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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Giancarlo Zizola  
   

O legado de João Paulo II

o fim do ano 2000, as notícias sobre a possível renúncia de João Paulo II, na hipótese de que sua invalidez física e psicológica inviabilizasse o exercício de suas atribuições, tornaram-se tão freqüentes que obrigaram o Vaticano a adotar uma nova técnica de desmentido. Ela consiste em divulgar compromissos a curto prazo da agenda papal. Desse modo, os dirigentes da Cúria romana, o aparato burocrático do governo da Igreja Católica, tentam esconder uma questão fundamental: o vazio de poder na cúpula do sistema eclesiástico. Ao mesmo tempo, eles procuram fabricar uma imagem reconfortante da eficiência e lucidez de um papa de 80 anos, com mal de Parkinson e que completou, no dia 16 de outubro, 22 anos de reinado, mais que qualquer outro papa do século XX. O recorde anterior pertencia a Pio XII, cujo papado durou dezenove anos.

As declarações oficiais sobre os projetos de viagens pontifícias à Ucrânia, à Síria e, pela nona vez, à Polônia, em junho de 2001, alternam-se com informações de visitantes que, ao sair de audiências com o papa, falam de um homem saturado de remédios, com a voz cansada, trôpego e, de vez em quando, vencido pelo torpor e pela ausência intelectual a ponto de não ser capaz de sustentar uma conversa mais longa. A política otimista da Cúria e seu apego a uma imagem hierática do papa tendem a desencorajar qualquer tentativa de abertura precoce do processo eleitoral e de criação de um clima de transitoriedade. É preciso reconhecer, entretanto, que o prolongamento do crepúsculo de João Paulo II determina uma crise de liderança de dimensões tão evidentes que justifica as perplexidades de alguns bispos. Estes temem que a Cúria deixe de se limitar a seu âmbito executivo e aumente seu campo de atuação à medida que o papa se enfraquece. "Elegemos um santo padre, não um padre eterno", volta e meia comenta um cardeal, com ar aborrecido.

É natural que, com a perda de controle do papa sobre o sistema central, o próprio sistema se expanda de modo anômalo. Depois do pronunciamento de Ratzinger, no dia 5 de setembro, sobre o diálogo com as outras religiões, um observador em Roma confidenciou que a posição do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé se tornara tão forte no Vaticano que já era inatacável. "Ninguém, nem mesmo o santo padre, ousaria contradizer o cardeal Ratzinger", precisou o observador. Com a saída do monsenhor Giovanni Battista Re da Secretaria de Estado, na qual ocupava um cargo de grande importância, o de substituto, e a sua nomeação para prefeito da Congregação dos Bispos, o papa perdeu o último de seus homens de confiança no centro decisório da Igreja. Com medidas desse gênero, o grupo de comando, já firmemente nas mãos do secretário de Estado, cardeal Angelo Sodano, e do cardeal Ratzinger, secundados pelo secretário pessoal de Wojtyla, o bispo Stanislaw Dziwisz, alcançou um grau de coerência suficiente para gerir por tempo indeterminado, com o apoio paralelo da mídia, a fase final do pontificado e os preparativos da sucessão.

O problema principal não diz respeito ao momento em que será aberta a sucessão, mas à amplitude das manipulações pré-eleitorais. Ela poderá dar origem a um período de instabilidade e fragilidade demasiadamente longo no nível superior do sistema. O debate sobre a sucessão de Wojtyla vem desde o início dos anos 90 e as perguntas sobre quem será o novo papa se tornaram freqüentes tanto nos salões cardinalícios como nos círculos políticos e diplomáticos. Porém, desde que o assunto surgiu, à idéia de um "papa com prazo de vencimento" opôs-se a vontade de João Paulo II de cumprir a profecia que lhe fora feita em 1978 pelo primaz polonês Stefan Wyszynski, logo depois da eleição: "Tu serás o papa que conduzirá a Igreja ao Terceiro Milênio". O papa polonês abriu a Porta do Milênio no Natal de 1999. Submeteu-se aos pesados esforços de preparação do Grande Jubileu, presidindo as cerimônias de massa em Roma e realizando viagens históricas, como aquela ao Sinai e à Terra Santa. Com o fechamento da Porta Santa, em 6 de janeiro de 2001, o objetivo do pontificado poder-se-á dizer cumprido sob todos os pontos de vista, exceto com relação ao "sonho impossível" de uma viagem a Moscou para firmar a paz ecumênica com a Igreja Ortodoxa russa. A maior parte dos observadores, a esta altura, só espera a realização do consistório de janeiro de 2001, que criará pelo menos 22 novos cardeais (provavelmente determinantes para o equilíbrio político do colégio eleitoral), e o sínodo programado para outubro de 2001. Esse evento é visto como a chance de os bispos reequilibrarem a situação no seio da Igreja.

Ilustração Evandro Luiz


A Cúria sempre hostilizou a reforma autorizada pelo Concílio Vaticano II, que se propunha a reduzir a "solidão institucional" da monarquia pontifícia, mediante a participação dos delegados dos episcopados no governo da Igreja universal, com o papa e sob o papa. Ao contrário, o Vaticano não cessou de impor um processo de centralização que fecha o sistema sobre si mesmo, produzindo uma deterioração das relações entre Roma e as Igrejas locais e a sensação de que o leme não está nas mãos, ainda que trêmulas, do papa. Tal política bloqueia qualquer solução que não seja esperar o inevitável. Ao mesmo tempo, o impasse do sistema permite ao grupo de comando da Cúria preparar-se para disputar em posição favorável a partida do conclave. O fator tempo proporciona ao partido da Cúria, que perdeu todos os conclaves desde 1958, redesenhar os cenários da sucessão, preestabelecendo com uma série de intervenções – por exemplo, no campo do diálogo inter-religioso, da bioética e da moral sexual – limites restritivos sobre matérias críticas. Além disso, o longo crepúsculo deste pontificado propicia a que saiam da lista dos papáveis candidatos que não agradam à Cúria, como o cardeal Carlo Maria Martini, considerado o mais papável dos papáveis. A Cúria pode também aumentar seu poder de coalizão e está em condições de influir sobre os cardeais residentes, para assegurar a concordância em torno do candidato ou dos candidatos considerados mais adequados à visão romana.

A política da Cúria, no entanto, não é desprovida de resultados paradoxais. Em nenhum outro momento, a candidatura do monsenhor Giovanni Battista Re, por exemplo, foi mais lembrada como depois de sua exoneração do posto de substituto da Secretaria de Estado. O papa não escondia a intenção de nomear Battista Re subsecretário de Estado, mas o grupo de comando não suportou a idéia de que um homem de confiança de Wojtyla pudesse dispor de um poder assim tão grande sobre o sistema. No entanto, a história ensina que nada como o exílio de um substituto para transformá-lo em papável. Ocorreu com o cardeal Montini, substituto da Secretaria de Estado de Pio XII, exilado em Milão em 1954 por um golpe da Cúria. Ele retornou a Roma como papa Paulo VI em 1963.

A história se repete, guardadas as devidas diferenças, com a hipotética candidatura de Re, um homem leal e solidário com as principais diretrizes do pontificado de João Paulo II, além de experimentado no funcionamento da máquina curial. Se uma das tarefas do sucessor é eliminar a fratura entre a utopia de Wojtyla e o sistema central, concentrando-se na retomada do comando e nas reformas indispensáveis, Re apresenta-se com todas as credenciais para ser o melhor dos papáveis em disputa. Natural de Brescia, a mesma diocese da qual saiu Paulo VI, relativamente jovem (66 anos), uma carreira na Secretaria de Estado, depois secretário da Congregação dos Bispos e, por fim, substituto de João Paulo II e seu homem de confiança, a ponto de ser um de seus cardeais in pectore no consistório de 1988, Re pode catalisar o apoio dos eleitores mais interessados em um papa menos carismático, capaz de cicatrizar as feridas internas herdadas do wojtylismo e de restituir às Igrejas locais aquilo que a política centralista lhes retirou nos anos 90. Poucas coisas, no entanto, são menos seguras na Terra que os prognósticos sobre os papáveis. Ainda menos seguro, no caso da candidatura de Re, será o beneplácito que poderá obter entre os cardeais da Cúria, de modo particular no grupo formado por Angelo Sodano, pouco disposto a perdoá-lo, entre outras coisas, por seu papel na concretização de uma idéia fixa de João Paulo II: o mea-culpa pelos erros históricos da Igreja Católica.

As notícias sobre o provável interesse do cardeal Angelo Sodano em concorrer à sucessão circulam em Roma já há bastante tempo para ser subestimadas. Sodano encarna a mais política das candidaturas em campo. De origem piemontesa, 73 anos, uma carreira diplomática que atingiu seu ápice no período em que serviu no Chile, quando empreendeu uma política de reconciliação nacional e de reaproximação da Igreja com Pinochet, Sodano chegou à Secretaria de Estado e ao cardinalato em 1990, tomando o lugar de Agostino Casaroli. Ele se destacou pela mudança estratégica que imprimiu à política internacional do Vaticano, na esteira da queda do comunismo soviético. Sodano adotou uma série de medidas marcadas pela preocupação de reforçar o papel político-religioso e a centralidade da Igreja na sociedade. No entanto, em seu zelo pela recuperação da societas perfecta ("sociedade perfeita", é assim que a Igreja se considera), Sodano tropeçou em alguns infortúnios, que poderão prejudicar sua candidatura, talvez mais que sua falta de experiência pastoral. Ele foi criticado por sua intervenção para subtrair Pinochet ao julgamento na Espanha pelos crimes de seu regime, por ter precipitado a crise iugoslava com o apressado reconhecimento diplomático da Eslovênia e da Croácia, por ter corrigido com realismo político a objeção profética do papa à guerra americana no Golfo Pérsico e àquela da Otan nos Bálcãs, por ter aberto as portas do Vaticano aos líderes de direita Gianfranco Fini e Joerg Haider e, por fim, por ter tentado manipular o terceiro segredo de Fátima, que Wojtyla havia decidido tornar público, contra a vontade da Cúria.

O principal candidato da ala reformista continua a ser o cardeal Martini, mas é de perguntar, dada a situação atual, se ainda existe uma ala reformista expressiva entre os cardeais. Hoje, não há mais que onze cardeais criados por Paulo VI – 90% do colégio eleitoral foi nomeado por João Paulo II. Esse mapa reproduz quase por inteiro a identidade de seu criador: conotações pastorais, espiritualismo acentuado, um centralismo de fundo associado à prudência. Uma grande planície gerencial, sem lampejos geniais nem abalos, na qual as personalidades de relevo são raras ou tão retraídas à sombra que no momento estão invisíveis. Qualquer análise da composição do corpo que elegerá o novo papa, constituído em sua plenitude por 120 cardeais eleitores, permite que se duvide das chances da implementação de um programa excessivamente reformista, a menos que se imagine a hipótese de, no próximo conclave, destacar-se um outsider, uma figura tão imponente que embaralhe todos os cálculos e equilíbrios graças a suas qualidades subjetivas.

Na eventual – e provável – inviabilidade política da candidatura de Martini, circula em Roma, com certa insistência, o nome do cardeal de Gênova, Dionigi Tettamanzi. Seria uma solução capaz de unir os setores reformista e moderado. Milanês, 66 anos, professor de teologia moral, dono de posições prudentemente reformistas, ele ganhou tutano como arcebispo de Ancona, de 1989 a 1991. Nos cinco anos seguintes, Tettamanzi foi secretário da Conferência Episcopal Italiana, em Roma. Depois, foi transferido para Gênova e viu-se promovido a cardeal. No período que passou em Roma, participou da redação de algumas encíclicas de João Paulo II sobre bioética, como Evangelium vitae e Donum vitae, moderando a pressão dos grupos intransigentes nesse campo. Também foi elogiado por procurar uma linha mais flexível em seu livro Novo Manual de Bioética. Companheiro de escola de Giovanni Battista Re e com uma sólida amizade com o novo prefeito da Congregação dos Bispos, comenta-se no Vaticano que Tettamanzi certamente teria o apoio de Re no conclave. E que, se eleito, daria a ele o cargo de secretário de Estado. Os que conhecem Tettamanzi não têm dúvida de que seu caráter conciliador o levaria, como papa, a realizar uma obra de pacificação no interior da Igreja, reduzindo o poder exagerado que os conservadores conquistaram sob Wojtyla e apagando os focos de tensão e de desconfiança que hoje existem entre as facções católicas.

Quando se arriscam prognósticos sobre a escolha do novo chefe de 1 bilhão de fiéis, 4 500 bispos, 400 000 padres, 800 000 freiras e 2,3 milhões de missionários laicos, a nacionalidade dos papáveis não tem mais um papel determinante. Não vem ao caso se ele será italiano ou não. O que importa é basear a análise sobre a agenda de problemas em aberto e nas possíveis orientações adotadas pelos cardeais eleitores, para enfrentar os novos desafios da Igreja numa época de mudanças radicais. Diálogo inter-religioso, reforma da Cúria, a falência do magistério moral, a crise no clero, a aculturação do Evangelho nas sociedades africanas e asiáticas, a renúncia a uma Igreja-potência, a democracia na Igreja e sua liberdade crítica em relação às grandes potências – mais que um balanço do wojtylismo, são essas as questões que ocuparão os cardeais nos quinze dias precedentes ao conclave e decidirão o resultado das "sagradas lutas" pela sucessão de João Paulo II.



Conclusão

Zizola sustenta que na sucessão de João Paulo II a nacionalidade do novo papa contará muito pouco. O que os cardeais eleitores devem levar mais em conta é a capacidade do próximo ocupante do trono de São Pedro de colocar a Igreja em condições de enfrentar as mudanças ainda mais radicais que as próximas décadas inevitavelmente vão trazer.

 

 
   
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