A
educação é combustível
do crescimento no Brasil
fenômeno mais espantoso do chamado milagre econômico
brasileiro nos anos 70 foi o crescimento sem educação.
Essa mágica se esgotou. Ela não se repete mais. De
uns tempos para cá e de agora em diante o crescimento econômico
será movido a educação.
Boa
parte de nosso atraso resulta de termos crescido num ritmo maior
que o da educação. O sistema educacional brasileiro
compartilhou a mediocridade de quase todos os vizinhos nos anos
70. Mas nossa economia explodiu, colocando-nos entre os dois ou
três países de maior crescimento. Aquele avanço
histórico tirou o Brasil da vala comum latino-americana.
Sobraram problemas em penca, mas é preciso muito espírito
de porco para não ver o salto histórico da economia.
Enquanto
isso, a educação se desenvolvia num ritmo bem mais
lento, seguindo os cacoetes da civilização ibérica.
Deu para o gasto ao longo do século que se encerra. Talvez
porque a educação não tenha sido homogeneamente
ruim a ponto de influir para baixo nas taxas de crescimento econômico,
que foram extraordinárias a partir da metade do século.
Usamos nossos recursos naturais, centramos nosso crescimento em
indústrias de grande porte, onde um timinho bem educado dava
conta de prover orientações para uma produção
padronizada. Cada um aprendia a apertar seu parafuso. Milagrosamente,
deu certo. Esse sucesso inequívoco do Brasil no período
acabou reforçando uma idéia errada: a de que, no fundo,
talvez educação não fosse assim tão
fundamental nos processos de crescimento econômico acelerado.
Quem acreditava que sem boa educação não era
possível o crescimento ficou paralisado, defendendo uma teoria
que parecia derrotada na prática. Na verdade, o crescimento
sem educação de qualidade para a maioria escondia
uma fragilidade terrível: as imensas deformações
regionais de nosso processo de ensino.
Revisitei
recentemente uma fábrica em Itabirito, no interior das Minas
Gerais, onde passei minha infância. Lá revi algumas
máquinas que já eram velhas na década de 50
e outras bem mais novas. A fábrica obsoleta de meus
dias de menino hoje opera com QT, ou Qualidade Total, o processo
que procura eliminar erros antes que eles ocorram e que se baseia
no uso intensivo de computadores que cospem gráficos e tabelas
sem parar. A operação ficou tão complicada
que para se encaixar nela produtivamente todos os operários
precisam ter no mínimo o 2º grau completo. Quem vê
os operários das montadoras de automóveis atuais não
imagina a complexidade dos sistemas de controle e comunicação
interna a que se submetem. Segundo grau completo é igualmente
uma exigência para quem se candidata a uma vaga na Ford, Volkswagen,
Fiat e General Motors. Na cadeia produtiva da área de transportes,
não há uma só fábrica operando sem ISO
9000. Essa sigla onipresente e ao mesmo tempo um tanto cabalística
para quem não é do ramo significa que a indústria
que a ostenta se mede pelas melhores do mundo em critérios
que vão da segurança do trabalho ao respeito ambiental.
As
pequenas empresas, justamente as que criam a maioria dos empregos
no país, são tradicionais redutos dos menos letrados.
A situação começa a incomodar. Está
ficando ainda mais premente a necessidade de educar os empregados
desses empreendimentos menores, pois sua produtividade baixíssima
está inviabilizando os negócios. A competição
acirrada do mercado exige uma reação. Para serem verdadeiramente
competitivas, também as empresas pequenas precisam de gente
com cabeça mais arrumada e flexível, capaz de ler
e escrever com fluidez, operar com números, lidar com as
finanças, controlar custos, comunicar-se com cliente.
Em
todos os níveis, em empresas de qualquer tamanho, os processos
ficaram mais complicados e as responsabilidades mudaram para níveis
hierárquicos mais baixos. As novas tecnologias exigem gente
que passou mais anos na escola e aprendeu mais nesse processo. Para
tornar a situação ainda mais complexa, não
basta o diploma, é preciso aprender e saber usar o que se
aprendeu na teoria. Em resumo, os brasileiros estão começando
a ver que sem educação não se criam nem se
ocupam bons empregos.
Ilustrações Evandro Luiz
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Há alguns anos, falávamos de pesquisas mostrando como
a educação aumentava os rendimentos das pessoas e
considerávamos importante divulgar ao máximo tais
informações. As pesquisas tornaram-se desnecessárias
para esse tipo de demonstração. Basta tentar encontrar
um emprego: sem 1º grau, nem pensar em carteira assinada; sem
2º grau, nem pensar em bom emprego. Entendamos de uma vez por
todas que quem cria emprego é crescimento, quem permite o
crescimento é produtividade e competitividade. E sem boa
educação não há nenhum dos dois.
Arrisco
dizer que a consciência sobre as questões acima chegou
a um patamar quase irreversível no Brasil. As pesquisas mostram
que as pessoas que abandonaram a escola estão voltando a
procurar em massa o rumo dos estudos. Comparativamente com os vizinhos,
estamos bem. Na América Latina temos, de longe, o melhor
parque de ensino superior, pós-graduação e
pesquisa esta última concentrada no melhor segmento
da pós-graduação. Não é pouca
realização para quem não tinha universidade
até a década de 30. Com todos os atuais problemas
e custos astronômicos, é leviano subestimar a importância
passada, presente e futura do que construímos. Foi com o
apoio dessa gente que o Brasil passou a ser o país de mais
rápido crescimento no mundo.
No
entanto, se a cabeça do sistema cresceu, o mesmo não
se pode dizer das pernas. Ao gigantesco esforço de desenvolver
o nível mais alto não correspondeu nada parecido nos
outros níveis. As pernas ficaram tão bambas quanto
antes. Foi a grande oportunidade perdida e ganha pela Coréia
do Sul, que não era melhor que nós um quarto de século
atrás. Nos anos 70, já nos alarmávamos com
o desequilíbrio. Mas só em 1995 atingimos uma meta
recorde para nós, que para outras nações seria
considerada ridícula: metade dos estudantes de cada faixa
etária passou a terminar o 1º grau.
O
sistema, entretanto, logo tropeçou. A perna frágil
não deu conta da cabeçorra. Por duas décadas,
a matrícula nas universidades federais ficou estagnada. Observadores
mais ingênuos pregavam seu crescimento, justificado pela ínfima
proporção de graduados de ensino superior na população
(ainda 5,6% em 1999), uma das piores da América Latina.
Mas
eram as pernas que atrapalhavam. Como só metade da faixa
etária terminava o 1º grau, o 2º era uma miniatura.
Portanto, não havia matéria-prima para abastecer o
superior. Em 1990, havia 1,1 vaga no ensino superior para cada graduado
do 2º grau. Uma distorção horrenda.
A
conjugação de uma economia mais moderna e exigente
com pais e alunos entendendo essas transformações
e governantes cujos radares captaram as mudanças de clima
produziu uma novidade na história da educação
brasileira: quanto mais baixo o nível, mais melhorou. Quanto
pior era, mais melhorou. A maior sacudida foi no 1º grau. Com
seu desentupimento, o 2º começa a explodir e se modifica.
O superior pouco melhorou. E a pós-graduação,
a jóia da coroa, viveu um longo jejum de reformas, embora
continue essencialmente sadia.
Obviamente,
um sistema de tal complexidade avança em marchas e contramarchas.
No superior público, a herança de uma governabilidade
truncada e irracional tem-se revelado difícil de eliminar.
A primeira estratégia do Ministério da Educação
falhou. Pensava-se em uma solução legal para dar real
autonomia às universidades, deixando que cada uma resolvesse
seus problemas. Diante de um quadro político adverso, o plano
falhou e perdeu-se enorme tempo. Nos últimos anos, inaugura-se
uma estratégia de agir na margem, usando o espaço
permitido na lei e ganhando pequenas batalhas. Quebrou-se o tabu
da isonomia e hoje se recompensa o esforço de quem dá
mais aulas. Novas formas de fazer o orçamento baseadas
no número de alunos e outros parâmetros começam
a substituir o sistema obsoleto de repetir a cifra do ano anterior
e duelar alguns tostões adicionais com os reitores. Na eleição
de dirigentes, ganharam poder os professores mais qualificados,
distanciando-se o sistema alguns passos do populismo. Há
alguns avanços nos processos de credenciamento, reconhecimento
e avaliação da condição de oferta.
No
todo, o balanço é muito positivo. Na década
de 90 começamos a endireitar um sistema macrocefálico:
(1)
A matrícula inicial praticamente se universalizou, com 97%
da população de 7 a 14 anos freqüentando a escola.
Deixamos de fabricar analfabetos.
(2)
Em 1998, 63% dos jovens terminavam os oito anos do 1º grau.
É um número maior que o de alunos que chegavam à
escola menos de meio século atrás. A taxa de crescimento
nas graduações anda acima de 10% e a repetência
começa a regredir. Nos últimos cinco anos, a distorção
idade-série caiu de 64% para 47%. O mais admirável
é que essa explosão se dá sem queda significativa
na qualidade.
(3)
O 2º grau explodiu, chegando a 8 milhões na virada do
século. Até agora sem prejuízo da qualidade.
(4)
O ensino superior já vem sentindo os bafejos de um ensino
médio que cresceu velozmente.
O
cenário é muito mais otimista do que os mais otimistas
poderiam esperar no início da década. Há energia,
há sinergia entre a política, a administração
e os sistemas de ensino. Os números disparam. Conseguimos
sair de um sistema politicamente equilibrado e educacionalmente
trágico. Passamos a um sistema politicamente desequilibrado,
mas em franco processo de subjugação da mediocridade.
Não é pouca coisa.
Para
terminar, listo os passos necessários, a meu ver, para o
avanço do sistema educacional brasileiro.
(1)
Um 1º grau sério e de qualidade é a meta mais
importante e ainda longe de ser atingida.
(2)
Equacionar e implementar as carreiras docentes e as fórmulas
administrativas para preparar professores. Como não se faz
bom ensino sem bons professores, esse hoje é o calcanhar-de-aquiles
de nossa escola de 1º e 2º grau.
(3)
A diversificação no ensino superior está atrasada,
e mais atrasada ainda está a legislação sufocante
que tudo quer pasteurizar. Somente agora começamos com os
cursos pós-médios curtos. O ensino superior a distância
(para entender sua importância, pelo amor de Deus, olhem o
mapa do Brasil!) foi sabotado por quase trinta anos e ainda não
conseguiu carta de alforria. A pós-graduação
profissional foi boicotada por décadas.
(4)
A gestão do sistema, em seus diferentes níveis, é
excessivamente influenciada por corporações de ofício
e grupos de interesse: as regulamentações profissionais
e reservas de mercado de sabor medieval, as exigências descabidas
de diploma para a docência e os critérios de abertura
de cursos.
(5)
Aprendemos penosamente a gastar melhor os recursos destinados à
educação. Mas agora precisamos de mais recursos. Se
acreditamos em educação, temos de pagar o preço.
(6)
O brasileiro aprendeu que educação é importante.
Já faz barulho e reclama. Mas precisa aprender a reclamar
melhor, com mais pontaria, mais persistência e mais competência.
Educação sempre foi, é e será um assunto
político. Conclamo, portanto, todos à luta.
O Brasil
acordou para a questão educacional. Vem fazendo progressos
assombrosos nos últimos anos e pode candidatar-se em breve
a dizer que tem uma educação razoável. Em comparação
com o que tínhamos no passado, é um passo gigantesco.
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