O
que a genética
não pode fazer
stá
na hora de dizer o que a biologia não pode fazer. A terapia
gênica substituir DNA danificado em crianças
nascidas com doenças hereditárias está
à vista há dez anos e continua mais ou menos no mesmo
lugar. Alcançável, mas não alcançada.
Naquela época, pareceu coisa fácil substituir genes
defeituosos por uma cópia em boas condições.
Infelizmente, a terapia gênica revelou-se muito, mas muito
mais complexa do que se imaginava. Sabe-se agora que o DNA é
apenas o manual de instruções de um aparelho complicadíssimo,
escrito em língua que mal compreendemos. Traduzir-lhe a mensagem
para proteínas os tijolos de uma célula
não tem sido fácil e, apesar do otimismo, a maioria
dos geneticistas anda muito silenciosa sobre as chances de realizar
a façanha.
Tomemos
como exemplo a fibrose cística, a disfunção
congênita mais comum de origem européia, que atinge
um em cada 2 500 bebês, aproximadamente. Parece um caso simples:
a célula não consegue bombear sal direito para fora
e para dentro. Em conseqüência, os pulmões se
entopem de muco e também não se fabricam enzimas digestivas
de forma adequada. Outrora, essa doença matava em poucos
anos; hoje, fisioterapia e antibióticos permitem que muitos
pacientes sobrevivam por vinte ou mais anos. O gene da fibrose cística
foi o primeiro a ser mapeado, mas, apesar de dezenas de tentativas
para tratar os pacientes com a versão correta do DNA, nenhuma
deu certo. O problema elementar de outra doença celular ainda
mais comum, a anemia falciforme defeito nos glóbulos
vermelhos do sangue, que atinge pessoas de origem africana ,
é conhecido há cinqüenta anos e existe algum
tratamento, mas sem nada a ver com genética.
Esse fracasso em tratar doenças hereditárias como
um cirurgião trata de órgãos com defeito é
desanimador. Mas é a realidade. E parece que assim será
por muito tempo. O mesmo se aplica à idéia do "bebê
de projeto", aquele fruto de um "design", em que será possível
inserir DNA para alta inteligência e boa aparência e
ter o filho com que toda mãe sonha. Afora questões
éticas, o fato é que simples coisas práticas
o impossibilitam no futuro próximo. Além de não
termos a tecnologia para inserir genes nas células de uma
criança em desenvolvimento, não saberíamos
sequer que genes usar, quando se trata de complexidades como inteligência
e beleza. Há formas muito melhores de projetar uma criança
do que usando de alta tecnologia, e elas funcionam: boas escolas,
mais cuidados com a saúde durante a gravidez e com a nutrição
aprimoram tanto a aparência como o cérebro das crianças.
Com esses avanços pouco sensacionais mais se pode fazer pelas
gerações vindouras do que com os sonhos do geneticista
mais empolgado.
Clonagem também tem sido coisa muito exagerada. A idéia
de copiar um ser vivo soa ruim embora sempre tenha parecido
natural para mim, filho de um clone, pois minha mãe é
gêmea idêntica. Mas quem iria querer fazê-la?
Existe a fantasia de um ditador como Saddam Hussein fazer vinte
cópias de si mesmo, mas, como a maioria dos ditadores, é
de supor que Saddam gostasse igualmente do método barato
e agradável de transmitir genes, se necessário, para
quarenta mulheres. Um dia, talvez, os pais cujo filho amado morra
em um acidente de automóvel desejem uma cópia dele.
Mas também isso parece pouco realista e será, de qualquer
forma, caríssimo. Mais importante do que a especulação
é o fato de que a clonagem é tecnicamente muito difícil.
Foram necessárias dezenas de tentativas para clonar Dolly,
e o grupo americano que clonou uma espécie rara de vaca selvagem
fez mais de 600 tentativas antes de consegui-lo. Há poucos
casais dispostos a passar pela dor, pelos gastos e pela angústia
mental da clonagem, quando simples sexo faz quase o mesmo serviço.
Tudo isso parece muito negativo, mas há um lado bastante
positivo. O que a biologia já pode fazer é notável.
A maioria de êxitos está no diagnóstico, não
na cura; e o diagnóstico é o primeiro passo do tratamento.
Em breve, a genética há de mudar toda a nossa maneira
de pensar a medicina.
Ilustrações: Evandro Luiz
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Há um aspecto bastante ignorado que pode parecer grosseiro,
até brutal, mas é, e continuará a ser por muito
tempo, essencial para a ciência da hereditariedade. Trata-se
do diagnóstico de doenças antes do nascimento e da
interrupção de gravidez que se revele de risco. Muitas
doenças congênitas só aparecem quando se unem
duas cópias de um gene danificado, uma do pai, outra da mãe.
Aqueles que têm uma única cópia não sabem
de nada, e há muito mais cópias escondidas em indivíduos
normais do que em crianças doentes. No caso da fibrose cística,
por exemplo, uma em 2 500 crianças tem a doença, mas,
entre as pessoas de ancestralidade européia, uma em cada
vinte é portadora do gene. Isso quer dizer que ninguém
é perfeito: quase todos os europeus e seus descendentes têm
pelo menos um gene que, em cópia dupla, seria letal.
Agora, surge a perspectiva de exames para constatar essa condição
antes do nascimento. Centenas de milhares de exames já foram
feitos e, com freqüência, os casais que descobrem que
o filho está afetado decidem interromper a gravidez. Curioso
é que quem se queixa do que a genética não
faz aceite tão bem o que ela faz. Nenhum geneticista negará
as questões éticas que o diagnóstico pré-natal
implica. A muitos preocupa o fato de que o público tolera
melhor a interrupção por motivos genéticos
do que os próprios geneticistas. Na Inglaterra, um casal
em cada dez interromperia a gravidez se descobrisse que faltam dois
dedos no feto. Ainda assim, na mesma Inglaterra, apenas um aborto
em cinqüenta é feito por motivos genéticos. Os
demais resultam de escolhas sociais dos pais. Em grande parte da
Europa isso é aceito, malgrado em muitos outros lugares não
o seja. O fato é que, legais ou não, tais coisas ocorrem.
No mundo inteiro, termina em aborto metade dos nascimentos efetivos.
Triste como seja, isso joga nova luz sobre o diagnóstico
pré-natal.
Hoje, os vinte e poucos distúrbios mais comuns de um único
gene podem ser diagnosticados, e em algumas partes se tem evitado
muito sofrimento infantil. Na Sardenha, por exemplo, onde se iniciou
há trinta anos um programa de controle da talassemia
doença hereditária do sangue, que era muito comum
na ilha , quase nenhuma criança nasce atualmente com
esse problema. Qualquer que seja a ética do controle, quando
ele está disponível para pessoas que já viram
a angústia de uma doença genética, estas tendem
a escolher a interrupção da gravidez, embora, é
claro, fosse melhor o tratamento, se houvesse.
Infelizmente,
nem todas as doenças congênitas serão fáceis
de detectar. Em primeiro lugar, qualquer gene pode ser danificado
mudado de muitas maneiras. Na fibrose cística,
por exemplo, conhecem-se mais de 1 000 mutações diferentes.
Cada exame detecta apenas uma delas e, embora algumas das versões
de defeito sejam comuns e outras raras, há o perigo constante
de o gene crucial passar despercebido. Pior, a natureza do dano
varia de lugar para lugar, e um exame que é bastante confiável
na Europa Ocidental não o é quando efetuado em pessoas
com ancestrais do Oriente Médio.
O exame de genes antes do nascimento pode ser empregado de forma
mais positiva. Dezenas de milhares de crianças são
concebidas quando esperma e óvulo se encontram numa proveta
em vez da maneira tradicional. Agora existe uma chance de escolha.
Muitas doenças a devastadora distrofia muscular, por
exemplo aparecem mais em meninos do que em meninas. Isso
porque metade do esperma carrega um grande cromossomo, o X, que,
ao encontrar um cromossomo semelhante no óvulo, gera uma
criança do sexo feminino. A outra metade leva um cromossomo
muito menor, o Y, portador do gene da masculinidade, tão
minúsculo que não consegue mascarar os possíveis
genes danificados em sua contraparte. Dessa forma, os genes no X
mostram seus efeitos nos meninos, embora fiquem geralmente escondidos
nas meninas. Agora é fácil separar esperma com um
corante que gruda no Y e garantir que nasçam apenas meninas.
Com esse recurso, sem dúvida, não vai demorar para
que algumas pessoas peçam, por mera preferência, que
se produzam meninos.
A genética pode fazer ainda mais. Fertilizar óvulos
em proveta não é fácil e são necessárias
várias tentativas, o que freqüentemente origina vários
embriões em desenvolvimento, dos quais somente alguns serão
utilizados. Os embriões iniciais são muito resistentes.
Depois de algumas divisões no tubo, uma célula pode
ser retirada e seus genes examinados. Se não teve sorte e
contiver duas doses do gene danificado, o embrião é
rejeitado e uma versão saudável é devolvida
ao útero da mãe. Em caso recente ocorrido nos Estados
Unidos, os pais foram além. Eles já tinham uma criança
com anemia congênita, que só poderia ser tratada com
transplante de medula e não havia doador adequado.
O bebê seguinte do casal foi de proveta. Evidentemente, eles
verificaram se o embrião não tinha genes da anemia,
mas também garantiram que fosse portador de genes compatíveis
com as células sanguíneas da primeira filha. Quando
o bebê nasceu, colheram sangue do cordão umbilical
para tratar de sua irmã mais velha. O feliz casal ficou com
duas crianças vivas, em vez de apenas uma morrendo, o que,
apesar de argumentos éticos, fez todo sentido para eles.
Toda essa alta tecnologia, maravilhosa como seja, afeta poucas pessoas,
aquelas que correm o risco de ter um filho com doenças congênitas
graves. Mas isso também apresenta problemas. Que dizer, por
exemplo, de uma moléstia como a forma hereditária
de câncer do intestino? Ela pode ser diagnosticada antes do
nascimento, mas, mesmo sem tratamento, seus portadores podem viver
vinte ou mais anos (em 2020 talvez já tenham descoberto a
cura) e, com uma cirurgia para remover parte do intestino, ter uma
expectativa de vida quase normal. Seria muito fácil interromper
a gravidez com base nesse diagnóstico; como evitar que pais
preocupados com os genes de depressão ou de diabetes façam
o mesmo?
Tudo
isso leva a problemas reais criados por essas novas idéias.
Onde termina o normal e começa o anormal? Mesmo que aos pais
não preocupe o destino de uma criança vinte
ou cinqüenta anos depois de seu nascimento, que dizer
da própria criança? Alguns genes que matam na meia-idade
podem agora ser identificados precocemente. O mal de Alzheimer,
perda da razão e da personalidade, ataca em geral a partir
dos 80 anos de idade. Algumas famílias, no entanto, têm
genes que condenam seus receptores a esse triste fado aos 40 ou
50 anos.
Por que fazer o exame? A doença é intratável,
por que tirar a paz dos condenados a ela com uma informação
que prefeririam não ter? Mas quem decide? Se o fato for ocultado,
a pessoa pode casar e ter filhos, numa união destinada ao
fracasso devido à doença. Se não for, quem
corre o risco não conseguirá um seguro-saúde.
Um famoso adesivo de carro diz: "Se a educação é
cara, experimente a ignorância". No entanto, a ignorância
pode ser melhor.
Obviamente,
no mais das vezes, o conhecimento é a opção
certa. Muitas doenças têm um componente genético,
mas a maioria é também influenciada pelo meio. Determinadas
pessoas possuem genes que as predispõem a males cardíacos
ou a câncer, e, às vezes, um teste genético
as ajuda a mudar de vida antes que seja tarde. Fumantes correm risco
de enfisema de afogar-se na própria saliva quando
os pulmões se enchem de fluidos. Muitos, porém, safam-se
disso, e morrem então de câncer ou infarto. Contudo,
os azarados um em vinte que herdam determinado gene
quase certamente terão enfisema, a menos que deixem de fumar.
Na Escandinávia, toda criança faz exames genéticos
quando pequena e entre os que se descobrem em risco muito
menos fumam do que entre os que se saem melhor na loteria genética.
Pode ser aí que a genética mais beneficia, ao alertar-nos
dos nossos maiores riscos ambientais. Faz de todos nós indivíduos
que podem decidir a que vícios se entregar, conhecendo melhor
o perigo. É menos espetacular que terapia gênica, mas
é factível e pode, no fim das contas, melhorar muito
a saúde humana.
Se você está lendo esta revista no avião ou
na sala de espera do consultório, dê uma olhada para
a pessoa a sua esquerda e para a que está a sua direita.
Saiba que dois de vocês três vão morrer devido
aos genes que têm. Se essa noção incomoda, console-se
com a lembrança de que há 100 anos as coisas eram
bem piores e só um de vocês ainda estaria vivo.
No século XX houve no mundo transformações
fantásticas no modo de viver. Mas poucos sabem da mudança
ainda maior no modo de morrer. Hoje, a maioria das pessoas chega
ao fim por causa do inimigo interno: os genes. Mas, na maior parte
da História da humanidade, morríamos de males externos:
infecção, fome ou guerra. Era assim na Idade da Pedra
e mais ainda quando as cidades surgiram. Antes do século
XIX, mais londrinos morriam do que nasciam por ano, e Londres só
crescia porque milhares migravam anualmente do campo para a cidade.
Nas grandes cidades em desenvolvimento do mundo, esse era o padrão
até há bem pouco tempo. A maioria das crianças
morria em tenra idade, de causas que não tinham muito a ver
com o DNA.
Tudo mudou. Quase todos nós, pela primeira vez na História,
corremos o risco de decair antes da morte, e boa parte desse processo
diz respeito aos genes. Doença cardíaca, diabetes,
doença mental, câncer: tudo, em certa medida, controlado
pelo DNA. Quando, enfim, agora conseguimos ler os 3 bilhões
de letras do DNA humano, podemos perguntar o que a genética
vai fazer a respeito, se é que vai.
A expectativa é grande. Abre-se o jornal e vêem-se
matérias repletas de esperanças e pavores sobre biologia.
Bebês de projeto, clones, terapia gênica. Promessas
e ameaças que não se acabam. Por certo,
houve grandes avanços. Quando eu era estudante, há
trinta anos, a idéia de que poderíamos ler nossa mensagem
genética beirava a ficção científica;
e faz apenas cinco anos a maioria dos biólogos estava convencida
de que a clonagem de mamíferos era impossível. No
ano 2000, a seqüência do genoma humano está completa,
circula por aí em um único CD, e a ovelha Dolly ganhou
a companhia de dezenas de outras ovelhas, vacas, porcas e macacas,
algumas das quais condicionadas para produzir proteínas humanas
em seu leite. Milhões de hectares de sementes geneticamente
modificadas foram plantados e temos até vegetais com genes
humanos.
Portanto, é normal que as pessoas se preocupem, pois a genética
vai mudar nossa vida, talvez de forma indesejável. De fato,
o público tem sido enganado sobre o que a ciência pode
ou não pode fazer. Em parte, por culpa dos próprios
cientistas. Na última década, eles fizeram muitas
previsões e a maioria não se cumpriu. Mas, em outra
parte, por uma confusão mais profunda. A genética
está ou parece estar próxima de questões
que atormentam a humanidade há muito tempo, mas que estão
fora do âmbito da ciência. Questões de destino,
família, identidade racial, de possibilidade de que alguns
sejam maus ou bons de nascença. Estão conosco desde
muito antes de a ciência aparecer como tal, mas nenhuma envolve
DNA. Em certo sentido, o Velho Testamento é o primeiro dos
textos de genética, como demonstra a preocupação
com famílias, tribos e destino inato.
O
DNA é algo notável. Se você fosse completamente
achatado em um acidente de carro e todo o DNA de cada célula
de seu corpo virasse um fio, teria comprimento para ir e voltar
8 000 vezes até a Lua. Todo esse fio originou-se a partir
dos 2 metros e pouco de DNA que estavam no óvulo fertilizado
de onde evoluiu você, e como a maior parte dele é cópia
da cópia de uma cópia, multiplicada à medida
que as células se dividem, há enorme possibilidade
de que surjam erros. Quanto mais velha a pessoa, mais erros, e os
genes de alguém com 80 anos (ou mesmo 50) têm muitos
defeitos, grandes seções faltando e outras alteradas
nas letras da mensagem do DNA. Em parte, eis por que as pessoas
ficam fracas com a idade. Seus motores moleculares se desgastam,
e tal como num automóvel é difícil
saber o que os remédios podem fazer com o problema. Há
muito mais octogenários hoje do que há um século,
mas ainda não existe muita gente com 120 anos. Quaisquer
que sejam os avanços da genética, o processo de decadência
do DNA indica que provavelmente jamais haverá.
Ao fim e ao cabo, o novo mundo dos genes talvez não seja
tão diferente daquele que conhecemos. Ninguém viverá
para sempre, poucos farão terapia gênica e quase ninguém
será clonado. Aliás, em comparação com
o que a medicina alcançou nos últimos 100 anos, os
avanços trazidos pela genética serão modestos.
A maioria das pessoas não tem idéia de como era a
vida há um século: mortalidade infantil em massa,
doença infecciosa por toda parte, desnutrição
e violência numa escala desconhecida hoje. Nesse curto período,
as expectativas se transformaram. Meu palpite é que, nos
próximos 100 anos, faremos muitos progressos, que, em princípio,
virão de melhorias na dieta, na higiene e até no planejamento
urbano, não do DNA. A genética talvez mude algumas
vidas, mas terá pouca influência sobre a maioria delas.
É
claro que posso estar inteiramente errado, e a beleza de toda ciência,
inclusive da genética, é ser imprevisível.
Espero estar presente daqui a 100 anos para ver quão enganado
andei.
É
notável o que a biologia pode fazer, em vista dos avanços
de outros ramos da ciência. Mais notável ainda do que
ter feito coisas impensáveis é imaginar que ela pode
fazer coisas impossíveis. Jones aconselha a não esperar
muita pirotecnia das técnicas de manipulação
genética, mas adianta que os campos do diagnóstico
e da prevenção vão dar um salto nos próximos
anos, com implicações positivas na melhoria da saúde
e perturbadoras no campo da privacidade e da ética.
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