O
futuro da Rússia
nalisando
a Rússia, há que distinguir duas linhagens em sua
cultura política: aquela herdada do czarismo e outra introduzida
pelo comunismo. Elas não conflitam. Ao contrário,
reforçam-se mutuamente. Por infelicidade, nenhuma favorece
a integração da Rússia ao mundo moderno.
O
primeiro fator a destacar no legado czarista é a religião
ortodoxa da Rússia. Isso talvez surpreenda os que cresceram
no espírito laico moderno, mas a laicidade é um fenômeno
relativamente novo. Tem, no máximo, um ou dois séculos
de idade. Já a influência religiosa data de milhares
de anos. Ao adotar o cristianismo de Bizâncio, e não
o de Roma, a Rússia isolou-se culturalmente. Para ela, a
Europa Ocidental, tanto católica como protestante, era herética,
e os países muçulmanos e budistas com que lindava
ao sul e a leste, pagãos. Esse sentimento de superioridade
foi explorado pelos bolcheviques, em cuja pregação
o povo russo estava fadado a conduzir a humanidade para a era da
liberdade e da igualdade perfeitas e continua entranhado
na mentalidade russa. Pesquisas de opinião feitas na década
de 90 revelaram que mais de dois terços dos russos vêem
o Ocidente como inimigo e quase a mesma porcentagem quer que o país
refugue as influências ocidentais e siga sua "própria
via".
Esses
dados indicam profunda hostilidade aos valores ocidentais
especificamente a democracia e o capitalismo e demonstram
o anseio persistente de a Rússia seguir um caminho diferente,
embora não se saiba em que consiste tal via. Isso resulta
num nacionalismo exacerbado, segundo o qual a Rússia tem
direito histórico à condição de "grande
potência". A admiração que o falecido regime
soviético ainda desperta em sua pátria deve-se principalmente
ao fato de que tornou o país respeitado, temido até,
pelo resto do mundo. O reparo principal à democracia pós-soviética
é o de tê-lo destituído dessa influência.
Outro
legado do passado czarista é a tradição de
regime autocrático. Com exceção de um breve
intervalo, a Rússia foi governada durante os sete séculos
de sua existência por monarcas que não só detinham
um poder legislativo e executivo ilimitado como possuíam
o povo e a riqueza da nação, literalmente. Até
o final do século XVIII e, em alguns aspectos, até
o começo do século XX, a Rússia foi um "despotismo
oriental". O comunismo encaixou-se nessa tradição
ao assumir o controle total dos recursos humanos e materiais do
país. Lenin expressou a essência do totalitarismo quando
definiu a "ditadura do proletariado" como o "poder que não
é limitado por coisa alguma, por nenhuma lei, que não
é constrangido por absolutamente nenhuma regra, baseado diretamente
na coerção".
Essa
vivência histórica teve efeitos colaterais. De um lado,
a propriedade particular fonte da prosperidade e da liberdade
chegou tarde à Rússia e jamais deitou raízes
profundas. Por outro, o direito, que se cria historicamente em relação
íntima com a propriedade, também teve uma evolução
débil. Tradicionalmente, a lei na Rússia não
é considerada um conjunto de normas que se impõe tanto
a governantes quanto a governados, mas apenas um meio de manter
a ordem. Até hoje, poucos russos concebem que seus governantes
estejam sujeitos a limitações legais. Toda a noção
de direitos humanos é também estranha à cultura
política russa.
O
bolchevismo foi uma adaptação do marxismo às
tradições russas. No Ocidente, o marxismo evoluiu
rapidamente, primeiro para a social-democracia, depois para a ideologia
do Estado de bem-estar social. As tradições de democracia,
o império da lei e a propriedade privada estavam enraizadas
demais para sucumbir ao marxismo ortodoxo. Na Rússia, porém,
como em outros países do Terceiro Mundo, o marxismo se despiu
rapidamente de seus elementos liberais e, adaptando-se às
tradições antidemocráticas, produziu o totalitarismo.
Esses
fatos históricos levam à conclusão de que a
Rússia enfrenta enormes dificuldades ao tentar progredir
rumo à democracia e à economia de livre mercado. Eles
explicam por que seu avanço nessa direção tem
sido muito mais lento que o da Europa Oriental: a Polônia,
a Hungria, a República Checa compartilham valores ocidentais
que meio século de comunismo não foi capaz de suplantar.
A euforia do começo dos anos 90, quando a Rússia parecia
disposta a dar as costas ao passado e entrar para a comunidade ocidental,
durou apenas três ou quatro anos. No meio da década,
iniciou-se um forte refluxo e a principal bandeira política
de hoje não é mais a democracia, mas a "autoridade
estatal forte". Pouco antes de ser nomeado presidente interino,
no final do ano passado, Putin declarou a democracia inadequada
para seu país. Os russos, explicou ele, "querem a restauração
do papel orientador e regulador do Estado. Não estão
em condições de abandonar a dependência tradicional
do Estado e de agir com autoconfiança", por isso o país
precisa de "um sistema de ampla regulamentação estatal
da economia". Essas declarações deram-lhe o apoio
da maioria da população quando, depois, foi candidato
a presidente.
Não
devemos esquecer que a revolução anticomunista de
1991 se fez apenas parcialmente. O Partido Comunista foi desalojado
do poder, mas o comunismo e seu legado não se viram rejeitados.
Nenhum dos responsáveis pelos crimes hediondos do regime
soviético enfrentou os tribunais. Na verdade, a maioria continua
a levar uma vida confortável e respeitável. De acordo
com pesquisas de opinião, os russos consideram Lenin a segunda
maior figura da História, perdendo apenas para Pedro, o Grande
(Stalin ocupa o quarto lugar). O corpo de Lenin ainda se expõe
no mausoléu que Stalin construiu para ele, e suas estátuas
estão por toda parte, inclusive no centro de Moscou. Basta
comparar essa situação com o que ocorre na República
Federal da Alemanha para compreender quão imperfeita foi
a libertação da Rússia de seu passado totalitário.
Com
base nessas constatações, podem-se fazer algumas previsões
plausíveis para a Rússia: o que é possível,
o que é provável, o que é improvável
e o que é impossível.
Acredito
que um retorno ao comunismo está totalmente fora de questão.
Antes de tudo, só uma minoria dos cidadãos
em geral, os mais velhos e menos instruídos tem saudade
do regime anterior, porque este lhe garantia um padrão mínimo
de vida e lhe dava o sentimento de pertencer a uma nação
de classe internacional. Aliás, enquanto cerca de 30% da
população diz que vivia melhor nos tempos da União
Soviética, só metade desse número gostaria
de ver o comunismo restaurado. Para trazê-lo de volta, seria
necessária uma expropriação imensa da riqueza
nacional, que, nos últimos dez anos, passou para mãos
particulares. O governo russo simplesmente não tem o poder
para reencenar a revolução leninista-stalinista e,
sem ela, o retorno ao comunismo não é possível.
O
estabelecimento na Rússia de uma democracia plena e de uma
economia de livre mercado, com tudo que as acompanha, embora não
seja impossível, é improvável pelos motivos
já expostos: a cultura política do país não
comporta esse tipo de regime. Serão necessárias pelo
menos duas ou três gerações para que se produza
uma maioria que não considere a Rússia um caso único
e o Ocidente um inimigo.
Resta,
portanto, a perspectiva de uma Rússia que vai apanhar muito
tempo para chegar a um regime de quase democracia e de pseudocapitalismo.
Esse me parece o cenário mais provável e aquele com
que o resto do mundo pode conviver. Apesar de todos os fracassos
em cumprir as exigências da democracia, a Rússia mudou
muito em dez anos. Existe agora um sistema multipartidário
e realizam-se eleições para o Legislativo e o Executivo.
O grosso da riqueza da nação está com os cidadãos:
mais de três quartos do PIB russo vêm hoje do setor
privado. Há liberdade de expressão, liberdade de imprensa,
liberdade para viajar. O Judiciário adquire aos poucos certo
grau de independência. É verdade que essas conquistas
têm existência precária, mas, ainda assim, o
país avançou muito, desde a época em que o
governo nomeava todos os dirigentes, desconsiderava todos os procedimentos
legais e impunha um monopólio sobre a opinião pública.
Um
bom exemplo da mudança que ocorreu na última década
é a reação ao recente desastre do submarino
Kursk. Os militares, na tradição de que tudo
o que estava relacionado com suas atividades era segredo de Estado,
fizeram inicialmente silêncio sobre o afundamento do submarino
e, depois, mentiram sobre o acontecido. O presidente Putin, criado
na mesma tradição, não pensou em interromper
suas férias à beira do Mar Negro. Dez anos atrás
eles poderiam sair ilesos. Desta vez a onda de indignação
pública que varreu o país foi tão forte que
obrigou Putin e seus almirantes a admitir a verdade e concordar
em pedir ajuda externa para as operações de resgate.
Foi um incidente em que a velha e a nova mentalidade colidiram,
e a nova ganhou: está estabelecido que o governo responde
por seus atos.
A
maior ameaça ao progresso da democracia na Rússia
vem do nacionalismo e da aspiração ao status de grande
potência. A segunda campanha da Chechênia revelou como
é fácil arregimentar o povo russo apelando à
xenofobia e ao chauvinismo. A política interna divide a população,
mas as ameaças externas, reais ou imaginárias, unem
o país, e, portanto, há uma grande tentação
de brandir inimigos de fora.
Isso
é perigoso por dois motivos. Primeiro, dá às
autoridades uma desculpa para silenciar dissidentes. Há pouco
tempo, o porta-voz de Putin para assuntos chechênios afirmou
fazendo clara referência à Media-Most, empresa
de comunicações que criticou a campanha militar em
seus jornais, rádios e tevês que, quando o governo
empreende uma missão, é dever dos cidadãos
apoiá-lo. Esse raciocínio justificou a invasão
da sede da empresa, as tentativas de assumir seu controle e a prisão
de seu dono. Um governo que defronta com descontentamentos é
fortemente tentado a levantar um fantasma de perigo externo com
que silenciar a oposição.
O
segundo motivo por que o nacionalismo representa um perigo para
a Rússia é desviá-la da tarefa mais urgente,
a de erigir uma sociedade fundada na lei e construir uma economia
moderna. A fantasia russa de grande potência deriva, em larga
medida, do feito psicológico de que a Rússia tem um
território imenso é o maior país do
mundo. Não importa que grande parte desse território
seja inabitada e inabitável: o mapa parece mostrar a Rússia
dominando o globo. Porém, no mundo moderno, não é
o tamanho que determina a condição de grande potência,
mas a estabilidade interna e a produtividade da economia. Até
agora a Rússia não tem nem uma nem outra. Suas tentativas
patéticas de reivindicar essa posição, ameaçando
fazer uma "aliança estratégica" com a China, ou tentando
competir na corrida espacial, ou ainda construindo um par de submarinos
muito avançados, apenas sublinham quão destituído
de poder mundial está o país. Seu PIB é menor
que a capitalização de uma única grande empresa
americana, como a Wal-Mart. A expectativa de vida do povo equivale
à de um país atrasado do Terceiro Mundo: morrem mais
russos por ano do que nascem. A infra-estrutura nacional está
desmoronando.
Esses
são os problemas que a Rússia deve enfrentar. Eles
exigem que o país concentre atenção e todas
as energias dentro de suas fronteiras, sem se envolver na política
dos Bálcãs ou fingir de ator importante no Oriente
Médio. Há alguns indícios de que Putin e os
funcionários a sua volta, apesar de todas as limitações
intelectuais decorrentes de seu treinamento soviético, começam
a entender isso. O fato enseja alguma modesta esperança.
Com
base nas constatações que apresenta, o historiador
Richard Pipes arrisca-se a fazer o que considera algumas previsões
plausíveis para a Rússia. Ele se estende sobre o que
é possível, o que é provável, o que
considera improvável e até impossível de ocorrer
no país de Vladimir Putin nos próximos anos. Ele sustenta
que a Rússia vai encontrar seu ponto de equilíbrio
num espectro em que são altamente improváveis tanto
a volta do comunismo quanto a adesão do país à
economia de mercado plena, sob a égide da democracia.
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