: do grau médio de instrução à mobilidade social e à expectativa de vida, passando pela urbanização e por tudo o que a economia industrial introduziu em nosso modo de viver, avançamos bastante no rumo da despatriarcalização. Ainda falta muito para atingirmos um grau aceitável de qualidade de vida, mas é inegável que as mudanças foram profundas e, ao que tudo indica, duradouras.

No entanto, o mal-estar não desapareceu: apenas assumiu novas formas. Em primeiro lugar, a repressão não foi eliminada (ainda que possa revestir-se de roupagens mais sutis); e, em segundo, surgiram novas fontes de inquietação. Se a sociedade antiga era em muitos aspectos mais rígida, a atual é por vezes desnorteante na sua fragmentação e na aceleração do ritmo das mudanças; se aquela opunha ao avanço do indivíduo obstáculos sedimentados na tradição, a de hoje já não oferece valores nem rumos claramente identificáveis. Existe uma maior tolerância quanto aos aspectos sexuais em sentido estrito – o corpo é cuidado no esporte e exibido sem tantos pruridos, a homossexualidade já não é perseguida como delito, as oportunidades para relacionamentos sexuais antes ou fora do casamento se multiplicaram; mas a violência urbana, o consumo de drogas e outras pragas sociais se alastraram num grau que Freud jamais poderia ter previsto.

O afrouxamento da autoridade patriarcal e de seus derivados nas diversas esferas da vida não deu lugar à fraterna união dos iguais, porém a um universo de desorientação e de insegurança cujos sinais estão por toda parte. A globalização da economia traz sua contribuição para esse panorama, por meio do desemprego estrutural e da enorme aceleração no fluxo de mercadorias e de idéias característica desta fase do capitalismo; mas não se pode dizer que ela seja a única, nem a principal causa do mal-estar contemporâneo. Segundo a posição social e a situação geográfica de cada pessoa – pois a esse respeito não é indiferente se ela vive numa sociedade avançada ou numa sociedade periférica, e, mesmo nesta, se pertence às classes dominantes ou ao contingente dos explorados –, o mal-estar se manifesta através de fenômenos como stress, depressão, episódios psicossomáticos, adição a drogas ou mesmo delinqüência. Talvez se possa dizer que a angústia seja o ponto para o qual convergem essas diversas condições, angústia sem dúvida conatural ao ser humano, mas certamente fomentada e potencializada pelas condições socioeconômicas da atualidade.

A angústia se expressa de muitas maneiras, uma das quais é a sensação de desamparo e de desorientação diante das exigências da vida. É muito comum vivenciarmos uma dolorosa sensação de impotência, advinda da perda de parâmetros e da fragmentação da experiência cotidiana em segmentos que não se comunicam nem formam um todo coerente.

As manifestações mais comuns do mal-estar contemporâneo são de índole depressiva. Das depressões graves de fundo neurológico às formas mais brandas do tédio, da desesperança ou da desilusão, elas se ligam estreitamente à maneira atual pela qual se organiza socialmente a subjetividade. Se na época da repressão mais explícita sobre a sexualidade o mal du siècle era por excelência a histeria, hoje o panorama social favorece a eclosão de padecimentos mais difusos, menos centrados em sintomas claramente identificáveis, mais ligados à sensação de que "a vida não dá certo". As depressões, caracteristicamente, estão ligadas à perda real ou imaginada dos objetos de amor, bem como a sensações subjetivas de baixa auto-estima, de descrença nas próprias possibilidades, de incapacidade para usufruir os recursos psíquicos de que cada um dispõe.

Ilustração: Evandro Luiz


A natureza da experiência contemporânea ajuda a entender por que elas são tão freqüentes: o indivíduo tende a sentir-se confuso diante da velocidade com que seu mundo se modifica, que torna nebulosa sua própria inserção nele e faz evaporar todas as certezas. A vivência da perda associa-se assim à proliferação de apelos ao consumo e ao sucesso, às imagens inatingíveis de corpos belos, jovens e magros, de indivíduos felizes porque usufruem em abundância e sem demora aquilo que almejam – do carro do ano ao brinquedo da moda, do molho de tomate à roupa de grife. Pressionado pelas exigências de desempenho em todas as áreas da vida, o sujeito se vê às voltas com suas limitações e com a impossibilidade de corresponder aos modelos identificatórios com que lhe acena a mídia, de onde a difusa sensação de impotência e o recurso a tentativas muitas vezes desesperadas para "ser como se deve".

Diante dessa situação, que fazer? O recurso a meios ilusórios para negá-la mostra-se cada vez menos eficaz – embora o leque desses meios não cesse de ampliar-se, dos manuais de auto-ajuda às crenças semidelirantes, do uso de drogas à busca de terapias mágicas e indolores. Mas, se a psicanálise nos ensinou alguma coisa, é que somente no esforço crítico para compreender as circunstâncias de nosso presente e no cultivo de relações afetivas intensas e satisfatórias podemos encontrar forças para o trabalho de invenção de nós mesmos: pois é este que se faz necessário para superar, embora precariamente, a alienação e o vazio. Não é uma solução fácil: mas ainda é a que nos pode permitir vislumbrar a luz no fim do túnel.

 
Conclusão

Não existe solução fácil para o mal-estar que as pressões da vida provocam. Mezan aconselha as pessoas a cultivar intensamente as relações afetivas. No campo da razão, ele sugere que é preciso se esforçar para entender criticamente as circunstâncias da realidade que nos cerca. Ou seja, o amor e o conhecimento nos darão força.

 

 
   
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