A
humanidade tem
capitalismo no sangue
erá
que existem duas variedades diferentes de capitalismo, a versão
americana, da livre empresa, e a versão européia,
com intervenção do Estado? As nações
em desenvolvimento, como o Brasil, devem estudar as duas alternativas
possíveis e depois escolher a que lhes é mais adequada?
Ilustração: Evandro Luiz
 |
Seria muito bom que houvesse escolhas assim tão simples no
mundo! Mas a História e a experiência mostram que não
há alternativas convenientes, não há caminhos
fáceis para sair das dificuldades, nem atalhos. Há
meio século, os filósofos defensores de um caminho
intermediário vêm apregoando a noção
atraente de que existe um sistema político-econômico
que combina o poder criador de riqueza do capitalismo com o igualitarismo
da propriedade e do controle coletivos. Às vezes, chamam-no
de "economia mista". O nome atual é "terceira via", e a União
Européia é citada como exemplo disso.
Mas,
ao debater essa questão, é bom começar por
deixar claro que o capitalismo, ao contrário do comunismo
e do socialismo, não é, de forma alguma, um "ismo".
É uma pena que se tenha cunhado a palavra "capitalismo",
porque ela é enganadora.
O
capitalismo não é um sistema sonhado por filósofos,
políticos ou economistas e depois posto em prática
por decisão de governos. Trata-se de um evento natural, uma
peça orgânica no progresso humano. A História
mostra que o capitalismo ocorre nas sociedades humanas quando elas
atingem certo nível de progresso tecnológico e as
pessoas com dinheiro percebem que podem lucrar ao se organizarem
para investir.
O
capitalismo acontece naturalmente, sem necessidade da ajuda dos
governos. Pode-se dizer que ele é inevitável, a não
ser que o governo tome determinadas medidas para impedi-lo. Ele
ocorreu em larga escala, pela primeira vez, na Inglaterra, na segunda
metade do século XVIII, e foi possível porque a sociedade
britânica era relativamente livre, com poucas leis que impedissem
as mudanças econômicas e técnicas. O governo
não teve praticamente nada a ver com ele. O fenômeno
foi chamado de Revolução Industrial, mas esse nome
supõe mudança dramática e violência.
Não houve nada disso. Nem houve grandes planos, regras ou
decisões grandiosas.
O
capitalismo nasceu de decisões não coordenadas e meramente
coincidentes de muitos milhares de pequenos fabricantes, comerciantes,
artesãos, poupadores, investidores e instituições
financeiras. Os grandes bancos não desempenharam papel algum,
pois simplesmente não existiam naquela época. O único
grande banco da Grã-Bretanha, o Banco da Inglaterra, não
teve nada a ver com a Revolução Industrial, pelo menos
em seus estágios iniciais. Não houve envolvimento
de conglomerados ou firmas internacionais. A maioria das incontáveis
pessoas envolvidas começou como mero trabalhador ou artesão
e se tornou capitalista quase sem saber. Elas estavam fazendo apenas
o que parecia lógico, lucrativo e óbvio naquela época.
Trabalhavam por instinto natural, em vez de seguir um plano profundamente
detalhado. O capitalismo deu certo porque combina com a índole
da humanidade, transformando lentamente os métodos tradicionais
e expandindo-se aos poucos.
Quando
publicou, em 1776, A Riqueza das Nações
a bíblia do capitalismo , Adam Smith não estava
defendendo um sistema, um "ismo". Na verdade, ele jamais escreveu
a palavra capitalismo, que não se usava na época.
Estava meramente descrevendo o que havia acontecido e o que estava
acontecendo. Ele deu as boas-vindas a muitos desses novos acontecimentos
e mostrou por que eles aumentavam a riqueza nacional. Não
defendeu que os governos deveriam instituir o capitalismo, mas apenas
que deveriam remover leis antiquadas e tolas (como as que restringiam
os movimentos dos trabalhadores), que impediam as pessoas empreendedoras
de aproveitar ao máximo as oportunidades.
No
mesmo ano de 1776, os pais da pátria dos Estados Unidos assinaram
sua Declaração de Independência. O novo Estado
que criaram, e confirmaram com uma Constituição elaborada
na década de 1780, não estabelecia que a sociedade
americana seria capitalista. Longe disso. Todos os grandes líderes
dos primórdios da nação americana achavam que
os EUA deveriam ser uma sociedade agrária ideal, dentro do
que imaginavam ser o modelo da Roma antiga, cujos governantes naturais
ou senadores seriam os proprietários de terras esclarecidos.
O vasto
Estado industrial que se desenvolveu os teria deixado horrorizados.
Com efeito, é impossível apontar qualquer ato do novo
governo americano, naquela época e durante muitas décadas,
que fomentasse diretamente o capitalismo. O que ele promovia era
a liberdade econômica e política e foi a liberdade
que propiciou ao capitalismo na América um parto absolutamente
natural.
Portanto,
o capitalismo, então como hoje, tem a ver com liberdade e
não com ações do governo. Este pode impedi-lo,
se fizer um grande esforço a União Soviética
conseguiu essa façanha durante 75 anos , mas a única
maneira de promovê-lo com eficácia é não
fazer nada, ou, antes, remover os obstáculos que impedem
homens e mulheres de realizar coisas para eles mesmos.
Portanto,
não existem muitas formas doutrinariamente distintas de capitalismo.
Na verdade, há apenas uma, ou melhor, somente uma condição
em que o capitalismo floresce: a liberdade do empreendimento humano.
O capitalismo é versátil: se não sofrer impedimentos,
é capaz de se adaptar a qualquer região do globo,
a qualquer clima ou conjunto de circunstâncias. Ele se autocorrige:
se ocorrem erros, ele os reconhece no decorrer do tempo e os evita,
da mesma forma que uma planta abre caminho entre pedras e outros
obstáculos naturais a seu crescimento.
Portanto,
não há dois tipos de capitalismo, apenas versões
mais fortes ou mais fracas. O capitalismo de Estado e a economia
planificada foram tentados na URSS durante três quartos de
século e depois abandonados devido a fracassos irremediáveis.
Em conseqüência, o PIB atual da Rússia é
menor que o da Holanda, país de território minúsculo
se comparado com a vastidão russa.
As
assim chamadas economias mistas, que supõem um grande setor
público envolvido em indústria, distribuição
de bens e finanças, foram tentadas em muitos países
nos últimos cinqüenta anos e também fracassaram.
A maioria das indústrias nacionalizadas funcionava no vermelho
e tinha níveis baixos de produção ou prestação
de serviços. A Grã-Bretanha iniciou um grande programa
de desnacionalização na década de 80, com imensos
benefícios para sua economia e para as finanças públicas.
O thatcherismo foi imitado em mais de cinqüenta países,
geralmente com sucesso comparável.
A
última alternativa ao capitalismo livre é a versão
européia. Não é fácil descrever as principais
características dessa alternativa. Ela foi pensada como um
sistema fundamentalmente de livre empresa seu fundador, Jean
Monnet, acreditava firmemente no capitalismo. A idéia era
remover os obstáculos à competição e
iniciar um processo de convergência das economias européias
em torno de um único modelo hipereficiente. Mas, no processo,
ela caiu nas mãos de burocratas, advogados e de políticos
que trabalhavam junto com eles. Em conseqüência, a União
Européia se tornou um sistema altamente inibidor, com incontáveis
restrições legais ao livre jogo das forças
econômicas que produzem riqueza.
Os
resultados podem ser vistos nos números: taxas de crescimento
lentas, apesar dos juros baixos que tendem a estimular a inflação;
desemprego alto, com média de 10%, mas muito maior em alguns
países como a Espanha; investimentos comparativamente baixos.
É significativo que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha
(que participa apenas pela metade da União Européia
e está mais próxima do modelo americano) sejam agora
os maiores captadores de investimento externo. Ou seja, os capitalistas
de todo o mundo consideram esses dois países as regiões
mais eficientes para aplicar seu dinheiro. A Grã-Bretanha
recebe mais capital externo anualmente que todo o resto da União
Européia em conjunto.
Os
Estados Unidos, que fazem restrições mínimas
às empresas, assemelham-se a uma economia de mercado clássica,
comportando-se à perfeição. O desemprego praticamente
não existe, a inflação é quase zero,
os salários reais estão subindo lentamente, o crescimento
é alto, a produtividade vem aumentando, o orçamento
está equilibrado ou apresenta superávit e a dívida
vem sendo paga com bastante rapidez. Se essa tendência continuar,
é provável que os EUA paguem toda a sua dívida
nacional até 2020. Desse modo, os americanos parecem se dirigir
para um regime de alto crescimento e baixos impostos, com ampla
distribuição da riqueza e elevação constante
dos padrões de vida.
A
versão européia compreende altos (relativamente) pagamentos
e serviços de bem-estar social, mais poder para os sindicatos
e mais oportunidades para o governo interferir quando surgem fraquezas
na economia. Mas, contra esse pano de fundo, deve-se ver o flagelo
do desemprego, a quase certeza de que muitos sistemas de previdência
europeus irão à falência, à medida que
a idade média da população aumenta e a falta
de oportunidades para novos empreendimentos se acentua. Um indicador
significativo é o declínio constante do dinamismo
da economia alemã, outrora uma das mais bem-sucedidas do
mundo.
É
muito difícil ver na União Européia uma alternativa
desejável ao capitalismo americano. Ela se parece mais com
um capitalismo comum manietado por correntes burocráticas
e legais e, portanto, funcionando mal. Não se trata de um
modelo para os países em desenvolvimento.
Paul
Johnson desencoraja os países em desenvolvimento a procurar
imitar os modelos econômicos europeus. Segundo ele, os países
da Europa continental estão sofrendo com sua indecisão
em abraçar o capitalismo. Enquanto a Inglaterra atrai cada
vez mais capital estrangeiro para financiar seu desenvolvimento,
economias como a da França e da Alemanha vivem às
voltas com problemas de desemprego e raquitismo, que as impedem
de crescer num ritmo compatível com suas necessidades.
|
|