O
legado de João Paulo II
o
fim do ano 2000, as notícias sobre a possível renúncia
de João Paulo II, na hipótese de que sua invalidez
física e psicológica inviabilizasse o exercício
de suas atribuições, tornaram-se tão freqüentes
que obrigaram o Vaticano a adotar uma nova técnica de desmentido.
Ela consiste em divulgar compromissos a curto prazo da agenda papal.
Desse modo, os dirigentes da Cúria romana, o aparato burocrático
do governo da Igreja Católica, tentam esconder uma questão
fundamental: o vazio de poder na cúpula do sistema eclesiástico.
Ao mesmo tempo, eles procuram fabricar uma imagem reconfortante
da eficiência e lucidez de um papa de 80 anos, com mal de
Parkinson e que completou, no dia 16 de outubro, 22 anos de reinado,
mais que qualquer outro papa do século XX. O recorde anterior
pertencia a Pio XII, cujo papado durou dezenove anos.
As
declarações oficiais sobre os projetos de viagens
pontifícias à Ucrânia, à Síria
e, pela nona vez, à Polônia, em junho de 2001, alternam-se
com informações de visitantes que, ao sair de audiências
com o papa, falam de um homem saturado de remédios, com a
voz cansada, trôpego e, de vez em quando, vencido pelo torpor
e pela ausência intelectual a ponto de não ser capaz
de sustentar uma conversa mais longa. A política otimista
da Cúria e seu apego a uma imagem hierática do papa
tendem a desencorajar qualquer tentativa de abertura precoce do
processo eleitoral e de criação de um clima de transitoriedade.
É preciso reconhecer, entretanto, que o prolongamento do
crepúsculo de João Paulo II determina uma crise de
liderança de dimensões tão evidentes que justifica
as perplexidades de alguns bispos. Estes temem que a Cúria
deixe de se limitar a seu âmbito executivo e aumente seu campo
de atuação à medida que o papa se enfraquece.
"Elegemos um santo padre, não um padre eterno", volta e meia
comenta um cardeal, com ar aborrecido.
É
natural que, com a perda de controle do papa sobre o sistema central,
o próprio sistema se expanda de modo anômalo. Depois
do pronunciamento de Ratzinger, no dia 5 de setembro, sobre o diálogo
com as outras religiões, um observador em Roma confidenciou
que a posição do prefeito da Congregação
para a Doutrina da Fé se tornara tão forte no Vaticano
que já era inatacável. "Ninguém, nem mesmo
o santo padre, ousaria contradizer o cardeal Ratzinger", precisou
o observador. Com a saída do monsenhor Giovanni Battista
Re da Secretaria de Estado, na qual ocupava um cargo de grande importância,
o de substituto, e a sua nomeação para prefeito da
Congregação dos Bispos, o papa perdeu o último
de seus homens de confiança no centro decisório da
Igreja. Com medidas desse gênero, o grupo de comando, já
firmemente nas mãos do secretário de Estado, cardeal
Angelo Sodano, e do cardeal Ratzinger, secundados pelo secretário
pessoal de Wojtyla, o bispo Stanislaw Dziwisz, alcançou um
grau de coerência suficiente para gerir por tempo indeterminado,
com o apoio paralelo da mídia, a fase final do pontificado
e os preparativos da sucessão.
O
problema principal não diz respeito ao momento em que será
aberta a sucessão, mas à amplitude das manipulações
pré-eleitorais. Ela poderá dar origem a um período
de instabilidade e fragilidade demasiadamente longo no nível
superior do sistema. O debate sobre a sucessão de Wojtyla
vem desde o início dos anos 90 e as perguntas sobre quem
será o novo papa se tornaram freqüentes tanto nos salões
cardinalícios como nos círculos políticos e
diplomáticos. Porém, desde que o assunto surgiu, à
idéia de um "papa com prazo de vencimento" opôs-se
a vontade de João Paulo II de cumprir a profecia que lhe
fora feita em 1978 pelo primaz polonês Stefan Wyszynski, logo
depois da eleição: "Tu serás o papa que conduzirá
a Igreja ao Terceiro Milênio". O papa polonês abriu
a Porta do Milênio no Natal de 1999. Submeteu-se aos pesados
esforços de preparação do Grande Jubileu, presidindo
as cerimônias de massa em Roma e realizando viagens históricas,
como aquela ao Sinai e à Terra Santa. Com o fechamento da
Porta Santa, em 6 de janeiro de 2001, o objetivo do pontificado
poder-se-á dizer cumprido sob todos os pontos de vista, exceto
com relação ao "sonho impossível" de uma viagem
a Moscou para firmar a paz ecumênica com a Igreja Ortodoxa
russa. A maior parte dos observadores, a esta altura, só
espera a realização do consistório de janeiro
de 2001, que criará pelo menos 22 novos cardeais (provavelmente
determinantes para o equilíbrio político do colégio
eleitoral), e o sínodo programado para outubro de 2001. Esse
evento é visto como a chance de os bispos reequilibrarem
a situação no seio da Igreja.
Ilustração Evandro Luiz
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A Cúria sempre hostilizou a reforma autorizada pelo Concílio
Vaticano II, que se propunha a reduzir a "solidão institucional"
da monarquia pontifícia, mediante a participação
dos delegados dos episcopados no governo da Igreja universal, com
o papa e sob o papa. Ao contrário, o Vaticano não
cessou de impor um processo de centralização que fecha
o sistema sobre si mesmo, produzindo uma deterioração
das relações entre Roma e as Igrejas locais e a sensação
de que o leme não está nas mãos, ainda que
trêmulas, do papa. Tal política bloqueia qualquer solução
que não seja esperar o inevitável. Ao mesmo tempo,
o impasse do sistema permite ao grupo de comando da Cúria
preparar-se para disputar em posição favorável
a partida do conclave. O fator tempo proporciona ao partido da Cúria,
que perdeu todos os conclaves desde 1958, redesenhar os cenários
da sucessão, preestabelecendo com uma série de intervenções
por exemplo, no campo do diálogo inter-religioso,
da bioética e da moral sexual limites restritivos
sobre matérias críticas. Além disso, o longo
crepúsculo deste pontificado propicia a que saiam da lista
dos papáveis candidatos que não agradam à Cúria,
como o cardeal Carlo Maria Martini, considerado o mais papável
dos papáveis. A Cúria pode também aumentar
seu poder de coalizão e está em condições
de influir sobre os cardeais residentes, para assegurar a concordância
em torno do candidato ou dos candidatos considerados mais adequados
à visão romana.
A
política da Cúria, no entanto, não é
desprovida de resultados paradoxais. Em nenhum outro momento, a
candidatura do monsenhor Giovanni Battista Re, por exemplo, foi
mais lembrada como depois de sua exoneração do posto
de substituto da Secretaria de Estado. O papa não escondia
a intenção de nomear Battista Re subsecretário
de Estado, mas o grupo de comando não suportou a idéia
de que um homem de confiança de Wojtyla pudesse dispor de
um poder assim tão grande sobre o sistema. No entanto, a
história ensina que nada como o exílio de um substituto
para transformá-lo em papável. Ocorreu com o cardeal
Montini, substituto da Secretaria de Estado de Pio XII, exilado
em Milão em 1954 por um golpe da Cúria. Ele retornou
a Roma como papa Paulo VI em 1963.
A
história se repete, guardadas as devidas diferenças,
com a hipotética candidatura de Re, um homem leal e solidário
com as principais diretrizes do pontificado de João Paulo
II, além de experimentado no funcionamento da máquina
curial. Se uma das tarefas do sucessor é eliminar a fratura
entre a utopia de Wojtyla e o sistema central, concentrando-se na
retomada do comando e nas reformas indispensáveis, Re apresenta-se
com todas as credenciais para ser o melhor dos papáveis em
disputa. Natural de Brescia, a mesma diocese da qual saiu Paulo
VI, relativamente jovem (66 anos), uma carreira na Secretaria de
Estado, depois secretário da Congregação dos
Bispos e, por fim, substituto de João Paulo II e seu homem
de confiança, a ponto de ser um de seus cardeais in pectore
no consistório de 1988, Re pode catalisar o apoio dos eleitores
mais interessados em um papa menos carismático, capaz de
cicatrizar as feridas internas herdadas do wojtylismo e de restituir
às Igrejas locais aquilo que a política centralista
lhes retirou nos anos 90. Poucas coisas, no entanto, são
menos seguras na Terra que os prognósticos sobre os papáveis.
Ainda menos seguro, no caso da candidatura de Re, será o
beneplácito que poderá obter entre os cardeais da
Cúria, de modo particular no grupo formado por Angelo Sodano,
pouco disposto a perdoá-lo, entre outras coisas, por seu
papel na concretização de uma idéia fixa de
João Paulo II: o mea-culpa pelos erros históricos
da Igreja Católica.
As
notícias sobre o provável interesse do cardeal Angelo
Sodano em concorrer à sucessão circulam em Roma já
há bastante tempo para ser subestimadas. Sodano encarna a
mais política das candidaturas em campo. De origem piemontesa,
73 anos, uma carreira diplomática que atingiu seu ápice
no período em que serviu no Chile, quando empreendeu uma
política de reconciliação nacional e de reaproximação
da Igreja com Pinochet, Sodano chegou à Secretaria de Estado
e ao cardinalato em 1990, tomando o lugar de Agostino Casaroli.
Ele se destacou pela mudança estratégica que imprimiu
à política internacional do Vaticano, na esteira da
queda do comunismo soviético. Sodano adotou uma série
de medidas marcadas pela preocupação de reforçar
o papel político-religioso e a centralidade da Igreja na
sociedade. No entanto, em seu zelo pela recuperação
da societas perfecta ("sociedade perfeita", é assim
que a Igreja se considera), Sodano tropeçou em alguns infortúnios,
que poderão prejudicar sua candidatura, talvez mais que sua
falta de experiência pastoral. Ele foi criticado por sua intervenção
para subtrair Pinochet ao julgamento na Espanha pelos crimes de
seu regime, por ter precipitado a crise iugoslava com o apressado
reconhecimento diplomático da Eslovênia e da Croácia,
por ter corrigido com realismo político a objeção
profética do papa à guerra americana no Golfo Pérsico
e àquela da Otan nos Bálcãs, por ter aberto
as portas do Vaticano aos líderes de direita Gianfranco Fini
e Joerg Haider e, por fim, por ter tentado manipular o terceiro
segredo de Fátima, que Wojtyla havia decidido tornar público,
contra a vontade da Cúria.
O
principal candidato da ala reformista continua a ser o cardeal Martini,
mas é de perguntar, dada a situação atual,
se ainda existe uma ala reformista expressiva entre os cardeais.
Hoje, não há mais que onze cardeais criados por Paulo
VI 90% do colégio eleitoral foi nomeado por João
Paulo II. Esse mapa reproduz quase por inteiro a identidade de seu
criador: conotações pastorais, espiritualismo acentuado,
um centralismo de fundo associado à prudência. Uma
grande planície gerencial, sem lampejos geniais nem abalos,
na qual as personalidades de relevo são raras ou tão
retraídas à sombra que no momento estão invisíveis.
Qualquer análise da composição do corpo que
elegerá o novo papa, constituído em sua plenitude
por 120 cardeais eleitores, permite que se duvide das chances da
implementação de um programa excessivamente reformista,
a menos que se imagine a hipótese de, no próximo conclave,
destacar-se um outsider, uma figura tão imponente que embaralhe
todos os cálculos e equilíbrios graças a suas
qualidades subjetivas.
Na
eventual e provável inviabilidade política
da candidatura de Martini, circula em Roma, com certa insistência,
o nome do cardeal de Gênova, Dionigi Tettamanzi. Seria uma
solução capaz de unir os setores reformista e moderado.
Milanês, 66 anos, professor de teologia moral, dono de posições
prudentemente reformistas, ele ganhou tutano como arcebispo de Ancona,
de 1989 a 1991. Nos cinco anos seguintes, Tettamanzi foi secretário
da Conferência Episcopal Italiana, em Roma. Depois, foi transferido
para Gênova e viu-se promovido a cardeal. No período
que passou em Roma, participou da redação de algumas
encíclicas de João Paulo II sobre bioética,
como Evangelium vitae e Donum vitae, moderando a pressão
dos grupos intransigentes nesse campo. Também foi elogiado
por procurar uma linha mais flexível em seu livro Novo
Manual de Bioética. Companheiro de escola de Giovanni
Battista Re e com uma sólida amizade com o novo prefeito
da Congregação dos Bispos, comenta-se no Vaticano
que Tettamanzi certamente teria o apoio de Re no conclave. E que,
se eleito, daria a ele o cargo de secretário de Estado. Os
que conhecem Tettamanzi não têm dúvida de que
seu caráter conciliador o levaria, como papa, a realizar
uma obra de pacificação no interior da Igreja, reduzindo
o poder exagerado que os conservadores conquistaram sob Wojtyla
e apagando os focos de tensão e de desconfiança que
hoje existem entre as facções católicas.
Quando
se arriscam prognósticos sobre a escolha do novo chefe de
1 bilhão de fiéis, 4 500 bispos, 400 000 padres, 800
000 freiras e 2,3 milhões de missionários laicos,
a nacionalidade dos papáveis não tem mais um papel
determinante. Não vem ao caso se ele será italiano
ou não. O que importa é basear a análise sobre
a agenda de problemas em aberto e nas possíveis orientações
adotadas pelos cardeais eleitores, para enfrentar os novos desafios
da Igreja numa época de mudanças radicais. Diálogo
inter-religioso, reforma da Cúria, a falência do magistério
moral, a crise no clero, a aculturação do Evangelho
nas sociedades africanas e asiáticas, a renúncia a
uma Igreja-potência, a democracia na Igreja e sua liberdade
crítica em relação às grandes potências
mais que um balanço do wojtylismo, são essas
as questões que ocuparão os cardeais nos quinze dias
precedentes ao conclave e decidirão o resultado das "sagradas
lutas" pela sucessão de João Paulo II.
Zizola
sustenta que na sucessão de João Paulo II a nacionalidade
do novo papa contará muito pouco. O que os cardeais eleitores
devem levar mais em conta é a capacidade do próximo
ocupante do trono de São Pedro de colocar a Igreja em condições
de enfrentar as mudanças ainda mais radicais que as próximas
décadas inevitavelmente vão trazer.
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