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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Claudio de Moura Castro  
   

A educação é combustível
do crescimento no Brasil

fenômeno mais espantoso do chamado milagre econômico brasileiro nos anos 70 foi o crescimento sem educação. Essa mágica se esgotou. Ela não se repete mais. De uns tempos para cá e de agora em diante o crescimento econômico será movido a educação.

Boa parte de nosso atraso resulta de termos crescido num ritmo maior que o da educação. O sistema educacional brasileiro compartilhou a mediocridade de quase todos os vizinhos nos anos 70. Mas nossa economia explodiu, colocando-nos entre os dois ou três países de maior crescimento. Aquele avanço histórico tirou o Brasil da vala comum latino-americana. Sobraram problemas em penca, mas é preciso muito espírito de porco para não ver o salto histórico da economia.

Enquanto isso, a educação se desenvolvia num ritmo bem mais lento, seguindo os cacoetes da civilização ibérica. Deu para o gasto ao longo do século que se encerra. Talvez porque a educação não tenha sido homogeneamente ruim a ponto de influir para baixo nas taxas de crescimento econômico, que foram extraordinárias a partir da metade do século. Usamos nossos recursos naturais, centramos nosso crescimento em indústrias de grande porte, onde um timinho bem educado dava conta de prover orientações para uma produção padronizada. Cada um aprendia a apertar seu parafuso. Milagrosamente, deu certo. Esse sucesso inequívoco do Brasil no período acabou reforçando uma idéia errada: a de que, no fundo, talvez educação não fosse assim tão fundamental nos processos de crescimento econômico acelerado. Quem acreditava que sem boa educação não era possível o crescimento ficou paralisado, defendendo uma teoria que parecia derrotada na prática. Na verdade, o crescimento sem educação de qualidade para a maioria escondia uma fragilidade terrível: as imensas deformações regionais de nosso processo de ensino.

Revisitei recentemente uma fábrica em Itabirito, no interior das Minas Gerais, onde passei minha infância. Lá revi algumas máquinas que já eram velhas na década de 50 – e outras bem mais novas. A fábrica obsoleta de meus dias de menino hoje opera com QT, ou Qualidade Total, o processo que procura eliminar erros antes que eles ocorram e que se baseia no uso intensivo de computadores que cospem gráficos e tabelas sem parar. A operação ficou tão complicada que para se encaixar nela produtivamente todos os operários precisam ter no mínimo o 2º grau completo. Quem vê os operários das montadoras de automóveis atuais não imagina a complexidade dos sistemas de controle e comunicação interna a que se submetem. Segundo grau completo é igualmente uma exigência para quem se candidata a uma vaga na Ford, Volkswagen, Fiat e General Motors. Na cadeia produtiva da área de transportes, não há uma só fábrica operando sem ISO 9000. Essa sigla onipresente e ao mesmo tempo um tanto cabalística para quem não é do ramo significa que a indústria que a ostenta se mede pelas melhores do mundo em critérios que vão da segurança do trabalho ao respeito ambiental.

As pequenas empresas, justamente as que criam a maioria dos empregos no país, são tradicionais redutos dos menos letrados. A situação começa a incomodar. Está ficando ainda mais premente a necessidade de educar os empregados desses empreendimentos menores, pois sua produtividade baixíssima está inviabilizando os negócios. A competição acirrada do mercado exige uma reação. Para serem verdadeiramente competitivas, também as empresas pequenas precisam de gente com cabeça mais arrumada e flexível, capaz de ler e escrever com fluidez, operar com números, lidar com as finanças, controlar custos, comunicar-se com cliente.

Em todos os níveis, em empresas de qualquer tamanho, os processos ficaram mais complicados e as responsabilidades mudaram para níveis hierárquicos mais baixos. As novas tecnologias exigem gente que passou mais anos na escola e aprendeu mais nesse processo. Para tornar a situação ainda mais complexa, não basta o diploma, é preciso aprender e saber usar o que se aprendeu na teoria. Em resumo, os brasileiros estão começando a ver que sem educação não se criam nem se ocupam bons empregos.

Ilustrações Evandro Luiz


Há alguns anos, falávamos de pesquisas mostrando como a educação aumentava os rendimentos das pessoas e considerávamos importante divulgar ao máximo tais informações. As pesquisas tornaram-se desnecessárias para esse tipo de demonstração. Basta tentar encontrar um emprego: sem 1º grau, nem pensar em carteira assinada; sem 2º grau, nem pensar em bom emprego. Entendamos de uma vez por todas que quem cria emprego é crescimento, quem permite o crescimento é produtividade e competitividade. E sem boa educação não há nenhum dos dois.

Arrisco dizer que a consciência sobre as questões acima chegou a um patamar quase irreversível no Brasil. As pesquisas mostram que as pessoas que abandonaram a escola estão voltando a procurar em massa o rumo dos estudos. Comparativamente com os vizinhos, estamos bem. Na América Latina temos, de longe, o melhor parque de ensino superior, pós-graduação e pesquisa – esta última concentrada no melhor segmento da pós-graduação. Não é pouca realização para quem não tinha universidade até a década de 30. Com todos os atuais problemas e custos astronômicos, é leviano subestimar a importância passada, presente e futura do que construímos. Foi com o apoio dessa gente que o Brasil passou a ser o país de mais rápido crescimento no mundo.

No entanto, se a cabeça do sistema cresceu, o mesmo não se pode dizer das pernas. Ao gigantesco esforço de desenvolver o nível mais alto não correspondeu nada parecido nos outros níveis. As pernas ficaram tão bambas quanto antes. Foi a grande oportunidade perdida – e ganha pela Coréia do Sul, que não era melhor que nós um quarto de século atrás. Nos anos 70, já nos alarmávamos com o desequilíbrio. Mas só em 1995 atingimos uma meta recorde para nós, que para outras nações seria considerada ridícula: metade dos estudantes de cada faixa etária passou a terminar o 1º grau.

O sistema, entretanto, logo tropeçou. A perna frágil não deu conta da cabeçorra. Por duas décadas, a matrícula nas universidades federais ficou estagnada. Observadores mais ingênuos pregavam seu crescimento, justificado pela ínfima proporção de graduados de ensino superior na população (ainda 5,6% em 1999), uma das piores da América Latina.

Mas eram as pernas que atrapalhavam. Como só metade da faixa etária terminava o 1º grau, o 2º era uma miniatura. Portanto, não havia matéria-prima para abastecer o superior. Em 1990, havia 1,1 vaga no ensino superior para cada graduado do 2º grau. Uma distorção horrenda.

A conjugação de uma economia mais moderna e exigente com pais e alunos entendendo essas transformações e governantes cujos radares captaram as mudanças de clima produziu uma novidade na história da educação brasileira: quanto mais baixo o nível, mais melhorou. Quanto pior era, mais melhorou. A maior sacudida foi no 1º grau. Com seu desentupimento, o 2º começa a explodir e se modifica. O superior pouco melhorou. E a pós-graduação, a jóia da coroa, viveu um longo jejum de reformas, embora continue essencialmente sadia.

Obviamente, um sistema de tal complexidade avança em marchas e contramarchas. No superior público, a herança de uma governabilidade truncada e irracional tem-se revelado difícil de eliminar. A primeira estratégia do Ministério da Educação falhou. Pensava-se em uma solução legal para dar real autonomia às universidades, deixando que cada uma resolvesse seus problemas. Diante de um quadro político adverso, o plano falhou e perdeu-se enorme tempo. Nos últimos anos, inaugura-se uma estratégia de agir na margem, usando o espaço permitido na lei e ganhando pequenas batalhas. Quebrou-se o tabu da isonomia e hoje se recompensa o esforço de quem dá mais aulas. Novas formas de fazer o orçamento – baseadas no número de alunos e outros parâmetros – começam a substituir o sistema obsoleto de repetir a cifra do ano anterior e duelar alguns tostões adicionais com os reitores. Na eleição de dirigentes, ganharam poder os professores mais qualificados, distanciando-se o sistema alguns passos do populismo. Há alguns avanços nos processos de credenciamento, reconhecimento e avaliação da condição de oferta.

 

No todo, o balanço é muito positivo. Na década de 90 começamos a endireitar um sistema macrocefálico:

(1) A matrícula inicial praticamente se universalizou, com 97% da população de 7 a 14 anos freqüentando a escola. Deixamos de fabricar analfabetos.

(2) Em 1998, 63% dos jovens terminavam os oito anos do 1º grau. É um número maior que o de alunos que chegavam à escola menos de meio século atrás. A taxa de crescimento nas graduações anda acima de 10% e a repetência começa a regredir. Nos últimos cinco anos, a distorção idade-série caiu de 64% para 47%. O mais admirável é que essa explosão se dá sem queda significativa na qualidade.

(3) O 2º grau explodiu, chegando a 8 milhões na virada do século. Até agora sem prejuízo da qualidade.

(4) O ensino superior já vem sentindo os bafejos de um ensino médio que cresceu velozmente.

O cenário é muito mais otimista do que os mais otimistas poderiam esperar no início da década. Há energia, há sinergia entre a política, a administração e os sistemas de ensino. Os números disparam. Conseguimos sair de um sistema politicamente equilibrado e educacionalmente trágico. Passamos a um sistema politicamente desequilibrado, mas em franco processo de subjugação da mediocridade. Não é pouca coisa.

 

Para terminar, listo os passos necessários, a meu ver, para o avanço do sistema educacional brasileiro.

(1) Um 1º grau sério e de qualidade é a meta mais importante e ainda longe de ser atingida.

(2) Equacionar e implementar as carreiras docentes e as fórmulas administrativas para preparar professores. Como não se faz bom ensino sem bons professores, esse hoje é o calcanhar-de-aquiles de nossa escola de 1º e 2º grau.

(3) A diversificação no ensino superior está atrasada, e mais atrasada ainda está a legislação sufocante que tudo quer pasteurizar. Somente agora começamos com os cursos pós-médios curtos. O ensino superior a distância (para entender sua importância, pelo amor de Deus, olhem o mapa do Brasil!) foi sabotado por quase trinta anos e ainda não conseguiu carta de alforria. A pós-graduação profissional foi boicotada por décadas.

(4) A gestão do sistema, em seus diferentes níveis, é excessivamente influenciada por corporações de ofício e grupos de interesse: as regulamentações profissionais e reservas de mercado de sabor medieval, as exigências descabidas de diploma para a docência e os critérios de abertura de cursos.

(5) Aprendemos penosamente a gastar melhor os recursos destinados à educação. Mas agora precisamos de mais recursos. Se acreditamos em educação, temos de pagar o preço.

(6) O brasileiro aprendeu que educação é importante. Já faz barulho e reclama. Mas precisa aprender a reclamar melhor, com mais pontaria, mais persistência e mais competência. Educação sempre foi, é e será um assunto político. Conclamo, portanto, todos à luta.

 
Conclusão

O Brasil acordou para a questão educacional. Vem fazendo progressos assombrosos nos últimos anos e pode candidatar-se em breve a dizer que tem uma educação razoável. Em comparação com o que tínhamos no passado, é um passo gigantesco.

 

 
   
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