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O panorama das populações

O panorama da riqueza da Terra
Imprensa *
Democracia *
* exclusivos on-line
     
edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Jonas Rabinovitch  
   

Como construir hoje o
amanhã das cidades

m 1929, a extinta revista O Malho publicou um ousado artigo sobre como seriam as cidades do futuro. Segundo a revista, "técnicos norte-americanos empenham-se em demorados e sérios estudos sobre como serão as cidades do futuro daqui a cincoenta annos", ou seja, em 1979. As previsões eram fantásticas: "Arranha-ceos de duzentos ou trezentos andares, hospitais aéreos suspensos por balões onde os doentes poderiam respirar ar puro, heliportos unindo prédios imensos ocupando dez quarteirões, pessoas nascendo e morando a vida inteira nesses prédios sem nunca precisar pousar os pés no solo".

Como sabemos, o futuro não é nada disso. Mas as previsões estapafúrdias do passado nos permitem, pelo menos, intuir melhor como as cidades se desenvolverão daqui para a frente. Nem mesmo um escritor com a imaginação e o senso prático notáveis do francês Júlio Verne (1828-1905) – que previu as viagens espaciais e a exploração dos recursos do mar por submarinos – conseguiu imaginar uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. Daqui a alguns anos, existirão mais de 500 dessas cidades ao redor do globo. Estamos entrando no primeiro século urbano da História. Nunca houve tanta gente morando em áreas urbanas em nenhum outro momento da jornada humana. O crescimento das cidades é inevitável – e irreversível. A população urbana mundial era de 2,4 bilhões de pessoas em 1990, será de 3,2 bilhões no próximo ano e de 5,5 bilhões dentro de uma geração. Noventa e cinco por cento do crescimento demográfico mundial durante a próxima década se dará em áreas urbanas. Nos 25 anos vindouros, o número de habitantes do planeta crescerá mais 2 bilhões. Desses 2 bilhões, apenas 50 milhões nascerão em países desenvolvidos. A imensa maioria vai nascer e viver em cidades da parte menos privilegiada do mundo. Ali se apinham 80% da população mundial e apenas 20% da riqueza planetária. Este artigo se ocupa com mais atenção das cidades localizadas nessa porção do mundo.

Em 1950, Nova York era a única cidade do mundo com mais de 10 milhões de habitantes. Em 1975, outras quatro se juntaram a ela: Tóquio, Xangai, Cidade do México e São Paulo. Em 1995, dez entre as catorze megacidades estavam em países em desenvolvimento. E em 2015 o cenário será ainda mais problemático. Nada menos que 22 das 26 megacidades estarão localizadas em países em desenvolvimento. Mas a grande surpresa para muitos é o fato de que esses monstruosos aglomerados populacionais talvez não sejam o maior problema urbano do planeta. Muito mais desafiador que a proliferação das megacidades é o crescimento explosivo das cidades pequenas e médias. Podemos ficar atordoados com os problemas de poluição da Cidade do México ou com os congestionamentos de pesadelo de Bangcoc. Mas não podemos nos esquecer de que existem, neste momento, dezenas de milhares de cidades ao redor do mundo que podem estar repetindo os mesmos erros cometidos por essas megalópoles no passado. É preciso agir rápido, agora, antes que seja tarde ou caro demais.

Nas tarefas preparativas do maior encontro de prefeitos já realizado na Organização das Nações Unidas (ONU), fizemos uma pergunta-chave aos mandatários municipais de quase todas as partes do mundo: sem contar contingências de financiamento, qual o maior problema de sua cidade? Em primeiro lugar disparado, com 52% dos votos, os prefeitos apontaram o desemprego como a maior dor de cabeça urbana. Em segundo lugar, com 42% das respostas, apareceu a questão do lixo e do saneamento. A pobreza urbana foi o terceiro problema mais votado, com 41,6%. Obviamente, as três respostas se sobrepuseram. Exatamente como os problemas urbanos se misturam na vida real, criando o caos a que todos nós, em maior ou menor grau, estamos habituados. Não chega a ser surpresa que o desemprego tenha reflexos urbanos tão contundentes a ponto de os prefeitos o apontarem como o nó mais difícil de desatar. Mas é interessante notar que em uma economia global de aproximadamente 25 trilhões de dólares a chaga do desemprego seja tão resistente. Tudo indica que existem recursos financeiros para acabar com ele e outros problemas urbanos. A título de comparação das ordens de grandeza, calcula-se que dois dos maiores negócios do planeta, armas e drogas, movimentem respectivamente 700 e 400 bilhões de dólares por ano. Educação e saneamento básico são incomparavelmente menos custosos. Custaria cerca de 6 bilhões de dólares por ano promover a educação básica para cada criança e cerca de 10 bilhões prover o saneamento básico para cada família em todas as cidades do mundo. Ou seja, a questão da existência de recursos é relativa. Há riqueza disponível no mundo para atacar os problemas incontornáveis que paralisam e infernizam a vida das pessoas nas grandes cidades do Brasil e do mundo. Os prefeitos devem ter a sabedoria de ir buscar recursos onde eles existirem.

Além disso, se os administradores urbanos aprenderem a pensar de forma integrada, não será difícil, por exemplo, concluir que programas de lixo e de saneamento podem ser realizados de forma a gerar empregos, aumentar a renda e diminuir a pobreza. Os bons exemplos estão em toda parte. Em Nairóbi, Quênia, um grupo de mulheres, em parceria com igrejas, iniciou uma pequena empresa que agora fornece blocos de concreto e cisternas para várias áreas pobres da cidade. Em Ein Helwan, Cairo, Egito, um grupo comunitário organizou um sistema para limpeza de valas, gerenciamento de lixo e plantio de árvores, gerando mais de 4 000 empregos. Em Madras, Índia, um grupo de industriais, em parceria com o governo japonês, desenvolve um sistema de reciclagem de esgoto para uso em parques industriais locais. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento tem apoiado centenas de iniciativas semelhantes: agricultura urbana em Acra, Gana; desenvolvimento de uma cooperativa para habitação popular em Adis-Abeba, Etiópia; tecnologia para saneamento de baixo custo em Uagadugu, Burkina Fasso; campanha para coleta apropriada de lixo em Bangcoc, Tailândia; estratégia para prevenção da violência contra a mulher em Manila, Filipinas.


Ilustração: Evandro Luiz


As condições para que possamos dar um salto de qualidade sem precedentes na história urbana estão criadas. Nunca tivemos pelo mundo afora um número tão grande de governos democraticamente eleitos, em todos os níveis. As iniciativas de descentralização nunca foram tão numerosas. Pelo menos 63 países em desenvolvimento testemunham estar envolvidos em algum tipo de transferência de poder político para níveis locais. Nunca tivemos tanta facilidade de acesso a meios de informação e comunicação. Os níveis de desenvolvimento humano – de forma lenta mas firme – crescem em todos os países a taxas jamais registradas pela História. Em cinqüenta anos do século que se encerrou, os níveis de pobreza caíram mais que em todos os 500 anos anteriores. E essa redução, em muitos aspectos, ocorreu não apenas em focos privilegiados das nações mais abastadas, mas foi registrada na maioria dos países. Portanto, é tangível a meta de vivermos em cidades mais humanas e justas no decorrer das próximas décadas.

Em primeiro lugar, é imprescindível escolher bem os problemas a serem atacados. A título de sugestão, aqui vai minha lista das três doenças mais comuns que paralisam as administrações municipais:

Diagnáusea – Ocorre quando o prefeito não sabe exatamente por onde começar e então decide fazer diagnósticos. Faz centenas, milhares deles na esperança de que algum aponte um caminho promissor. Em geral, passa todo o mandato nesse agitado mas inútil período de estudos.

Participatite – Essa doença se caracteriza pela falta de visão ou liderança dos administradores municipais. Promove-se, então, participação da comunidade em todos os assuntos, de todas as formas possíveis, esperando que o setor privado ou a população aponte soluções satisfatórias que os próprios prefeitos eleitos com essa missão não conseguiram vislumbrar.

Consultivite – É a conhecida praga dos consultores. Na ânsia de mostrar serviço, os administradores lançam-se freneticamente a contratar consultores. Em muitos casos, a consultivite ocorre em combinação com a diagnáusea. Ambas dão muita dor de cabeça e custam caro aos bolsos dos cidadãos. As três "doenças" acima acabam sendo saídas procuradas pelos administradores municipais. A razão é simples: quando as contraem, os prefeitos diluem seu risco político. Ou seja, conseguem repartir a responsabilidade pelos seus erros.

Portanto, é preciso ficar atento. Quase sempre, burrices óbvias escondem espertezas inconfessáveis. Especialmente no Brasil, onde o processo de urbanização está entre os mais acelerados do planeta. Em 1950, a população urbana do Brasil era de 36%, um país rural. Em 1990, quase 75% da população já vivia em áreas urbanas. O Brasil possui um dos maiores recordes de desigualdade social do mundo, uma das maiores taxas de urbanização, mas também alguns dos melhores exemplos mundiais de políticas e idéias urbanas bem-sucedidas. Proporcionalmente, o país também conta com uma das maiores estruturas municipalistas existentes entre os países em desenvolvimento, um exército de quase 6 000 prefeitos.

Sem dúvida, uma das experiências brasileiras mais conhecidas no exterior é a de Curitiba. Importantes publicações internacionais (Time, Newsweek, U.S. News, Le Monde, Washington Post, The Wall Street Journal, Asahi Shinbum e muitas outras) destacaram o espírito de criatividade e os resultados obtidos por Curitiba. No Brasil, a experiência de Curitiba tem sido explicada por alguns como sendo uma exceção, um produto de circunstâncias excepcionais. Outros descrevem Curitiba como um modelo. Não acho que seja uma coisa nem outra. Nenhuma cidade pode ser considerada um modelo, pois todas têm história e realidade distintas. Mas é bom lembrar os acertos de Curitiba, produzidos na mesma época em que outras cidades cometiam erros que mais tarde custariam muito em qualidade de vida dos cidadãos.

1) Há mais de trinta anos, quando as cidades eram planejadas para o automóvel e para viadutos, Curitiba iniciou um caminho diferente: prioridade para pedestres no centro e prioridade para ônibus em eixos estruturais na cidade como um todo. Ao investir e gradualmente aperfeiçoar um sistema de superfície baseado em ônibus, Curitiba conseguiu o desempenho de um metrô gastando menos de um centésimo do que outras cidades. O sistema de transporte une o centro a todas as periferias. A tarifa é acessível e os passageiros são tratados com dignidade. O sistema é totalmente operado por companhias privadas, que seguem os parâmetros determinados pela cidade. Se Curitiba tivesse esperado mais dez ou quinze anos, talvez ficasse tarde ou caro demais iniciar uma mudança.

2) Sucessivas administrações de Curitiba, inspiradas na visão do atual governador do Paraná, Jaime Lerner, desafiaram vários dogmas técnicos. Linhas de metrô, usinas de separação de lixo, construção de drenagem subterrânea, construção de rodovias ao longo dos rios, total separação entre áreas habitacionais e áreas comerciais são alguns exemplos de práticas de planejamento que eram comuns nas cidades de crescimento rápido. Curitiba as renegou e acabou criando uma cidade mais humana e agradável que as demais metrópoles brasileiras.

3) Curitiba também mostrou que criatividade pode, até certo ponto, substitutir escassez de recursos. Um bom exemplo é o programa de troca do lixo. A cidade "compra" o lixo da população de baixa renda usando fichas de ônibus ou cadernos escolares como "moeda".

Para a maioria das cidades brasileiras não dá mais para pegar o bonde da história que Curitiba tomou. Mas nem tudo está perdido. O momento é incrivelmente propício a transformações. Investimentos em países em desenvolvimento cresceram mais de 120% nos últimos cinco anos. Cidades são espaços privilegiados para canalizar investimentos, pois já possuem universidades, aeroportos, centros culturais, facilidades de telecomunicação, atrações turísticas, bolsas de valores e outros mercados, além de uma variedade de instituições cada vez mais integradas globalmente. Dois desafios se impõem: cidades altamente competitivas precisam transformar novos investimentos em oportunidades de emprego e acompanhar o crescimento econômico com democracia social. E as menos competitivas precisam melhorar seu gerenciamento para não ser completamente alienadas de um sistema mundial que lhes cobra muito, mas pode também trazer soluções salvadoras.


Conclusão

Rabinovitch conclui que as cidades enfrentam desafios gigantescos em tempos de globalização, quando o poder dos administradores municipais tem de se submeter aos ritmos econômicos planetários. Por outro lado, lembra ele, a globalização cria também a possibilidade de ter acesso a soluções urbanas antes impensáveis. Entre elas está a chance maior de obter recursos financeiros externos e de conseguir apoio técnico quase gratuito de organismos internacionais. Diz ele: "Não é difícil concluir que programas de lixo e de saneamento, por exemplo, podem ser realizados de forma a gerar empregos, aumentando rendas e diminuindo a pobreza".

 

 
   
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