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O panorama das populações

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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Domingo Cavallo  
   

O Brasil não pode
ter medo do mundo

o contrário do que os acontecimentos recentes podem sugerir, há um crescente afeto entre o povo da Argentina e o do Brasil. Há química também entre os dois governos. Somos países complementares. Enquanto o Brasil tem uma tendência para o otimismo, com um povo muito alegre e uma classe empresarial empreendedora, com iniciativa, a Argentina tem uma demanda por excelência e qualidade mais apurada. O povo argentino também é mais exigente quanto ao sistema econômico e social. A mentalidade argentina não é tão eufórica e otimista como a dos brasileiros. Nossa elite é mais cética e contida que a do Brasil. Mais do que parecidos, portanto, somos e seremos bons sócios porque temos características que se completam mutuamente.

Ilustração: Evandro Luiz


O Brasil tem muito a ganhar com a Argentina e com os demais vizinhos da América do Sul. Hoje, os blocos econômicos e políticos, para ser relevantes no mundo e negociar de igual para igual, têm de ser cada vez maiores, muito maiores que ao longo do século. A globalização nada mais é do que a criação de mercados globais. Os atores desses mercados, obviamente, terão de ser globais. O Brasil não deveria temer esse processo. O tamanho das empresas brasileiras faz com que elas sejam candidatas naturais a assumir o papel de atores da economia global. Os bancos brasileiros deveriam ser mais agressivos nas parcerias e fusões com os bancos dos demais países da América do Sul. Com uma tecnologia muito superior à do resto dos bancos da América Latina, as instituições financeiras brasileiras são líderes naturais num processo continental de consolidação.

Apesar de ser uma nação grande e potencialmente imperialista, o Brasil se beneficia da atitude amistosa e paritária de seus vizinhos da América do Sul. A Argentina se beneficia do enorme mercado do Brasil. Os empresários argentinos têm-se aproveitado desse grande mercado bastante bem, especialmente no período de 1991 a 1998, quando o câmbio se tornou extremamente desfavorável para nossas exportações. O mercado brasileiro se tornou um desafio para os produtores argentinos depois da desvalorização do real. Nos últimos dois anos, a relação com o Brasil esfriou por causa dessa contingência. Apesar de tudo, as exportações subiram e o saldo da balança comercial continuou favorável para a Argentina. No ramo energético o potencial de integração é enorme. O Brasil precisa de energia, gás, eletricidade, petróleo. Nós temos energia sobrando. Um relacionamento mais profundo nessa área não só beneficiaria os produtores argentinos e os consumidores em São Paulo e nas grandes cidades, mas permitiria disponibilizar energia a um custo menor para as pessoas do interior de ambos os países.

A bola nesse campo está com o Brasil. Se o país avançar no processo de criação de um setor energético organizado, o preço da energia cairá. Para isso, é preciso ter um cenário com produtores e geradores independentes em regime de livre concorrência e concessionários particulares para o transporte de gás, petróleo e eletricidade, funcionando também sob o controle dos mecanismos de mercado. Vai gerar polêmica, mas não posso deixar de dizer que a verdadeira integração regional só se dará quando o Brasil alcançar em suas reformas internas o estágio que já atingiram Argentina e Chile. O Brasil ainda é tímido e defensivo em suas relações com os mercados. Há uma tendência ainda grande para a planificação centralizada no Brasil, o que já se provou ser desastroso no passado. O Brasil mudou muito pouco seu enfoque e é um país onde a Eletrobrás e a Petrobras pretendem controlar todo o desenvolvimento de suas áreas.

O Mercosul também não sairá do lugar se o Brasil não assumir a idéia de que nossa integração regional só faz sentido se, sinceramente, tiver como objetivo final incluir toda a América sob o regime da Alca, o acordo continental de livre comércio. O que está travando o Mercosul é o fato de que nos propusemos ser primeiro uma união aduaneira com alíquota externa comum e, depois, um mercado comum. Isso não é realista. Para fazer uma união aduaneira e um mercado comum, cada país-membro tem de renunciar a parte de sua soberania com o objetivo de criar organismos e instituições que possam negociar em nome do bloco com a União Européia, com a América do Norte, com o Japão. O governo brasileiro dá mostras seguidas de que não aceita essa arquitetura. Sem ela o Mercosul não faz sentido. O bloco precisa urgentemente ser replanejado.

Ilustração: Evandro Luiz


Uma das medidas que a Argentina precisa tomar é a redução a zero da alíquota de importação para máquinas industriais e outros bens de capital, o que teoricamente a alíquota externa do Mercosul não permite. Sem isso vamos perder competitividade diante do resto do mundo. A América do Sul é uma região de grandes distâncias, onde a incidência do custo dos transportes é muito elevada e a produção está distante dos portos. Qualquer encarecimento dos investimentos tira competitividade da região como um todo. Tudo deve ser conversado com o maior respeito com o Brasil e, com muito diálogo, tentar convencer nosso parceiro de que não podemos onerar a produção com alíquotas irreais. Como nossa necessidade de crescimento é mais premente, poderemos ter de, unilateralmente, tomar as medidas corretas nessa direção. Por isso, suspeito que devemos reduzir a alíquota externa para bens de capital a zero com ou sem a anuência brasileira. A Argentina ainda é um exemplo para a América Latina, de como a educação é a melhor receita para o desenvolvimento. Tivemos décadas de crescimento a partir dos ensinamentos do ex-presidente, jornalista e professor Domingo Sarmiento. Que, antes de ser presidente da República, estudou a transformação dos transportes, das comunicações e a educação primária. Eleito presidente, dedicou os seis anos de governo a impulsionar a modernização dos transportes, das ferrovias, a propagação do telégrafo e a criar o sistema de educação pública, que foi a base do progresso argentino. Eu sou fruto de uma universidade pública argentina em fase de renascimento, no final dos anos 50, com o governo de Arturo Frondizi. E pude me aperfeiçoar, com bolsas de estudo, nos Estados Unidos, mas levando uma boa base daqui. Lamentavelmente, de 1966 para cá, as universidades estatais sofreram uma grande decadência. Mas, ao mesmo tempo, as universidades privadas começaram a se desenvolver. E a excelência da educação começa a vir das instituições privadas. Os prêmios Nobel de Química e Medicina que obtivemos foram com pesquisadores que desenvolviam investigação em fundações privadas. A transformação econômica que se deu na Argentina na década de 90 foi ditada pelo capital intelectual bancado pelo setor privado. A globalização vai obrigar as universidades públicas a se transformarem em centros de excelência, que possam atrair empresas. A faculdade de engenharia da Universidade de Córdoba foi um fator determinante para que a Motorola decidisse instalar uma fábrica na região, criando 1 000 empregos na província. Devemos retomar esse espírito modernizador. Nossos vizinhos também se beneficiarão com essa atitude.

 

Conclusão

Cavallo acha que a Argentina é mais corajosa que o Brasil ao expor sua economia ao mundo. Ele defende alíquota zero nas importações de máquinas industriais em seu país e sugere ao Brasil que faça o mesmo. Cavallo defende também a aceleração do processo de adesão à Alca, o acordo continental de livre comércio que inclui os Estados Unidos.

 

 
   
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