Talvez saibam
Apesar
das dificuldades geradas pela crise financeira do final de 1997,
a maioria dos asiáticos continua otimista com o futuro. Esse
otimismo é bom. Contudo, talvez seja útil uma pequena
lição de história sobre a experiência
dos europeus de exatamente um século atrás, quando
a Europa exalava otimismo. Em seu livro Out of Control, Zbigniew
Brzezinski descreve o mundo naquele momento:
"O
século XX nasceu em berço de esperança. Seu
alvor se deu num cenário relativamente benigno. As principais
potências do mundo viviam, em termos, um período relativamente
prolongado de paz. (...) No dia 1º de janeiro de 1900, o clima
nas grandes capitais era de otimismo. A estrutura do poder global
parecia estável. Os impérios existentes, cada vez
mais esclarecidos e firmes".
Apesar dessas grandes esperanças, o século XX foi,
nas palavras de Brzezinski:
"(...)
o século mais sangrento e cheio de ódio da humanidade,
século de política alucinante e matanças monstruosas.
Instituiu-se a crueldade num grau sem precedentes, organizou-se
a morte para produção em massa. O contraste entre
o potencial científico para o bem e o mal político
que na realidade se desencadeou é medonho. Jamais o morticínio
foi tão global, jamais consumiu tantas vidas, jamais a destruição
humana se empreendeu com tal concentração de esforços,
em nome de objetivos tão horrendamente irracionais".
Uma das perguntas mais importantes que os asiáticos precisam
fazer-se hoje é bem simples: exceto o Japão (membro
aceito do clube ocidental), existe país asiático com
absoluta confiança de que terá o mesmo sucesso, em
sentido amplo, que as sociedades avançadas contemporâneas
da América do Norte e da Europa? Se a resposta for "nenhum"
ou mesmo "poucos", os argumentos a favor do "talvez" ficam mais
fortes.
Ainda há muitos desafios que as sociedades asiáticas
precisam vencer para chegar ao nível de progresso das ocidentais.
O primeiro problema do desenvolvimento de qualquer sociedade é
econômico. Até meados de 1997, a maioria dos países
da Ásia oriental acreditava ter dominado as regras econômicas
modernas. Liberalizaram a economia, estimularam o investimento externo
e praticaram políticas fiscais estritas. O alto nível
de poupança interna dava-lhes um eficiente amortecedor. Depois
de taxas de crescimento de 7% ou mais ao ano, durante décadas,
era natural que Coréia do Sul, Tailândia, Indonésia
e Malásia acreditassem ter descoberto o elixir mágico
do desenvolvimento econômico.
O
que se seguiu à desvalorização do baht tailandês,
em 2 de julho de 1997, mostrou que não. O notável
dessa crise financeira é que nenhum economista previu sua
profundidade e escala. Os analistas, até hoje, não
chegaram a um acordo sobre suas causas. Como ela ainda repercute
no momento em que escrevo, é cedo para um julgamento definitivo
sobre os motivos. Mas valem alguns palpites.
Na frente econômica, cometeram-se muitos erros. Na Tailândia,
por exemplo, a decisão de manter taxas de câmbio fixas,
apesar da disparidade das taxas de juro, permitiu que os empresários
tailandeses tomassem emprestado dólares americanos baratos
e ganhassem com os juros altos em baht. Isso também levou
a sobreinvestimentos na Tailândia, em propriedades e no mercado
de ações. Tudo claramente insustentável. O
FMI fez algumas advertências discretas. Porém, as coalizões
governamentais relativamente fracas de então foram incapazes
de administrar o remédio amargo exigido pela situação,
pois uma parte do remédio teria de ser tomada por seus financiadores.
No setor interno, uma combinação de fatores políticos
e econômicos precipitou e prolongou a crise financeira.
Houve também um imenso complicador novo na história:
a força da globalização. A lição
essencial para todos os gestores da economia asiática na
crise de 1997-1998 é que respondem não só ao
público interno, mas também aos mercados financeiros
mundiais e seus principais agentes. Os asiáticos não
deveriam surpreender-se, pois essa é a conseqüência
lógica da liberalização e da adesão
à economia global. A integração trouxe tanto
benefícios (em aumento significativo do padrão de
vida) quanto custos (como perda de autonomia na gerência da
economia nacional). Mas houve relutância em reconhecer e admitir
a perda de autonomia, claramente demonstrada pela negação
que caracterizou a reação inicial à crise.
A negação dos fatos deixou evidente a desatualização
psicológica das mentes asiáticas para enfrentar a
nova realidade.
É
significativo que as duas economias asiáticas que mais plenamente
sorveram (depois de acessos iniciais de recusa) o remédio
amargo ministrado pelo FMI foram as duas sociedades que progrediram
com mais rapidez no desenvolvimento de uma classe média integrada
à visão de mundo da nova interconexão universal
da economia moderna. A Coréia do Sul e a Tailândia,
embora continuem a enfrentar graves desafios econômicos, demonstraram
claramente que sua elite está bem ligada às novas
redes financeiras. O ministro das Finanças da Tailândia
move-se e conversa com facilidade em qualquer capital financeira.
Seu desempenho indica que está nascendo uma nova mentalidade
asiática globalizada.
A
crise de 1997-1998 demonstrou também a sabedoria dos chineses,
que escrevem a palavra "crise" com a combinação de
dois ideogramas, "perigo" e "oportunidade". É óbvio
que as sociedades da Ásia oriental já passaram por
muitos momentos perigosos, mas, se conseguirem sair com sistemas
econômicos e administrativos revigorados, estarão talvez
entre as primeiras do mundo a criar potentes sistemas imunológicos
contra os desafios presentes e futuros decorrentes da globalização.
É cedo para ter certeza. De qualquer forma, isso reforça
o argumento de que, na frente econômica, a resposta "talvez"
é a mais apropriada.
Em
segundo lugar, na frente política, a maioria das sociedades
asiáticas tem um longo caminho a percorrer até os
níveis ocidentais de estabilidade e harmonia. Há pouco
perigo de golpe de Estado ou de guerra civil em grande parte dos
países ocidentais contemporâneos (com a possível
exceção, ainda, da Irlanda do Norte). Eles adotam
variações políticas do modelo democrático
liberal, embora os sistemas presidencialistas dos Estados Unidos
e da França apresentem diferenças significativas em
relação ao modelo "westminster" da Inglaterra, do
Canadá e da Austrália. Essas formas políticas
não são perfeitas. Contêm muitos travos que
impedem o progresso social, desde o lobby dos grupos de interesses
poderosos até a política clientelista e eleitoreira.
Seria possível dizer que, na maioria das sociedades ocidentais,
o desenvolvimento político está atrofiado. Mas atrofiou-se
em níveis confortáveis. Grande parcela dos cidadãos
vive em segurança, não teme a opressão e está
satisfeita com sua estrutura política. Quantas sociedades
asiáticas podem vangloriar-se disso? A resposta é,
obviamente, muito poucas. E, se é igualmente claro que não
terão essas condições em futuro próximo,
temos mais um argumento a favor do "talvez".
Em terceiro lugar, no domínio da segurança, a grande
vantagem das sociedades ocidentais sobre o resto do mundo é
que a guerra entre elas se tornou coisa do passado. As razões
são complexas. Entre elas, a consciência da afinidade
étnica entre as tribos ocidentais que se vêem inferiorizadas
numericamente diante do resto da população mundial,
bem como o sentimento de pertencerem a uma civilização
comum. Também é possível que estejam exaustas
de tantas guerras no passado. De qualquer forma, é de fato
impressionante, quando contamos o número de guerras
e guerras das boas que ingleses, franceses e alemães
travaram entre si (inclusive duas no século XX), que sejam
quase nulos os riscos de conflito armado entre a Inglaterra, a França
e a Alemanha. Coisa notavelmente civilizada, um considerável
passo à frente na História da humanidade. Quando chegarão
a essa perspectiva zero de guerra a Índia e o Paquistão,
as Coréias do Norte e do Sul? Se a resposta não é
no futuro próximo, acaso seria estranhável insinuar
que talvez as mentes asiáticas (ou a mentalidade das sociedades
asiáticas) não alcançaram o nível das
ocidentais?
Em quarto lugar, os asiáticos enfrentam graves problemas
no campo social. Embora seja verdade que os deslocamentos sociais
causados pela revolução industrial foram necessários
para erradicar os traços feudais das culturas européias
(a liberdade social veio depois da liberdade econômica), ainda
não está claro se revoluções econômicas
semelhantes, na Ásia oriental, terão os mesmos efeitos
sociais liberadores. Infelizmente, muitos traços feudais,
especialmente o espírito de clã e o nepotismo, continuam
a impedir que as sociedades asiáticas sejam verdadeiramente
meritocráticas, nas quais o cidadão possa crescer
e prosperar graças a sua capacidade e não com base
no nascimento, nas conexões ou na etnia.
Por fim talvez seja o ponto fundamental , a questão-chave
é se as mentes asiáticas serão capazes de inventar
a mistura certa de valores que preserve algumas qualidades tradicionais
da Ásia (por exemplo, vinculação à família
como instituição, deferência para com os interesses
sociais, parcimônia, conservadorismo nos costumes, respeito
pela autoridade) e, ao mesmo tempo, incorpore a força de
valores ocidentais (destaque na realização individual,
liberdade política e econômica, respeito à lei
e às grandes instituições nacionais). Problema
dificílimo.
Uma das primeiras (talvez inevitáveis) reações
de observadores ocidentais da crise financeira de 1997-1998 foi
achar que ela representava o fracasso dos valores asiáticos.
Quando mais não seja, essa reação inicial indicou
que o debate dos "valores asiáticos", no começo da
década de 90, tocara algum ponto sensível na mente
e na alma ocidental. O desejo de enterrar os valores asiáticos
revelava a dor que o debate havia causado.
O verdadeiro teste da viabilidade e da validade de valores não
se dá em teoria, mas na prática. Quem pretende estabelecer
uma relação de causa e efeito entre o compromisso
com valores asiáticos e o desastre financeiro tem um caso
de prova difícil; vejam-se as diferentes reações
diante da crise financeira. A Coréia do Sul e a Tailândia,
dois dos três países mais afetados pela crise (isto
é, aqueles que precisaram buscar ajuda do FMI), haviam recebido
as melhores notas dos ocidentais por suas medidas no sentido da
democratização. As três economias abertas menos
afetadas pela crise, Taiwan, Hong Kong e Cingapura, possuem sistemas
políticos muito diferentes. Em suma, não houve correlação
clara entre sistemas políticos e vulnerabilidade financeira.
A única simetria que ficou clara até agora é
entre governança boa e poder de recuperação
na crise financeira. A boa governança não se associa
a nenhum sistema político ou ideologia em particular, mas
à vontade e capacidade do governo de desenvolver sistemas
econômico, social e administrativo com suficiente elasticidade
para dar conta dos desafios da nova era econômica em que estamos
entrando. A China é bom exemplo vivo disso. Seus chefes não
procuram o sistema político perfeito na teoria. Tentam diuturnamente
soluções pragmáticas para manter a sociedade
em progresso. O povo apóia esse pragmatismo, pois sente que
chegou a hora da China. Tradicionalmente, os chineses buscam bom
governo, não um governo mínimo. Reconhecem boa governação
quando a vêem. O fato de o Japão aos olhos ocidentais,
o país mais liberal e democrático do Extremo Oriente
ter grandes dificuldades em se adaptar ao novo ambiente econômico
demonstra que a abertura política não é a variável-chave
desse processo.
É
bom que as mentes ocidentais compreendam que o esforço dos
asiáticos para redescobrir seus valores não é
apenas uma busca de valores políticos. Antes, representa
um complexo de motivos e aspirações nas mentes asiáticas:
desejo de religar-se ao passado histórico, depois que essa
conexão foi interrompida pelo colonialismo e pela subseqüente
dominação do globo pela Weltanschauung ocidental;
tentativa de encontrar o ponto certo na educação dos
jovens, a fim de que eles se abram ao novo universo tecnologicamente
interligado, mas permaneçam fiéis às raízes
e conscientes das culturas de seus ancestrais; esforço para
definir sua identidade pessoal, social e nacional, de uma forma
que realce a auto-estima em um mundo no qual seus antepassados imediatos
aceitaram, no subconsciente, que eram seres inferiores em um universo
ocidental. Em suma, a reafirmação dos valores asiáticos
neste início de século representa um processo difícil
de regeneração e redescoberta, feição
inevitável no renascimento de sociedades.
É
cedo para dizer se as sociedades asiáticas conseguem integrar-se
ao mundo moderno e religar-se com seu passado. São desafios
colossais. Os ocidentais levam clara vantagem sobre os asiáticos,
pois estão convencidos de que o sucesso de seu salto para
a modernidade foi, em boa parte, resultado da compatibilidade de
seus sistemas de valores com o universo moderno. Com efeito, muitas
mentes ocidentais crêem (consciente ou inconscientemente)
que sem esse sistema de valores ocidentais nenhuma sociedade pode
entrar realmente nesse universo.
O tempo dirá se as sociedades asiáticas entram no
universo moderno como sociedades asiáticas, e não
como réplicas das ocidentais. Uma vez que é cedo demais
para julgar o sucesso dessa tentativa, talvez seja justo achar que
este é também um argumento a favor do "talvez" na
resposta à pergunta "os asiáticos sabem pensar?".
Está claro que o século XXI e o novo milênio
apresentam muitos desafios às sociedades asiáticas.
Pela maior parte dos últimos cinqüenta anos, estas ficaram
para trás das sociedades européias de muitas maneiras.
Agora há um forte desejo de alcançá-las. A
resposta certa à pergunta se os asiáticos sabem pensar
será obtida se elas o conseguirem. Até lá,
os asiáticos farão um grande favor a si mesmos se
não esquecerem que a pergunta continua. E que só eles
podem responder a ela. Ninguém mais.
O
século XXI e o novo milênio apresentam obviamente muitos
desafios para as sociedades asiáticas. Durante a maior parte
dos últimos cinqüenta anos, elas ficaram para trás
das sociedades européias de muitas maneiras. Há um
forte desejo de alcançá-las. A resposta verdadeira
à questão de se os asiáticos são capazes
de pensar será dada se elas conseguirem seu intento. Até
então, os asiáticos farão um grande favor a
si mesmos se não esquecerem por que essa questão continua
válida. E somente eles podem respondê-la. Ninguém
mais pode.
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