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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Steve Jones  
   

O que a genética
não pode fazer

stá na hora de dizer o que a biologia não pode fazer. A terapia gênica – substituir DNA danificado em crianças nascidas com doenças hereditárias – está à vista há dez anos e continua mais ou menos no mesmo lugar. Alcançável, mas não alcançada. Naquela época, pareceu coisa fácil substituir genes defeituosos por uma cópia em boas condições. Infelizmente, a terapia gênica revelou-se muito, mas muito mais complexa do que se imaginava. Sabe-se agora que o DNA é apenas o manual de instruções de um aparelho complicadíssimo, escrito em língua que mal compreendemos. Traduzir-lhe a mensagem para proteínas – os tijolos de uma célula – não tem sido fácil e, apesar do otimismo, a maioria dos geneticistas anda muito silenciosa sobre as chances de realizar a façanha.

Tomemos como exemplo a fibrose cística, a disfunção congênita mais comum de origem européia, que atinge um em cada 2 500 bebês, aproximadamente. Parece um caso simples: a célula não consegue bombear sal direito para fora e para dentro. Em conseqüência, os pulmões se entopem de muco e também não se fabricam enzimas digestivas de forma adequada. Outrora, essa doença matava em poucos anos; hoje, fisioterapia e antibióticos permitem que muitos pacientes sobrevivam por vinte ou mais anos. O gene da fibrose cística foi o primeiro a ser mapeado, mas, apesar de dezenas de tentativas para tratar os pacientes com a versão correta do DNA, nenhuma deu certo. O problema elementar de outra doença celular ainda mais comum, a anemia falciforme – defeito nos glóbulos vermelhos do sangue, que atinge pessoas de origem africana –, é conhecido há cinqüenta anos e existe algum tratamento, mas sem nada a ver com genética.

Esse fracasso em tratar doenças hereditárias como um cirurgião trata de órgãos com defeito é desanimador. Mas é a realidade. E parece que assim será por muito tempo. O mesmo se aplica à idéia do "bebê de projeto", aquele fruto de um "design", em que será possível inserir DNA para alta inteligência e boa aparência e ter o filho com que toda mãe sonha. Afora questões éticas, o fato é que simples coisas práticas o impossibilitam no futuro próximo. Além de não termos a tecnologia para inserir genes nas células de uma criança em desenvolvimento, não saberíamos sequer que genes usar, quando se trata de complexidades como inteligência e beleza. Há formas muito melhores de projetar uma criança do que usando de alta tecnologia, e elas funcionam: boas escolas, mais cuidados com a saúde durante a gravidez e com a nutrição aprimoram tanto a aparência como o cérebro das crianças. Com esses avanços pouco sensacionais mais se pode fazer pelas gerações vindouras do que com os sonhos do geneticista mais empolgado.

Clonagem também tem sido coisa muito exagerada. A idéia de copiar um ser vivo soa ruim – embora sempre tenha parecido natural para mim, filho de um clone, pois minha mãe é gêmea idêntica. Mas quem iria querer fazê-la? Existe a fantasia de um ditador como Saddam Hussein fazer vinte cópias de si mesmo, mas, como a maioria dos ditadores, é de supor que Saddam gostasse igualmente do método barato e agradável de transmitir genes, se necessário, para quarenta mulheres. Um dia, talvez, os pais cujo filho amado morra em um acidente de automóvel desejem uma cópia dele. Mas também isso parece pouco realista e será, de qualquer forma, caríssimo. Mais importante do que a especulação é o fato de que a clonagem é tecnicamente muito difícil. Foram necessárias dezenas de tentativas para clonar Dolly, e o grupo americano que clonou uma espécie rara de vaca selvagem fez mais de 600 tentativas antes de consegui-lo. Há poucos casais dispostos a passar pela dor, pelos gastos e pela angústia mental da clonagem, quando simples sexo faz quase o mesmo serviço.

Tudo isso parece muito negativo, mas há um lado bastante positivo. O que a biologia já pode fazer é notável. A maioria de êxitos está no diagnóstico, não na cura; e o diagnóstico é o primeiro passo do tratamento. Em breve, a genética há de mudar toda a nossa maneira de pensar a medicina.


Ilustrações: Evandro Luiz


Há um aspecto bastante ignorado que pode parecer grosseiro, até brutal, mas é, e continuará a ser por muito tempo, essencial para a ciência da hereditariedade. Trata-se do diagnóstico de doenças antes do nascimento e da interrupção de gravidez que se revele de risco. Muitas doenças congênitas só aparecem quando se unem duas cópias de um gene danificado, uma do pai, outra da mãe. Aqueles que têm uma única cópia não sabem de nada, e há muito mais cópias escondidas em indivíduos normais do que em crianças doentes. No caso da fibrose cística, por exemplo, uma em 2 500 crianças tem a doença, mas, entre as pessoas de ancestralidade européia, uma em cada vinte é portadora do gene. Isso quer dizer que ninguém é perfeito: quase todos os europeus e seus descendentes têm pelo menos um gene que, em cópia dupla, seria letal.

Agora, surge a perspectiva de exames para constatar essa condição antes do nascimento. Centenas de milhares de exames já foram feitos e, com freqüência, os casais que descobrem que o filho está afetado decidem interromper a gravidez. Curioso é que quem se queixa do que a genética não faz aceite tão bem o que ela faz. Nenhum geneticista negará as questões éticas que o diagnóstico pré-natal implica. A muitos preocupa o fato de que o público tolera melhor a interrupção por motivos genéticos do que os próprios geneticistas. Na Inglaterra, um casal em cada dez interromperia a gravidez se descobrisse que faltam dois dedos no feto. Ainda assim, na mesma Inglaterra, apenas um aborto em cinqüenta é feito por motivos genéticos. Os demais resultam de escolhas sociais dos pais. Em grande parte da Europa isso é aceito, malgrado em muitos outros lugares não o seja. O fato é que, legais ou não, tais coisas ocorrem. No mundo inteiro, termina em aborto metade dos nascimentos efetivos. Triste como seja, isso joga nova luz sobre o diagnóstico pré-natal.

Hoje, os vinte e poucos distúrbios mais comuns de um único gene podem ser diagnosticados, e em algumas partes se tem evitado muito sofrimento infantil. Na Sardenha, por exemplo, onde se iniciou há trinta anos um programa de controle da talassemia – doença hereditária do sangue, que era muito comum na ilha –, quase nenhuma criança nasce atualmente com esse problema. Qualquer que seja a ética do controle, quando ele está disponível para pessoas que já viram a angústia de uma doença genética, estas tendem a escolher a interrupção da gravidez, embora, é claro, fosse melhor o tratamento, se houvesse.

Infelizmente, nem todas as doenças congênitas serão fáceis de detectar. Em primeiro lugar, qualquer gene pode ser danificado – mudado – de muitas maneiras. Na fibrose cística, por exemplo, conhecem-se mais de 1 000 mutações diferentes. Cada exame detecta apenas uma delas e, embora algumas das versões de defeito sejam comuns e outras raras, há o perigo constante de o gene crucial passar despercebido. Pior, a natureza do dano varia de lugar para lugar, e um exame que é bastante confiável na Europa Ocidental não o é quando efetuado em pessoas com ancestrais do Oriente Médio.

O exame de genes antes do nascimento pode ser empregado de forma mais positiva. Dezenas de milhares de crianças são concebidas quando esperma e óvulo se encontram numa proveta em vez da maneira tradicional. Agora existe uma chance de escolha. Muitas doenças – a devastadora distrofia muscular, por exemplo – aparecem mais em meninos do que em meninas. Isso porque metade do esperma carrega um grande cromossomo, o X, que, ao encontrar um cromossomo semelhante no óvulo, gera uma criança do sexo feminino. A outra metade leva um cromossomo muito menor, o Y, portador do gene da masculinidade, tão minúsculo que não consegue mascarar os possíveis genes danificados em sua contraparte. Dessa forma, os genes no X mostram seus efeitos nos meninos, embora fiquem geralmente escondidos nas meninas. Agora é fácil separar esperma com um corante que gruda no Y e garantir que nasçam apenas meninas. Com esse recurso, sem dúvida, não vai demorar para que algumas pessoas peçam, por mera preferência, que se produzam meninos.

A genética pode fazer ainda mais. Fertilizar óvulos em proveta não é fácil e são necessárias várias tentativas, o que freqüentemente origina vários embriões em desenvolvimento, dos quais somente alguns serão utilizados. Os embriões iniciais são muito resistentes. Depois de algumas divisões no tubo, uma célula pode ser retirada e seus genes examinados. Se não teve sorte e contiver duas doses do gene danificado, o embrião é rejeitado e uma versão saudável é devolvida ao útero da mãe. Em caso recente ocorrido nos Estados Unidos, os pais foram além. Eles já tinham uma criança com anemia congênita, que só poderia ser tratada com transplante de medula – e não havia doador adequado. O bebê seguinte do casal foi de proveta. Evidentemente, eles verificaram se o embrião não tinha genes da anemia, mas também garantiram que fosse portador de genes compatíveis com as células sanguíneas da primeira filha. Quando o bebê nasceu, colheram sangue do cordão umbilical para tratar de sua irmã mais velha. O feliz casal ficou com duas crianças vivas, em vez de apenas uma morrendo, o que, apesar de argumentos éticos, fez todo sentido para eles.

Toda essa alta tecnologia, maravilhosa como seja, afeta poucas pessoas, aquelas que correm o risco de ter um filho com doenças congênitas graves. Mas isso também apresenta problemas. Que dizer, por exemplo, de uma moléstia como a forma hereditária de câncer do intestino? Ela pode ser diagnosticada antes do nascimento, mas, mesmo sem tratamento, seus portadores podem viver vinte ou mais anos (em 2020 talvez já tenham descoberto a cura) e, com uma cirurgia para remover parte do intestino, ter uma expectativa de vida quase normal. Seria muito fácil interromper a gravidez com base nesse diagnóstico; como evitar que pais preocupados com os genes de depressão ou de diabetes façam o mesmo?

Tudo isso leva a problemas reais criados por essas novas idéias. Onde termina o normal e começa o anormal? Mesmo que aos pais não preocupe o destino de uma criança vinte – ou cinqüenta – anos depois de seu nascimento, que dizer da própria criança? Alguns genes que matam na meia-idade podem agora ser identificados precocemente. O mal de Alzheimer, perda da razão e da personalidade, ataca em geral a partir dos 80 anos de idade. Algumas famílias, no entanto, têm genes que condenam seus receptores a esse triste fado aos 40 ou 50 anos.

Por que fazer o exame? A doença é intratável, por que tirar a paz dos condenados a ela com uma informação que prefeririam não ter? Mas quem decide? Se o fato for ocultado, a pessoa pode casar e ter filhos, numa união destinada ao fracasso devido à doença. Se não for, quem corre o risco não conseguirá um seguro-saúde. Um famoso adesivo de carro diz: "Se a educação é cara, experimente a ignorância". No entanto, a ignorância pode ser melhor.

Obviamente, no mais das vezes, o conhecimento é a opção certa. Muitas doenças têm um componente genético, mas a maioria é também influenciada pelo meio. Determinadas pessoas possuem genes que as predispõem a males cardíacos ou a câncer, e, às vezes, um teste genético as ajuda a mudar de vida antes que seja tarde. Fumantes correm risco de enfisema – de afogar-se na própria saliva quando os pulmões se enchem de fluidos. Muitos, porém, safam-se disso, e morrem então de câncer ou infarto. Contudo, os azarados – um em vinte – que herdam determinado gene quase certamente terão enfisema, a menos que deixem de fumar. Na Escandinávia, toda criança faz exames genéticos quando pequena – e entre os que se descobrem em risco muito menos fumam do que entre os que se saem melhor na loteria genética.

Pode ser aí que a genética mais beneficia, ao alertar-nos dos nossos maiores riscos ambientais. Faz de todos nós indivíduos que podem decidir a que vícios se entregar, conhecendo melhor o perigo. É menos espetacular que terapia gênica, mas é factível e pode, no fim das contas, melhorar muito a saúde humana.

Se você está lendo esta revista no avião ou na sala de espera do consultório, dê uma olhada para a pessoa a sua esquerda e para a que está a sua direita. Saiba que dois de vocês três vão morrer devido aos genes que têm. Se essa noção incomoda, console-se com a lembrança de que há 100 anos as coisas eram bem piores e só um de vocês ainda estaria vivo.

No século XX houve no mundo transformações fantásticas no modo de viver. Mas poucos sabem da mudança ainda maior no modo de morrer. Hoje, a maioria das pessoas chega ao fim por causa do inimigo interno: os genes. Mas, na maior parte da História da humanidade, morríamos de males externos: infecção, fome ou guerra. Era assim na Idade da Pedra e mais ainda quando as cidades surgiram. Antes do século XIX, mais londrinos morriam do que nasciam por ano, e Londres só crescia porque milhares migravam anualmente do campo para a cidade. Nas grandes cidades em desenvolvimento do mundo, esse era o padrão até há bem pouco tempo. A maioria das crianças morria em tenra idade, de causas que não tinham muito a ver com o DNA.

Tudo mudou. Quase todos nós, pela primeira vez na História, corremos o risco de decair antes da morte, e boa parte desse processo diz respeito aos genes. Doença cardíaca, diabetes, doença mental, câncer: tudo, em certa medida, controlado pelo DNA. Quando, enfim, agora conseguimos ler os 3 bilhões de letras do DNA humano, podemos perguntar o que a genética vai fazer a respeito, se é que vai.

A expectativa é grande. Abre-se o jornal e vêem-se matérias repletas de esperanças e pavores sobre biologia. Bebês de projeto, clones, terapia gênica. Promessas – e ameaças – que não se acabam. Por certo, houve grandes avanços. Quando eu era estudante, há trinta anos, a idéia de que poderíamos ler nossa mensagem genética beirava a ficção científica; e faz apenas cinco anos a maioria dos biólogos estava convencida de que a clonagem de mamíferos era impossível. No ano 2000, a seqüência do genoma humano está completa, circula por aí em um único CD, e a ovelha Dolly ganhou a companhia de dezenas de outras ovelhas, vacas, porcas e macacas, algumas das quais condicionadas para produzir proteínas humanas em seu leite. Milhões de hectares de sementes geneticamente modificadas foram plantados e temos até vegetais com genes humanos.

Portanto, é normal que as pessoas se preocupem, pois a genética vai mudar nossa vida, talvez de forma indesejável. De fato, o público tem sido enganado sobre o que a ciência pode ou não pode fazer. Em parte, por culpa dos próprios cientistas. Na última década, eles fizeram muitas previsões e a maioria não se cumpriu. Mas, em outra parte, por uma confusão mais profunda. A genética está – ou parece estar – próxima de questões que atormentam a humanidade há muito tempo, mas que estão fora do âmbito da ciência. Questões de destino, família, identidade racial, de possibilidade de que alguns sejam maus ou bons de nascença. Estão conosco desde muito antes de a ciência aparecer como tal, mas nenhuma envolve DNA. Em certo sentido, o Velho Testamento é o primeiro dos textos de genética, como demonstra a preocupação com famílias, tribos e destino inato.

O DNA é algo notável. Se você fosse completamente achatado em um acidente de carro e todo o DNA de cada célula de seu corpo virasse um fio, teria comprimento para ir e voltar 8 000 vezes até a Lua. Todo esse fio originou-se a partir dos 2 metros e pouco de DNA que estavam no óvulo fertilizado de onde evoluiu você, e como a maior parte dele é cópia da cópia de uma cópia, multiplicada à medida que as células se dividem, há enorme possibilidade de que surjam erros. Quanto mais velha a pessoa, mais erros, e os genes de alguém com 80 anos (ou mesmo 50) têm muitos defeitos, grandes seções faltando e outras alteradas nas letras da mensagem do DNA. Em parte, eis por que as pessoas ficam fracas com a idade. Seus motores moleculares se desgastam, e – tal como num automóvel – é difícil saber o que os remédios podem fazer com o problema. Há muito mais octogenários hoje do que há um século, mas ainda não existe muita gente com 120 anos. Quaisquer que sejam os avanços da genética, o processo de decadência do DNA indica que provavelmente jamais haverá.

Ao fim e ao cabo, o novo mundo dos genes talvez não seja tão diferente daquele que conhecemos. Ninguém viverá para sempre, poucos farão terapia gênica e quase ninguém será clonado. Aliás, em comparação com o que a medicina alcançou nos últimos 100 anos, os avanços trazidos pela genética serão modestos.

A maioria das pessoas não tem idéia de como era a vida há um século: mortalidade infantil em massa, doença infecciosa por toda parte, desnutrição e violência numa escala desconhecida hoje. Nesse curto período, as expectativas se transformaram. Meu palpite é que, nos próximos 100 anos, faremos muitos progressos, que, em princípio, virão de melhorias na dieta, na higiene e até no planejamento urbano, não do DNA. A genética talvez mude algumas vidas, mas terá pouca influência sobre a maioria delas.

É claro que posso estar inteiramente errado, e a beleza de toda ciência, inclusive da genética, é ser imprevisível. Espero estar presente daqui a 100 anos para ver quão enganado andei.

Conclusão

É notável o que a biologia pode fazer, em vista dos avanços de outros ramos da ciência. Mais notável ainda do que ter feito coisas impensáveis é imaginar que ela pode fazer coisas impossíveis. Jones aconselha a não esperar muita pirotecnia das técnicas de manipulação genética, mas adianta que os campos do diagnóstico e da prevenção vão dar um salto nos próximos anos, com implicações positivas na melhoria da saúde e perturbadoras no campo da privacidade e da ética.

 

 
   
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