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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Richard Pipes  
   

O futuro da Rússia

nalisando a Rússia, há que distinguir duas linhagens em sua cultura política: aquela herdada do czarismo e outra introduzida pelo comunismo. Elas não conflitam. Ao contrário, reforçam-se mutuamente. Por infelicidade, nenhuma favorece a integração da Rússia ao mundo moderno.

O primeiro fator a destacar no legado czarista é a religião ortodoxa da Rússia. Isso talvez surpreenda os que cresceram no espírito laico moderno, mas a laicidade é um fenômeno relativamente novo. Tem, no máximo, um ou dois séculos de idade. Já a influência religiosa data de milhares de anos. Ao adotar o cristianismo de Bizâncio, e não o de Roma, a Rússia isolou-se culturalmente. Para ela, a Europa Ocidental, tanto católica como protestante, era herética, e os países muçulmanos e budistas com que lindava ao sul e a leste, pagãos. Esse sentimento de superioridade foi explorado pelos bolcheviques, em cuja pregação o povo russo estava fadado a conduzir a humanidade para a era da liberdade e da igualdade perfeitas – e continua entranhado na mentalidade russa. Pesquisas de opinião feitas na década de 90 revelaram que mais de dois terços dos russos vêem o Ocidente como inimigo e quase a mesma porcentagem quer que o país refugue as influências ocidentais e siga sua "própria via".

Esses dados indicam profunda hostilidade aos valores ocidentais – especificamente a democracia e o capitalismo – e demonstram o anseio persistente de a Rússia seguir um caminho diferente, embora não se saiba em que consiste tal via. Isso resulta num nacionalismo exacerbado, segundo o qual a Rússia tem direito histórico à condição de "grande potência". A admiração que o falecido regime soviético ainda desperta em sua pátria deve-se principalmente ao fato de que tornou o país respeitado, temido até, pelo resto do mundo. O reparo principal à democracia pós-soviética é o de tê-lo destituído dessa influência.

Outro legado do passado czarista é a tradição de regime autocrático. Com exceção de um breve intervalo, a Rússia foi governada durante os sete séculos de sua existência por monarcas que não só detinham um poder legislativo e executivo ilimitado como possuíam o povo e a riqueza da nação, literalmente. Até o final do século XVIII e, em alguns aspectos, até o começo do século XX, a Rússia foi um "despotismo oriental". O comunismo encaixou-se nessa tradição ao assumir o controle total dos recursos humanos e materiais do país. Lenin expressou a essência do totalitarismo quando definiu a "ditadura do proletariado" como o "poder que não é limitado por coisa alguma, por nenhuma lei, que não é constrangido por absolutamente nenhuma regra, baseado diretamente na coerção".

Essa vivência histórica teve efeitos colaterais. De um lado, a propriedade particular – fonte da prosperidade e da liberdade – chegou tarde à Rússia e jamais deitou raízes profundas. Por outro, o direito, que se cria historicamente em relação íntima com a propriedade, também teve uma evolução débil. Tradicionalmente, a lei na Rússia não é considerada um conjunto de normas que se impõe tanto a governantes quanto a governados, mas apenas um meio de manter a ordem. Até hoje, poucos russos concebem que seus governantes estejam sujeitos a limitações legais. Toda a noção de direitos humanos é também estranha à cultura política russa.

O bolchevismo foi uma adaptação do marxismo às tradições russas. No Ocidente, o marxismo evoluiu rapidamente, primeiro para a social-democracia, depois para a ideologia do Estado de bem-estar social. As tradições de democracia, o império da lei e a propriedade privada estavam enraizadas demais para sucumbir ao marxismo ortodoxo. Na Rússia, porém, como em outros países do Terceiro Mundo, o marxismo se despiu rapidamente de seus elementos liberais e, adaptando-se às tradições antidemocráticas, produziu o totalitarismo.

Esses fatos históricos levam à conclusão de que a Rússia enfrenta enormes dificuldades ao tentar progredir rumo à democracia e à economia de livre mercado. Eles explicam por que seu avanço nessa direção tem sido muito mais lento que o da Europa Oriental: a Polônia, a Hungria, a República Checa compartilham valores ocidentais que meio século de comunismo não foi capaz de suplantar. A euforia do começo dos anos 90, quando a Rússia parecia disposta a dar as costas ao passado e entrar para a comunidade ocidental, durou apenas três ou quatro anos. No meio da década, iniciou-se um forte refluxo e a principal bandeira política de hoje não é mais a democracia, mas a "autoridade estatal forte". Pouco antes de ser nomeado presidente interino, no final do ano passado, Putin declarou a democracia inadequada para seu país. Os russos, explicou ele, "querem a restauração do papel orientador e regulador do Estado. Não estão em condições de abandonar a dependência tradicional do Estado e de agir com autoconfiança", por isso o país precisa de "um sistema de ampla regulamentação estatal da economia". Essas declarações deram-lhe o apoio da maioria da população quando, depois, foi candidato a presidente.

Não devemos esquecer que a revolução anticomunista de 1991 se fez apenas parcialmente. O Partido Comunista foi desalojado do poder, mas o comunismo e seu legado não se viram rejeitados. Nenhum dos responsáveis pelos crimes hediondos do regime soviético enfrentou os tribunais. Na verdade, a maioria continua a levar uma vida confortável e respeitável. De acordo com pesquisas de opinião, os russos consideram Lenin a segunda maior figura da História, perdendo apenas para Pedro, o Grande (Stalin ocupa o quarto lugar). O corpo de Lenin ainda se expõe no mausoléu que Stalin construiu para ele, e suas estátuas estão por toda parte, inclusive no centro de Moscou. Basta comparar essa situação com o que ocorre na República Federal da Alemanha para compreender quão imperfeita foi a libertação da Rússia de seu passado totalitário.

Com base nessas constatações, podem-se fazer algumas previsões plausíveis para a Rússia: o que é possível, o que é provável, o que é improvável e o que é impossível.

Acredito que um retorno ao comunismo está totalmente fora de questão. Antes de tudo, só uma minoria dos cidadãos – em geral, os mais velhos e menos instruídos – tem saudade do regime anterior, porque este lhe garantia um padrão mínimo de vida e lhe dava o sentimento de pertencer a uma nação de classe internacional. Aliás, enquanto cerca de 30% da população diz que vivia melhor nos tempos da União Soviética, só metade desse número gostaria de ver o comunismo restaurado. Para trazê-lo de volta, seria necessária uma expropriação imensa da riqueza nacional, que, nos últimos dez anos, passou para mãos particulares. O governo russo simplesmente não tem o poder para reencenar a revolução leninista-stalinista e, sem ela, o retorno ao comunismo não é possível.

O estabelecimento na Rússia de uma democracia plena e de uma economia de livre mercado, com tudo que as acompanha, embora não seja impossível, é improvável pelos motivos já expostos: a cultura política do país não comporta esse tipo de regime. Serão necessárias pelo menos duas ou três gerações para que se produza uma maioria que não considere a Rússia um caso único e o Ocidente um inimigo.

Resta, portanto, a perspectiva de uma Rússia que vai apanhar muito tempo para chegar a um regime de quase democracia e de pseudocapitalismo. Esse me parece o cenário mais provável e aquele com que o resto do mundo pode conviver. Apesar de todos os fracassos em cumprir as exigências da democracia, a Rússia mudou muito em dez anos. Existe agora um sistema multipartidário e realizam-se eleições para o Legislativo e o Executivo. O grosso da riqueza da nação está com os cidadãos: mais de três quartos do PIB russo vêm hoje do setor privado. Há liberdade de expressão, liberdade de imprensa, liberdade para viajar. O Judiciário adquire aos poucos certo grau de independência. É verdade que essas conquistas têm existência precária, mas, ainda assim, o país avançou muito, desde a época em que o governo nomeava todos os dirigentes, desconsiderava todos os procedimentos legais e impunha um monopólio sobre a opinião pública.

Um bom exemplo da mudança que ocorreu na última década é a reação ao recente desastre do submarino Kursk. Os militares, na tradição de que tudo o que estava relacionado com suas atividades era segredo de Estado, fizeram inicialmente silêncio sobre o afundamento do submarino e, depois, mentiram sobre o acontecido. O presidente Putin, criado na mesma tradição, não pensou em interromper suas férias à beira do Mar Negro. Dez anos atrás eles poderiam sair ilesos. Desta vez a onda de indignação pública que varreu o país foi tão forte que obrigou Putin e seus almirantes a admitir a verdade e concordar em pedir ajuda externa para as operações de resgate. Foi um incidente em que a velha e a nova mentalidade colidiram, e a nova ganhou: está estabelecido que o governo responde por seus atos.

A maior ameaça ao progresso da democracia na Rússia vem do nacionalismo e da aspiração ao status de grande potência. A segunda campanha da Chechênia revelou como é fácil arregimentar o povo russo apelando à xenofobia e ao chauvinismo. A política interna divide a população, mas as ameaças externas, reais ou imaginárias, unem o país, e, portanto, há uma grande tentação de brandir inimigos de fora.

Isso é perigoso por dois motivos. Primeiro, dá às autoridades uma desculpa para silenciar dissidentes. Há pouco tempo, o porta-voz de Putin para assuntos chechênios afirmou – fazendo clara referência à Media-Most, empresa de comunicações que criticou a campanha militar em seus jornais, rádios e tevês – que, quando o governo empreende uma missão, é dever dos cidadãos apoiá-lo. Esse raciocínio justificou a invasão da sede da empresa, as tentativas de assumir seu controle e a prisão de seu dono. Um governo que defronta com descontentamentos é fortemente tentado a levantar um fantasma de perigo externo com que silenciar a oposição.

O segundo motivo por que o nacionalismo representa um perigo para a Rússia é desviá-la da tarefa mais urgente, a de erigir uma sociedade fundada na lei e construir uma economia moderna. A fantasia russa de grande potência deriva, em larga medida, do feito psicológico de que a Rússia tem um território imenso – é o maior país do mundo. Não importa que grande parte desse território seja inabitada e inabitável: o mapa parece mostrar a Rússia dominando o globo. Porém, no mundo moderno, não é o tamanho que determina a condição de grande potência, mas a estabilidade interna e a produtividade da economia. Até agora a Rússia não tem nem uma nem outra. Suas tentativas patéticas de reivindicar essa posição, ameaçando fazer uma "aliança estratégica" com a China, ou tentando competir na corrida espacial, ou ainda construindo um par de submarinos muito avançados, apenas sublinham quão destituído de poder mundial está o país. Seu PIB é menor que a capitalização de uma única grande empresa americana, como a Wal-Mart. A expectativa de vida do povo equivale à de um país atrasado do Terceiro Mundo: morrem mais russos por ano do que nascem. A infra-estrutura nacional está desmoronando.

Esses são os problemas que a Rússia deve enfrentar. Eles exigem que o país concentre atenção e todas as energias dentro de suas fronteiras, sem se envolver na política dos Bálcãs ou fingir de ator importante no Oriente Médio. Há alguns indícios de que Putin e os funcionários a sua volta, apesar de todas as limitações intelectuais decorrentes de seu treinamento soviético, começam a entender isso. O fato enseja alguma modesta esperança.

 

Conclusão

Com base nas constatações que apresenta, o historiador Richard Pipes arrisca-se a fazer o que considera algumas previsões plausíveis para a Rússia. Ele se estende sobre o que é possível, o que é provável, o que considera improvável e até impossível de ocorrer no país de Vladimir Putin nos próximos anos. Ele sustenta que a Rússia vai encontrar seu ponto de equilíbrio num espectro em que são altamente improváveis tanto a volta do comunismo quanto a adesão do país à economia de mercado plena, sob a égide da democracia.

 

 
   
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