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edição 1 681 . 27 de dezembro de 2000  
Kishore Mahbubani  
   


Talvez saibam

Apesar das dificuldades geradas pela crise financeira do final de 1997, a maioria dos asiáticos continua otimista com o futuro. Esse otimismo é bom. Contudo, talvez seja útil uma pequena lição de história sobre a experiência dos europeus de exatamente um século atrás, quando a Europa exalava otimismo. Em seu livro Out of Control, Zbigniew Brzezinski descreve o mundo naquele momento:

"O século XX nasceu em berço de esperança. Seu alvor se deu num cenário relativamente benigno. As principais potências do mundo viviam, em termos, um período relativamente prolongado de paz. (...) No dia 1º de janeiro de 1900, o clima nas grandes capitais era de otimismo. A estrutura do poder global parecia estável. Os impérios existentes, cada vez mais esclarecidos e firmes".

Apesar dessas grandes esperanças, o século XX foi, nas palavras de Brzezinski:

"(...) o século mais sangrento e cheio de ódio da humanidade, século de política alucinante e matanças monstruosas. Instituiu-se a crueldade num grau sem precedentes, organizou-se a morte para produção em massa. O contraste entre o potencial científico para o bem e o mal político que na realidade se desencadeou é medonho. Jamais o morticínio foi tão global, jamais consumiu tantas vidas, jamais a destruição humana se empreendeu com tal concentração de esforços, em nome de objetivos tão horrendamente irracionais".

Uma das perguntas mais importantes que os asiáticos precisam fazer-se hoje é bem simples: exceto o Japão (membro aceito do clube ocidental), existe país asiático com absoluta confiança de que terá o mesmo sucesso, em sentido amplo, que as sociedades avançadas contemporâneas da América do Norte e da Europa? Se a resposta for "nenhum" ou mesmo "poucos", os argumentos a favor do "talvez" ficam mais fortes.

Ainda há muitos desafios que as sociedades asiáticas precisam vencer para chegar ao nível de progresso das ocidentais. O primeiro problema do desenvolvimento de qualquer sociedade é econômico. Até meados de 1997, a maioria dos países da Ásia oriental acreditava ter dominado as regras econômicas modernas. Liberalizaram a economia, estimularam o investimento externo e praticaram políticas fiscais estritas. O alto nível de poupança interna dava-lhes um eficiente amortecedor. Depois de taxas de crescimento de 7% ou mais ao ano, durante décadas, era natural que Coréia do Sul, Tailândia, Indonésia e Malásia acreditassem ter descoberto o elixir mágico do desenvolvimento econômico.

O que se seguiu à desvalorização do baht tailandês, em 2 de julho de 1997, mostrou que não. O notável dessa crise financeira é que nenhum economista previu sua profundidade e escala. Os analistas, até hoje, não chegaram a um acordo sobre suas causas. Como ela ainda repercute no momento em que escrevo, é cedo para um julgamento definitivo sobre os motivos. Mas valem alguns palpites.

Na frente econômica, cometeram-se muitos erros. Na Tailândia, por exemplo, a decisão de manter taxas de câmbio fixas, apesar da disparidade das taxas de juro, permitiu que os empresários tailandeses tomassem emprestado dólares americanos baratos e ganhassem com os juros altos em baht. Isso também levou a sobreinvestimentos na Tailândia, em propriedades e no mercado de ações. Tudo claramente insustentável. O FMI fez algumas advertências discretas. Porém, as coalizões governamentais relativamente fracas de então foram incapazes de administrar o remédio amargo exigido pela situação, pois uma parte do remédio teria de ser tomada por seus financiadores. No setor interno, uma combinação de fatores políticos e econômicos precipitou e prolongou a crise financeira.

Houve também um imenso complicador novo na história: a força da globalização. A lição essencial para todos os gestores da economia asiática na crise de 1997-1998 é que respondem não só ao público interno, mas também aos mercados financeiros mundiais e seus principais agentes. Os asiáticos não deveriam surpreender-se, pois essa é a conseqüência lógica da liberalização e da adesão à economia global. A integração trouxe tanto benefícios (em aumento significativo do padrão de vida) quanto custos (como perda de autonomia na gerência da economia nacional). Mas houve relutância em reconhecer e admitir a perda de autonomia, claramente demonstrada pela negação que caracterizou a reação inicial à crise. A negação dos fatos deixou evidente a desatualização psicológica das mentes asiáticas para enfrentar a nova realidade.

É significativo que as duas economias asiáticas que mais plenamente sorveram (depois de acessos iniciais de recusa) o remédio amargo ministrado pelo FMI foram as duas sociedades que progrediram com mais rapidez no desenvolvimento de uma classe média integrada à visão de mundo da nova interconexão universal da economia moderna. A Coréia do Sul e a Tailândia, embora continuem a enfrentar graves desafios econômicos, demonstraram claramente que sua elite está bem ligada às novas redes financeiras. O ministro das Finanças da Tailândia move-se e conversa com facilidade em qualquer capital financeira. Seu desempenho indica que está nascendo uma nova mentalidade asiática globalizada.

A crise de 1997-1998 demonstrou também a sabedoria dos chineses, que escrevem a palavra "crise" com a combinação de dois ideogramas, "perigo" e "oportunidade". É óbvio que as sociedades da Ásia oriental já passaram por muitos momentos perigosos, mas, se conseguirem sair com sistemas econômicos e administrativos revigorados, estarão talvez entre as primeiras do mundo a criar potentes sistemas imunológicos contra os desafios presentes e futuros decorrentes da globalização. É cedo para ter certeza. De qualquer forma, isso reforça o argumento de que, na frente econômica, a resposta "talvez" é a mais apropriada.

Em segundo lugar, na frente política, a maioria das sociedades asiáticas tem um longo caminho a percorrer até os níveis ocidentais de estabilidade e harmonia. Há pouco perigo de golpe de Estado ou de guerra civil em grande parte dos países ocidentais contemporâneos (com a possível exceção, ainda, da Irlanda do Norte). Eles adotam variações políticas do modelo democrático liberal, embora os sistemas presidencialistas dos Estados Unidos e da França apresentem diferenças significativas em relação ao modelo "westminster" da Inglaterra, do Canadá e da Austrália. Essas formas políticas não são perfeitas. Contêm muitos travos que impedem o progresso social, desde o lobby dos grupos de interesses poderosos até a política clientelista e eleitoreira. Seria possível dizer que, na maioria das sociedades ocidentais, o desenvolvimento político está atrofiado. Mas atrofiou-se em níveis confortáveis. Grande parcela dos cidadãos vive em segurança, não teme a opressão e está satisfeita com sua estrutura política. Quantas sociedades asiáticas podem vangloriar-se disso? A resposta é, obviamente, muito poucas. E, se é igualmente claro que não terão essas condições em futuro próximo, temos mais um argumento a favor do "talvez".

Em terceiro lugar, no domínio da segurança, a grande vantagem das sociedades ocidentais sobre o resto do mundo é que a guerra entre elas se tornou coisa do passado. As razões são complexas. Entre elas, a consciência da afinidade étnica entre as tribos ocidentais que se vêem inferiorizadas numericamente diante do resto da população mundial, bem como o sentimento de pertencerem a uma civilização comum. Também é possível que estejam exaustas de tantas guerras no passado. De qualquer forma, é de fato impressionante, quando contamos o número de guerras – e guerras das boas – que ingleses, franceses e alemães travaram entre si (inclusive duas no século XX), que sejam quase nulos os riscos de conflito armado entre a Inglaterra, a França e a Alemanha. Coisa notavelmente civilizada, um considerável passo à frente na História da humanidade. Quando chegarão a essa perspectiva zero de guerra a Índia e o Paquistão, as Coréias do Norte e do Sul? Se a resposta não é no futuro próximo, acaso seria estranhável insinuar que talvez as mentes asiáticas (ou a mentalidade das sociedades asiáticas) não alcançaram o nível das ocidentais?

Em quarto lugar, os asiáticos enfrentam graves problemas no campo social. Embora seja verdade que os deslocamentos sociais causados pela revolução industrial foram necessários para erradicar os traços feudais das culturas européias (a liberdade social veio depois da liberdade econômica), ainda não está claro se revoluções econômicas semelhantes, na Ásia oriental, terão os mesmos efeitos sociais liberadores. Infelizmente, muitos traços feudais, especialmente o espírito de clã e o nepotismo, continuam a impedir que as sociedades asiáticas sejam verdadeiramente meritocráticas, nas quais o cidadão possa crescer e prosperar graças a sua capacidade e não com base no nascimento, nas conexões ou na etnia.

Por fim – talvez seja o ponto fundamental –, a questão-chave é se as mentes asiáticas serão capazes de inventar a mistura certa de valores que preserve algumas qualidades tradicionais da Ásia (por exemplo, vinculação à família como instituição, deferência para com os interesses sociais, parcimônia, conservadorismo nos costumes, respeito pela autoridade) e, ao mesmo tempo, incorpore a força de valores ocidentais (destaque na realização individual, liberdade política e econômica, respeito à lei e às grandes instituições nacionais). Problema dificílimo.

Uma das primeiras (talvez inevitáveis) reações de observadores ocidentais da crise financeira de 1997-1998 foi achar que ela representava o fracasso dos valores asiáticos. Quando mais não seja, essa reação inicial indicou que o debate dos "valores asiáticos", no começo da década de 90, tocara algum ponto sensível na mente e na alma ocidental. O desejo de enterrar os valores asiáticos revelava a dor que o debate havia causado.

O verdadeiro teste da viabilidade e da validade de valores não se dá em teoria, mas na prática. Quem pretende estabelecer uma relação de causa e efeito entre o compromisso com valores asiáticos e o desastre financeiro tem um caso de prova difícil; vejam-se as diferentes reações diante da crise financeira. A Coréia do Sul e a Tailândia, dois dos três países mais afetados pela crise (isto é, aqueles que precisaram buscar ajuda do FMI), haviam recebido as melhores notas dos ocidentais por suas medidas no sentido da democratização. As três economias abertas menos afetadas pela crise, Taiwan, Hong Kong e Cingapura, possuem sistemas políticos muito diferentes. Em suma, não houve correlação clara entre sistemas políticos e vulnerabilidade financeira.

A única simetria que ficou clara até agora é entre governança boa e poder de recuperação na crise financeira. A boa governança não se associa a nenhum sistema político ou ideologia em particular, mas à vontade e capacidade do governo de desenvolver sistemas econômico, social e administrativo com suficiente elasticidade para dar conta dos desafios da nova era econômica em que estamos entrando. A China é bom exemplo vivo disso. Seus chefes não procuram o sistema político perfeito na teoria. Tentam diuturnamente soluções pragmáticas para manter a sociedade em progresso. O povo apóia esse pragmatismo, pois sente que chegou a hora da China. Tradicionalmente, os chineses buscam bom governo, não um governo mínimo. Reconhecem boa governação quando a vêem. O fato de o Japão – aos olhos ocidentais, o país mais liberal e democrático do Extremo Oriente – ter grandes dificuldades em se adaptar ao novo ambiente econômico demonstra que a abertura política não é a variável-chave desse processo.

É bom que as mentes ocidentais compreendam que o esforço dos asiáticos para redescobrir seus valores não é apenas uma busca de valores políticos. Antes, representa um complexo de motivos e aspirações nas mentes asiáticas: desejo de religar-se ao passado histórico, depois que essa conexão foi interrompida pelo colonialismo e pela subseqüente dominação do globo pela Weltanschauung ocidental; tentativa de encontrar o ponto certo na educação dos jovens, a fim de que eles se abram ao novo universo tecnologicamente interligado, mas permaneçam fiéis às raízes e conscientes das culturas de seus ancestrais; esforço para definir sua identidade pessoal, social e nacional, de uma forma que realce a auto-estima em um mundo no qual seus antepassados imediatos aceitaram, no subconsciente, que eram seres inferiores em um universo ocidental. Em suma, a reafirmação dos valores asiáticos neste início de século representa um processo difícil de regeneração e redescoberta, feição inevitável no renascimento de sociedades.

É cedo para dizer se as sociedades asiáticas conseguem integrar-se ao mundo moderno e religar-se com seu passado. São desafios colossais. Os ocidentais levam clara vantagem sobre os asiáticos, pois estão convencidos de que o sucesso de seu salto para a modernidade foi, em boa parte, resultado da compatibilidade de seus sistemas de valores com o universo moderno. Com efeito, muitas mentes ocidentais crêem (consciente ou inconscientemente) que sem esse sistema de valores ocidentais nenhuma sociedade pode entrar realmente nesse universo.

O tempo dirá se as sociedades asiáticas entram no universo moderno como sociedades asiáticas, e não como réplicas das ocidentais. Uma vez que é cedo demais para julgar o sucesso dessa tentativa, talvez seja justo achar que este é também um argumento a favor do "talvez" na resposta à pergunta "os asiáticos sabem pensar?".

Está claro que o século XXI e o novo milênio apresentam muitos desafios às sociedades asiáticas. Pela maior parte dos últimos cinqüenta anos, estas ficaram para trás das sociedades européias de muitas maneiras. Agora há um forte desejo de alcançá-las. A resposta certa à pergunta se os asiáticos sabem pensar será obtida se elas o conseguirem. Até lá, os asiáticos farão um grande favor a si mesmos se não esquecerem que a pergunta continua. E que só eles podem responder a ela. Ninguém mais.

Conclusão

O século XXI e o novo milênio apresentam obviamente muitos desafios para as sociedades asiáticas. Durante a maior parte dos últimos cinqüenta anos, elas ficaram para trás das sociedades européias de muitas maneiras. Há um forte desejo de alcançá-las. A resposta verdadeira à questão de se os asiáticos são capazes de pensar será dada se elas conseguirem seu intento. Até então, os asiáticos farão um grande favor a si mesmos se não esquecerem por que essa questão continua válida. E somente eles podem respondê-la. Ninguém mais pode.

 
   
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