O
Brasil não pode
ter medo do mundo
o
contrário do que os acontecimentos recentes podem sugerir,
há um crescente afeto entre o povo da Argentina e o do Brasil.
Há química também entre os dois governos. Somos
países complementares. Enquanto o Brasil tem uma tendência
para o otimismo, com um povo muito alegre e uma classe empresarial
empreendedora, com iniciativa, a Argentina tem uma demanda por excelência
e qualidade mais apurada. O povo argentino também é
mais exigente quanto ao sistema econômico e social. A mentalidade
argentina não é tão eufórica e otimista
como a dos brasileiros. Nossa elite é mais cética
e contida que a do Brasil. Mais do que parecidos, portanto, somos
e seremos bons sócios porque temos características
que se completam mutuamente.
Ilustração: Evandro Luiz
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O Brasil tem muito a ganhar com a Argentina e com os demais vizinhos
da América do Sul. Hoje, os blocos econômicos e políticos,
para ser relevantes no mundo e negociar de igual para igual, têm
de ser cada vez maiores, muito maiores que ao longo do século.
A globalização nada mais é do que a criação
de mercados globais. Os atores desses mercados, obviamente, terão
de ser globais. O Brasil não deveria temer esse processo.
O tamanho das empresas brasileiras faz com que elas sejam candidatas
naturais a assumir o papel de atores da economia global. Os bancos
brasileiros deveriam ser mais agressivos nas parcerias e fusões
com os bancos dos demais países da América do Sul.
Com uma tecnologia muito superior à do resto dos bancos da
América Latina, as instituições financeiras
brasileiras são líderes naturais num processo continental
de consolidação.
Apesar
de ser uma nação grande e potencialmente imperialista,
o Brasil se beneficia da atitude amistosa e paritária de
seus vizinhos da América do Sul. A Argentina se beneficia
do enorme mercado do Brasil. Os empresários argentinos têm-se
aproveitado desse grande mercado bastante bem, especialmente no
período de 1991 a 1998, quando o câmbio se tornou extremamente
desfavorável para nossas exportações. O mercado
brasileiro se tornou um desafio para os produtores argentinos depois
da desvalorização do real. Nos últimos dois
anos, a relação com o Brasil esfriou por causa dessa
contingência. Apesar de tudo, as exportações
subiram e o saldo da balança comercial continuou favorável
para a Argentina. No ramo energético o potencial de integração
é enorme. O Brasil precisa de energia, gás, eletricidade,
petróleo. Nós temos energia sobrando. Um relacionamento
mais profundo nessa área não só beneficiaria
os produtores argentinos e os consumidores em São Paulo e
nas grandes cidades, mas permitiria disponibilizar energia a um
custo menor para as pessoas do interior de ambos os países.
A
bola nesse campo está com o Brasil. Se o país avançar
no processo de criação de um setor energético
organizado, o preço da energia cairá. Para isso, é
preciso ter um cenário com produtores e geradores independentes
em regime de livre concorrência e concessionários particulares
para o transporte de gás, petróleo e eletricidade,
funcionando também sob o controle dos mecanismos de mercado.
Vai gerar polêmica, mas não posso deixar de dizer que
a verdadeira integração regional só se dará
quando o Brasil alcançar em suas reformas internas o estágio
que já atingiram Argentina e Chile. O Brasil ainda é
tímido e defensivo em suas relações com os
mercados. Há uma tendência ainda grande para a planificação
centralizada no Brasil, o que já se provou ser desastroso
no passado. O Brasil mudou muito pouco seu enfoque e é um
país onde a Eletrobrás e a Petrobras pretendem controlar
todo o desenvolvimento de suas áreas.
O
Mercosul também não sairá do lugar se o Brasil
não assumir a idéia de que nossa integração
regional só faz sentido se, sinceramente, tiver como objetivo
final incluir toda a América sob o regime da Alca, o acordo
continental de livre comércio. O que está travando
o Mercosul é o fato de que nos propusemos ser primeiro uma
união aduaneira com alíquota externa comum e, depois,
um mercado comum. Isso não é realista. Para fazer
uma união aduaneira e um mercado comum, cada país-membro
tem de renunciar a parte de sua soberania com o objetivo de criar
organismos e instituições que possam negociar em nome
do bloco com a União Européia, com a América
do Norte, com o Japão. O governo brasileiro dá mostras
seguidas de que não aceita essa arquitetura. Sem ela o Mercosul
não faz sentido. O bloco precisa urgentemente ser replanejado.
Ilustração: Evandro Luiz
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Uma das medidas que a Argentina precisa tomar é a redução
a zero da alíquota de importação para máquinas
industriais e outros bens de capital, o que teoricamente a alíquota
externa do Mercosul não permite. Sem isso vamos perder competitividade
diante do resto do mundo. A América do Sul é uma região
de grandes distâncias, onde a incidência do custo dos
transportes é muito elevada e a produção está
distante dos portos. Qualquer encarecimento dos investimentos tira
competitividade da região como um todo. Tudo deve ser conversado
com o maior respeito com o Brasil e, com muito diálogo, tentar
convencer nosso parceiro de que não podemos onerar a produção
com alíquotas irreais. Como nossa necessidade de crescimento
é mais premente, poderemos ter de, unilateralmente, tomar
as medidas corretas nessa direção. Por isso, suspeito
que devemos reduzir a alíquota externa para bens de capital
a zero com ou sem a anuência brasileira. A Argentina ainda
é um exemplo para a América Latina, de como a educação
é a melhor receita para o desenvolvimento. Tivemos décadas
de crescimento a partir dos ensinamentos do ex-presidente, jornalista
e professor Domingo Sarmiento. Que, antes de ser presidente da República,
estudou a transformação dos transportes, das comunicações
e a educação primária. Eleito presidente, dedicou
os seis anos de governo a impulsionar a modernização
dos transportes, das ferrovias, a propagação do telégrafo
e a criar o sistema de educação pública, que
foi a base do progresso argentino. Eu sou fruto de uma universidade
pública argentina em fase de renascimento, no final dos anos
50, com o governo de Arturo Frondizi. E pude me aperfeiçoar,
com bolsas de estudo, nos Estados Unidos, mas levando uma boa base
daqui. Lamentavelmente, de 1966 para cá, as universidades
estatais sofreram uma grande decadência. Mas, ao mesmo tempo,
as universidades privadas começaram a se desenvolver. E a
excelência da educação começa a vir das
instituições privadas. Os prêmios Nobel de Química
e Medicina que obtivemos foram com pesquisadores que desenvolviam
investigação em fundações privadas.
A transformação econômica que se deu na Argentina
na década de 90 foi ditada pelo capital intelectual bancado
pelo setor privado. A globalização vai obrigar as
universidades públicas a se transformarem em centros de excelência,
que possam atrair empresas. A faculdade de engenharia da Universidade
de Córdoba foi um fator determinante para que a Motorola
decidisse instalar uma fábrica na região, criando
1 000 empregos na província. Devemos retomar esse espírito
modernizador. Nossos vizinhos também se beneficiarão
com essa atitude.
Cavallo
acha que a Argentina é mais corajosa que o Brasil ao expor
sua economia ao mundo. Ele defende alíquota zero nas importações
de máquinas industriais em seu país e sugere ao Brasil
que faça o mesmo. Cavallo defende também a aceleração
do processo de adesão à Alca, o acordo continental
de livre comércio que inclui os Estados Unidos.
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